Foto: Divulgação Netflix

Não ia falar ou escrever nada sobre o polêmico “Especial de Natal” do grupo humorístico “Porta dos Fundos”. Confesso que não sou fã da turma. Gosto do Gregório Duvivier, não acho o Fábio Porchat engraçado e só resolvi assistir ao episódio por conta da polêmica. Eu não tenho o hábito de assistir a vídeos de humor.

Nessa terça-feira (25) de Natal, porém, me surpreendi com o ataque contra a sede da produtora responsável pelos programas, com a reivindicação da autoria por parte de um grupo de integralistas (Comando de Insurgência Popular Nacionalista) e, pior ainda, com a reação das pessoas nas redes sociais.

Lembrei-me, imediatamente, do episódio envolvendo o jornal humorístico francês Charlie Hebdo.

À época, 7 de janeiro de 2015, a redação do periódico satírico foi alvo de um tiroteio no qual doze pessoas foram mortas. A motivação do atentado seria a publicação de charges que retratavam Maomé de forma sarcástica. De pronto, todo mundo aqui no Brasil abarcou em seus perfis e avatares de redes sociais: ‘Je suis Charlie’ (‘Eu sou Charlie’; ou, ‘Somos todos Charlie’, em adaptação livre).

É provável que essa ‘solidariedade’ brasileira com o Charlie Hebdo tenha se dado, ao menos em parte, pelo fato de que nosso país não é muçulmano, as comunidade islâmicas e suas mesquitas, aqui no Brasil, se contam nos dedos.

Agora, em um país de absoluta maioria cristã, católica ou evangélica, no episódio em que Jesus Cristo foi retratado de forma debochada e – sacrilégio supremo – como um homossexual, a reação está sendo bem diferente da época do atentado ao jornal francês.

– ‘Jesus Gay? Não, aí já é demais!’, diria o fã do Porta dos Fundos que frequenta um dos milhares de templos das centenas de denominações neopentecostais ou a paróquia católica mais próxima;

– ‘Ah, mas esse Porta dos Fundos não poderia ter ofendido Jesus Cristo!’, disse a Dona Maria, tentando justificar o ataque terrorista à sede do grupo humorístico. A mesma Dona Maria que, em 2015, colocou o ‘Je suis Charlie’ no seu avatar do FB, sem nem mesmo saber falar francês.

Porém, se formos parar para analisar a questão de modo racional, não há nada com o que se ofender ou se emocionar. Vejamos:

Primeiro, vale ressaltar que não é a primeira vez que o Porta dos Fundos faz isso. Já o havia feito em outras situações, incluindo um outro ‘Especial de Natal’ anterior, em que Jesus era retratado como um bêbado, violento e grosseirão. Um Jesus alcoólatra não seria, de igual forma, ofensivo?

Fato é que, se você é cristão e se sente ofendido em ver Jesus Cristo retratado como gay, então devo dizer que você é homofóbico. Mesmo sem saber, achando ou afirmando que não é, você é. E homofobia, além de crime, não é compatível com os ensinamentos de Cristo. Nesse caso, você deve escolher outra religião, não-cristã, porque cristão mesmo, você não é.

Afinal, que diferença faria a sexualidade de Jesus? Aliás, nunca nem parei pra pensar nisso. Os ensinamentos de Cristo, o que ele pregou sobre a solidariedade, a compaixão, o perdão e o amor são questões tão densas que nunca deram espaço para que eu perdesse um segundo sequer das minhas reflexões espirituais em torno desse assunto. Ademais, a igreja que Jesus pediu para Pedro edificar deve estender a mão e abraçar os gays, as prostitutas, os pobres e demais marginalizados por essa sociedade consumista e excludente.

Sobre o grupo de integralistas, supostos autores do atentado, vale lembrar que o movimento nasceu em 1932, na esteira do fascismo italiano e do nazismo alemão. ‘Deus, pátria e família’ era o lema deles (foi daí que Bolsonaro copiou). Se cumprimentam com a expressão ‘Anauê’ (como o ‘Sig Heil’ dos nazistas) e usam a letra sigma (que equivale a suástica) no braço, adornando a manga de suas camisas verdes. Uma curiosidade: ‘Anauê’ quer dizer ‘Você é meu irmão’, em tupi-guarani. Um lema de fraternidade, usado para atacar irmãos.

O movimento, de espírito nacionalista, fez água após a descoberta, pelo mundo, das atrocidades cometidas por Hitler e seu nazismo alemão. Por essa razão, o seu fundador, Plínio Salgado, foi exilado pelo regime militar. Agora, após a ascensão de Bolsonaro, voltou à tona com uma força que não se previa. Isso sim é preocupante!

O vídeo em que eles reivindicam a autoria do atentado parece aqueles vídeos do Estado Islâmico e da Al Quaeda. Um atentado a bomba é um tipo de crime que deve ser coibido com o rigor da lei. E não um programa de humor, uma piada, que assiste e ri quem quiser, ainda mais se for sem graça.

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