Documentário da Netflix detalha como empresa que ajudou a eleger Trump e impulsionou campanha pró-Brexit interferiu em eleição no país caribenho

The Great Hack. Imagem: Netflix / Divulgação

Por Andrei Ribeiro

Em 2018, a empresa de propaganda e análise de dados Cambridge Analytica se tornou mundialmente famosa ao serem revelados os métodos criminosos com que coletou informações pessoais de milhões de usuários do Facebook para traçar perfis de comportamento e influenciar processos eleitorais.

O envolvimento da corporação na vitória do americano Donald Trump e a associação com forças políticas que levaram o Reino Unido a decidir a favor do Brexit (a saída da União Europeia), ambas em 2016, renderam, ao longo dos anos, investigações criminais por parte dos dois países; uma declaração de falência da companhia em 2018; uma multa de 5 bilhões de dólares ao Facebook por violações de privacidade; um agitado debate em todo o mundo sobre privacidade digital e proteção de dados.

Um documentário da Netflix lançado em julho, “Privacidade Hackeada”, de Karim Amer e Jehane Noujaim, traz, no entanto, novas informações sobre um aspecto da trajetória da empresa de dados ainda pouco discutido: a interferência em campanhas eleitorais de países subdesenvolvidos ao redor do mundo.

Anos antes de se implicar na política interna de potências ocidentais, a companhia, através da sua matriz britânica SCL group, em atividade desde 1993, ganhou experiência desenvolvendo controversas operações de mudança de comportamento eleitoral em países da África, Ásia e América Latina.

No filme da Netflix, um áudio inédito vazado por uma ex-funcionária da Cambridge, mostra o então CEO Alexander Nix detalhando como impulsionou o desinteresse e a resistência ao voto entre os jovens de Trinidad e Tobago para favorecer um dos partidos que concorria às eleições gerais de 2010. O registro é parte de uma reunião de vendas da empresa, em que Nix, alegando ter sido contratado pelo UNC (Congresso Nacional Unido) – partido de maioria indiana – apresentava o caso como um case de sucesso.

“Nós fomos ao cliente e dissemos: queremos atingir os jovens. Tentamos aumentar a apatia. A campanha tinha que ser apolítica, porque os jovens não ligam para política; tinha que ser incendiária, porque os jovens são preguiçosos.” A empreitada resultou num movimento chamado “Do so” – “que significa não vote”, explicam o executivo e a ex-funcionária. “É um sinal de resistência, não ao governo, mas contra os políticos e as eleições”.

Na forma de grafittis e cartazes, a mensagem anti-establishment rapidamente se espalhou, corroborando a imagem de um movimento genuíno da juventude – o país não possui voto obrigatório. De acordo com reportagem do Global Voices, à época, a maior parte do país de menos de 2 milhões de habitantes acreditava que o “Do so” surgira espontaneamente do caso de Percy Villafana: um idoso trinitário-tobangense (assim são chamados os naturais deste país) que cruzou os braços e se negou a receber o primeiro-ministro Patrick Manning em 2010.

Um pôster da campanha “Do so”, promovida pelo UNC. Foto: Kierron Yip Ngow/ Facebook

Em maio daquele mesmo ano, depois de ter a sua residência pichada com o slogan dos “braços cruzados” que se tornou símbolo do movimento antissistema, Manning foi derrotado pela candidata da oposição, Kamla Persad-Bissessar, a primeira mulher a comandar Trinidad e Tobago, e o seu partido de maioria afro-caribenha, Movimento Nacional do Povo (PNM), cedeu lugar ao indiano UNC.

Alexander Nix descreve, no arquivo vazado, como foi crucial a exploração das dinâmicas étnicas do país para que a operação fosse efetiva: “Nós sabíamos que na hora da votação, os jovens afro-caribenhos não votariam por conta do “Do so”. Mas os jovens indianos não desobedeceriam aos pais. Eles se divertiram, mas não vão contra a vontade dos pais. A diferença de comparecimento na faixa de 18-35 anos foi de 40%. E isso abalou as eleições em 6%.” Segundo ele, tudo que precisava para vencer uma disputa acirrada.

