E se as luzes nos roubassem as estrelas
E nosso brilho só nos mostrasse
A silhueta do que poderíamos ser
(…)
Para clarear o meu tormento
Como flores nas encostas do cimento

Marcelo Yuka

Não é fácil traçar uma linha sobre qualquer grupo social religioso. É ainda mais difícil desenhar uma linha sobre um grupo sociorreligioso tão grande como os evangélicos, os quais nas últimas décadas cresceram e contabilizam 31% da população brasileira. Uma pesquisa dos estudos demográficos vem chamando a atenção dos analistas porque apontam que por volta de 2032, os protestantes-evangélicos devem se transformar no maior grupo religioso do Brasil. Esse dado vem causando certo alarme nos meios intelectuais, pois se tem a impressão de que essa parcela da população seja parte de uma nova formação talibã, ou seja, uma massa de religiosos dotados de pouco pensamento crítico e que obedecem como zumbis às lideranças religiosas persecutórias a pluralidade democrática.

Para problematizar essa descrição sobre o setor, produzida principalmente por setores das elites e/ou intelectuais, selecionei dois novos mandatos políticos de vereadores, que unem as experiências evangélicas e as pautas de crítica ao sistema capitalista. Antes de aprofundar este tema, farei uma breve recuperação histórica para ampliar a análise sobre a questão dos vínculos dos protestantes-evangélicos com os setores da esquerda, pois existe uma densa “operação de esquecimento, silenciamento” (Pollack) da memória do setor com os movimentos de questionamento da vida.

A operação de silenciamento das Revoltas Camponesas na origem dos evangélicos

Algumas correntes dos memorialistas entendem que as memórias coletivas são concebidas pelos sujeitos de forma aleatória, a partir dos sonhos, como uma apropriação psicologizante dos pensamentos sociais. Michael Pollack contraria tal concepção ao indicar que “os debates e as percepções das memórias fazem parte dos debates das lutas sociais, das intrigas das classes, podendo até causar uma longa operação de silenciamento tanto de memórias como de setores sociais” (1989, p.17). Assim, o silenciamento/esquecimento é uma operação complexa articuladora tanto do passado, quanto das lutas sociais que mobilizam e ocultam ideias e memorias na atualidade. Portanto, pode-se dizer que ainda hoje existe um processo de interdição de certas memórias sobre a origem dos protestantes-evangélicos. Os próprios analistas mais técnicos caem na artimanha montada pelos líderes (religiosos midiáticos) que se arrogam porta-vozes dessa religião, como o pastor Silas Malafaia e o bispo Edir Macedo.

Na verdade, é do interesse desse grupo hegemônico o silenciamento da memória inicial (e contínua) de protesto social dos evangélicos, que buscam, com isso, se notabilizar. Por isso, indico que o setor protestante-evangélico de hoje é muito mais complexo no Brasil que os gritos de Silas Malafaia buscam silenciar e os dízimos/ofertas pedidos por Edir Macedo e Valdomiro Santiago buscam extorquir.

Para tratar dessa complexidade, busco trazer à tona um movimento que foi devidamente “silenciado”, na origem: as Reformas Europeias, dos séculos XV e XVI. As Reformas foram encadeadas em várias geografias, de forma plural:  na Germânia levado pelo monge Martin Luther;  na Suíça liderado por Zwinglio; em Paris, por  João Calvino; O rei Henrique VIII, na Inglaterra. Todos esses movimentos, nas suas diferentes gradações, invariavelmente foram ligados ao poder, aos reis, às monarquias.

Contudo, existe uma reforma esquecida, que foi a mais perigosa, numerosa e justamente não ligada às elites: as Revoltas Camponesas. Na verdade, essas Revoltas foram um amplo movimento popular levado pelos trabalhadores do campo de todos os cantos da Europa. Naquela época, até trabalhadores que vinham da África e da Ásia se revoltaram contra o “Antigo Sistema Feudal” europeu. O movimento transpassou as geografias de toda Europa, do Leste para o Norte. As Revoltas Camponesas uniram variadas lideranças de diferentes regiões, tais como: Thomas Muntzer, Georg Blaurock, Conrad Grebel, Agatha Trezel, John Miliandick, e Félix Manz. Assim, uma grande rebelião camponesa varreu a Europa questionando a divisão das terras dos reinos, seus revoltosos experimentavam as experiências religiosas das glossolalias, não aceitavam a conexão das elites com o cristianismo, e por isso, se rebatizavam nos rios. Eles foram chamados de “anabatistas” – que numa tradução simples seria o “novo-batismo”.

