O que eu mais tenho sentido falta neste quase um ano de mudança total na vida por conta da pandemia de coronavírus é de gargalhar. Não há nada mais libertador do que o riso. Tanto que ele pode ser de várias formas: leve, irônico, mas nada se compara ao estrondar de uma boa gargalhada. E a perfeição deste recurso não é uma arte acessível a todos. É preciso método. Na Bahia, tanto na capital como no interior, a gargalhada potente deve vir acompanhada de uma sofisticada expressão corporal: mãos na cintura – chamada também de posição de bule-, a cabeça meio inclinada para trás e um certo bambolear do corpo, além de se ter ciência sobre o tempo perfeito para fazer o riso ecoar. Essa é a melhor arma em qualquer discussão, principalmente se você está diante de uma demanda de luta.

Roberto Albergaria, um grande amigo e fantástico intelectual, que infelizmente já partiu deste mundo- e imagino que estaria extremamente angustiado se aqui ainda estivesse- foi quem me iniciou na reflexão sobre o poder avassalador da gargalhada. Ele sempre me lembrava que qualquer poder autoritário morre de medo do riso porque quando a gente consegue rir significa que perdemos o medo. Em uma das vezes me deu como exemplo desta potência do riso o filme “O grande ditador de Charles Chaplin” onde ele ridiculariza Adolf Hitler.

Era o sinal para o mundo de que o mal encarnado naquele homem possuía a fragilidade humana, portanto, estava passível de ser derrotado apesar da dimensão e eficiência das suas atrocidades. Alguns anos depois dessa conversa com Albergaria encontrei uma reportagem do período em que a Segunda Guerra chegava perto de acabar com o título: “Hitler está velho e gordo”. O texto fazia descrição sobre uma aparição de Hitler em um bar numa tentativa, hoje sabemos desesperada, de manter o discurso de que iria vencer.  Atualmente temos certeza que ser velho ou gordo não é demérito, óbvio, mas na linguagem do período essa era uma forma de destacar a sua decadência.

Perda

O Brasil já não tem mais capacidade de gargalhar. Perdemos essa habilidade de forma coletiva. Nós não conseguimos rir de nós mesmos e nem de tudo sem um travo de ódio, de cansaço e de desespero. E aqui está a percepção que tem me preocupado. Não compartilho e nem sinto falta da nossa versão estereotipada de “povo alegre”, mas da capacidade, em alguma medida, de quando vivemos uma situação insuportável partirmos para o deboche, que gera a gargalhada e ridiculariza um poder estapafúrdio e que agora mata por asfixia não mais de forma alegórica, mas concreta, como foi no caso da incompetência e negligência que levou à falta de respiradores para o Amazonas.

Estamos assistindo a um massacre de várias camadas do povo brasileiro e não saímos do torpor raivoso. Disseminamos a nossa revolta em bytes, megabytes, em caixas de comentários, mas até os nossos memes estão mais tristes. Não tem vacina, sobra negacionismo e cobrança do mercado para fazer funcionar instituições e equipamentos passíveis de contaminação de quem é mais vulnerável, como os bares e shoppings.

Reação

Estamos aterrorizadas e aterrorizados pelo mal em seu estado mais brutal como até então, pelo menos a minha geração, não tinha visto. É como na última temporada da série O Mundo Sombrio de Sabrina, que considero muito competente na tradução de tantas das nossas narrativas filosóficas e teológicas sobre o que é o mal. Na última temporada, Sabrina, sua família e aliados precisam enfrentar a chegada de uma ameaça que pode levar o mundo ao fim. É a famosa distopia em que o horror se apresenta em sua forma sobrenatural, mas que vamos aprendendo e conferindo o quanto ele começa, na verdade, a partir dos humanos. As forças sobrenaturais que movem a história da série são poderosas, mas não teriam sequer cogitado agir se não fosse a ganância e a busca de poder dos vilões da história que são pessoas comuns, óbvio que capazes de manipular poderes, afinal é uma narrativa que explora a fantasia.

