Por Marcelo Mucida

“A Neta de Cibele” é um filme construído através de recortes de sensibilidade, cotidiano e afetividade. A obra se utiliza de relatos pessoais da diretora Nicole Terra Carvalho para traçar uma narrativa que aborda também temas mais gerais como convivência, identidade, combate ao preconceito, aceitação, direitos humanos, indagações sobre família e, que perpassa, inclusive, por impactos provocados pela pandemia de COVID-19 – fator que contribui para a percepção do contexto em que o curta foi idealizado.

A criação toma como ponto de partida o momento em que Nicole percebeu que foi chamada de neta pela primeira vez por sua avó de criação. A avó, na verdade é irmã da mãe da artista, uma figura presente em sua vida desde a infância. Ao entrelaçar depoimentos das duas, o curta consegue mostrar um pouco do desenvolvimento desta relação, que aparenta também ter muito a ver com o processo de afirmação da identidade de Nicole.

Talvez este seja o ponto-chave da obra: poder falar sobre a conexão entre estas duas mulheres, de diferentes gerações, que alimentam um laço de amor e de cuidado mútuo, para além de determinações convencionais sobre o que pode se entender como família.

Através de sequências que registram ações do dia a dia, cantos da casa, espaços onde as duas convivem, o documentário desenvolve uma linguagem muito íntima e pessoal quase que como um diário de memórias, experiências e afetos da diretora, que também não deixa de expor feridas do passado e superações.

O filme emociona pela verdade que consegue transmitir através da câmera.

Marcelo Mucida escreveu esta crítica em colaboração ao FOdA Fora do Armário, editoria LGBT+ da Mídia NINJA, a partir da exibição do filme no Festival AudioTransVisual

 

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