Que manchete um jornalista daria para essa notícia?

Que manchete um jornalista daria para essa notícia?

Vamos aos fatos. Na manhã dessa quinta-feira, 07 de novembro de 2019, o jornalista Glenn Greenwald, editor do site The Intercept Brasil foi aos estúdios da Rádio Jovem Pan, em São Paulo para participar do programa Pânico.

Ao chegar lá, ele descobre que o outro entrevistado é o jornalista Augusto Nunes, que no início de setembro havia atacado a sua família. Na ocasião, Nunes disse que: um juiz de menores deveria investigar quem é que cuida dos filhos dele e do deputado David Miranda.

Esses são os momentos antes da agressão de Augusto Nunes contra Glenn Greenwald. Nunes constantemente insinua que os…

Posted by Mídia Ninja on Thursday, November 7, 2019

De forma educada e corajosa, Glenn aproveita o encontro com Nunes para dizer, ao vivo, que considerou o ataque contra sua família algo covarde, que nunca na sua vida como jornalista foi alvo de uma atitude tão feia, principalmente vinda de outro jornalista. Augusto Nunes ouve e parte novamente para o ataque e finalmente para a agressão. Claro, ao ser agredido, Glenn levanta e se defende. Então uma pessoa da equipe afasta Nunes de Glenn. Basta assistir ao vídeo, o relato — sempre um relato já que eu escolhi as palavras e os lances do acontecimento para resumir o que ocorreu — é mais ou menos esse.

Que manchete um jornalista daria para essa notícia? Não dá para dizer que há uma única manchete possível, mas há algumas mais evidentes. Glenn é agredido por Augusto Nunes em entrevista. Ou Augusto Nunes agride Glenn durante entrevista.

Mas não foi exatamente assim que Folha e Estadão fizeram.

Chamada de Capa do site do Estadão – Augusto Nunes e Gleenwald brigam em programa ao vivo.

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Folha no Twitter – Jornalistas Augusto Nunes e Glenn Greewald trocam socos em programa.

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Como uma agência de checagem de fatos etiquetaria essas manchetes?

Vamos usar as classificações de duas agências de checagem – Lupa e Aos Fatos. As etiquetas da Lupa são: verdadeiro, verdadeiro mas, ainda é cedo para dizer, exagerado, contraditório, subestimado, insustentável, falso. Já, a Aos Fatos trabalha com as seguintes classificações: verdadeiro, impreciso, exagerado, contraditório, insustentável e falso.

Já falamos aqui nessa coluna que é muito difícil dizer o que é verdade, na perspectiva filosófica. Mas uma verdade factual, a descrição de um acontecimento, pode e deve ser o mais fiel possível ao fato.

A manchete do Estadão talvez possa ser classificada em algum lugar entre insustentável ou falso. Não é de forma nenhuma verdade, nem verdade mas, (gente o que é isso mesmo?), cedo para dizer nem se fale e não é contraditório nem subestimado. Na tarjeta da Aos Fatos talvez coubesse também o impreciso…. talvez.

Já, a manchete da Folha, na melhor das hipóteses é insustentável. Ela é falsa, porque eles não trocaram socos.

Mas eu queria mesmo é criar uma nova tarjeta de checagem: As duas manchetes são INDECENTES!

Elas escancaram como essas empresas não têm respeito com a informação, nem com os personagens da notícia – neste caso o jornalista Glenn Greenwald – nem com o leitor.

E eis que o tal do “jornalismo profissional” se mostra como verdadeiramente é: um jornalismo sem respeito à objetividade ao relatar um fato, que deveria ser a meta de toda notícia. Não, não neutro ou imparcial, porque isso, sabemos muito bem, é história da carochinha criada pela mídia hegemônica para vender jornal/audiência e para manipular a opinião pública.

Vale dizer, para ser precisa e fiel aos fatos, que ao clicar nas chamadas de capa e twitter e ir para a notícia, encontramos títulos diferentes e uma notícia mais condizente aos fatos. No entanto, essa situação não muda o contexto. A busca do clique, a espetacularização do jornalismo sensacionalista, a escolha dos termos, constrói uma narrativa social. Principalmente num contexto no qual a maioria das pessoas não clica para ler a notícia. Repassa o twitte sem entrar no conteúdo, faz um print-screen e joga no Instagram ou manda para o grupo de WhatsApp. Sem contexto, sem relato, só as manchetes indecentes.

Essas manchetes alimentam a máquina de disseminação de ódio e preconceito, a milícia digital bolsonarista, que se ancora neste tipo de manchete irresponsável para espalhar as tais fake news.

Toda solidariedade ao jornalista Glenn Greenwald pela agressão covarde sofrida. Todo respeito pelo excelente trabalho jornalístico que tem realizado. Todo repúdio ao programa Pânico e ao agressor Augusto Nunes!

Corpos pretos ocupando as cadeiras do Odeon

Corpos pretos ocupando as cadeiras do Odeon

Foto: Jorge Pereira / Mídia NINJA

Por Victória Henrique

Nesta quarta-feira, 23 de outubro de 2019, Angela Davis esteve no Rio de Janeiro pela primeira vez. Feminista negra, filósofa, professora e símbolo mundial da luta antirracista, Davis falou para um público em sua maioria negro que ocupou o cinema Odeon, no Centro da Cidade, do lado de dentro e do lado de fora. Local que durante o século XX era o centro de encontro da elite branca. A sua construção fez parte do processo de “embelezamento” e modernização da cidade do Rio de Janeiro que intensificou a marginalização e o extermínio do povo negro.

Mas neste dia, o cinema Odeon estava com cor e cara de resistência. Na verdade, faz tempo que o cinema brasileiro é negro. Léa Garcia, Ruth de Souza e Zezé Motta já nos demonstravam isso desde o século passado. E antes do desmantelamento do audiovisual iniciado com o Governo Temer, as ações afirmativas foram meios importantes de fomentar o cinema afrocentrado: aquele que conta a história da nossa ancestralidade e não que apaga. O filme “Um dia com Jerusa” da baiana Viviane Ferreira, a segunda mulher negra a dirigir um longa metragem no Brasil, foi exibido ontem. Ao final dele, uma fala de Léa Garcia, protagonista do filme de oitenta e seis anos. E após o seu discurso, uma salva de palmas que reverenciou todos os meus antepassados.

Logo após, Angela Davis foi recebida no palco pela deputada estadual Renata Souza que a entregou a Medalha Tiradentes, um prêmio oferecido pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. A ativista americana posteriormente saudada por Flávia Oliveira e Conceição Evaristo, mediadoras do debate, também foi aclamada por nós que nos energizamos com a chegada do ícone mundial do enfrentamento ao sistema racista. De acordo com Davis, não basta não ser racista é preciso ser sobretudo antirracista. Num país de recente passado escravocrata, temos que exercitar não ser racista todos os dias. O antirracismo, primeiro de tudo, é uma prática diária porque assim como ele leva consigo corpos negros à fatalidade, conduz milhares de histórias negras ao embranquecimento.

Ser embranquecida dói. Não saber dos seus ancestrais também. Perder uma criança de oitos anos negra e favelada porque foi assassinada pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro mais ainda. Passar a conhecer autores como Carolina Maria de Jesus e Lélia Gonzalez somente na universidade é juntar pedaços da nossa identidade que foi estilhaçada durante todos os anos de escola devido à ausência de professoras e professores negros em sala de aula. Mas Davis já falou – e também ao vivo – “A liberdade é uma luta constante” e é por ela que nós negros, negras e negres existimos enquanto corpos políticos.

Foto: Jorge Pereira / Mídia NINJA

Foto: Mídia NINJA

Foto: Emy Lobo / Mídia NINJA

Os povos originários e a ditadura

Os povos originários e a ditadura

Guarda Rural Indígena. Foto: Arquivo / Funai

Por Henry Mähler-Nakashima

Atualmente, uma delegação formada por indígenas de diversas etnias percorre a Europa a fim de denunciar e divulgar as tragédias sofridas pelos povos originários, intensificadas desde a campanha presidencial de Jair Bolsonaro e agravadas com sua posse. Contra os discursos – e ações – que pretendem escancarar a floresta amazônica para a exploração de seus recursos e a declarada intenção de abrir as terras indígenas para o mesmo fim, esse grupo busca apoio de entidades e políticos europeus, aliados históricos e aparentemente mais sensíveis a tais questões.

