@anacattini

Por Eloisa Artuso

Esses dias li a frase: “o que não conseguimos imaginar não pode acontecer” em um livro da bell hooks e ela ficou na minha cabeça. Em tempos de tamanha descrença com a humanidade – e de verdadeiro choque com o seu poder de destruição – acho importante aliar imaginação ao pragmatismo do dia a dia. Porque se não pudermos acreditar que as coisas podem mudar, ficaremos paralisados, e isso é o que menos precisamos agora. O que precisamos é trabalhar na construção de novos ideários e de novas imagens. Precisamos imaginar cenários de presentes e futuros desejáveis. Precisamos dessas imagens para que as pessoas possam vislumbrar um lugar melhor onde elas (nós) queiram estar. O design tem um papel fundamental nesse processo.

Esse livro, ao qual eu volta e meia recorro, chama-se “Erguer a voz: pensar como feminista pensar como negra”. Como pessoa branca,eu tento fazer o exercício diário de lembrar como a cor da minha pele e a minha situação econômica estável me beneficiaram ao longo de toda a minha vida. Mas, apesar do privilégio de ser uma pessoa branca, de classe média, em um país estruturalmente racista e desigual, eu sou uma mulher e entendi que é preciso aprender a erguer a voz, porque as sociedades foram construídas de tal forma que nossas vozes não são ouvidas. Sim, estamos em 2022 – dois mil e vinte e dois – e eu ainda tenho que constatar isso.

Erguer a voz e desenvolver a capacidade de imaginar uma outra sociedade são alternativas – radicais – de resistência e sobrevivência. Para quem atua na indústria da moda, como eu, essas alternativas, inevitavelmente, têm que passar por questões sociais, ambientais, econômicas, políticas e culturais que abalem as estruturas e as relações de poder há muito tempo estabelecidas. Eu tenho uma história com a moda relativamente longa, já que trabalho na área há quase 20 anos (metade da minha vida!). Mas esse trabalho mudou (radicalmente) com passar do tempo.

Começando do começo, tentando resgatar a minha história com a moda, vejo que a roupa, a costura, os tecidos e o fazer eram parte do meu dia a dia, quando pequena, vendo minha avó, em sua máquina de costura, cercada por fios emaranhados, retalhos e alfinetes. Ela me ensinou a costurar à mão, ainda criança, para poder remendar, pregar botões e cuidar das minhas próprias roupas, para que durassem mais, além de me dar independência. Ela também me ensinou a ter coragem, e erguer a voz, mas isso eu só consegui colocar em prática muitos anos depois.

A opção por trabalhar com moda talvez tenha um pouco a ver com essa referência e com a afeição que fui desenvolvendo por cada detalhe de uma roupa enquanto eu crescia e começava a fazer sentido do mundo, a partir do meu próprio olhar e escolhas. Eu queria fazer roupas, queria o toque dos tecidos, as texturas, as cores. Queria a prática, o poder de dar formas às ideias, de trabalhar com o belo e de me conectar com as pessoas por meio de roupas que carregam histórias e vontades de novos mundos.

Na vida real, foi quase isso que aconteceu. Trabalhei em camarins de desfiles; marca independente, de luxo, jovem, fast fashion; fiz figurino, uniforme e mais um monte de coisas. Sentei ao lado de piloteiras para deixar aquela peça do jeitinho que era para ser e desenvolvi produtos na China, sem ter ideia de por quais mãos eles passariam. Passei por corredores de fábricas para checar produção e conversei com equipes de lojas para entender melhor para quem estava desenhando. Desenvolvi coleções em Santa Catarina, assim como em Lima, no Peru. Tudo isso em um espaço de tempo de mais ou menos 10 anos. Durante essa década, o ritmo foi ficando cada vez mais veloz e as pessoas cada vez mais distantes, assim como as almas das coleções foram sendo esvaziadas.

Eu mudei de emprego com certa velocidade também, tentando encontrar um lugar que fizesse sentido, com o qual eu compartilhasse valores. Buscava por uma cultura que valorizasse as pessoas, o saber fazer e o tempo do fazer, a qualidade e a criatividade tanto quanto o resultado das vendas. Até entender que o sistema que fazia a roda da moda girar era assim, então quem estava desencaixada era eu mesma.

