Por Arnaldo de Castro / História Oral

Não há dúvidas que a escola é um dos ambientes mais propícios para a propagação do Sars-cov-2. São centenas, em alguns casos milhares de estudantes compartilhando o mesmo espaço em dois ou três turnos, com uma rotatividade muito grande de profissionais, colaboradores e estudantes todos os dias.

A rede pública do Distrito Federal conta com cerca de 400 mil crianças e adolescentes ocupando diariamente esse espaço. Mesmo em tempos de normalidade, as queixas sobre a condição do espaço físico das escolas são rotineiras: não têm espaço suficiente, contam com salas super-lotadas e não apresentam condições adequadas de higiene (banheiros quebrados, pouca disponibilidade de torneiras e bebedouros, falta recurso para materiais de limpeza e reformas, dentre tantas outras falhas).

Em meio a essa realidade, eis que eclode a mais complexa crise sanitária do século XXI, a Pandemia da Covid-19. Praticamente a totalidade dos países do globo foram afetados e medidas de restrição de circulação de pessoas foram tomadas em todas as partes. No Distrito Federal, acertadamente, o governador Ibaneis Rocha suspendeu as atividades escolares assim que tomou conhecimento da presença do vírus na Capital Federal. Isso foi fundamental para a contenção da curva de contaminação. Por certo, de maio a setembro, o único setor que cumpriu, rigorosamente, as recomendações de isolamento foram as escolas.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Diante essa situação, fica óbvio que a suspensão das aulas presenciais é uma medida sanitária mais que necessária, é fundamental para a contenção da contaminação da população pelo Sars-Cov-2. O que causa perplexidade não é a necessidade do isolamento nas escolas, mas sim a tentativa de desmoralização da categoria dos e das profissionais da educação por parte de empresários e do governo.

Em junho, foi publicada uma postagem no facebook (posteriormente apagada) na conta pessoal do Presidente do sindicato das Escolas Particulares do Distrito Federal, Álvaro Moreira Domingues Júnior, afirmando que as e os professores são covardes por apoiarem o isolamento. Nessa postagem, não deixou de atacar, principalmente, as escolas públicas.

Em editorial publicado no dia 17 de setembro o jornal de circulação nacional Folha de São Paulo, afirmou que “governantes devem afastar-se da tentação política, em ano eleitoral, de manter as escolas fechadas para não desagradar sindicatos de professores”, nessa publicação, inescrupulosamente, o jornal inverte a culpabilização, tirando do governo e da própria pandemia a responsabilidade pelo isolamento e jogando para os sindicatos de professores a culpa pela continuidade da suspensão das aulas presenciais. Mentindo descaradamente, a Folha de S. Paulo afirmou que as experiências internacionais indicam que a volta às aulas não aumentou a curva de contágio.

Por fim, em live (veja o trecho), o Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro não deixou de expor sua opinião. Criticou a suspensão das atividades escolares (ainda que sem fundamentação científica alguma), e em consonância com o empresariado e o jornal Folha de São Paulo, desferiu ataques contra os sindicatos, e na tentativa de retirar de si a responsabilidade pelas mais de 130 mil mortes no país e os efeitos negativos para a economia brasileira por causa das medidas insuficientes de contenção da crise pandêmica, culpabilizou profissionais da educação pelo prejuízo a crianças e adolescentes em relação ao ano letivo.

Não é novidade que a direita brasileira tem professoras e professores como inimigos. Isso ficou ainda mais explícito com o avanço de discursos de ódio difundidos em larga escala por aplicativos de mensagens instantâneas (sobretudo o Whatsapp) e a ampla campanha de desmoralização de educadores e servidores públicos empreendidas pelo Governo Federal. O Ministro da Economia Paulo Guedes, por exemplo, não poupa adjetivos, na mais conhecida declaração sobre servidores públicos feita pelo ministro, os chama de parasitas.