As Revoltas questionaram a ordem europeia a partir das mazelas dos trabalhadores espoliados no continente. É claro que foram completamente massacrados pelos reis, contudo, se parte dos derrotados foram mortos, degolados, e a outra parte promoveu novas demografias, principalmente, no leste europeu. O que gostaria de destacar sobre as reformas camponesas é a amplitude do movimento, que foi numericamente o maior movimento das Reformas com alto caráter reivindicatório. Infelizmente, no entanto, as reformas camponesas foram propositadamente esquecidas. Essa “operação esquecimento” (Pollack, 1989) no Brasil é recorrentemente reafirmada pelas elites intelectuais (ligadas ao positivismo e ao elitismo acadêmico), que desacreditam o amplo movimento popular religioso do início da modernidade, bem como pelos próprios líderes das grandes corporações cristãs familiarizados com o poder, pois temem a memória perigosa dos camponeses. Então, existe um duplo interesse hegemônico na manutenção do “silenciamento da memória” das Revoltas Camponesas justamente por sua força como amplo movimento evangélico popular anti-sistema.

União espiritual das Revoltas Camponesas e as teologias progressistas

Assim, ao apagarem as Revoltas Camponesas como parte das Reformas Europeias produziram um “esquecimento” que ajuda na simplificação política do setor evangélico como conservador ou de pouca crítica social. Por isso, para se opor a esse complexo silenciamento simplificador do setor, discuto agora os grupos de esquerda evangélicos atuais. Existem protestantes-evangélicos ligados às Teologias da Libertação, à Teologia da Missão Integral, à Teologia Feminista, às Teologias Negras. Todos movimentos teológicos que representam o questionamento às ordens religiosas e ao modo de vida cristão.

Esse conjunto de teologias insubmissas ajudaram nas últimas décadas a formar diferentes grupos de evangélicos atentos as lutas sociais, que hoje, chegaram a cargos no poder político. Portanto, busca-se na sequência do artigo pontuar dois políticos eleitos na última eleição (2020), que se sentem irmanados pelas Revoltas Camponesas, e se reconhecem como evangélicos de esquerda, são eles: Wiliam Siri, do PSOL do Rio de Janeiro, e Elenizia Matta, do PT de Goiás. Passamos agora a destacar essas duas importantes trajetórias políticas.

  • Wiliam Siri, sua trajetória político-religiosa de Campo Grande para a Câmara de Vereadores

 

Foto: Divulgação

 

William Carlos Brum Bispo, mais conhecido como William Siri, é membro da Igreja Presbiteriana do Recreio (na cidade do Rio de Janeiro). Contudo, seu histórico na igreja evangélica é antigo. Quando tinha dois anos de idade, seus pais se converteram na Igreja Metodista Wesleyana- vertente pentecostal dos metodistas, e passou a frequentá-la com a sua família. Por isso, se considera “praticamente nascido no lar evangélico”. Lá pelos dez anos migrou para a Igreja Maranata, em Campos Grande. Ficou nessa outra estrutura pentecostal até seus 20 anos, quando passou a conhecer outras igrejas, e há quatro anos ele se estabeleceu na Igreja Presbiteriana do Brasil, no Recreio.

Logo, Siri tem longa trajetória entre os pentecostais. Sua vinculação com o PSOL começa em 2015, antes, porém participava de encontros do PSB embora não fosse filiado ao partido. Na entrevista ele narra como entrou no PSOL: “No PSB conheci o deputado federal Glauber Braga, e depois, em 2015, pela morte do Eduardo Campos, o PSB apoiou o Aécio Neves. E, aquele grupo resolveu sair, nós fomos para o PSOL”. Em termos das eleições diretas, em 2016 e 2018, conseguiu uma boa margem de votos, mas não se elegeu (ficou como terceiro suplente). Também, entre 2017 a 2018 foi assessor do Glauber Braga (PSOL), e depois, entre 2019 à 2020, passou a trabalhar com o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL).