No caso brasileiro, quem precisa de um mal em forma espiritual para inspirar um governante que debocha de mortes ou seus seguidores que fazem gracinha com algo brutal como é perder alguém para qualquer doença? A covid-19 tem o requinte da crueldade ´de solidão em vários níveis. Doente e seus familiares ficam afastados; a dor se mistura ao desespero pela espera do boletim que nem sempre chega. O funeral, algo tão caro à nova vivência emocional e cognitiva, afinal lembrar de quem vem antes é tão antigo quanto a nossa condição de “humanidade” ocorre sem ritos, sem velório, sem luto e sem a possibilidade de sentir a despedida em sua extensão. Sepulta-se o corpo no horário que for possível devido às regras de segurança sanitária, inclusive no início da madrugada. Se é terrível para descrever, imagine quando se vê tudo isso de perto.

Daí que o sentimento mais comum de quem está encarando essa pandemia de muito perto é de ira diante de um governo irresponsável e cruel e gente que o aplaude ou apoia para ganhar benefícios vários. E nós queremos expressar o ódio ao extremo e assim reforçamos o triunfo desse mal que se alimenta exatamente desses sentimentos devastadores. Vamos, portanto, mergulhando mais e mais no abismo que estes desejam construir e sedimentar para controlar.

Todos os projetos de poder autoritário, ao longo da história brasileira, construíram suas narrativas no estímulo ao ódio e tentativa de banir o que faz rir. Não à toa que essa história de defesa da moral e dos bons costumes volta e meia nos assombra. É a desculpa para a censura e tentativa de controle sobre o que assusta os arautos do ódio devido à potencialidade de nos fazer despertar e reagir.

Por isso meu desespero com a nossa cada vez maior incapacidade de lançar mão do deboche e da gargalhada para mostrar o quão ridículos são esses agentes do mal. Há muito de burlesco e patético nos seus discursos de qualquer natureza e origem. Dizer que um deus está punindo a humanidade inteira por conta de um desfile de escola de samba no Rio de Janeiro é submeter essa deidade em que dizem acreditar à indignidade da própria baixeza dos seus seguidores. Imagine que deus desceria da sua onisciência, majestade e onipotência por algo tão mesquinho? Aliás, os deuses sabem bem o quanto a alegria é necessária. Já viu alguma religião prescindir da música, da dança e da comida para subsistir? Nunca. Inclusive algumas lucram muito com a estética, ou alguém não sabe do poder do segmento gospel na indústria fonográfica?

Precisamos colocar nos nossos protestos esse humor visceral que não é o mesmo de ofender como alguns pensam. Precisamos da força do riso como ele foi dissecado em seu poder na narrativa maravilhosa de Umberto Eco em O Nome da Rosa. Refiro-me ao livro porque o filme de Jean Jacques- Annaud teve que se virar para dar soluções adequadas às exigências da transposição para o cinema de uma obra cheia de camadas, assim como a flor a que faz referência no título.

A discussão sobre o riso e o medo que alguém autoritário tem dele a ponto de promover ações monstruosas para suprimi-lo, é, para mim, uma das melhores passagens da obra de Eco. O discurso do frei Guilherme de Baskerville (ou William dependendo da tradução) ao se deparar com o mentor dos crimes hediondos ocorridos no mosteiro ( e que vou omitir o nome para não atrapalhar o prazer de quem ainda não leu o livro) é magistral:

-Tu és o diabo, disse então Guilherme
Eu?

Sim, mentiram-te. O diabo não é o príncipe da matéria, o diabo é a arrogância do espírito, a fé sem sorriso, a verdade que não é nunca presa da dúvida. O diabo é sombrio porque sabe por onde anda e, andando, vai sempre por onde veio. Tu és o diabo e como o diabo vives nas trevas. Se querias convencer-me, não conseguiste. Eu te odeio e se pudesse eu te conduziria, pela esplanada abaixo, nu, com penas de aves enfiadas no buraco do cu, e a cara pintada como um jogral e um bufão, para que todo o mosteiro risse de ti, e não sentisse mais medo.

Por isso essa gente que só odeia e tem compulsão de morte foge da beleza, treme diante da arte e não consegue rir se não for para odiar e ferir. Mas o riso tem poder para espantar esses semeadores do desespero. Em sua perfeição, que é a gargalhada, é ainda mais capaz de lançar luz, desmontar certezas, confundir quem acha que está com a verdade e mostrar caminhos . Que a gargalhada ressoe como arma de luta, que nos inspire e nos faça encontrar a saída desse labirinto de desesperança.

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