O presidente brasileiro segue insistindo que tal medida levará avanço econômico às longínquas terras do norte e a sua não exploração é um desperdício. Da mesma forma, pretende levar “desenvolvimento” aos indígenas, que de acordo com ele, estão ansiosos por progresso, como se fossem uma unidade. Ora, o presidente ignora fatos importantes: a grande diversidade étnica existente no país – mais de 300 -, o que leva a várias formas de entendimento de mundo, e os ensinamentos que a história tem para nos dar. É bem verdade, entretanto, que, neste caso, a história precisa de mais luz para se fazer conhecida. Explico.

Com o golpe de 1964, o discurso em prol da modernidade, almejada desde o século XIX, passou a se manifestar na expansão da ocupação do território nacional. A região norte recebeu especial atenção com a criação da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônica (Sudam), com linhas de financiamento para áreas de agropecuária, com a formação do Fundo de Valorização Econômica da Amazônia, e com sedutores abatimentos de imposto de renda. As rodovias surgiram como artérias de asfalto conectando as capitais e possibilitando que escoassem todo ímpeto desse progresso. Aos olhos desfocados dos ufanistas escapavam as consequências nefastas e sangrentas dessas medidas. Porém, não foi por falta de informação. Uma busca rápida pelos periódicos da época podem revelar as várias notícias a respeito.

É verdade que durante os anos de chumbo vozes ecoavam pelos confins do país denunciando as mazelas causadas aos povos indígenas. Mas isoladas, soavam solitárias. Essa realidade começou a ser alterada somente em 2014 com o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que ampliou o número de mortos da ditadura ao incluir mais de 8 mil indígenas. Mas Marcelo Zelic, que participou ativamente das pesquisas, afirmou repetidas vezes que “são mais de 8 mil mortos de apenas 10 povos”.

Desse número, por volta de 2 mil são de Waimiri-Atroari, cujo território está no caminho da BR-174, que liga Manaus a Boa Vista, e possui grande riqueza mineral. Nesse período, diversas empresas nacionais e estrangeiras de mineração pediram permissão para exploração. E foi esse processo que levou essa grandiosa soma à morte. Desde os primeiros contatos, durante a atração e pacificação desses indígenas, até a construção da rodovia, aconteceram contaminações por doenças (deliberadas ou não) e assassinatos, não se limitando aos Waimiri-Atroari.

Durante o mesmo contexto, os Maxacali de Minas Gerais, vivendo uma grande crise alimentar, devido às condições impostas pelo “homem branco”, rebelaram-se atacando e matando o gado das fazendas vizinhas. Isso levou Manoel dos Santos Pinheiro a colocar em prática outra tática militar, a criação do reformatório Krenak e da Guarda Rural Indígena (GRIN). O reformatório era uma prisão para os indígenas e, nas palavras de Queirós Campos, à época presidente da FUNAI, a GRIN tinha objetivo de “defender aldeamentos contra abusos e impedir que os silvícolas também pratiquem desmandos”, ou seja, um eficaz modo de tê-los sob controle usando-os como sua própria força repressora.

As violações contra os povos indígenas passaram por deslocamentos compulsórios, aculturamento forçado, mortes por doença, expulsões, assassinatos, etc, e  lentamente essa história começa a ser reconhecida. A Comissão Nacional da Verdade foi um grande e importante passo – mas deveria ser continuada. Agora, o Ministério Público parece dar maior atenção a esses casos. Manoel dos Santos Pinheiro finalmente enfrentará uma ação penal por ter cometido crime de genocídio contra os Krenak (link da notícia), e o tema vem ganhando mais espaço na mídia.

A história brasileira tem muito a ser desvelado sobre esse período tão nebuloso, e como se todas as tragédias sofridas pelos povos originários nunca tivessem acontecido, os discursos do presidente vociferam a favor de um progresso avançando sobre a floresta, sobre as terras indígenas, sobre os povos indígenas, como se repetisse o velho discurso da modernidade. Mas não se engane. Não estamos testemunhando a história se repetindo, mas a continuidade de uma política de Estado que, em nome desse ímpeto devasta, destrói, aniquila e mata.

Henry Mähler-Nakashima é membro da Ocareté, doutorando em História Social pela PUC-SP e pesquisa a relação da FUNAI e os Waimiri-Atroari durante a ditadura. Contato: [email protected]

A lei das cesáreas está a serviço do corporativismo médico

A lei das cesáreas está a serviço do corporativismo médico

Como era esperado o governador João Dória (PSDB) sancionou o equivocado Projeto de Lei 435/19, da deputada Janaina Pascoal (PSL), também conhecido como o PL da Cesárea. O projeto permite que os hospitais públicos realizem cesáreas eletivas, isto é, sem recomendação médica, a partir 39ª semana de gestação. Ele prevê ainda que nas maternidades públicas sejam afixadas placas informando as mulheres sobre seu direito a realizar a cesárea mesmo sem recomendação médica.

À primeira vista, a reação de muitas mulheres foi de apoio ao projeto, pois a deputada o defende em nome das mulheres negras e pobres que, sem plano privado de saúde, não teriam condições de acessar a cesariana nas maternidades públicas.

Ela evoca um conceito importante para as mulheres e o feminismo que é a autonomia. Para a deputada, as mulheres que usam o SUS seriam vítimas de uma “obsessão pelo parto vaginal”, o que além de interferir na sua possibilidade de “escolher” por cesárea, as colocariam em risco, bem como seus bebês.

Essa narrativa ganhou certo apoio. Nas redes sociais e mesmo nas ruas, fui várias vezes interpelada porque me colocava contra o projeto e questionada sobre o fato de que as mulheres no SUS, de fato, não têm os mesmos direitos que as mulheres que possuem convênio médico, isto é, não podem “escolher” pela cesárea.

Ora, não podemos ignorar esses questionamentos, mas temos de lembrar outros dois fenômenos importantes que as mulheres sofrem no Brasil: a violência obstétrica e a epidemia de cesáreas.

Na minha caminhada no legislativo, aprendi muito com as obstetrizes, doulas e militantes do parto respeitoso, além de especialistas. E todos citam que no Brasil prevalece uma cultura de patologização da gravidez e do parto, que tem justificado uma série de técnicas invasivas e intervencionistas – sem necessidades comprovadas cientificamente – em procedimentos de rotina como episiotomia, manobra de Kristeller, utilização de fórceps e hormônios para acelerar o trabalho de parto.

Somadas a outras condutas extremamente violentas e machistas temos um cenário em que a violência obstétrica é uma realidade que atinge uma a cada quatro mulheres, conforme pesquisa da Fundação Perseu Abramo de 2010.

Diante deste cenário não surpreende que as mulheres vejam na cesárea uma forma de escapar destas violências. O Brasil está em segundo lugar no ranking de cesáreas no mundo. No sistema privado de saúde, elas ultrapassam os 80%. Na rede pública, fica em 41,9%. A média nacional alcança os alarmantes 55%. E infelizmente essas altas taxas não significam redução da mortalidade materna.

Pelo contrário, a realização de cesáreas seguidas numa mesma mulher está associada a um aumento de complicações à sua saúde. Além disso, a literatura científica também descreve fartamente as implicações para a saúde do bebê, sendo sua adoção indicada apenas quando houver complicações médicas para um ou para ambos. Não é à toa, portanto, que a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que a taxa de cesáreas não passe dos 15% do total de partos.

A verdade é que a deputada não está lá muito preocupada com a saúde das mulheres negras e pobres que ela diz defender, tampouco com seus bebês. Sua grande preocupação é atender aos interesses de órgão de classe que veem na luta contra a epidemia de cesáreas e a violência obstétrica uma afronta à sua autoridade.

