Imagem: Rapha Baggas / Design Ativista

A internet e os smartphones são duas das maravilhas do mundo contemporâneo. A dupla é responsável pela democratização do acesso à tecnologia e à informação de modo portátil. Uniu acessibilidade com portabilidade. Onde quer que se vá, desde que haja cobertura de rede, você pode acessar ou compartilhar conteúdos, dados, informações… Inclusão digital passou a ser entendida como direito ou garantia fundamental e, cada vez mais, requisito para o exercício da cidadania plena.

Porém, com a mesma intensidade de seus benefícios, o efeito colateral da dupla é a proliferação, em escala global, da informação de péssima qualidade e, muitas vezes, inútil.

Uma pessoa que na era pré-internet nunca lia livros, jornais ou revistas; que não tinha o hábito de frequentar bibliotecas; que não era dado a assistir a filmes ou peças de teatro; que era um péssimo aluno, na escola ou faculdade… Diante das possibilidades que esse binômio tecnológico confere a um indivíduo assim, você acha que ele vai fazer o quê? Visitar o acervo on-line da Biblioteca Nacional ou do Museu do Louvre?

Nananina, não. Um indivíduo assim, rude por opção (e não por falta de oportunidades), vai permanecer tosco, ogro, rupestre. Ele vai aproveitar o potencial desse Colosso de Rodes apenas para ler as mensagens de Whatsapp, disparadas em grupos da família, do trabalho ou dos amigos da pelada, acreditando em um monte de bobagens como se verdade fossem. No máximo, vai jogar Candy Crush, Farm Heroes (no caso dos que têm mais idade) ou Free Fire (para os jovens herdeiros do Counter Strike).

Esse é o tipo de gente que acredita que o hambúrguer do McDonalds é feito de carne de minhoca; que o óleo de canola é cancerígeno; que se você receber uma corrente e não enviar para 10 amigos algo terrível irá se abater sobre a sua cabeça; que o nazismo era de esquerda; que existe mamadeira de piroca e kit gay; que a Terra é plana; que o Olavo de Carvalho é um filósofo de verdade; que o Bolsonaro não empregava parentes no gabinete parlamentar seu e dos seus filhos; que não cobrava rachadinha de seus funcionários fantasmas; que não tem nada a ver com o laranjal do PSL; que não tem envolvimento com a máfia das milícias que controlam o narcotráfico no Rio de Janeiro e que assassinaram Marielle Franco e Anderson Gomes e por aí vai.

A “arché” não vai se abater sobre a cabeça dos incautos automaticamente, como que em um passe de mágica, a partir da mera posse de uma potente ferramenta tecnológica ou porque se tem um perfil no Facebook, no Instagram ou uma conta no Whatsapp. É como na metáfora de uma Ferrari pra quem não sabe dirigir.

Mas, não estou falando apenas de saber ou não saber usar uma ferramenta tecnológica, de modo funcional. A lógica aqui não é meramente instrumental, utilitarista. É saber usar sim, mas, para fins edificantes, tanto do indivíduo quanto da sociedade. Usar para o bem e não para disseminar o mal, propagar porcarias, lixo eletrônico que se prolifera aos borbotões com o uso de táticas criminosas de guerrilha digital que envolvem exércitos virtuais de robôs, bots, trolls, perfis fake e haters em geral.

As fake news de hoje, disparadas em grupos de whatsapp, são as correntes de e-mail de ontem. Os velhos boatos de anteontem. O que muda é a escala, o poder de alcance e de consequente devastação que elas têm hoje. Afinal, na época dos boatos, era na base do boca-a-boca, da ‘Rádio Cipó’. Na era do e-mail, era necessário ter um desktop, laptop ou notebook para acessá-los. Também era caro ter acesso frequente à rede, quer fosse em casa ou em uma lan-house. Hoje, é gigantesco o percentual da população que possui um smartphone com pacote de dados 4G.

Em artigo publicado em 24/11/2019, assinalei que “é preciso cautela na hora de dimensionar a importância de certos modismos e até mesmo das redes sociais na política e para o exercício da democracia. É necessário compreender a importância e saber manejar tais ferramentas. Mas, o resultado do Brexit, das últimas eleições presidenciais norte-americanas e das eleições presidenciais brasileiras de 2018 são exemplos de como as redes sociais podem constituir (…) uma arena propícia a fraudes, trapaças e trambiques digitais”.

Os recentes vazamentos a respeito da ação criminosa da empresa Cambridge Analytica, do mafioso Steve Bannon, em processos eleitorais ao redor do mundo, comprovam isso.

A mistura entre ignorantes, acesso a tecnologia e má-fé de quem a domina e utiliza para ludibriar os primeiros é bombástica. É nitroglicerina pura. Tão devastadora quanto os drones dos EUA e os mísseis do Irã.

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