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Novela – trama narrada em capítulos, especialmente no rádio e na televisão. Entre os elementos reconhecidos neste gênero vemos a sequencialidade dos fatos, a linguagem objetiva, a narração rápida e a variedade de temas. Para mim, criança dos anos 90 de família preta novela também é conhecida como “babá”.

Entre escola, os vários empregos dos meus pais e a presença das minhas tias, eu fui uma das várias crianças criadas pela tv. E a novela era um dos ápices deste modelo de criação – minha mãe gritava comigo pela casa inúmeras vezes brava reclamando que eu me sentava na frente da tv para ver Malhação e só saía depois da novela das oito (que agora é quase dez). “O Rei Do Gado” estreou dias antes do meu aniversário de 6 anos e de lá pra cá foi A Indomada, Por Amor, Torre de Babel, Terra Nostra, Laços de Família, O Clone e tantas outras histórias que formaram meu imaginário, minha ideia do que era ser mulher, do que era ser negra, gorda, do que era não existir como LGBT….

Eu costumo dizer, quando falo sobre o poder da comunicação, que o Jornal Nacional me dizia que eu ia ser mãe de bandido e a novela das oito que eu ia ser empregada doméstica.

Eram esses os papéis das pretas até então. Foi em janeiro deste ano que a Globo completou 15 anos com um enredo de uma protagonista negra – e eu já tenho quase 30. De lá pra cá vimos Heslaine Vieira, como Ellen, uma nerd periférica, Cris Vianna como Juju Popular, uma rainha de bateria, Cacau Protásio como Zezé, a cômica empregada, Sheron Menezzes como Paula, advogada que deixa o morro pra trás… Esses e outros foram papéis mais complexos, mas por vezes parecendo mais um soluço na estrutura (você adivinhou) branca, patriarcal e heteronormativa.

Sei que estou falando muito sobre mulheres negras (som irônico de limpar a garganta aqui), mas estamos falando de narrativas diversas sendo apagadas em algo que deveria refletir a vida do povo. Mas o povo das novelas não tem preto, não tem bicha, não tem trava, romantiza a pobreza e explora audiência com mulheres batendo em outas mulheres. Afinal de contas, o que se esperar de um povo que quando tá triste bota um vestido branco esvoaçante e vai pensar na praia deserta de Copacabana?

Eis então que surge “Amor de Mãe”. Me chama atenção de começo, nas chamadas, porque, mesmo que popularmente novela seja coisa de mulher, geralmente esta mulher vem com algo do lado. Algo não, alguém. Alguém não. Um homem. Branco. Veja bem, não estou querendo overintelecutalizar a novela – folhetim bom é folhetim com amores impossíveis que seriam resolvidos em dois capítulos se dos as personagens fossem maduras e tivessem uma conversa real de cara, mas levam mais de 180 capítulos pra resolver.

O que digo é – mesmo que a novela seja sobre e para mulheres, enquanto homens “esperam o futebol”, essas novelas tinham histórias que pouco se sustentavam quando o galã saía de cena. Mas quando fez, dava certo e era uma delícia – certo Maria do Carmo? Certo Nazaré Tedesco? Certo Carminha? Certo Nina?

Bom, temos então Taís Araújo (Vitória), Adriana Esteves (Thelma) e Regina Casé (Lurdes), todas abraçando seus filhos fictícios nas chamadas convocando para os primeiros episódios. É uma trinca impossível de ignorar então sento e dou play (já que eu não consigo mais assistir nada se não for “on demand”).

Nos primeiros dez minutos temos: Rio Grande do Norte (e não NORDESTE), medicina tradicional, escassez de trabalho, seca, tráfico de pessoas, estupro e assassinato em legítima defesa. Lurdes passa tudo isso nos primeiros 600 segundos da trama e o capítulo termina com o arco se fechando, quando Magno, seu filho mais velho que viu seu irmão ser vendido, mata acidentalmente alguém para tentar salvar uma mulher de um estupro nas ruelas do Rio de Janeiro.

Ao longo dos próximos capítulos conhecemos e vemos como se entrelaçam a vida destas três mulheres, líderes da trama – Lurdes, pobre, com 5 filhos. Thelma, classe média que salvou seu filho de um incêndio quando ele tinha menos de 5 anos. E Vitória, rica, que perdeu um bebê e está às vias de perder o casamento para sua obsessão por um novo rebento.

Agora, chegando ao seu 20º episódio, tanta coisa já aconteceu pelas mãos de Manu Dias que com certeza vários detalhes devem ter passado batido, mas como de detalhes é que são feitas as histórias, compartilho alguns que me saltaram.

Vitória adotou um filho, um meninim preto de 7 anos e finalmente engravidou – de um ativista ambiental (salve amazônia!). O problema é que ele protesta justamente contra a empresa de plastico da qual Vitória é advogada – colocando aí em cheque o seu discurso de que ela não é cúmplice dos crimes de Álvaro e sim advogada, porque todos têm o direito a defesa. É dela também que vem falas importantes sobre quando ela corrige o filho por chamar Thelma de louca – “ela não é louca, ela estava se sentindo injustiçada”. Só nós militudas sabemos o quão mais fácil seria se a gente ouvisse isso da nossa mãe né?

