Nos últimos anos, a cultura maker deu as caras como uma inovação no contexto da educação brasileira. Um produto a ser vendido e apresentado como a nova forma de educar nas escolas, principalmente na classe média alta da população brasileira.

Isso se deu, em partes, com os avanços da Indústria 4.0 e o surgimento da fabricação digital, além da aplicação da robótica e da programação como membros do ciclo da educação básica, em escolas particulares pelo menos.

A partir disso surge a metodologia maker de ensino, uma forma de ensinar crianças a serem makers com objetos e projetos de natureza tecnológica e “inovadora”.

A metodologia maker é muito simples: são propostas, muitas vezes, ideias de projetos semi prontos aos alunos. Esses alunos devem montar esse projetos ou coisas e executar uma ação antes de desenvolver uma teoria acerca dessa ideia ou antes mesmo de entender o funcionamento e a mecânica por trás da ideia. Mas claro, como todo bom fruto do capitalismo, esse produto se encontra à disposição apenas de quem pode pagar por ele.

Em sua maior parte, os projetos tendem a introduzir as áreas da robótica e da tecnologia da informação, com uma pequena parte de criação, o que pode gerar confusão a muitas crianças e frustração também.

Bom, o que posso dizer nesse contexto todo é: ser maker não é uma ideia à venda.

Ser maker sempre existiu, podemos chamar de curiosidade e vontade de criar. Ser maker é ser curioso. É olhar para a janela do carro quando se é criança e querer entender por que os prédios e as casas estão se mexendo, quando nós parecemos estar parados. É querer entender como a energia elétrica que vem do poste pode acender a lâmpada de casa. Ou até mesmo como as plantas crescem e germinam. Ser maker é querer aprender, independentemente do que seja. É querer executar, seja uma pintura num papel ou criar um brinquedo novo. É imaginar, seja um desenho nas nuvens ou uma gambiarra que pode solucionar um problema. Ser maker é ser criativo, proativo, querer aprender, desenvolver, executar e imaginar.

Podemos chamar o maker então de criativo. Aquele que cria, que imagina, que tenta ou que faz.

Mas o debate que proponho não é em si o uso do termo maker e nossa cultura do uso de termos em inglês, tão pouco o foco voltado para a tecnologia nesse modelo de ensino que se tornou moda entre as instituições particulares de ensino.

Executar essa moda maker nas escolas com o uso de máquinas ferramentas de fabricação digital, que de fato são ferramentas úteis para criação, robótica e programação pode tirar o foco das crianças e da valorização de coisas simples como criar brinquedos com recicláveis ou desenvolver projetos com outros enfoques mais artísticos ou de caráter artesanal, por exemplo. Acho que criar pode se dar como algo muito mais denso, não só a criação a partir da fabricação digital ou de códigos de programação. Ao pé da letra, criar coisas e não executar coisas semi prontas ou de um único segmento.

Criar uma boneca de pano ou utilizar recortes para formar uma imagem podem ser consideradas atividades maker, afinal de contas é criar também.

Se pode ser maker com muito pouco e a criação vem a partir da imaginação, que deveria ser a função cerebral mais explorada nas aulas makers. Essas aulas, além de elitistas, são totalmente gourmetizadas, pois impedem que a criança enxergue a possibilidade de criar em coisas simples como um pote de danone vazio ou uma corda sem uso em casa. Além disso, a ideia dessa aula pode desvalorizar os diversos tipos de inteligência se não a acadêmica caso ainda seja cobrada uma nota dentro desse conteúdo.

Claro, se aprofundar em conhecimentos de engenharia, tecnologia e afins é extremamente útil e interessante, mas não deve ser o principal foco para esse tipo de atividade com crianças.

Maker é algo diretamente entrelaçado com o STEAM, Science, Technology, Engineer, Art and Mathematics, por isso mesmo deveria ser algo realizado pensando em todas essas áreas que se completam. Infelizmente não é isso que acontece na maior parte do tempo.

A arte muitas vezes é esquecida nesse cenário, é deixada um pouco de lado, algo que não poderia acontecer. É por meio dela, muitas vezes, que expressamos nossos sentimentos e nossa função cerebral de imaginar. A arte é a ciência da criação e muitas vezes é tratada como algo alheio ao contexto maker.

Não valorizamos muitas coisas dentro do contexto artístico que também desempenham papel na cultura maker, e essa é a nossa problemática.

A cultura maker é vendida por muitos como algo fechado a um segmento em específico que na verdade distorce a visão daqueles que são submetidos a essa metodologia, as crianças em sua maioria, que passam a não valorizar muitas vezes os outros segmentos ou nem se quer tendem a explorarem mais os campos do meio artístico.

Existem diversas vantagens se tivermos uma cultura maker dentro de escolas, públicas e particulares, mas que preze e incentive a criação e imaginação em todos os níveis e campos. Isso pode incentivar que as crianças se tornem mais proativas, produtivas e saudáveis psicologicamente. Porém, para isso, seria necessário primeiro uma desconstrução desse tipo de produto maker no mercado, que vende a ideia de ensinar através de algo que a criança não criou, mas sim executou.

De modo geral, é uma cultura que podemos ter dentro de nossas casas com as crianças, incentivando-os a olhar para tudo e tentar aprender mais. Até mesmo um pedaço de lixo pode se tornar algo criativo, e a imaginação existe de sobra nas crianças.

De fato, ser maker não é um produto à venda, mas na sociedade atual só não encontramos um segmento de mercado se você não quiser. O problema real da forma como isso está sendo vendido é que produz desigualdade para crianças que não têm acesso aos equipamentos e sistemas de educação como os que usam essa nova metodologia e desvalorização dos mais simples meios de se criar.

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