O problema maior de Bolsonaro – além de suas estultices, de seu desprezo pela vida alheia e do festival de canalhices que se lhe despeja da boca diariamente – não é que não governe ou que governe mal. A questão é a quem interessa o seu (des)governo. Além de militares de alta patente, milicianos, traficantes de drogas, garimpeiros, grileiros, madeireiros ilegais, religiosos radicais e outros segmentos específicos da sociedade que se identificam com suas ideias bizarras e com sua visão distorcida de mundo – e que se beneficiam da desregulamentação estatal em suas respectivas áreas de atuação – o atual governo interessa muito aos ricos e poderosos, sobretudo aos membros dos pequenos baronatos do agro e dos mercados financeiro e imobiliário. Estes estão a sorrir, de orelha a orelha, afinal, essa diminuta minoria que vive da exportação de commodities, dos juros e da renda do capital não tem do que reclamar.

De um lado, enquanto a maioria do povo, que constitui a maior e mais modesta fração da população vê a inflação corroer, cada vez mais, o poder de compra de seu já combalido salário mínimo, os membros dessa elite comercial, industrial, imobiliária, financeira e agrícola do Brasil estão a encher as burras de tanto ganhar dinheiro. São estes os que constituem a maioria daqueles que comparecem às carreatas, motociatas e passeatas pró-Bolsonaro, pilotando suas Toyotas Hilux e suas Hondas CBX, para defender a manutenção de seus privilégios. Besta da classe média que, ao se identificar mais com aqueles que lhes exploram do que com aqueles que consigo são explorados, vai junto nesse banzeiro.

Mal se apercebem eles que os 33 milhões de famintos, filhos da ampliação do desemprego e da desigualdade social causadas por este governo são cada vez mais numerosos e estão cada vez mais próximos de si, batendo às suas portas. E não são apenas desempregados, mendigos, indígenas desaldeados, imigrantes e indigentes de toda a espécie, largados à própria sorte a esmolar nos semáforos ou nas portas dos restaurantes e supermercados de cada cidade brasileira. São também os estudantes, bolsistas, trabalhadores informais e trabalhadores assalariados, com cada vez menos condições de pagar e de arcar com os elevados custos da energia elétrica, do gás de cozinha, dos combustíveis, dos produtos da cesta básica e dos aluguéis, nos preços escorchantes em que atualmente se encontram.

Essa legião de famélicos, despossuídos e desvalidos de toda a ordem estão, cada vez mais, a estorvar a quietude dos que detêm o privilégio de poder dispor de ambientes exclusivos e socialmente assépticos, vedados ao povo de verdade: pobres, pretos e de periferia que, na ausência de melhores oportunidades, são legados aos postos de garçons ou serventes, porteiros ou vigias, garis ou frentistas, prostitutas ou ladrões. Sem contar os ativistas e defensores dos direitos das minorias excluídas, que tem suas vidas ceifadas e seus corpos vilipendiados, sob omissão do próprio Estado que os deveria proteger, mas que prefere anuir com o crime e acobertar os criminosos. Esse é o retrato da exclusão em um país gerido por essa mistura entre polícia e milícia, capitão e traficante, playboy e general.

*Daniel Zen é doutorando em Direito (UnB) e Mestre em Direito, com concentração na área de Relações Internacionais (UFSC). Professor Assistente-A, Nível 1 (licenciado), do Centro de Ciências Jurídicas e Sociais Aplicadas (CCJSA) da Universidade Federal do Acre (UFAC). Contrabaixista da banda de rock Filomedusa. Colunista do portal de jornalismo colaborativo Mídia Ninja. Deputado Estadual, em segundo mandato, pelo PT/AC. E-mail: [email protected]

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