A comovente história do indígena povo Zo’é, que carregou por 6 horas seu pai idoso para tomar vacina, e ganhou o mundo na lente fotográfica de Erik Jennings

Foto: Erik Jennings

Por Marcos Colón*

“Zo’é” quer dizer “nós”. É com este termo da língua do povo, pertencente ao sub-ramo VIII da família linguística Tupi-Guarani que os povos da etnia Zo’é se diferenciam dos “kirahis”, os não-indígenas.

“Se uma imagem vale mais do que mil palavras”, dizia o escritor brasileiro Millôr Fernandes, “então diga isto com uma imagem”. Foi o que fez o médico neurocirurgião Erik Jennings Simões em janeiro de 2021 ao fotografar o jovem indígena Tawy Zó’é, de 24 anos, carregando nas costas o pai, Wahu Zó’é, de 67 anos, para ser imunizado contra Covid-19.

Tawy vem dos Zó’es— um povo de recente contato com cerca de 300 indígenas que vivem no noroeste do Pará, perto da fronteira com o Suriname, em uma área de 668,5 mil hectares, de acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai). Tawy andou mais de seis horas entre subidas e descidas para vacinar o pai idoso, que tem problemas de saúde.

A imagem foi tirada faz um ano, mas só foi compartilhada por Jennings no início de 2022 quando viralizou. Como o próprio neurocirurgião explicou, em entrevista à BBC News Brasil, sua intenção foi passar uma mensagem positiva no início do ano. Foi também uma forma de tentar mandar uma mensagem do povo Zó’é, porque eles sempre perguntam se o branco está se vacinando e se a covid-19 já acabou.

A polissemia da foto dos dois Zó’és é ainda mais poderosa quando se considera as fatais políticas públicas escolhidas pelo governo federal de Jair Bolsonaro (PL) para enfrentar a pandemia. No momento capturado pela câmera, misturam-se esperança com indignação, perseverança com morte.

As primeiras impressões, movidas pela esperança, foram de admiração pelo afeto e força de vontade do jovem. O desejo de proteger seu pai e sua gente faz com que Tawy seja um contraponto simbólico ao presidente Jair Bolsonaro (PL), que fez e (ainda faz) de tudo para desestimular a vacinação da população e as medidas de proteção sanitárias de indígenas.

O simbolismo é mais poderoso considerando que a palavra “Zo’é” significa “nós”, distintamente de “kirahis”, os não-indígenas, as pessoas que não são daqui. Ao mesmo tempo que Tawy carrega o pai em suas costas, ele carrega nossa pequena, senão minguante esperança de um futuro nacional afastado do ódio e da bile.

 

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Observada por um viés antropológico, a imagem afasta o equívoco de que os Tupis abandonam os velhos à própria sorte. O que se viu foi que, os anciãos, são carregados (literalmente) pelos mais novos. É uma imagem de eloquente amor entre pai e filho, de quase mover montanhas para assegurar a melhor prevenção possível contra o vírus. Para uma sociedade que frequentemente esquece da importância dos mais velhos, a foto transmite o apreço deste povo indígena aos seus anciãos. A magnanimidade do gesto é tão grande quanto a significância dos idosos.

Em uma mensagem mais importante, a foto de Jennings testemunha a escassez de recursos destinados aos indígenas em território brasileiro pelo governo federal. Caso Tawy não fosse capaz de carregar o pai, quem garante que a vacina chegaria até ele? Contudo, o povo Zo’é, em decisão conjunta com a equipe médica na área por mais de uma década, reinventou estratégicas de prevenção à pandemia levando em conta sua cultura, modos de vida e seu território protegido.

É fato conhecido que o governo de Jair Bolsonaro enfrenta denúncias de genocídio contra os povos originários. Já são ao menos seis denúncias no Tribunal de Haia, enviadas por grupos de advogados, indígenas, ativistas e políticos. São denúncias em relação às políticas colocadas em práticas pelo governo federal, como negação de água potável, vistas-grossas à invasão de grileiros e madeireiros, distribuição de remédios ineficazes para combater a pandemia.

A visão de Tawy carregando seu pai é agridoce. Na presença do afeto entre pai e filho, percebe-se um Estado insuficiente, que obriga que indígenas sejam advogados de si mesmos e dos seus para fazer valer seus direitos.

Apesar do Estado, personificado na pessoa do presidente Bolsonaro, se esforçar ao máximo para a população não se vacinar, Tawy e seu pai se vacinaram, como 67,86% da população brasileira.

Os Zo’é sobrevivem pela sua resiliência, apesar do governo. A dinâmica deste povo, que já passou por outras dificuldades sanitárias ao longo dos anos, baseia-se na capacidade de adaptação. Durante a pandemia não foi diferente. Foi uma estratégia própria, não somente de sobrevivência, mas de bem viver. Eles não foram impedidos de estarem felizes em seus territórios.

(*) Marcos Colón coordena o Programa de Português no Departamento de Línguas Modernas e Linguística da Universidade Estadual da Florida e é diretor do documentário “Beyond Fordlândia”. Colón é doutor em estudos culturais pela Universidade de Wisconsin-Madison.

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