Não é de surpreender que o conteúdo do PL se aproxima da resolução  2.144/16 do Conselho Federal de Medicina (CFM), que dispõe justamente sobre a possibilidade de o médico realizar cesáreas eletivas a partir da 39ª semana de gestação. Em outras palavras, a resolução do CFM procura justificar as altas taxas de cesáreas nas maternidades privadas associando-as ao pretenso exercício de autonomia das mulheres.

Desde que protocolou o projeto, a deputada tem participado de debates em conselhos regionais de medicina pelo país que não disfarçam o seu entusiasmo. Além disso, está determinada a fazer uma lei federal. Para isso a deputada federal, Carla Zambelli (PSL) apresentou em junho o PL 3365/19 com a mesmíssima propositura.

A chegada do PL das Cesáreas ao Congresso coincide com a resolução do Ministério da Saúde que determinou a retirada do termo Violência Obstétrica de documentos e políticas públicas. Com essa iniciativa o Ministério assumiu a defesa dos interesses de setores da classe médica. A sua orientação nada mais foi do que uma adesão ao parecer nº  32 do Conselho Federal de Medicina que assim se posiciona: “violência obstétrica” é uma  agressão contra  a  medicina  e  especialidade  de  ginecologia e obstetrícia, contrariando  conhecimentos  científicos  consagrados,  reduzindo  a segurança e a eficiência de uma boa prática assistencial e ética.”

Tudo disso não deveria nos surpreender. Na campanha Bolsonaro e seus correligionários, e a própria Janaína Paschoal, usaram e abusaram dos estereótipos misóginos em relação a luta das mulheres por autonomia e igualdade de direitos.

Bolsonaro na campanha recebeu apoio explícito de médicos ligados a direções de conselho regionais de medicina nas redes sociais. Um ginecologista manifestou seu desejo de “retirar todas as esquerdistas que estão no Ministério da Saúde há anos”. Uma busca na internet mostra que Flávio Bolsonaro prestigiou a posse da nova diretoria do Cremerj, com direito a foto com arminha de fogo.

O efeito prático da entrada em vigor deste projeto deverá ser o aumento irresponsável no número de cesáreas realizadas no SUS no estado de São Paulo que aliado a insistência do Ministério de censurar o termo violência obstétrica, demonstram como em poucos meses desta triste era obscurantista tem sido destruídos avanços importantes na humanização do parto e atenção à saúde da mulher e bebê.

Juliana Cardoso é vereadora em São Paulo pelo PT, vice-presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança, Adolescente e Juventude e membro das Comissões de Saúde e de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo.

Presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado pede impeachment do ministro Ricardo Salles

Presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado pede impeachment do ministro Ricardo Salles

Ministro Ricardo Salles Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

O senador Fabiano Contarato (Rede-ES), que preside a Comissão de Meio Ambiente do Senado, enviou ao Supremo Tribunal Federal um pedido de afastamento do ministro Ricardo Salles por crime de responsabilidade. Contarato afirma também que Salles perseguiu agentes públicos a pedido de ruralistas.

Segundo Contarato, Salles infringiu a Constituição ao alterar a formação do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que reúne representantes do governo e de ONGs para discutir políticas ambientais. Além disso, condena a atitude de Salles por não punir os responsáveis por autorizar a exploração na área de proteção de Abrolhos, na Bahia.

Outra questão levantada pelo senador foi a perseguição de agentes do Ministério do Meio Ambiente, anunciada pelo atual ministro em um evento com ruralistas, em abril. Essa manifestação gerou a renúncia do presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Adalberto Eberhard.

O senador Randolfe Rodrigues também informou que nesta sexta-feira, dia 22/08, às 11h, será protocolo no Congresso Nacional o pedido de impeachment do ministro. Filiado no Novo, nem mesmo o partido apoia sua reconhece ou atuação.

A falência do Estado: racismo e machismo MATAM

A falência do Estado: racismo e machismo MATAM

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*Por Keka Bagno

29 de maio de 2019. Mais um crime evitável. Mais um homicídio evitável. Estamos falando da brutalidade ocorrida em Planaltina de Goiás (Brazilinha). Quatro crianças negras, sendo três meninas, foram torturadas. Uma das meninas veio a óbito e a mais nova está internada em estado grave. Os agressores são um jovem de 19 anos e uma adolescente de 17 anos. A adolescente é tia paterna das crianças. O pai e a mãe das vítimas estão encarcerados, por possível tráfico de drogas. Possuem entre 25 e 30 anos. São negros e pobres. Moravam em Planaltina/DF.

A justificativa da violência é que as crianças foram pedir comida para a vizinha e o jovem sentiu-se ofendido. Estou falando de uma família que estava em situação de miséria. Estou acusando o Estado de ser negligente em suas políticas públicas. Quero que todos e todas nós saibamos que fazemos parte. É a nossa falência e também do Estado.

O que leva uma adolescente e um jovem a essa crueldade? Por que as crianças estavam sob os cuidados de uma adolescente e um jovem e sem qualquer acompanhamento dos serviços de proteção, como o Conselho Tutelar? Por que seu pai e sua mãe estavam presos por possível posse de quantidade irrisória de maconha? Por que essas crianças estavam passando fome?

São essas e inúmeras outras questões que não saem da minha cabeça. Convido vocês a refletirem sobre as violências invisibilizadas, naturalizadas que chegam a outras violências. O racismo e o machismo são transversais a essa barbárie. O nosso “vitimismo”, como somos acusadas diariamente pelos conservadores que hoje governam o nosso país, o estado de Goiás e o Distrito Federal, não foi suficiente para que salvasse oito vidas. São quatro crianças, uma adolescente e três jovens. Não me venham acusar de ser defensora de “assassinos” porque vocês também fazem parte.

Sim. É nossa responsabilidade coletiva com aqueles e aquelas que passam fome, que estão em situação de miséria. Isso se chama solidariedade. Crianças e adolescentes é dever de cuidado da família, do Estado e da sociedade (art. 227 CF/88). O pai e a mãe foram vítimas de pobreza e do motivo que mais encarcera a juventude negra no Brasil: uma política de drogas falida para matar e prender pobre e preto.

Oito vidas marcadas pelo racismo estrutural que nos coloca a margem do acesso a políticas públicas de habitação, assistência social, educação, saúde e nos apresentam somente a da segurança pública repressora. O machismo que empodera o jovem a dominar às vidas das crianças como se fossem suas propriedades e torturá-las até a morte por pedirem ajuda. As mais agredidas foram as meninas.

Este crime nos apresenta como falência estatal, a não compreensão de crianças como sujeitas que possuem direitos humanos, a desproteção da rede na área da infância, a ausência de políticas públicas preventivas. Prevenção é proteção. A omissão das pessoas que viram a situação dessa família, há anos, e por algum motivo não tiveram solidariedade, mesmo que inconsciente. Nós naturalizamos a pobreza.

Entenda, você também faz parte. Falhamos. Todos e todas nós. E se não revertermos a atual conjuntura política brasileira a tendência são crimes como este serem comuns. Nossas vidas importam para eles no encarceramento em massa da população negra e nas pilhas de caixões que se formam com os nossos corpos.

Entenda, você faz parte.

 

*Keka Bagno é feminista negra, assistente social e conselheira tutelar.

Por que uma “escola sem partido”?

Por que uma “escola sem partido”?

Foto: Gabi Stradiotto

Pelo Estudante NINJA, Tiago Neto, 28 anos, Estudante de Licenciatura em Química no IFG – Câmpus Luziânia.

“Doutrinação Marxista” – “Ideologia de Gênero” – “Kit Gay”. Num ponto de vista do senso comum quem nunca ouviu falar dessas categorias que povoam o imaginário social coletivo na era da ‘fake news’? Mas, qual é a origem dessas terminologias tão polemizadas, situadas como verdades absolutas e viralizadas pelas redes sociais?

