Por Daniel Zen e Fernando Sevá

Por duas oportunidades, em 2019, pudemos abordar o panorama da Economia nacional com análises de cenários a partir das projeções de indicadores econômicos diversos.

No artigo de 02/06/2019 analisamos os dados de retração do PIB no primeiro semestre bem como as projeções para o final do ano, com base em informações diversas, incluindo as do Boletim Focus. Tais análises apontavam para um “pibinho” com crescimento de apenas 1,2% em 2019 em contraponto às projeções iniciais de 2,8%. Nem mesmo a “fórmula mágica” de liberar R$ 28 bilhões de parte do FGTS para inflar as previsões pífias foi capaz de “estancar a sangria”, uma vez que o fechamento dos dados aponta para algo entre 0,89% e 1,3%.

Já no artigo de 21/07/2019 – apenas um mês e meio depois – analisávamos a frugalidade das comemorações diárias de Bolsonaro e sua equipe para com as sucessivas altas no Ibovespa, no sentido de que tal indicador positivo, sozinho, não representa muita coisa. Isso porque, diferente do que vinha ocorrendo em outros países, aqui no Brasil tal alta estava – e ainda está – dissociada de uma elevação na taxa de emprego e do próprio PIB, apontando para uma atividade positiva decorrente apenas das movimentações do capital financeiro especulativo sem lastro na Economia real nacional.

Nesse início de 2020, outros indicadores econômicos nos chamam a atenção pelos seus comportamentos descendentes, resultantes de uma política econômica desastrosa – porém, falaciosa, que esconde os seus verdadeiros e perversos efeitos com muita propaganda – prenúncio de um possível desastre que está por vir. Senão, vejamos:

1) Indústria: após dois anos de alta, a produção industrial recuou 1,1% em 2019.

2) Comércio: a balança comercial, depois de ter fechado 2019 com queda de mais de 25%, já inicia o ano com mais um recorde negativo: pela primeira vez em 5 anos tivemos déficit no mês de janeiro. No governo que iria negociar com o mundo todo perdemos muito mercado, demonstrando que a subserviência à Trump de nada adiantou. O varejo, por sua vez, teve o pior mês de dezembro dos últimos 7 anos.

3) Câmbio: com a saída constante e progressiva de capital estrangeiro o dólar por aqui tem ficado cada vez mais raro e mais caro, batendo recordes sucessivos, cotando acima de R$ 4,38 nas duas primeiras semanas de fevereiro. Dentre os países emergentes, o Brasil apresentou a maior desvalorização de sua moeda em relação ao dólar. Enquanto Japão, Rússia, México, Índia, África do Sul e Bolívia valorizaram suas moedas nos últimos 6 meses, o Brasil teve perda de mais de 11% no mesmo período.

4) Déficit no orçamento público: o falante ministro Guedes (Economia), que na campanha de 2018 e também em Davos no início de 2019 prometeu ao mundo que iria zerar o déficit orçamentário ainda no primeiro ano de governo acabou contando com muitos ovos que a galinha não pôs: o resultado ficou negativo em mais de R$ 95 bilhões.

5) Reservas internacionais: foram torrados R$ 10 bilhões em reservas internacionais para tentar conter a alta no câmbio e a queda de juros. Juros baixos são um bom sinal, para estimular o crédito, a circulação de moeda e inibir o rentismo. Mas, isso é positivo apenas até um certo limite…

6) Evasão de divisas: se os juros caem além da conta, promove a fuga de capital estrangeiro, que em uma economia com baixo coeficiente industrial, ainda se mostra importante. Prova é que houve fuga em massa de capital estrangeiro, demonstrando que até mesmo o chamado “capital sem pátria” não confiou no atual governo. O Brasil registrou, em 2019, a maior saída de dólares dos últimos 38 anos. Foram US$ 62,24 bilhões.

Entre tantos indicadores ruins nesse final de 2019, início de 2020, parece que o artifício de usar a exacerbação do Ibovespa, a baixa taxa de juros (que tem outras longas explicações) e a baixa taxa de inflação como o Maná da “Economia Falante”, de fato não encontrou guarida na Economia Real. Parece-nos que o Posto Ypiranga de Bolsonaro está ficando sem combustível.

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