Além disso, um documento oficial da SCL analisado pela BBC News em 2018, mostra a companhia atestando ter implantado uma “ambiciosa campanha de grafite político” em Trinidad e Tobago, com o intuito de dar condições para que o “partido contratante pudesse alegar que ouviu uma ‘juventude unida’”. O documento também relata atividades nas eleições da Letônia em 2006 e da Nigéria em 2007. O CEO da Cambridge/SCL na época, Alexander Tyler, afirmou apenas que encarava as informações com muita seriedade e estava instaurando uma investigação completa sobre os atos internacionais da empresa no passado.

A Netflix publicou um trecho do áudio citado no Youtube:

 

Repercussão

O UNC nega ter tido qualquer relação com a Cambridge Analytica/ SCL desde que emergiram os primeiros indícios de envolvimento no ano passado. Porém, após decisão do Procurador Geral, Faris-Al-Rawi, de estabelecer auditorias em diversas instâncias do governo com o intuito de avaliar possíveis conexões da consultora política, o partido da coalizão governista (COP) liderado pelo UNC admitiu que houve “discussões e algum engajamento com a SCL”.

O governo de Perssad-Bissessa, que vigorou entre 2010 e 2015, sofre, ainda, uma segunda acusação de conluio com a Cambridge/SCL. Desta vez, os malfeitos teriam ocorrido em 2013. A denúncia foi feita por Christopher Wylie, o primeiro ex-funcionário delator a vir à tona em uma série de reportagens do The Guardian e The New York Times ; e que ficou famoso por ter se definido como “a ferramenta de guerra psicológica de Steve Banon” – em referência ao trabalho que realizava na Cambridge enquanto a empresa tinha como vice-presidente o ideólogo da extrema-direita americana.

No seu depoimento para o Parlamento Britânico, o ex-diretor de pesquisa alegou que a Cambridge Analytica/SCL, em conjunto com a canadense AIQ (acusada de estar envolvida no Brexit) e o Ministério da Segurança Nacional acessaram a rede de Internet de Trinidad e Tobago para coletar e monitorar dados de usuários em todo o país. O delator julgou a operação “um total desrespeito à lei”.

Com a repercussão do documentário da Netflix, o Procurador Geral manifestou estar tentando trazer Wylie para depor em comitê especial no país. O denunciante, por sua vez, diz temer por sua segurança caso aceite o pedido.

Arma de guerra

“Como persuadir garotos muçulmanos de 14 a 30 anos a não se juntarem à Al-Qaeda? Basicamente: guerra de comunicação!” Essa é uma das falas de Nix presentes no segundo fragmento de áudio divulgado pelo filme da Netflix. Nesse momento, enquanto palestrava numa reunião de vendas da Cambridge, o CEO remonta às origens militares da empresa, ilustrada na figura da SCL Defence: “Nós treinamos o exército britânico, a marinha, o exército e as forças especiais dos EUA. Nós treinamos a OTAN, a CIA, o Departamento de Estado e o Pentágono…usando recursos para influenciar o comportamento inimigo.”

Segundo Carole Cadwalladr, a jornalista do The Guardian e Observer responsável pelas primeiras reportagens explosivas sobre o caso, “a grande virada de jogo” foi quando a companhia passou a usar os métodos militares em eleições. “Todas as campanhas feitas pela Cambridge Analytica/ SCL no mundo subdesenvolvido foram somente para praticar alguma nova tecnologia ou jogada”.

A ex-funcionária responsável por vazar os arquivos para o doc, Brittany Kaiser, chegou a dizer em seu pronunciamento para o Parlamento Britânico que a metodologia da companhia deveria ser considerada uma arma de guerra, visto que, até certo momento, era regulada pelo governo britânico por seu caráter militar.

No Brasil, um flerte 

A Ponte Estratégia, consultora do baiano André Torreta, chegou a firmar uma parceria com a Cambridge Analytica no Brasil, em 2017. A união foi batizada de CA Ponte. Após a avalanche de denúncias do escândalo de dados, o empresário desistiu do acordo. “Ainda bem que isso saiu agora. Se tivesse saído daqui a seis meses eu estava morto. Foi uma surpresa. Eu não sabia de nada”, disse Toretta, numa entrevista ao portal G1, em meio à polêmica.

O ex-sócio da Cambridge afirma ainda que Bolsonaro, nos idos da sua corrida eleitoral em 2018, buscou o apoio da consultora e de Steve Bannon, mas foi rejeitado pelo perigo de que seu viés de extrema-direita afetasse Trump.

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