O pedido de demissão do ex-ministro Nelson Teich (Saúde), com menos de um mês no exercício do cargo, colocou ainda mais lenha na fogueira de duas das mais significativas polêmicas criadas pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), desde que a pandemia de Covid-19, causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) aportou no Brasil: o uso da cloroquina na profilaxia e tratamento da doença; e a necessidade de isolamento social.

Não deveria haver polêmica em torno de protocolos médicos – e o respectivo uso deste ou daquele medicamento – ou sanitários, de natureza epidemiológica. Admitindo-se, porém, o dissenso e na ausência de consenso científico absoluto, deve prevalecer a posição da maioria da comunidade científica internacional. Senão vejamos:

O uso da cloroquina e da hidroxicloroquina já é adotado em determinados casos de Covid-19 e, em outros, já foi autorizado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), desde que tenha acordo entre o médico e o paciente. Isso se deve aos efeitos colaterais que o medicamento pode causar, isoladamente ou em interação medicamentosa com outras substâncias, ministradas simultaneamente. Cite-se o clássico exemplo da combinação de cloroquina com azitromicina, que pode causar arritmias. Se o profissional da medicina estiver diante de um paciente idoso, com histórico de doença cardíaca grave, por exemplo, é provável que reflita antes de decidir usar ou não tais medicamentos, assumindo os riscos pelos efeitos colaterais, caso decida afirmativamente.

O mesmo raciocínio se aplica aos antibióticos, como azitromicina, claritromicina e ceftriaxona, três dentre os mais usados em pacientes com Covid-19. E também aos antivirais, como o oseltamivir (Tamiflu); e aos anticoagulantes, como a enoxaparina (Clexane). O uso e, mais importante, a combinação de uso deles também depende de cada caso, sobretudo do histórico e estado clínico do paciente. Ou seja: a prescrição deste ou daquele medicamento depende do médico, do paciente e de cada caso.

Esse debate é, portanto, de natureza médica, de saúde pública, logo, não deveria estar sujeito à politicagens. Salvo naquilo que diz respeito à vacinas, fazer propaganda ou defesa de uso massivo de determinado remédio ou substância, cuja eficácia ainda não está plenamente comprovada, me parece temerário. Se o uso já está autorizado e o médico prescrever, o paciente toma e pronto. Politizar o uso de remédio, contra ou a favor, é uma estupidez e quem está politizando um assunto médico é, justamente, o presidente da República – até hoje não vi nenhum governador ou prefeito falando ser contra ou a favor desse ou daquele remédio – pois não é função de presidente prescrever remédio. Isso é função de médico.

A confusão toda se dá, portanto, porque o presidente – que não é médico – quer que seja adotada a prescrição em massa, para todos os pacientes. Isso levanta suspeitas sobre os interesses subjacentes, que estão por detrás dessa defesa intransigente quanto ao uso do medicamento. Quem ganharia dinheiro com a produção e uso em massa de cloroquina? Será que o Queiroz abriu uma fábrica da substância?

De igual modo, não deveria haver polêmica sobre o isolamento social, que fica ao encargo da decisão de governadores e prefeitos, medida necessária que, infelizmente, causa impactos negativos na economia e nos empregos. Talvez, se o nível de atendimento às medidas de isolamento tivesse sido maior desde o início, hoje já estaríamos falando em abertura. Quanto menor tem sido a adesão às medidas de isolamento social, maior o prazo da quarentena. Quanto maior for a obediência às medidas, menor tempo será necessário para sairmos do isolamento.

O pior de tudo é que, na maioria dos Estados e Municípios, não há plano de retomada à normalidade anterior: poderíamos estar debatendo a reabertura gradual de estabelecimentos e a retomada, ainda que parcial, de alguns serviços, desde que com controle de público, uso de máscaras, barreira sanitária de higienização na entrada e na saída de clientes (como já acontece nos supermercados) e outras medidas pertinentes. Mas, governos estaduais e prefeituras só estão, no mais das vezes, “copiando” medidas uns dos outros, sem nem mesmo ponderar se determinada medida se adequa ou não à realidade local.

Dessa forma, permaneceremos numa eterna discussão dos que são contra o isolamento e os que são a favor do isolamento; contra a cloroquina ou a favor da cloroquina; contra o presidente ou a favor do presidente; contra os governadores ou a favor dos governadores… O povo segue com baixíssima adesão às medidas de isolamento, os governos permanecem com lentidão extrema na expansão da malha de atendimento dos serviços em Saúde e, no final das contas, as únicas coisas que avançam são os números de infectados e de mortos.

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