Lurdes pra mim é pedrada de cara – não só sobrevive para ir atrás do filho, quanto adota uma a mais – Camila (Jéssica Ellen) que dá um textão na formatura e como boa professora de história que é, luta pra manter uma escola viva. O lance é que Lurdes vai fundo na busca do filho até se cruzar com Sandro, que é apontado como Domênico, o traficado que agora é traficante. Preso. Com ajuda de Vitória (que sim, é patroa de Lurdes), ele fica livre depois de meses e agora começa uma cruzada para sabermos quem ele realmente é.

Entre acobertar o crime de Magno e receber Sandro de volta em sua vida, Lurdes é uma delícia de assistir, mas Regina, sua intérprete foi questionada – “mais uma empregada?”, perguntaram a ela. “Se fosse mais uma mulher rica ninguém questionava nada” respondeu. Tá bom? Tá bom.

Já Thelma – bem, ela vai morrer. Pelo menos é o que diz o laudo médico depois que Lurdes a encontrou desmaiada na rua. As duas se tornaram melhores amigas e agora, com aneurisma na cabeça, Thelma corre contra o tempo para o que ela acha que é garantir o futuro do filho. Nem que para isso ela tenha que sufocá-lo (referência infame sobre o fato de que ela “salvou” o filho de um incêndio, check). Enquanto isso, Vitória entra em cena para tentar comprar seu restaurante, a mando de Álvaro. Controladora e meio carola, ela tem talvez a linha mais lenta das três, mas que se acelera quando ela encontra Durval, seu interesse romântico.

Mas é aí que mora a beleza deste drama das nove e meia: como na vida, nada é uma linha reta. Desafiando a ideia pronta do mocinho e do bandido, vemos as narrativas serem construídas e desconstruídas constantemente neste sentido – Thelma pode parecer sozinha, solitária, mas assim que um dos seus antigos colegas de escola a assedia, ela bota ele pra correr e diz para Durval que não precisa ser salva por ninguém, que sabe se defender de macho escroto sozinha.

Que mesmo que Estela (Letícia Lima) comece a novela tendo um caso com um homem casado no seu trabalho, quando outro cliente a contrata para que ela dê pra ele, ela se rebela contra e denuncia o machismo. Para logo depois ser demitida. Que Wesley (Dan Ferreira), o policial honesto, que não aceita suborno, traiu a mulher durante um ano com Míriam (Ana Flávia Cavalcanti), mulher preta inspetora.

Que Betina (Isis Valverde) inicialmente se recusa a denunciar seu ex-marido agressor depois de apanhar dele, mas resolve ligar pra polícia quando ele a encurrala em casa, criando assim uma conexão com a maioria das mulheres vítima de agressão física, que de fato não denunciam na primeira oportunidade. As cenas de agressão contra Betina, inclusive, colocam um bode na sala – quantas mulheres que apanham de seus maridos estão assistindo à cena caladas no sofá do lado de seu abusador?

Mas devo confessar que a última cena que me arrancou lágrimas não durou nem três minutos – Ryan (Thiago Martins), um dos filhos de Lurdes, vende seu violão, que conseguiu a duras penas para comprar uma raquete nova para que sua namorada, a tenista Marina (Erika Januzza), possa voltar a jogar em alta performance.

Era esse tweet – Um homem sacrifica o seu sonho em prol de uma mulher negra retinta. E não fica mal humorado por isso, não cobra nada, não tem cena depois reclamando e Marina não sente que deve nada a ele. Porque relacionamentos são mútuos e ver mulheres negras sendo cuidadas na tv é muito importante. Mais bonito fica ainda quando a família de Ryan vai ver um jogo dela, o que mostra que a trama do casal não é isolada e que ela é bem recebida por todos.

Por falar nisso, figurino, caracterização, cenografia, fotografia – tudo na novela te convida a puxar uma cadeira, tomar um café e comer um pedaço do bolo do Sandro, porque nunca antes a tv conseguiu reproduzir tão bem o ambiente familiar como na cena do almoço de domingo de Lurdes.

Estes e outros detalhes formam “Amor de Mãe”, uma novela essencial para os tempos em que vivemos, mas que não pode ser o açúcar na boca da criança antes da vacina.

Ela sobe uma régua que dona Globo (e qualquer outra emissora) vai ter que rebolar para manter e está passível de erros em seus mais de 100 capítulos por vir. E quando isso acontecer, pode ter certeza que vamos estar lá, xingando muito no twitter. (Falando nisso, onde estão os LGBT em destaque nesta novela? Sapatão traficante, pai gay branco e amigo da donzela abandonada não é tudo que podemos ser!).

Aos que torcem nariz pras novelas, fecho falando sobre outra coisa que digo nas oficinas de comunicação – o povo é feito de povo.
Enquanto nós, progressistas, esquerdopatas ou abortistas da ditadura gay não tivermos um time de futebol, uma escola de samba e uma novela, não estamos disputando narrativas de fato.
Enquanto isso, temos Vasco, Mangueira e Amor de Mãe.

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