Foi aí que resolvi me dar um grande presente: o tempo. Tive o privilégio de poder parar e voltar a estudar. Esse tempo me ajudou a refletir sobre o que eu estava fazendo por mim e pelo mundo (ou não). E foi tentando resgatar o sentido perdido da moda que encontrei outras formas de fazer e me relacionar dentro desse universo. Essa inquietação encontrou eco em diversas teorias críticas do design, que questionam o discurso, a prática e a falta de sentido dos produtos.

Ao mesmo tempo, comecei a trazer a ética e a sustentabilidade para o centro dos meus estudos. A realidade da moda sempre foi muito velada. Mesmo estando nos bastidores demorei para me dar conta de como a indústria pode impactar tão negativamente milhões de pessoas ao redor do mundo, e o mundo em si, a natureza. Fiquei verdadeiramente frustrada quando entendi que fazia parte desse sistema sem nunca ter enxergado a verdade por trás das roupas e nem feito nada a respeito. A frustração gera raiva, diria meu terapeuta, e nesse caso a raiva me fez mover. Uma professora um dia me disse que seu eu quisesse mesmo mudar a moda, eu seria muito mais potente fazendo isso de dentro para fora. Então, eu continuo aqui, trabalhando para criar novos imaginários para esse sistema, que sim, tem inúmeros problemas, mas também tem histórias boas para contar.

A sustentabilidade trouxe um novo sentido para meu trabalho, e para a minha relação com o mundo, porque me ajudou a conectar pontos que estavam soltos e encontrar muitas respostas e possibilidades de soluções. Embora hoje eu entenda que a sustentabilidade, uma pauta que vem ganhando cada vez mais destaque em todos os setores, acabou virando um novo produto de desejo, uma ferramenta de marketing, um clichê. A sustentabilidade virou um mito. Porque se pararmos para pensar, ela está à serviço de quem mesmo? E, acima de tudo, o que nós estamos tentando sustentar?

É sobre esses e outros mitos que me interessa discutir aqui. Espero que esse seja o nosso primeiro encontro de muitos que teremos por esse canal. Quem sabe não imaginamos juntes um mundo radicalmente novo? Será que a moda está preparada para ele?

Eloisa Artuso é designer estratégica, pesquisadora e educadora com foco em justiça socioambiental na intersecção entre clima, gênero e moda. É cofundadora da Febre, professora de design sustentável do IED-SP e cofundadora do Fashion Revolution Brasil. @eloartuso / eloisaartuso.com

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Eduardo Sá

“Lula transmite um amor maior”, afirma Filipe Ret

Observatório das Eleições 2022

Bolsonaro e o uso enganoso dos dados sobre entrega de títulos de propriedade

Observatório das Eleições 2022

Eleições 2022: candidatura feminina é igual em qualquer lugar?

Estudantes NINJA

Paulo Freire e o encontro com bell hooks: Um diálogo transformador de celebração do amor e da liberdade crítica

Tatiana Barros

Artistas digitais criam NFTs criticando atos antidemocráticos

Andressa Pellanda

Manual para votar em candidaturas que defendem (de verdade) a educação

Observatório das Eleições 2022

Titular e pacificar em nome do desenvolvimento: Bolsonaro e conflitos no campo

Observatório das Eleições 2022

Por que o Auxílio Brasil turbinado não ajudou Bolsonaro entre os mais pobres?

Renata Frade

Lançamentos em Tecnologia por incríveis autoras brasileiras

Márcio Santilli

Estertores do bolsonarismo

Colunista NINJA

O voto é secreto e necessário: o voto liberta

Observatório das Eleições 2022

Youtube e o seu sistema de recomendação de conteúdos na eleições de 2022 no Brasil

Márcio Santilli

Vantagem de Lula alavanca candidaturas nos estados

Observatório das Eleições 2022

Gamers: um público em disputa pelas principais campanhas à Presidência em 2022

Bancada Feminista do PSOL

As 5 principais ideias da Bancada Feminista