Por Sarah Veloso

A moda é uma indústria em constante evolução que reflete as tendências culturais, sociais, tristes e felizes de cada época. Nos últimos anos, a moda tem sido mais influenciada pelos movimentos sociais e pela luta por direitos iguais. Mas, essa luta realmente tem sido vivenciada na prática? Apesar de muitos avanços em relação à representatividade, ainda há muito a ser feito para garantir que as mulheres se sintam representadas e incluídas na indústria.

Apesar de a moda ser uma ferramenta de expressão que permite que as pessoas se sintam mais confiantes e poderosas, as roupas também podem transmitir mensagens políticas. O corpo é político, principalmente falando do meu lugar de mulher preta, em que o vestir me atravessa de forma profunda, como uma margem para ser ou não aceita no ambiente no qual eu quero estar – como em um simples passeio no shopping, sem ser perseguida por seguranças, por exemplo. Muitas vezes, quando tentamos me adequar às expectativas sociais, a aceitação não é por completo, porque, antes do tecido me vestir, minha pele, traços e cabelos me vestem primeiro.

Ao abordarmos o tema do trabalho no mundo da moda, de acordo com a Organização Mundial do Trabalho (OIT), em média, 85% dos empregos relacionados à ela são ocupados por mulheres. No Brasil, esse número chega a quase 75%. No entanto, infelizmente, a presença de mulheres em cargos de liderança ainda é bastante baixa, não ultrapassando os 20%. Isso me lembra quando comecei a pesquisa para o meu podcast “Contrafluxo: Design Feito por Mulheres”, em 2018, e percebi que essa realidade ainda persiste. Mesmo em 2023, apesar de alguns avanços, ainda há muito a ser feito para mudar essa situação.

Em conversa com a estilista Sherida Livas, ela afirma:

“Moda sempre foi um marcador pontual da nossa cultura e do nosso tempo. Se por um lado já foi sinônimo de desconforto e aprisionamento, hoje penso que ela se inclina mais para a liberdade de corpos e expressão. Como mulher que trabalha e vive a moda de perto, vejo o cenário desafiador. Temos tendências que falam além de roupas, e muitas vezes atacam nossos corpos com os mesmos padrões de sempre. E em contraponto, a bandeira pela a individualidade e corpos reais nunca fez tanto sentido. Acredito que o desafio é fazer a indústria entender que roupas são criadas para vestir corpos, e não o contrário. E parte de quem cria [moda] ser o provedor dessa mudança.”

A moda é uma expressão que conversa, o tempo todo, com a sociedade na qual está inserida: seja em tempo, território, cultura ou comportamento. A moda denuncia e abriga preconceitos, reforça estereótipos e auxilia na construção de campos de identidade.

A DJ Charlotte Killz relata que que a moda desempenhou um papel fundamental em sua jornada para a construção da sua identidade e o reencontro consigo mesma. Segundo ela, ao se entender como artista, vestir-se tornou-se uma atividade mais divertida.

“À noite, me sinto muito mais à vontade e segura para mostrar meu corpo, ousar nos looks e exalar a confiança que às vezes não tenho tanto no meu dia a dia. Não é todo dia que a gente acorda se sentindo maravilhosa. No palco, eu consigo ser exatamente quem sou. Ali me sinto segura e acolhida por pessoas.”

Recentemente, um dos maiores estilistas da nossa geração, Law Roach, anunciou sua aposentadoria. O comunicado foi feito logo após a cerimônia do Oscar, onde um dos seus stylings da Hunter Schafer viralizou na internet. Em suas declarações, ele foi enfático ao dizer que “se esse negócio fosse só sobre roupas eu faria isso para o resto da minha vida, mas infelizmente não é”. A moda, por si só, não é vilã e nem vítima. A moda somos nós. Como uma forma de linguagem, a moda é objeto de estudo e de experiências que precisam de espaço para serem manifestadas. Por mais que Law estivesse em um lugar onde nem 1% das pessoas pretas chegam, ele não aguentou a pressão e articulações do mercado.

