Antes mesmo de fechadas as urnas venezuelanas, o ex-presidente espanhol José Luis Zapatero, que compunha o corpo de mais de 300 observadores internacionais, fez um diagnóstico importante das implicações geopolíticas do pleito: “A União Europeia deve fazer uma reflexão profunda sobre o resultado da política de sanções”. Em sua opinião, a estratégia trumpista de estrangular economicamente a república bolivariana, impedir o acesso da população a insumos básicos (de remédios a gasolina) não se mostrou apenas ineficaz, como perdeu sua premissa básica de que a oposição interna está disposta a pagar qualquer preço pela queda do presidente Nicolás Maduro.

Depois de sofrer um revés nas Legislativas de 2015, a coligação chavista Grande Polo Patriótico varreu as urnas no pleito deste domingo (6) e restabeleceu maioria absoluta no Parlamento. Embora o número definitivo não tenha saído até o fechamento deste texto, com pouco mais de 80% das urnas apuradas, a base madurista obteve 67% das cadeiras, contra cerca de 18% da oposição. E, desta vez, o fracasso das forças anti-bolivarianas não pôde ser atribuído a boicote, já que, dos 108 partidos que apresentaram 14 mil candidatos, 97 eram de oposição. As únicas forças que se abstiveram ao pleito foram os representantes da extrema-direita.

Internamente, a esperança tácita do entreguismo era que as eleições fossem inviabilizadas pelo descontentamento popular. Ou seja, que uma insurreição impedisse o povo de ir às urnas. Diferentemente das presidenciais estadunidenses, em que a supressão eleitoral chegou a ser imposta a ponta de fuzil, a votação deste domingo transcorreu de forma pacífica, sem qualquer incidente. Não se pode dizer, no entanto, que a pressão antidemocrática, somada à crise da Covid-19 não tenha cobrado seu preço sobre as Legislativas. A taxa de participação ficou em pouco mais de 30% dos eleitores.

Ou seja, houve uma abstenção importante. Mas é preciso olhar para esse número a partir de uma leitura profunda do contexto da disputa: o governo revolucionário levou a sério as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) de implantar distanciamento físico, suspender atividades não-essenciais e evitar aglomerações durante a pandemia. As operações de testagem em massa começaram já em março, quando a pandemia apenas engatinhava neste lado do globo. A rede hoteleira foi redesignada para o isolamento de infectados, inclusos assintomáticos. O rigor científico no tratamento da pandemia valeu a pena: mesmo sob boicote e bloqueio econômico, a Revolução Bolivariana foi o governo mais competente da América do Sul no combate ao coronavírus, com taxa de 3,1 mortos por 100 mil habitantes. Marionete de Washington na região, a vizinha neoliberal Colômbia ostenta 76 mortes por 100 mil habitantes.

Assim, a população vem sendo orientada há meses a permanecer em casa; até porque qualquer saída implica aglomeração, dada a carência de produtos de primeira necessidade imposta pelo bloqueio econômico. Desde que os Estados Unidos cortaram o abastecimento de gasolina (apesar do petróleo cru ser virtualmente a única exportação e motor da economia venezuelana, a capacidade nacional de processamento é escassa), abastecer um carro em território venezuelano significa horas, quiçá dias, de fila. Apesar dos bons resultados na saúde pública, o nível de seriedade no tratamento da Covid-19 cobrou sua fatura, em parte expressa na abstenção.

Mas talvez ainda mais determinante para a decisão de 70% dos eleitores de permanecer em casa tenha sido o boicote internacional ao pleito. Na esteira da admnistração Trump, Canadá e União Europeia declararam não reconhecer o resultado das eleições antes mesmo dos venezuelanos irem às urnas. Para quem não acompanha a história imperial dessas nações, pode ser curioso que elas se recusem terminantemente a apoiar a via democrática na Venezuela. Mas vivemos num mundo em que o autoritarismo intrínseco da doutrina neoliberal não mais se esconde sob o manto da social-democracia. Exemplo disso é que 20 anos atrás, seria impensável que um país como a França, que sempre teve o cuidado de exercer sua violência descarada fora do hexágono, vivesse uma onda de protestos contra uma lei que criminaliza denúncias de abusos policiais.

Como se pode subentender da fala de Zapatero, diante do sucesso das eleições, as grandes potências globais abandonam completamente o discurso ideológico de defesa da democracia e se alinham a uma franja da política venezuelana que, no D6 (como foi apelidada a jornada eleitoral), só fez aprofundar sua já gritante irrelevância. A única voz interna a gritar “fraude” foi a do agora sem-cargo Juan Guaidó. Tendo optado pelo boicote expresso, o ex-deputado pelo estado de Vargas perdeu a cadeira legislativa, que era a única e fragilíssima carta institucional que sustentava sua autoproclamação à presidência. Reconhecido como chefe de Estado interino num malabarismo diplomático imposto por Washington à Organização dos Estados Americanos e à União Europeia, Guaidó amanhece nesta segunda-feira sem posição nenhuma dentro da política venezuelana e, consequentemente, global. Junto com ele, foi-se também todo o corpo legislativo que assumiu o poder em 2015, com um mandato expresso de servir a interesses estrangeiros, principalmente sobre o petróleo. Com o pleito de ontem, a Venezuela voltou a ter uma Assembleia Nacional, ao invés de um corpo legislativo que, obedecendo aos desígnios do império, empurrou o país para a maior crise econômica de sua história.

Dessa vez, mesmo a direita tradicional expressou seu compromisso com a manutenção da normalidade institucional no país, ao se fazer representar nas eleições pela Acción Democrática (AD) e pelo Comité de Organización Política Electoral Independiente (Copei). E com isso, os venezuelanos, unidos na diferença e no respeito à Constituição como exigem os preceitos democráticos, pediram ao mundo neste domingo a substituição da violência pelo diálogo; das sanções, pela cooperação; do golpe, pela democracia. Muito mais do que ao imperialismo, este grito de coesão na divergência impõe às esquerdas do mundo, independentemente de coloração ideológica, o reconhecimento amplo da democracia venezuelana.

Se antes já não havia, hoje não resta mais espaço algum para que se encare a Venezuela como um tabu. Perguntas como “você defende que exista democracia na Venezuela?”, que candidatos de esquerda às eleições municipais brasileiras cansaram de driblar, tornam-se um completo pleonasmo a partir desta segunda-feira. Mas entre a lógica e a narrativa, existe uma distância. Caberá a toda a esquerda, no Brasil inclusive, aprender a defender, sem titubear, o direito de autodeterminação do povo venezuelano. Porque a renovação do voto de confiança ao chavismo, validada pela oposição democrática local, impõe uma inescapável encruzilhada: quem não reconhece a vitalidade democrática venezuelana se alinha ao golpismo. O imperialismo declarou claramente sua posição. E nós, vamos seguir titubeando?

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