Pensar sobre estas questões teria relevância em face de afirmações grotescas como: “A Terra é plana” ou “mamadeira de […]”. Entretanto, constata-se que o pensamento crítico e reflexivo, a capacidade de pensar, agir e sentir sofre profundas ameaças pela lógica da censura, autoritarismo e do pensamento único que agride a inteligência do povo brasileiro, transgride à memória e afeta a autoimagem identitária do país cerceando o livre pensamento.

A onda conservadora que o país está imerso, permitiu a aparição caricatural de um movimento contemporâneo denominado movimento “Escola ‘sem’ Partido”.

Mas, quais são seus antecedentes históricos, tendo em vista que sua projeção nacional ganhou proeminência no período recente. Compreende-se que o movimento chamado “Escola ‘sem’ Partido” foi criado ainda em 2004 pelo advogado Miguel Nagib, cujo lema principal é “educação sem doutrinação”. Em suma, a justificativa para existência dessa articulação prima pela neutralidade do Estado, contra seu caráter ideológico, político e partidário.

Porém as contradições dessa mobilização esbarram em profundas controvérsias referente ao ideário que educadoras e educadores não devem fazer a discussão, nas instituições escolares, de temáticas que possam contradizer as concepções morais do núcleo familiar. Portanto, consideramos aqui a concepção de neutralidade como categoria política – ideológica basilar do movimento “Escola ‘sem’ Partido”. A ascensão desse movimento conservador tem forte alcance no país.

Criminalização da prática docente, negação da pluralidade de pensamento e o próprio caráter inconstitucional do projeto de lei desse movimento reafirma a importância de fazer a defesa de uma educação crítica, reflexiva e emancipatória, especialmente no 30 de Maio. Um convite a repensar a concepção de escola, universidade, por uma educação democrática e cidadã capaz de transformar – desvelar a realidade. E o repúdio aos modelos restritivo e excludentes de práticas educativas, cuja única intenção é a domesticação dos sentidos para mera obediência e não para emancipação humana.

A emergência da defesa democracia consiste em não abrir mão da educação, urge ocupar os espaços mais democráticos da história, a pedagogia social, cultural e política das ruas por uma escola e universidade pública e democrática. Mas, precisamos saber com profundidade: o que é “Escola ‘sem’ Partido”?

A emergência da defesa democracia consiste em não abrir mão da educação, urge ocupar os espaços mais democráticos da história, a pedagogia social, cultural e política das ruas por uma escola e universidade democrática.

Em texto denominado Hegemonia e Educação: Contribuição para a crítica do movimento Escola Sem Partido, a partir de Antonio Gramsci, o autor Renê José Trentin Silveira demonstra a conceituação sobre a identidade dessa organização como seus idealizadores compreendem do seguinte modo:

“Segundo Nagib, a Escola Sem Partido (ESP) é uma “associação informal, independente, sem fins lucrativos” e sem “vinculação política, ideológica ou partidária”, criada para combater a “contaminação político-ideológica das escolas brasileiras” (http://www.escolasempartido.org/quem-somos) (SILVEIRA, 2018, p. 125)

É necessário levar em consideração que os antecedentes históricos referente a gênese dessa entidade – movimento – nasce em meados de 2003-04 “[…], quando, em certa ocasião, Nagib foi surpreendido pelo comentário de sua filha, de que o professor de História havia comparado Che Guevara a São Francisco de Assis, pelo fato de ambos terem abdicado de suas vidas pessoais” vinculados, respectivamente, a determinada concepção ideológica: política e religiosa. O idealizador do movimento avaliou a cena como um modo explícito de “fazer a cabeça das crianças” centrando holofotes no ícone comunista da revolução cubana, conforme Silveira (2018, p. 126) afirma que o pai:

[…] Contrariado, escreveu uma carta aberta ao professor, da qual distribuiu 300 cópias no estacionamento da escola. O resultado, porém, não foi o esperado: a Direção o chamou para esclarecer os fatos, discordando de sua interpretação. Estudantes o hostilizaram e fizeram passeata em defesa do professor. Os pais simplesmente o ignoraram. Frustrado e indignado, decidiu agir por conta própria: criou, no ano seguinte, uma associação, inspirada no site norte-americano NoIndoctrination.org, com o objetivo de “lutar contra o abuso do qual as crianças estão sendo vítimas”.

Por mais que o surgimento do movimento “Escola ‘sem’ Partido” tenha se dado ainda nos primeiro anos da década de 2000. Sua projeção a nível municipal, estadual e nacional ocorre no período recente. Nessa segunda década ganhou maior representatividade no Congresso Nacional em 2014, logo após as Jornadas de Junho de 2013, levante político que abalou as estruturas do país. Em seguida, com recorte específico: o Golpe de Estado (jurídico – político – midiático) que destituiu a presidenta Dilma Rousseff sacramentou a consolidação de retrocessos no campo da educacional. A saber, “Esse último aspecto – a frente parlamentar – merece destaque. A entidade elaborou um modelo de projeto de lei para auxiliar parlamentares que queiram encampar sua causa […]”, segundo afirma Silveira (2018, p. 126).

Na Câmara dos Deputados, em 23/03/2015, teve apresentação do PL 867/2015 – cujo autor é Izalci Lucas Ferreira (PSDB/DF) fala sobre a inclusão na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB (9.394/1996) dos princípios da “Escola ‘sem’ Partido”: I – neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado; II – pluralismo de ideias no ambiente acadêmico; III – liberdade de aprender, como projeção específica, no campo da educação, da liberdade de consciência; IV – liberdade de crença; V – reconhecimento da vulnerabilidade do educando como parte mais fraca na relação de aprendizado; VI – educação e informação do estudante quanto aos direitos compreendido em sua liberdade de consciência e de crença.

É importante ressaltar que a Procuradora Deborah Duprat, em nota técnica de 22 de Julho de 2016, Ministério Público Federal afirmou a inconstitucionalidade do projeto ‘por inúmeras razões’. E nós seguiremos lutando.

 

“QUEM TEM MEDO DA FILOSOFIA DO AGRESTE?”

“QUEM TEM MEDO DA FILOSOFIA DO AGRESTE?”

reflexões sobre o ministério da (des)educação, #30M

Fotos: EBC e coletivo ISO 314

Pelo Estudante NINJA Marcus Santos*

Qualquer versão possível da equivocada tese meritocrática liberal, seja ela sincera ou fingida, que temos nos acostumado a ver por ai, na boca tanto do bolsonarismo quanto da centro-direita mais convencional, é despedaçada pela verdade factual nua: o Brasil é um país extremamente desigual.

Desigualdade que, imbricada de modo estrutural na nossa história, atravessa, pontiaguda, as mais diversas categorias de análise social; permeia o gênero, a raça, a classe, e, ademais, a relação entre as nossas regiões geográficas. Tratarei aqui, mais especificamente, apenas desta última categoria.

Recentemente, foi resgatada e noticiada uma fala de Abraham Weintraub, o atual ministro da (des)educação no governo de Jair Bolsonaro, onde ele afirma que “Em vez de as universidades do Nordeste ficarem aí fazendo sociologia, fazendo filosofia no agreste, [devem] fazer agronomia em parceria com Israel”. O contexto da fala é uma conversa ainda pré-eleições 2018 entre Weintraub e o nosso caricato monarquista liberal descendente da família imperial brasileira e, pasmem, agora deputado federal eleito pelo estado de São Paulo, Luiz Philippe de Orléans e Bragança. Na conversa, numa das lives do “príncipe”, que sim, é também youtuber, Weintraub trata de apresentar o plano de governo de Jair Bolsonaro.