Como afirmou o jornalista Rener Oliveira em um de seus textos mais recentes, “nascer com alma de protagonista em uma sociedade que nos coloca papéis de figurantes é desafiador”. Estar em uma sociedade onde, mesmo que se tenha talento e vontade, a oportunidade não está inserida. E digo mais: quando há oportunidade, nos falta respeito e apoio. A gente cria a ilusão que chegar ao topo é suficiente. Mas, quando se parte de um grupo marginalizado, isso não existe.

Segundo a consultora de estilo Elaine Quinderé, para tornar a moda mais justa e razoável para aquelas pessoas que não são contempladas por essa uma moda ética, o primeiro passo é a realização de uma autorreflexão. “Não julgo se você compra da marca X gringa super ética e, muito menos, se você compra da Shein. Nosso país é muito desigual pra eu fazer esse juízo com pessoas que, literalmente, só estão tentando se vestir como qualquer pessoa que tem privilégios sociais e financeiros. Dentro do meu trabalho, eu faço isso de maneira ainda mais incisiva porque a compra é parte importante de uma consultoria. Não é vital, mas é importante. Mas cuidar da roupa também é. É um trabalho de formiguinha mesmo, é uma sensação bizarra de enxugar gelo… mas é fazer a transformação de pessoa em pessoa.”

Não dá pra achar que a moda não importa, que é algo “fútil”. Fazer isso é negar todas as suas interseções, causas, estudos, símbolos, movimentos e políticas. É negar a própria expressão da existência. Seja na escolha diária de uma calça jeans com blusa branca ou em um projeto social: a moda é política.

Como ainda estamos em março ⎯ mês em que é comemorado o Dia Internacional da Mulher ⎯, momento mais do que propício para reforçar a importância de ler, consumir e aprender com mulheres. Seguem alguns links de projetos interessantes que eu gosto e acompanho:

  • Perfil da Elaine Quinderé que traz  informações valiosíssimas de moda e serviços incríveis de consultoria de estilo, além de ser uma ativista de corpos maiores e plurais;
  • A marca da Sherida estilista e designer de estampas cearense dedicada a criar produtos criativos e inovadores;
  • O projeto Womens on Walls mapeia mulheres nas artes visuais;
  • O som da Charlotte Killz que embala e quebra nas noites cearenses;
  • O projeto Women to Watch busca aumentar a representatividade feminina em cargos de liderança e fomentar a equidade do mercado de trabalho;
  • A livraria Gato sem Rabo trabalha apenas com títulos escritos por mulheres;
  • Por falar em livros, essa lista da ‘Casa Um’ conta com livros escritos por mulheres imperdíveis;
  • O Oscar 2023 aconteceu esses dias, então olha aqui como assistir aos filmes que receberam indicação e foram dirigidos por mulheres; 
  • The True Cost é um documentário de 2015 mas ainda muito atual. Gravado em diversas partes do mundo, o filme aborda os diversos aspectos e impactos da indústria da moda na sociedade, principalmente a fast fashion.
  • Projeto ‘Vai Maria’. Iniciado em 2018, o projeto tem o objetivo ensinar às mães/cuidadoras participantes técnicas de modelagem, corte e costura, assim como noções básicas de moda, além de trazer acolhimento emocional e servir de apoio durante sua trajetória de vida. O projeto beneficente ‘Vai Maria’, que resgata o potencial de mães e cuidadoras de crianças atendidas pelo Instituto da Primeira Infância (@iprede), lançou uma nova coleção, chamada “Reconstrução”. 

*Sarah Veloso é cearense natural de Fortaleza, é Publicitária, Designer (Gráfica e de Moda), Podcaster e idealizadora do contrafluxo, onde firma o amor pelo design feito por mulheres como fortalecimento, soma e transformação. Atua como Trend Forecaster e Estilista.

Mais informações em: https://linktr.ee/contrafluxopodcast

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