Por Humberto Ribeiro

Conforme revelaram recentes investigações da Polícia Federal, nos dias que antecederam o fatídico 8 de janeiro, data dos infames ataques às sedes dos Três Poderes, grupos extremistas usaram as redes sociais, o Telegram e o Whatsapp para divulgar o que batizaram de “Festa da Selma”. Alusão à Selva – expressão usada por militares brasileiros – o código era uma artimanha de bolsonaristas para combinar as últimas etapas da invasão terrorista, incluindo convites, organização de transporte e instruções detalhadas para os ataques. O resto é história.

História e aprendizado. O que aconteceu em 8 de janeiro e a estratégia de disseminação dos planos terroristas e antidemocráticos demonstraram o quão importante é o monitoramento das redes de desinformação e discursos de ódio para o país se prevenir para que episódios desse tipo não se repitam. Combater a desinformação, um dos grandes desafios do nosso tempo, requer entender como ela funciona e os mecanismos com que essas redes de produção e disseminação operam.

Essa convicção motivou o lançamento, em agosto, do projeto #DeOlhoNoZap, iniciativa do Sleeping Giants Brasil destinado a receber, de cidadãs e cidadãos usuários de internet, via WhatsApp a qualquer hora, denúncias e alertas de notícias falsas. Toda desinformação recebida passou a ser repassada para as autoridades responsáveis. Foi um projeto concebido a partir das lições de um longo trabalho desenvolvido desde o período eleitoral de 2022, quando iniciamos o projeto Fiscaliza Político – por meio de monitoramento das redes e um potente diálogo com nossa comunidade de usuários, cooperamos na supervisão das leis eleitorais vigentes no que diz respeito ao combate à desinformação. O canal de denúncias #DeOlhonoZap foi fundamental para identificar as narrativas em circulação e os atores por trás da divulgação.

Foram mais de 4 mil denúncias desde então. E, no 8 de janeiro, a união entre a comunidade SGBR e o #DeOlhonoZap coletou mais 2 mil denúncias que serviram de material para investigação dos financiadores, participantes e responsáveis pelos atos terroristas antidemocráticos. A partir de agosto, estendemos e a aprofundamos o projeto, melhoramos os processos e automatizamos a coleta e encaminhamento de denúncias para receber muito mais.

Queremos ir além. Portanto, reafirmamos aqui um convite a você: viu uma fake news no grupo do Zap? Assistiu a um vídeo com mentiras no TikTok? Passou em sua timeline uma informação claramente manipulada? Mande para nós pelo link http://sgbr.me/DeOlhoNoZap e apoie essa missão que precisa ser de toda pessoa democrata. Olhamos especialmente para 8 eixos que nos parecem fundamentais para o Brasil de hoje: racismo contra a população negra; meio ambiente e povos originários; saúde; segurança pública; ataques às instituições democráticas; mulheres; comunidade LGBTQIAP+; e crimes virtuais (incluindo incitação à automutilação, suicídio e ataques às escolas, cooptação de menores e exploração sexual infantil).

Cada denúncia será cuidadosamente revisada por uma equipe de pesquisadores de diversas áreas, que avaliarão sua veracidade e impacto. A partir daí, as denúncias serão encaminhadas para as ações adequadas e necessárias.

Diante da velocidade vertiginosa das mudanças digitais, frente à intensidade do fluxo de (des)informação das redes sociais e ferramentas como WhatsApp e Telegram, três anos representam uma longa história. E muitos aprendizados. Há três anos o Sleeping Giants Brasil surgiu, fundado por três jovens como um capítulo nacional de um movimento presente em 16 países – todos em busca de soluções para os problemas das fake news e do discurso de ódio. Rapidamente nos convertemos na maior operação do Sleeping Giants no mundo.

Sinal evidente de que não estamos sós. Há uma comunidade vasta e engajada na mudança de como trabalhamos com a tecnologia, com potencial para, assim, desafiar as expectativas do presente e moldar o futuro da informação. Capacitar nossa comunidade a ser parte da solução para o desafio global da desinformação é um norte necessário e uma ambição factível. O #DeOlhoNoZap mostra isso. E, por outro lado, é um projeto que representa uma reviravolta na narrativa habitual de apontar o dedo para o WhatsApp, encarando-o como um veículo de desinformação. Não é. Não pode ser. Ao contrário, pode se transformar numa poderosa ferramenta de escuta ativa da sociedade social e um meio pelo qual promovemos a participação social e o engajamento cívico em torno de um dos maiores desafios do nosso tempo.

Vem com a gente?

Humberto Ribeiro é advogado, cofundador e diretor jurídico e de pesquisas do Sleeping Giants Brasil.

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