A fala do ministro pode ser complementada, creio, por uma outra, mais recente, de suas ideias “brilhantes”, esta expressa num de seus pronunciamentos em conjunto com o presidente. Na ocasião Weintraub diz que “para respeitar o dinheiro do contribuinte” devemos “ensinar para as crianças e jovens” apenas certas “habilidades”, “ler, escrever, fazer conta” e “um ofício que gere renda para a pessoa, bem estar para a família dela, e que melhore a sociedade em volta dela”. O ministro propõe então que façamos como o Japão e retiremos investimento “de faculdades que são tidas como faculdades para uma pessoa que já é muito rica ou de elite, como filosofia” e sociologia, diz ele, e usemos para cursos que “geram retorno de fato: enfermagem, veterinária, engenharia, medicina…”.    

Bom, as falas do ministro, assim como as do presidente são sempre um prato farto de mentiras e informações equivocadas, neste caso sobre a política educacional japonesa ou o inencontrável suposto elitismo des alunes de filosofia. Não quero, entretanto, focar-me nestes pontos, já bastante discutidos e remarcados. Me interessa mais buscar compreender nas falas do ministro os pilares do projeto de (des)educação do atual governo em sua íntima relação com o nosso histórico de preconceito e exploração intranacional, inter-regional.

Por motivos históricos cuja análise não cabe na extensão deste artigo, o centro econômico, cultural e administrativo do nosso país, que uma vez situado no coração da região Nordeste (a primeira capital brasileira foi Salvador – BA), foi transportado para o Centro-Sul do país. Desde então, a história do Brasil é a história da desassistência em relação ao polo Norte – Nordeste, sendo talvez o problema mais recorrentemente cruel o das secas no semiárido nordestino.

No entanto, para além do problema das secas, o fato é que as regiões Norte e Nordeste ficaram durante muito tempo totalmente à margem do cuidado estatal em setores extremamente básicos da existência humana como é o caso sim do acesso a água, mas igualmente do acesso à educação, do fomento à cultura, etc. De modo que o polo magnético de atração quase natural para jovens e adultos sem muita perspectiva era sempre o Sudeste do país: as lavouras, a construção civil, os polos industriais, os trabalhos domésticos, o trabalho sexual, etc. Na minha própria família, por exemplo, por parte de pai e de mãe, as três últimas gerações tiveram, ao menos em parte e por certo tempo, esse destino ou ao menos esse horizonte à frente.

Essa história é suficientemente conhecida, ela já foi diversas vezes contada. Ela é a história de muita gente e é também, por exemplo, a história de vida de um dos nossos ex-presidentes da república. Assim, pois, como no norte global nós sudakas tomamos parte no trabalho precarizado; aqui, neste país, os polos se invertem, mas a relação entre o subdesenvolvimento de um setor em prol do sucateamento das condições de vida e barateamento da mão de obra, que será por sua vez aplicada no desenvolvimento do outro setor, hegemônico, é a mesma. Ou seja, aqui, é sobretudo o Nordeste que tem fornecido a mais valia que enriquece a economia do Sudeste brasileiro; e a “grande retribuição” tem sido o uso pejorativo e preconceituoso cristalizado em expressões como “baianada”.

Assim, o fenômeno das secas no Nordeste, inacreditavelmente não solucionado após tanto tempo e com uma recorrência e modo de ser tão previsível, só pode ser considerado, como bem apontava já Antônio Callado, parte de um grande e antigo projeto, uma lucrativa (para outros) “indústria da seca”, e não uma crise humanitária provocada pelos acidentes geográficos e suas condições determinantes.

O mesmo tipo de raciocínio acertado está estampado na frase atribuída a Darcy Ribeiro: “a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”. E se tem algo que o atual governo é capaz de ensinar-nos, pela via negativa, claro, é que, de fato, esses dois projetos perversos, o da seca no Nordeste e o da des(educação) brasileira são um só e único projeto. Trata-se do projeto de precarização cultural, no sentido mais amplo da palavra, e exploração material que a classe dominante brasileira “oferece” às classes subalternas; e isso desde sempre, é preciso dizer, afinal essa não é uma peculiaridade do atual governo. De fato, isso está longe de ser uma questão apenas do governo, qualquer que ele seja.

A “crise” da educação, assim como a seca do Nordeste, foram, em medidas distintas, é verdade, negligenciadas por todos os governos dos últimos períodos, apesar das tímidas sinalizações de mudança de curso levantadas pelos governos ditos progressistas do Partido dos Trabalhadores.

O que muda agora, mais especificamente, é que da negligência com a “crise” passamos ao financiamento direto da mesma, e as tímidas sinalizações e mudança do período anterior são, num quase “passe de mágica ideológica”, postas inescrupulosamente no lugar de causa dos problemas vividos cotidianamente na pele pelas pessoas.

Enquanto isso sem, as antes já fracas, amarras impostas por um certo ideal de direitos humanos e de constitucionalidade, pela autonomia universitária e o mínimo caráter formativo humano do ensino público, e mesmo pela mera realidade factual histórica e científica, o supracitado projeto pode agora, então, ser endossado e financiado com força total; sua perversidade não mais encoberta pelos ideais iluministas não aplicados de humanidade, mas pela escolha de um inimigo em parte real, parte espantalho, jogada típica de qualquer organização política que se sustente no poder sob as asas da manufatura ideológica da própria população.

Mas que têm a filosofia e a sociologia com isso? Bom, por um lado, na prática, os cortes do governo Bolsonaro ao orçamento destinado à educação e o consequente sucateamento das instituições educacionais públicas em todo seu espectro atingem todas as disciplinas, e provavelmente, do ponto de vista material, atingem mais aquelas que precisam na realização de suas pesquisas de infraestrutura laboratorial, material como reagentes e coisas do tipo.

Por outro lado, entretanto, não é de modo algum casual e irrelevante que o discurso do ministro e do presidente se volte especificamente, nominalmente, contra a filosofia e a sociologia, e esporadicamente contra as ciências humanas em geral.

A filosofia é, de acordo ao menos com o panorama histórico do ocidente pensante, o grande e multifacetado tecido que serve de esteio para o surgimento e constante reconfiguração das mais diversas realizações humanas neste naturalmente agraciado planeta, incluindo aí o surgimento da ciência moderna e suas metodologias. E ela tem como esteio próprio a capacidade humana fundamental de “parar e pensar”, de usar a razão para compreender radicalmente a experiência que temos do mundo e de empenhar-nos no discurso racional para resolver através da palavra e do acordo, do argumento e da justificação, as nossas divergências.

Não se trata de chegar a uma resposta definitiva ou interpretação final para as perguntas que temos e os acontecimentos que nos interpelam, mas justamente de fazer o esforço da busca. Não se trata do resultado imediato, do ponto de chegada, mas do caráter formativo do caminhar. E isso a concepção economicista e tecnicista de educação expressa pelo ministro é incapaz de compreender. É verdade que muitas foram as doutrinas filosóficas que se forjaram durante a história do pensamento ocidental, mas a filosofia mesma, o filosofar, não está em nenhuma delas, mas no próprio exercício de empreender a crítica racional e cuidadosa ao que está estabelecido, está em questionar as placas e sinalizações tendenciosas que indicam sempre o mesmo caminho já batido.

Nessa tarefa, a sociologia é sem dúvida uma filha-irmã de peso, afinal, o que pode ser mais amolada nesse processo do que uma metodologia que nos permita acessar certas verdades situadas, temporal e espacialmente, a respeito das estruturas fundantes e mantenedoras de nossa realidade social presente? Mas não apenas ela, a história, por exemplo, estabelece uma base factual comum imprescindível não só para a concepção de qualquer teoria filosófica ou sociológica, mas para a própria existência humana plural, comunitária. E a antropologia, por sua vez, tem sido a vanguarda do questionamento contemporâneo acerca dos nossos mais íntimos e enraizados preconceitos culturais. E a lista poderia seguir.

Isso dito, é completamente compreensível que Bolsonaro, que o bolsonarismo (e não somente ele, mas as elites liberais e conservadoras em geral, que no Brasil curiosamente se confundem), queira acabar com as ciências humanas em seu caráter público e gratuito. O mesmo caminho foi tomado no ensino básico pelos artífices do golpe militar de 1964. Assim como o elogio à tortura, essa é mais uma receita tradicional de família, e Bolsonaro pretende segui-la à risca. Afinal, apesar de já sucateadas e negligenciada a muito tempo a importância dessas disciplinas, sua simples existência faz o bolsonarismo tremer de medo. Sua existência no Nordeste, então, dados seus reveses nos resultados da eleição aqui, o deixa profundamente preocupado.