Tal como os revoltados camponeses do passado, William Siri entende que existe uma conexão do cristianismo com a realidade. Afirma que o cristianismo tem toda a “questão espiritual, envolvendo o evangelho, mas o cristianismo também tem a política, na dinâmica de como tratar o outro, o próximo (…) A vida é política! As escolhas que vamos fazendo são políticas. Acho que é isso, é o combate à desigualdade, à injustiça”. O vereador vai mais adiante nos desafios do cristianismo absolutamente político que “é todo mundo ter o que comer! Todo mundo ter dignidade (…) bem estar, vida digna. Essa é a conexão do cristianismo com a política na raiz”. O vereador sintetiza seu mandato sobre o paradigma da dignidade, que é uma base do cristianismo. Para ele, o cristão deve se “conectar com a política raiz, que é de luta por justiça e dignidade para todos e todas de forma irrestrita”, o que no território da periferia da cidade é “todo mundo ter acesso à cultura, ao desenvolvimento, acesso à saúde de qualidade (…) Essas pautas têm total conexão com os ensinamentos de Jesus”.

O mandato coletivo do jovem vereador Siri se liga politicamente à espacialidade da Zona Oeste, onde fica o bairro em que mora, isto é, em Campo Grande. Afirma “nossa cidade é maravilhosa, mas na Zona Oeste, Campo Grande, Bangu, Guaratiba, Realengo, tem uma desigualdade enorme. São mais de 2 milhões de pessoas com muita desigualdade, muita miséria”. Assume seu mandato sobre o prisma de colocar “a discussão da produção da desigualdade, da pobreza, de ter educação, ter transporte digno que aqui é, sobretudo, sucateado”.

Foto: Divulgação

 

O vereador diz ainda sobre a espacialidade que vive: “tem uma área rural muito grande na Zona Oeste (…) estou trabalhando todas as questões ambientais, saneamento básico, que não tem aqui”. Portanto, com o mandato, Siri busca inverter a lógica das gestões e das elites urbanas que olham a cidade a partir do centro. O desafio de sua política “é de um olhar de cidade, a partir do subúrbio”, assim, sua proposta é de se colocar junto aos trabalhadores urbanos que não moram nos centros, mas principalmente, nos cinturões periféricos distantes, como os moradores da Zona Oeste.

Diferente dos grandes nomes da Bancada Evangélica do Congresso Nacional, o vereador não teve apoio de qualquer instituição religiosa, pois “não é a favor”. Ao contrário das pautas das grandes corporações evangélicas, sua atividade religiosa se liga ao coletivo que ajuda a construir o “Tudo Numa Coisa Só”, na Zona Oeste. O coletivo tem 12 projetos, como um pré-vestibular comunitário, e se notabiliza a partir de uma atividade de impacto ecumênico que é a Caminhada pela Liberdade Religiosa. O vereador, diferente dos evangélicos apologéticos exclusivistas, circula em “outras religiões”, e por isso, acha importante não ter apoio institucional de qualquer grupo religioso, considerando “completamente errado. Não condiz!”.

Ao fim da conversa, o vereador conclui que busca dar visibilidade as pautas da Zona Oeste que tem “2 milhões de pessoas que tem dons, e justamente a falta de investimento dificulta as pessoas a se desenvolvem, desperdiçando talentos, vocações (…) mas o que não falta aqui são pessoas extraordinárias”. Portanto, luta para que os moradores da região “tenham acesso à cultura, a terem mais equipamentos culturais, que são apenas 26 equipamentos culturais, enquanto a Zona Sul são mais de 200 (…) e o que tem aqui é sucateado, é um descaso muito grande”. Contudo, o grande gargalho da população da Zona Oeste é a “questão do transporte público que dificulta o translado para o trabalho”, fazendo com que a população gaste horas no dia nos trajetos.

  • Elenízia da Mata, trajetória político-religiosa na defesa do serrado e a luta contra o machismo estrutural

Foto: Divulgação

Outra persona política irmanada a partir das Revoltas Camponesas, é Elenízia da Mata. Formada em Letras pela UEG, com MBA em Gestão do Terceiro Setor e especialização em Direitos Sociais pela UFC, Elenízia pertence a Igreja de Cristo. Nascida num lar evangélico, seu pai é pastor da Assembleia de Deus, onde ficou até os 18 anos. A partir dali, foi para a Igreja de Cristo, uma denominação pentecostal independente da cidade de Goiás, iniciada em 1986, pelo pastor Raimundo Aires e a bispa Rosa Heide. Migrou para essa igreja “para ampliar o diálogo do cristianismo com a vida” – embora mantenha relação com pessoas da Assembleia de Deus.