A realidade é outra! Professoras e professores têm se dedicado inteiramente e concentrado esforços contínuos para minimizar os danos causados pela suspensão das atividades escolares presenciais.

No Distrito Federal, desde o retorno em regime de teletrabalho, tanto a população, quanto profissionais da educação se sentem abandonados à própria sorte. Sem qualquer suporte técnico para o teletrabalho, profissionais se desdobram, transformam suas casas em mini estúdios de gravação de vídeo, usam seus próprios recursos e aprendem a lidar com ferramentas jamais incentivadas (seriamente) pela Secretaria de Estado e Educação do Distrito Federal, como a plataforma virtual Google Sala de Aula.

Os cursos de formação foram elaborados e disponibilizados de última hora pela Subsecretaria de Formação Continuada dos Profissionais da Educação (EAPE) e entendendo a emergência da situação, professores e professoras passaram a dedicar horas de trabalho, muito além das 40 horas semanais estabelecidas pelo regime de contratação do serviço público, no intuito de se reciclar, aprender e desenvolver novas metodologias de ensino e aprendizagem.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

É bom ressaltar que as equipes gestoras das unidades escolares tem sido enfática, pedindo encarecidamente para que profissionais da educação não excedam o horário de trabalho, mas é impossível produzir as atividades, manter a burocracia em dia, aprender novas tecnologias e acompanhar o ensino e aprendizagem dos e das estudantes dentro do regime normal de 40 horas de trabalho. Qualquer profissional da área audiovisual sabe que 10 minutos de produto final em vídeo exige horas de gravação e edição, para tanto, é necessário computador com boa capacidade de hardware e conhecimento de softwares que não são rotineiros na utilização diária do usuário comum de informática. Imagine aprender isso em poucas semanas e tendo uma defasagem tecnológica incorrigível devido a falta de recursos para obtenção de equipamentos!

É com isso que lidamos, é essa a realidade do teletrabalho!

É desanimador, desrespeitoso e incrivelmente cruel a campanha de desmoralização da atividade docente. Não por acaso, é uma das profissões que mais causa desinteresse entre aquelas e aqueles que buscam uma formação superior. Estamos em um ringue, um campo de batalha, uma guerra aberta e assimétrica, é um combate entre Davi e Golias, o sindicato é nossa Funda e temos nossas 5 pedras no alforje: a coragem de não nos rendermos, a vontade de desempenhar nossas atividades com excelência, o afeto e reconhecimento de nossa importância pela população, a solidariedade de responsáveis, pais, mães e estudantes e a coesão da categoria em torno da nossa entidade representativa.

Em geral, a categoria de professores é contra o retorno das atividades presenciais, não por preguiça de trabalhar, pois, nossas atividades no teletrabalho são mais exaustivas e demandam mais tempo nesse regime de prestação de serviço. Temos compromisso com a defesa dos interesses de nossos e nossas estudantes, queremos preservar a saúde e a vida, estamos preocupados e preocupadas com as famílias que estarão em risco. Entendemos que nenhum prejuízo é maior que perder a vida. Muitas perdas podem ser reparadas, a morte é irreversível.

É sufocante ver os grandes meios de comunicação, com seus interesses privados, apoiarem o retorno das atividades presenciais. A única forma de combater a narrativa que criminaliza professores e professoras é a união da categoria. Não podemos deixar que o interesse financeiro de uma minoria coloque em risco milhões de famílias, é inaceitável que o lucro de poucos se sobreponha à vida da maioria.

Precisamos lutar pela defesa da Educação, da Vida, da Atividade Docente e por cada Professora e cada Professor do Brasil! Em tempos de normalidade, essas palavras seriam óbvias, mas nesse momento, em que a sociedade está sendo corroída pelo vírus do ódio, a sensatez se torna uma ferramenta revolucionária.

Arnaldo de Castro é Mestre em História pela Universidade de Brasília, professor da Secretaria de Estado e Educação do Distrito Federal e Integrante do Projeto História Oral podcast.

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