Tornar a filosofia e a sociologia cursos de elite, como quer o ministro, retirá-las do ensino público, é um claro projeto de encabrestamento popular, de degola do incipiente broto de cidadania que possuímos. E de fato o governo não quer formar cidadãos, mas justamente obedientes “contribuintes”. E afirmar que tudo isso será feito em “respeito ao dinheiro do contribuinte” constitui precisamente um tremendo desrespeito ax próprix contribuinte, não apenas enquanto este é de fato contribuinte, mas em sua capacidade de pensar por si mesmx e decidir que tipo de valores e práticas julga corretas ou justas para si, e, por fim, que tipo de carreira quer seguir.

Neste ponto, é bastante esclarecedora do que está em jogo a alternativa que o governo tem para os supostos problemas do Nordeste. Saem as ciências humanas, que não dão “resultado imediato”, e com elas o pensamento crítico, a capacidade de questionar o que está posto, de articular novos valores e fundar novas práticas; e entram as supostas parcerias agronômicas com Israel. O interesse de Israel em vender-nos sua tecnologia é cristalino. O que não fica claro é qual exatamente será o resultado da conta para o Nordeste, por traz dessa aritmética cara e cruel…Crerá sinceramente o presidente que nós, em nossas próprias universidades, somos incapazes de desenvolver nossas próprias tecnologias alternativas, ou será mais um projeto dos industriais da fome e da seca para essa região sofrida?

Bom, por mais evidente que pareça ser o engodo, a verdade é que eu particularmente não sou agrônomx nem entendo o suficiente de processos de dessalinização como para assegurar a infelicidade da empreitada. Há algo, entretanto, com que nós por aqui podemos contribuir para ajudar (ou nem tanto), o governo em suas negociações com Israel: um pouco de pensamento crítico nordestino. Afinal, xs estudantes por aqui já se posicionaram: a filosofia e as ciências humanas continuam, presidente, e a contragosto dos seus comensais da morte, nós nos esforçaremos para torná-la cada vez mais um bem público, um exercício popular e transformador da nossa própria realidade seja no Meio-Norte, na Zona da Mata, no Sertão ou no Agreste. Dia 15 foi grande, dia #30 de Maio vai ser maior!

Então, que venha o governo de Israel, mas que passe antes aqui pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Gostaríamos de discutir um pouco sobre ética, (de)colonialismo, (des)militarização, racismo…Quem sabe elxs não levam para casa uma pulga atrás da orelha, alguma pergunta incômoda a respeito de sua própria realidade? Quem sabe não são capazes de rever e expandir seu restrito conceito de humanidade e suas consequentemente desumanas práticas de ocupação militar da palestina?

Marcus Santos tem 26 anos, é licenciado em Filosofia e atualmente estudante do curso de Mestrado em Filosofia, ambos pela Universidade Federal da Bahia –  Campus Salvador

Daniel Zen: É necessário unidade na luta

Daniel Zen: É necessário unidade na luta

#15M — Rio Branco/AC — Foto: Denilson Almeida / Estudantes NINJA

O mês de maio de 2019 tem sido marcado, de um lado, pelo recrudescimento das posturas do governo Bolsonaro para com as políticas públicas em Educação, evidenciado pelo anúncio de cortes e contingenciamentos nos orçamentos das instituições federais de ensino superior (IFES) e da educação básica; e, de outro, pela reação enérgica de alunos, professores e trabalhadores em educação de um modo geral.

Discentes, docentes e trabalhadores não-docentes, tanto das IFES (universidades e institutos) como das redes públicas estaduais e municipais de educação básica aderiram, em todo o Brasil, aos atos do dia 15 de maio, agendados pelas centrais sindicais e respectivos sindicatos como parte integrante do “Calendário Unificado de Lutas do Mês de Maio do Trabalhador”.

A adesão do público universitário e dos trabalhadores em educação básica engrossou um caldo que, até então, estava ralo. Aqui no Acre, na condição de deputado estadual, participei da organização e mobilização para todos os atos do Calendário Unificado de Lutas, que iniciou no dia 1° de maio – com uma coletiva de imprensa de anúncio da programação – e encerra no dia 31/05, com um seminário sobre a reforma da Previdência. O calendário contou ainda com uma audiência pública, realizada na ALEAC, no dia 09/05; e com uma intervenção cultural e panfletagem, no terminal central de transportes coletivos de Rio Branco, a se realizar no dia 24/05.

O dia 15/05, contudo, ficará marcado como o ápice da programação. Um dia de paralisação nacional que serviu de termômetro para medir uma alta temperatura que pode culminar em uma adesão em massa para o indicativo de greve geral no dia 14/06.

Entretanto, algo me chamou a atenção e me leva a compartilhar um alerta. A hostilidade para com a política partidária, mesmo para com políticos favoráveis ao movimento e contrários às pautas hoje defendidas pelo Governo Federal, rechaçadas pelos trabalhadores, ainda se encontra em um grau elevado.

Como bem caracterizou o professor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFCH, da Universidade Federal do Acre – UFAC, Francisco Afonso Nepomuceno, o “Carioca”, as denominadas “jornadas de junho de 2013” foram capturadas pela extrema direita a partir da demonização da política, dos políticos e dos partidos. A crítica que virá, agora, de muitos manifestantes, nessa mesma linha, é fruto do ocorrido no passado. Não sabem, muitos deles, que foi nesse ambiente de satanização da política que o neo-fascismo foi parido no Brasil, sendo Bolsonaro seu filho mais dileto.

Em resumo: quem se dizia – e ainda se diz – apartidário ou afirma odiar a política e seus políticos acabou e acaba contribuindo para o estado de coisas da forma como ele se encontra.

Nós políticos temos que ter a consciência de que, quando não fazemos a nossa parte, a população dá o troco e nos prega peças. Mas, a população também tem que ter consciência de que o tal “voto de protesto” gera consequências muito danosas. Bolsonaro é uma delas. O voto de protesto dos insatisfeitos tanto com a esquerda quanto com a direita resultou em um governo que não tem plano, não tem propostas de programas sociais, não tem projetos de retomada do crescimento econômico, com geração de emprego, distribuição de renda, inclusão social e redução das desigualdades.

Não há, no Governo Federal, nenhuma linha mestra, direção, horizonte ou metas que possam apontar para um caminho de esperança. Ao contrário, só há disposição para travar guerras ideológicas e um forte flerte com o autoritarismo e a intolerância. E uma ilusão, um engodo de que, aprovando-se a cruel reforma da Previdência que, da forma como está, não acaba com nenhum privilégio e sacrifica o trabalhador comum, as coisas vão se resolver como que em um passe de mágica. Não vão.

O que temos é um governo que se elegeu na base de fake news distribuídas em massa para grupos de WhatsApp, cujo candidato eleito não compareceu aos debates – ou seja, não deixou claro quais eram suas propostas e suas verdadeiras intenções – e que gasta toda a sua energia se concentrando em um festival de firulas, de frivolidades e de coisas supérfluas, que em nada ou pouco contribuem para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, além de estar atolado até o pescoço em casos de corrupção que envolvem laranjas e milícias.

Nesse sentido, a presença de políticos com mandato, perfilando-se com os representantes de centrais sindicais, respectivos sindicatos e demais entidades do movimento social nos diversos atos Brasil afora é importante, mesmo que diante de eventuais hostilidades. Isso também faz parte da resistência. A satanização ou demonização da política tem consequências bem mais perversas do que as divergências históricas entre políticos, seus partidos, suas respectivas ideologias e o movimento social. É necessário unidade na luta.

Prenderam os executores, mas quem mandou matar?

Prenderam os executores, mas quem mandou matar?