A vereadora entrou no PT oficialmente em 2003, embora já participasse das suas atividades antes. Ligou-se ao partido no movimento de pessoas de esquerda da cidade que tentavam abrir espaço para disputar com as antigas oligarquias. Hoje ela é da direção do partido, e justifica: “acho super importante ser uma mulher na disputa por narrativas dentro dele”. Para ela, a função “do cristão e da cristã primar pelos princípios básicos chamados pelo nosso grande líder, que é Jesus Cristo. Ou seja, zelar pelas pessoas, pelos pobres, pelas viúvas. O cristão deve servir aqueles e aquelas que são mais vulneráveis”. Diz ainda que o cristão na sociedade deve “cuidar de quem está preso, quem tem fome, quem não tem roupa, com os desvalidos”, destaca. A vereadora completa: “a política é um instrumento oficial para execução desse chamado”.

Elenízia esteve à frente do Centro Especializado de Atendimento à Mulher, ligado à prefeitura de Goiás, com função de trabalhar com mulheres na condição de violência doméstica, e na prevenção da violência. Esse projeto foi considerado uma das melhores iniciativas nas gestões de municípios do Brasil. Segundo Elenízia, “ajudou a fortalecer meu nome, porque você exercer um cargo público de excelência (…) por ser de esquerda e uma mulher cristã a princípio causou muito estranhamento”. A vereadora consegue unir a vivência na Igreja ao trabalho de luta pelos direitos das mulheres diretamente quando promove atividades sobre violência de gênero nas igrejas da região. Esse projeto foi até aprovado pelo conselho de pastores de Goiás.

A vereadora é atenta também as questões da ancestralidade. Pouco antes da eleição, teve atuação na territorialidade do Quilombo Alto Sant’Anna “tanto na organização da comunidade, de dados para o relatório para o reconhecimento da Fundação Palmares, quando na organização que deu personalidade jurídica ao movimento” – sendo umas das lideranças do movimento negro na organização do “Fórum de Igualdade Racial, que já existe enquanto coletivo”. Ela se orgulha de participar do projeto de Mulheres Coralinas: “um projeto para mulher, com mulheres que se captou recurso da extinta Secretaria de Políticas Públicas para mulheres, ligada à presidência da república”.

Foto; Divulgação

Assume que seu mandato está “pautado na luta antirracista, principalmente, pelo viés da questão da segurança para as mulheres”. Por isso, se atenta para a “geração de trabalhos, oportunidades e tanto de empoderamento de espaços de poder para as pessoas mais vulneráveis, que em geral são as pessoas pretas, em geral são mulheres, então isso está interligado”. A vereadora reconhece a vinculação do cristianismo com o socialismo, que se dá “a partir do Reino de Deus, que é sobretudo pautado no reino de justiça, pautado na equidade, no cuidado com aqueles que são mais frágeis, com aquelas pessoas que estão marginalizadas, com aqueles e aquelas que tem fome e sede de justiça”.

Ela não deixa de destacar a conexão do cristianismo com seu partido. Pois ele é formado por “trabalhadores, por aqueles e aquelas que tiveram a vida impactada pelos poderosos e que decidiram pela insurgência pela luta de seus direitos”. Seu mandato defende a “vida segura das mulheres (…) e que tenha delegacia especializada”, e, se propõe trabalhar com os agressores, pois que “se entenda que o machismo estrutural atravessa os corpos dos homens agressores”. Por fim, é sensível a questão da geração de renda para o “setor negro da sociedade, pois a questão do racismo institucional impede a inclusão econômica também (…) assim também tratar da questão da geração de renda pautada em economia solidária”.

