Por Camila Marins

O documentário premiado “Indústria Americana”, disponível na Netflix, tem muito a nos ensinar pela narrativa de mulheres negras que ocupam boa parte dos postos de trabalho precários. O filme registra a chegada dos chineses em uma fábrica de vidro nos EUA. Obviamente que há muito em jogo nesse filme, considerando que a produção é da família Obama.

O fechamento de uma fábrica nos EUA dá lugar à multinacional chinesa Fuyao que implementa outra cultura organizacional e de condições de trabalho. Trabalhadores chineses e estadunidenses dividem o mesmo ambiente de trabalho, deslocando e afirmando suas diferenças. Acostumados a extensas jornadas de trabalho com apenas 2 folgas ao mês, os chineses caracterizam os estadunidenses como “preguiçosos”. Uma mulher negra chora diante dos gritos e das ordens de chefes chineses. As mesmas pessoas que trabalhavam na fábrica anterior são recontratadas pela multinacional, mas com salários 3 vezes menores e com piores condições de trabalho. O giro de câmera pela fábrica incomoda porque denuncia a falta de Equipamentos de Proteção Individual e Coletiva. Todos trabalham com manipulação de vidro e não há regulação interna para proteção da saúde e da segurança do trabalhador.

Fica aparente que a direção do filme quer marcar o choque entre duas culturas, mas é bom lembrar que se o modelo trabalhista chinês é um dos piores do mundo para o trabalhador, o americano também é, pois não garantem as formas coletivas de reivindicação. E é importante destacar que a Reforma Trabalhista implementada no Brasil é importada dos EUA, país que tem péssimas condições de trabalho, onde boa parte das pessoas realiza o trabalho intermitente (pagamento por horas trabalhadas permitindo mais de um emprego). Os EUA não são, definitivamente, exemplo de regulação do trabalho. O chamado “sonho americano”, que é a base ideológica do capitalismo atual, exige muitos empregos, muitas horas de trabalho e sem acesso à saúde e educação pública e com muita restrição ao direito de livre organização sindical.

No filme, uma mulher negra, que defende a implementação do sindicato na empresa, é perseguida pela empresa, que a designa para desempenhar uma função sozinha que deveria ser exercida por duas pessoas. Os trabalhadores da fábrica, por exemplo, enfrentam perseguições, demissões e assédios para não organizarem um sindicato dentro da empresa; e essa prática antissindical faz parte da legislação trabalhista estadunidense que privilegia a negociação individual e dificulta a coletiva. Inclusive, consultorias são contratadas a peso de ouro para impedirem a implementação de sindicatos nas empresas dos EUA. Nesse ponto, o filme peca. E feio. Porque não mostra a realidade estadunidense em relação à regulação do trabalho e organização sindical e, inclusive, sobe o tom no nacionalismo.

O final também mostra o impacto da Indústria 4.0 que gerará um desemprego estrutural em todo o mundo, mas sem problematizar o aprofundamento da desregulação do trabalho. A intenção dos Obama me parece óbvia: a disputa de hegemonia entre China e EUA no mundo, criando uma falsa armadilha de disputa entre os trabalhadores dos dois países, mas a precarização imposta pelo capitalismo é global. A nova faceta do capitalismo estimula a precarização do trabalho, sem garantias, sem regulamentação e sem reivindicação coletiva, caracterizando o trabalho na sua face crua e desigual. E às mulheres negras recairá a maior precarização possível.

No Brasil não será diferente com a acelerada implementação da Reforma Trabalhista e o impacto da Indústria 4.0. Hoje, o discurso do governo federal é de que a Reforma irá aumentar o número de empregos, mas o que aumentou foi a informalidade e a precarização. Não há ilusão de que na atual fase do capitalismo de que todos e todas nós seremos ainda mais precarizados e explorados. No Rio de Janeiro, por exemplo, o Supermercado Guanabara anunciou a intenção de demitir cerca de 4.000 trabalhadores com o objetivo de recontratar com salários menores e jornadas mais extensas.

Se o capitalismo é cruel ao reinventar e intensificar formas de exploração, nós, trabalhadores, sabemos que para cada nova forma de poder, há uma nova forma de resistência. E precisamos nos apoiar cada vez mais na construção de corpo coletivo e em uma política de alianças que seja anticapitalista, feminista, antirrascista e antiLGBTIfóbicas. Uma frase de uma trabalhadora estadunidense nos aponta: “Todo emprego que tive, como mulher negra, foi [por meio de contrato negociado pelo sindicato] que tive alguma chance, algum direito”.

Camila Marins é jornalista e uma das editoras da Revista Brejeiras

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