Ativista levanta placa pedindo respostas sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco que completa 1 ano nesta quinta-feira. | Foto: Mídia NINJA

A cultura das milícias que matou Marielle é a mesma da família Bolsonaro. Presos os dois Policiais Militares suspeitos do assassinato de Marielle Franco, dois dias antes do 14/03. O Sargento Ronnie Lessa, apontado como o executor e atirador, mora no mesmo condomínio de luxo da Barra em que mora Jair Bolsonaro. O problema não é esse! Apesar da nefasta coincidência.

A família Bolsonaro não precisa estar envolvida diretamente no assassinato de Marielle Franco para ficarmos escandalizados! Estão envolvidos com a cultura das milícias e dos grupos de extermínios, a cultura dos torturadores, como expressam publicamente e como ficou provado com os milicianos que empregam nos seus gabinetes e prestam homenagem na Alerj. Ou com seus aliados políticos que quebraram a placa em homenagem a Marielle em um ato de vandalismo.

PMs, milícias, e a família presidencial que defende esses valores e o horror da execucão de uma mulher extraordinária e uma vereadora do Brasil. Mais um golpe em Bolsonaro e em tudo que representa.

Ganhamos!

Ganhamos!

Imagem: Mídia NINJA

Por Alexandre Lyrio

Jair Bolsonaro já perdeu essa eleição! Quando alguém vai para uma praça e serve uma xícara de café e um pedaço de bolo em troca de um bom papo sobre política, um papo sincero e delicado, qualquer forma de autoritarismo cai de joelhos diante da democracia.

Independentemente do resultado das eleições, vencemos! Essa campanha vai deixar um legado de união dos que não pensam no próprio umbigo, dos que querem um estado para todos. Perdeu a admiração por alguns parentes? Perceba quantas pessoas passou a admirar! Deixou para trás amizades antigas? Veja quantos novos amigos surgiram!

Olhamos para frente!

Famílias brasileiras!

Lembrem-se que tradição rima com inclusão. Ou passou da hora de ser enterrada!

Deve ser horrível não ter esperança. Deve ser angustiante acreditar que um país só pode mudar na base da brutalidade. E que a violência só acaba com o uso de munição pesada.

Deve ser triste querer ter um arma.

Deve ser perturbadora a necessidade de criminalizar o outro para garantir o seu. Deve ser desesperador viver com medo!

Do lado de cá, não temos medo de nada!

Nem do grito, nem do canhão!

Nem do milico, nem do patrão!

Sonhamos!

Queremos melhorar!

Nossas mães aceitam filhos gays!

Nossos homens querem ser menos machistas!

Nossas mulheres querem igualdade!

Nossos brancos não toleram o racismo!

Nossos negros querem liberdade!

Seguimos em frente e seguramos o rojão!

Bolsonaro já perdeu essa eleição!

Ganhamos!

Ganhamos luta pela frente!

Gostamos de lutar!

Em paz!

26/10/18

Uma casa sobre a rocha…

Uma casa sobre a rocha…

Ao que indicam as pesquisas eleitorais recentes, mais ou menos a metade dos evangélicos vota em Bolsonaro. Essa hora nos insta a uma escolha que é ética e estratégica. Está posta a reiteração de uma cultura política autoritária pelos evangélicos ou sua possível subversão.

Bolsonaro se alia com líderes odiados pela maioria dos evangélicos.

Por Vítor Queiroz de Medeiros

O campo evangélico progressista se depara com a maior fratura que a Igreja brasileira já viveu e creio que temos acertado até aqui. Daqui em diante duas estratégias me parecem centrais: uma é o trabalho de base na educação em direitos humanos e a disputa da leitura bíblica junto do nosso povo. Outra é a de um testemunho público que seja confrontador dos crentes conservadores, pedagógico ao crente médio e empoderador do crente progressista. Público e também profético para denunciar a elite eclesiástica e as injustiças sociais e anunciar o juízo de Deus e os horizontes históricos da justiça.

A quebra do pacto democrático com um golpe, a frustração dos que ascendiam socialmente e regrediram com a crise, a indignação contra a corrupção – cuja vulgata se tornou um mantra na mídia – tudo isso parece ter resultado num forte ressentimento anti-democrático, de desconfiança e raiva da política. Um efeito disso é a autorização dos discursos e práticas de ódio – em nossas igrejas inclusive. Os instintos destrutivos até então reprimidos pelos interditos da civilização e pelo avanço da redemocratização, passam a balizar a atitude cotidiana das pessoas. O sentimento de medo pela rua e o assassinato do mestre Moa do Katendê, cometido por militante bolsonaristas, e antes disso os atentados a Marielle e à caravana de Lula, mostram não o que está por vir, mas o que já chegou.

Lição primeira: o fascismo não é eleitoral, é cotidiano. Não passa com as eleições; antes, porém, tem ancoragem social profunda. Eleição é guerra, é marketing, é pouca reflexão. Mas ninguém se torna adepto do, ou indiferente ao discurso do Bolsonaro da noite para o dia. Então a pergunta é: onde estavam os fascistas esse tempo todo? Em nossas igrejas inclusive. Dói admitir. E num país em franca transição religiosa, cada vez mais evangélico, a esquerda brasileira conseguiu a proeza de arrogantemente desprezar a possibilidade de trabalho de base neste segmento. O fato é que a igreja sairá mais conservadora desse processo eleitoral. Como enfrentar isso?

Por primeiro, combater o autoritarismo em nossas igrejas. O fascismo demonstra facilidade em dialogar com disposições subjetivas das massas, com os modos de pensar e agir arraigados na vida cotidiana. Tem lastro num autoritarismo que está socialmente implantado – tal como nos advertiu Paulo Sérgio Pinheiro. É verdade que nossas igrejas são relativamente mais democráticas, onde o leigo pode falar, há livre-exame e discussão das Escrituras e a autoridade pastoral pode ser contestada em algum grau. Mas é verdade também que há uma certa ordem do discurso, lógicas de exclusão, interdição e controle. Todos podem falar, mas nem tudo pode ser dito. A dúvida é quase proibida. Parece que cada um dos irmãos na escola bíblica dominical é um teólogo bem resolvido com os dogmas de sua fé. O saber teológico é semi-repartido com os fiéis, mas a última palavra ainda é monopolizada; ainda se reproduz a divisão católico-romana entre corpo e clero. Superar essa clivagem corresponde à tarefa de defender a Palavra livre, a fala insubordinada, o direito à heresia como momento da construção do conhecimento sobre Deus, porque o Verbo não está nas alturas, está entre os homens. Seu Espírito aconselha o povo de forma conciliar, comunitária, coletiva. Deus habita onde há liberdade de expressão e diálogo. Ele está no concílio, não na cátedra.

De igual modo a pluralidade é um desafio para nós. O movimento de Bolsonaro é puro tabu e Fake News. A defesa da família, da moral e etc precisa ser enfrentada pelo campo progressista nos próximos anos. Precisamos falar de ideologia de gênero e direitos sexuais com o povo de nossas igrejas. Há uma preocupação por parte dos evangélicos progressistas em se aproximar do crente médio evitando as polêmicas. Acontece que agora elas são inevitáveis. Se respeitarmos tabus e cultivarmos a auto-censura, iremos reiterar o princípio fascista que é o do silenciamento complacente ao preconceito – que aliás, afeta muitos LGBTS que são evangélicos, assim como irmãs que optam pelo aborto e outras “minorias” que estão presentes em nossas igrejas. Assumi-las é optar pela porta estreita.

É claro que não vamos almejar um consenso teológico sobre união homoafetiva, por exemplo, até porque ele não é a contrapartida do respeito. Podemos disponibilizar aos irmãos a opção de construção da laicidade e dizer de forma didática que a atitude cristã diante da diversidade religiosa, étnica, sexual e de gênero é de respeito do direito à diferença, sem que isso custe sua opinião teológica particular.