Novas lideranças evangélicas de esquerda e a inspiração popular

Portanto, a força política de William Siri e Elenízia Matta se possibilita a partir de suas experiências sociais e religiosas junto às suas espacialidades que permitem agremiar lutas na defesa do despossuídos e aos que sofrem violência junto aos seus mantados políticos populares. Ambos são impulsionados por um cristianismo mais humano atento às dores e às mazelas. Com este artigo, selecionei as trajetórias politicas desses dois crentes, que são novas faces de políticos evangélicos de esquerda que não se ligam à Bancada Evangélica, à Frente Parlamentar Evangélica e ou a qualquer estrutura Evangélica dos grandes evangelistas. Também, apontei que a expansão evangélica avança nos territórios brasileiros formando também pessoas que pensam um cristianismo mais encarnado, insubmisso. Assim, Elenízia da Matta, mulher, pentecostal, negra, direto do cerrado brasileiro, e William Siri, do Sudeste, periférico da Zona Oeste do Rio de Janeiro se inspiram na memória dos camponeses que lutaram contra o peso dos poderosos do mundo europeu do seu tempo. Um dado interessante é que tanto Siri quanto Elenízia passaram a infância e a adolescência nas comunidades pentecostais que se multiplicaram pelo Brasil. Nada mais pulsante e popular no Brasil contemporâneo.

É a partir do amplo território das periferias brasileiras que ambos se identificam com os movimentos de esquerda evangélica que sofrem diariamente um processo de “silenciamento/apagamento” do passado e no presente. Mas, que humanizam as lutas no setor, lutando por justiça, de forma antirracista, feminista, pelo acesso à moradia, à justiça ambiental e pelo transporte dos trabalhadores. Nesse sentido, suas personas inspiram e são icônicas nas suas geografias mesmo quando ao inverso do senso comum que desacredita em qualquer conexão dos evangélicos e as diferentes gradações das esquerdas. Sim, ambos mostram que a simplificação histórica do setor protestante-evangélico só ajuda aos coronéis da fé, reafirmando a barganha fundamentalista.

E, como destacado aqui, essa “operação de silenciamento” e simplificação despreza propositadamente a origem das Revoltas Camponesas, para também, apagar da memória figuras como o pastor Guaracy Siqueira, metodista que participou da Revolta Constitucionalista de São Paulo de 1932, depois se tornaria Deputado Federal – se dizia socialista cristão. Essa operação também silencia os grupos evangélicos trabalhadores rurais, nas Ligas Camponesas, nas décadas de 1950 e 1960, liderados pelo advogado/deputado batista-presbiteriano Francisco Julião. Também, forçam o esquecimento das juventudes presbiterianas, batistas, metodistas, luteranas e anglicanas que lutaram contra a Ditadura civil-empresarial-militar no Brasil.

O que pretendo dizer é que o setor evangélico nunca foi uniforme em termos políticos e sua vinculação com as direitas é uma conclusão apressada. Ocorre assim desde a formação dos protestantes-evangélico nas Reformas Europeias um complexo exercício das elites religiosas de “operar o silenciamento” dos setores descontentes, subversivos dos crentes que questionavam o status quo. E, hoje, parte das esquerdas evangélicas se inspiram nos movimentos dos camponeses revoltosos que buscaram se libertar das amarras dos reis, orando, rezando, falando em línguas, se organizando para lutar por moradia/terras, contra as elites religiosas do seu tempo e sobretudo por justiça social.

É verdade, que muito se repete sobre não generalizar os protestantes-evangélicos. Contudo, acredito que se deva dar um passo a mais. Não basta o alerta pela não generalização do setor, mas, a partir da memória “esquecida” dos camponeses revoltados contra o Antigo Regime, deve-se dizer para não se subestimar os crentes. Sim, porque é uma constante das elites e dos mais letrados desprezar aqueles que seguem limpando os ladrilhos, os vasos, os que são explorados pela servidão dos tempos pandêmicos. Pois, a população evangélica, no Brasil, é parte contundente das camadas populares. Logo, o desprezo pelo setor, se resvala no preconceito de classe e no racismo direcionado às populações negras das periferias.

As mesmas elites e os mais letrados que cismam em cortar as flores, ou então, desprezá-las ao nascerem nas encostas cimentadas. William Siri e Elenízia Matta são flores que aparecem no cinza opaco das encostas, mas que dão luz e beleza, e mostram força ao rompem com o cimento. Ambos conjuntamente são um anuncio da primavera. E, ela, o bom Marcos nos ensinou que é inevitável.

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