Por Fernando Sevá e Daniel Zen

A comemoração quase que cotidiana do governo Bolsonaro sobre as altas no principal índice da bolsa de valores, o Ibovespa, carece de um olhar mais atento sobre a base real da economia, a atuação do mercado rentista e também sobre a própria confiança do mercado e da população no atual governo.

À primeira vista, observa-se que o Ibovespa cresceu mais de 14% esse ano, seguindo a tendência das demais bolsas mundiais como, por exemplo, a maior dos Estados Unidos, que cresceu mais de 15% até esta data, segundo o índice Dow Jones. Ocorre, porém, que na terra do Tio Sam, a bolsa segue sua trajetória para cima baseada na melhora significativa das taxas de desemprego (menor que 4%) e crescimento do PIB (acima de 3%), exatamente ao contrário do Brasil, onde estes mesmos índices têm apresentados pioras consecutivas ao longo do ano de 2019, já com o próprio governo admitindo um pífio crescimento da ordem de 0,81% para este ano.

O governo de uma nota só patina e gira ao redor da reforma da Previdência, recém aprovada em 1º turno na Câmara Federal, utilizando para isto do padrão da velha política do “toma lá, dá cá”, aquela que tanto combateu nos palanques e nas mídias sociais. A reforma, a exemplo da já conhecida reforma Trabalhista, tampouco irá impulsionar a economia nem no curto nem no médio prazo, pois servirá apenas e somente para transferir aos trabalhadores brasileiros a conta dos grandes devedores, como o senhor Luciano Hang, das lojas Havan, que mesmo devendo quase R$ 200 milhões de reais ao povo brasileiro se arvorou na defesa da reforma, salvadora para ele e alguns poucos amigos do Rei.

Ainda com relação ao impacto imediato na reforma da Previdência na Economia, este será nulo uma vez que a provável economia não poderá ser utilizada em investimentos públicos, pois desde o ano de 2016, com a entrada em vigor da Emenda Constitucional n° 95, o crescimento do orçamento está limitado apenas à reposição das perdas inflacionárias, sem crescimento real. Em síntese, o dinheiro tirado da população pobre servirá apenas para pagamento do serviço da dívida, indo diretamente ao bolso dos credores da União.

O governo não apresenta nenhum “pacote” ou ao menos uma única e simples proposta sequer de medida que vise a retomada do crescimento econômico. Ao contrário, ocupa todo o seu tempo com medidas supérfluas, irrelevantes, insignificantes e medíocres para a agenda de um presidente da República.

 

Coroando a falta de projeto e de rumo para a Economia o governo chega aos 200 dias com a tentativa “mágica” de usar a liberação de parte dos saldos do FGTS para estancar a queda nos indicadores. Esse remédio, também utilizado no governo Temer em 2017, alivia a dor mas não trata a doença, afinal de contas, vai retirar recursos da já combalida cadeia produtiva da Construção Civil para colocar no consumo de curto prazo.

A popularidade do Governo continua em queda livre, sem previsão para estancar, seja no âmbito geral da população – onde já é o governo pior avaliado da história, em se tratando de seu primeiro semestre, com apenas 33% de aprovação – quer seja no âmbito do próprio “mercado” – onde em pesquisa realizada pela XP Investimentos, no final de maio, já se apontava a queda de 84% para 14% de aprovação junto a seleto grupos de investidores, economistas e afins. Essa queda da popularidade junto ao mercado, em poucos meses, demonstra a desconfiança pelo lado “de dentro” do sistema, reforçado pelo lado “de fora”, como as vaias entoadas no Maracanã, na final da Copa América.

Na contramão de tais fatores, o governo não apresenta nenhum “pacote” ou ao menos uma única e simples proposta sequer de medida que vise a retomada do crescimento econômico. Ao contrário, ocupa todo o seu tempo com medidas supérfluas, irrelevantes, insignificantes e medíocres para a agenda de um presidente da República, tais como desobrigar o uso de cadeirinhas para crianças em veículos automotores, retirar radares de trânsito das estradas, dispensar turistas americanos da obtenção de visto de entrada no Brasil, levar o GP Brasil de Fórmula 1 de São Paulo para o Rio de Janeiro, aumentar o prazo de validade das carteiras de motoristas, mudar as cores das capinhas dos passaportes e carteiras de trabalho, pretender indicar um ministro evangélico para o STF, ameaçar extinguir a Ancine se a agência não puder ter “filtros” culturais ou, a última e mais absurda de todas delas, indicar o próprio filho, um reconhecido néscio, verdadeiro beócio, para assumir o posto máximo da diplomacia no exterior: a embaixada do Brasil nos EUA.

Enquanto o próprio presidente e sua família se aboletam nas regalias e benefícios dos cargos públicos que ocupam, 13 milhões de brasileiros desempregados aguardam por medidas efetivas, eficientes e eficazes do governo para sair da lama; 12,7 milhões de brasileiros passarão a se ver privados do direito ao abono salarial (mais da metade dos atuais beneficiários) com a aprovação da reforma da Previdência; e outros milhões passarão a se ver privados de remédios básicos, cujos subsídios para fabricação e distribuição gratuita acabam de ser cancelados. E o presidente ainda se dá ao trabalho de afirmar que não existe fome no Brasil, nem mesmo nos Estados do nordeste, a cujo povo ele chamou de “paraíbas”.

É o governo onde os pobres ficam mais pobres e os ricos, cada vez mais ricos.