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Por Áurea Carolina

A expressão “renovação política” tem sido esvaziada de sentido. Ela foi capturada por setores que não se preocupam verdadeiramente com as transformações que se fazem urgentes em nosso país. Renovar a política não é apenas mudar as caras de quem está nos espaços de poder – é preciso uma mudança real de práticas. A política é o espaço da diferença, mas há um patamar ético que não pode ser negociado. Esse patamar é a justiça. Portanto, a democracia é incompatível com a violência, a desigualdade e a negação de direitos.

Somente com outras formas de fazer política conseguiremos alcançar justiça social e o fim da estrutura de privilégios que está posta hoje e que faz com que poucos controlem a riqueza e o poder que deveriam ser compartilhados coletivamente. Somente com essa mudança será possível falar em democracia real.

O Brasil presencia uma persistente degradação das suas já frágeis instituições democráticas. Políticas públicas que poderiam assegurar direitos fundamentais têm sido arruinadas em uma velocidade assustadora. A reforma da Previdência, a reforma trabalhista e a aprovação da Emenda Constitucional 95 – que limita os gastos em saúde e educação por 20 anos – são alguns exemplos do desmonte que tem piorado dia após dia as condições de vida da população, sobretudo das mulheres e das pessoas negras, seja no campo ou nos centros urbanos.

As consequências dessa política de exclusão, que é feita por engravatados que desprezam o bem comum, e cujos efeitos são sentidos pelas periferias desde sempre, cada vez mais tem atingido outros setores da sociedade. Ninguém vai ficar a salvo, pois não há paz social se a maioria está sofrendo. Impedir que essa política nociva avance é uma responsabilidade coletiva, mas também individual, e não pode ser transferida para um “outro” imaginário. O problema é de todas e de cada uma de nós. Não podemos acreditar na neutralidade – mais autoengano é impossível neste momento. Não há política neutra.

Por isso, precisamos sustentar construções democráticas que emerjam de baixo, que sejam feitas por quem mora nas quebradas, por quem pega busão, por mulheres e pessoas negras, pela comunidade LGBTIQ, pelos povos indígenas e quilombolas, pela população em situação de rua, por esses grupos que sempre foram excluídos do sistema político. Precisamos de mulheres nos espaços de poder que enfrentem o machismo, precisamos de pessoas negras que enfrentem o racismo. Precisamos de mulheres negras que enfrentem o machismo, o racismo, a transfobia, a pobreza e todas as formas de violência. A ação política precisa partir de um projeto coletivo que dê conta de conectar as lutas em uma perspectiva interseccional.

Dentro da movimentação MUITAS nos perguntamos sempre qual é a cidade, qual é o estado, qual é o país que nós queremos. Essa é uma indagação que nos move com muita sinceridade. Nós queremos que as pessoas não passem por situações de violência, que um jovem negro não seja abordado por ser considerado um suspeito em potencial, que as mulheres não sejam assediadas, que existam oportunidades de trabalho para todas, que os carros não tenham preferência em relação às pessoas, que o meio ambiente esteja integrado à vida, que exista respeito a todas as criaturas. Nós queremos um sistema político diverso, poroso, democrático e, para isso, precisamos ocupá-lo.

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