Também é importante dar prumo à disputa interna na igreja a partir da identidade de classe do trabalhador. A teologia da prosperidade, tão nefasta, expressa, convenhamos, uma indignação moral contra a miséria. Mas o faz com o sinal trocado, por vias mágicas e individualistas. Podemos oferecer aos seus adeptos um caminho ético-político para o bem estar coletivo a partir da nossa fé, em que a prosperidade seja integral e seja para todos.

Ora, um país de formação escravocrata-senhorial, sempre teve na sutileza da dominação pessoal e paternal, o esteio de sua vida política. Entre a Casa Grande e a senzala existiu sempre um abismo, a ausência de estratos médios, a incipiência de uma sociedade civil complexa com disputa de opinião associação política. Temos um espaço público diminuto, uma sociedade frágil e um Estado patrimonialista. Por mais que isso tenha mudado um tanto, por aqui toda polarização política e cultural imita esse antagonismo primário entre povo e elite; ganha feições de classe.

O fascismo brasileiro, diferente da experiência italiana e alemã nos anos 30, não tem o menor compromisso com a defesa do direito do trabalhador, não é estatista; é neoliberal e entreguista. É de massas, mas tem um conteúdo de classe mais elitista que nunca. Isso precisa ser esclarecido para organizar a luta: a democracia é o projeto dos de baixo e o crente quer pão.

Neste contexto, a esquerda secular deve ser solidária à desconstrução do fascismo. Repetir o chavão de que “os evangélicos são conservadores” não ajuda, só atrapalha. Essa estigmatização corrobora o discurso dos coronéis da fé que dizem representar todos os evangélicos e também invisibiliza as iniciativas progressistas nesse meio. Em vez disso, cumpre à esquerda dar visibilidade às nossas ações e abrir as portas de suas bases lotadas de crentes para que nós, os únicos que temos a linguagem adequada, façamos a sensibilização certa. Até porque nem tudo é terra arrasada. Se metade apoia Bolsonaro, a outra metade não apóia. A outra metade afirma que Deus defende o trabalhador, o pobre, o órfão, a viúva, o imigrante; que para Deus bandido bom é bandido convertido e ressocializado; que nem tudo que julgamos pecado deve ser objeto de lei e que Deus é Amor. Além do povo disperso pelo país, um contra-ativismo emergiu à esquerda nos últimos anos: Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, Movimento Negro Evangélico, Frente Evangélica pela Legalização do Aborto, atos de “Jesus cura a homofobia” e outros.

As bancadas parlamentares também se renovaram, para o bem e para o mal. O perfil dos candidatos eleitos destoa do político tradicional, a esquerda elegeu candidatos jovens e em São Paulo conseguimos a primeira deputada estadual negra e trans ao mesmo tempo em que um descendente da decadente família imperial brasileira também foi eleito; temos um general eleito aqui para o congresso, mas temos a primeira deputada indígena da história, vinda lá de Roraima. O fascismo e o anti-fascismo crescem juntos. Há uma polarização mútua. Não há poder que não provoque resistência. Eu mesmo nunca vi tanta gente da minha família, irmãos de fé e colegas dos tempos de escola assim mobilizados como estão agora para derrotar o fascismo e preservar o direito. A Esperança é um bem por demais valioso para ser trocado por apenas uma parte da realidade.

Tão grave quanto apoiar este candidato anti-cristão, é a omissão de muitos pastores e líderes que escolhem o conforto morno da indiferença, que nauseia a Deus. Temos que pressioná-los a tomar posição.

Neste momento, a seara é grande e os ceifeiros são poucos. Nos resta sair das redes sociais e ir para o corpo-a-corpo, apresentar aos irmãos as virtudes do candidato democrático e expressar o repúdio, embasado biblicamente, ao adversário da democracia. E mais: tão grave quanto apoiar este candidato anti-cristão, é a omissão de muitos pastores e líderes que escolhem o conforto morno da indiferença, que nauseia a Deus. Temos que pressioná-los a tomar posição. Não se pode coxear entre dois pensamentos, entre dois deuses. Seja “sim, sim; não, não” – dizem as Escrituras.

À parte do resultado das urnas, venceremos. Mas saibamos vencer, construamos uma resistência e um trabalho de base sustentável, paciente e persistente, do contrário tudo será casa sobre a areia. Combater o autoritarismo, o moralismo e individualismo acumulador nas nossas igrejas é algo central para desarticular o fascismo nesse tempo histórico. É preciso dizer que o povo da Bíblia é diferente da Bancada da Bíblia e que nós estamos dispostos ao arrependimento e ao Bom Combate. É preciso dizer que o medo é um sentimento reacionário, conservador, porque nos paralisa. Antes o perfeito amor lança fora todo medo (1 Jo.4:18).

Vítor Queiroz de Medeiros é facilitador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito em São Paulo.

Um apelo aos pastores brasileiros: até quando coxeareis entre dois pensamentos?

Um apelo aos pastores brasileiros: até quando coxeareis entre dois pensamentos?

Os evangélicos serão uma das parcelas mais afetadas por um eventual governo fascista.

Ecce Homo, de Antonio Ciseri, 1871. Cristo também enfrentou fake news, quando os fariseus diziam que planejava uma revolta popular contra o poder romano.

Por Vítor Queiroz de Medeiros

Cerca de 60% do eleitorado evangélico vota em Bolsonaro. Isso equivale a quase 40 milhões de votos. O mapa eleitoral lido pela variável “filiação religiosa” diz que Haddad tem melhor desempenho em municípios com menores taxas de pentecostais. Mas Deus não tem nada a ver com isso e Sua Palavra condena o projeto bolsonarista.

O candidato Bolsonaro tem ao seu lado líderes odiados pela maioria dos evangélicos: Edir Macedo, Estevam Hernandes, Silas Malafaia – todos metidos em escândalos referentes à extorsão de fiéis, evasão de divisas e lavagem de dinheiro; construíram impérios para si às custas do povo pobre iludido com a prosperidade mágica; enriqueceram com o comércio da fé. É preciso desautorizá-los e livrar da ilusão aqueles que se permitem guiar por ideologias mundanas e mitos da velha disputa entre “esquerda” e “direita”. O embate dessa hora é entre Evangelho e anti-Evangelho; entre civilização e barbárie; entre democracia, paz, direitos humanos e fascismo.

Nosso povo crente está enredado por polêmicas de cunho moral. A campanha de Bolsonaro é puro tabu e fake news. Inventam que Haddad vai transformar o Brasil numa Venezuela, distribuir kit gay, fechar igrejas, entretanto em 13 anos de governos petistas isso não passou nem perto do ocorrer. Aliás foi nesse período que o povo evangélico mais cresceu, muito em função da liberdade religiosa irrestrita desses tempos. Jesus também enfrentou fake news em sua época: os fariseus diziam que ele iria abolir a lei, que planejava uma revolta popular contra o poder romano e que destruiria o templo. Temos que combater as falsas notícias, sem, contudo, ficar refém delas.

Além disso temos que transpor o moralismo e pautar a agenda econômica: o povo evangélico é majoritariamente pobre, beneficiário de políticas sociais; serão as parcelas mais afetadas por um eventual governo fascista. A chapa de Bolsonaro se opõe ao 13º salário, às férias remuneradas, à licença maternidade e esteve com Temer durante a aprovação da reforma trabalhista e a aprovação da “PEC do Teto” que congelou, por vinte anos, os investimentos públicos em saúde e educação.

O povo evangélico é pobre e trabalhador. Nós, irmãos preservados democráticos, temos que denunciar profeticamente: “o trabalhador é digno do seu salário” (1 Tim. 5:18); dizer que Deus abomina a exploração do pobre pelas elites patronais (Tg.5:1-16); que o trabalhador não deve ser extorquido por bancos e afins, mas deve ser socialmente protegido (Lv.25:35-38). Deus defende política social, Bolsa Família, tributação progressiva para os que os ricos paguem mais e demais políticas de transferência de renda, não para sobrecarregar alguns, mas “para que haja igualdade” (2Cor.8:13-15). Deus está do lado do trabalhador e seu beneplácito está sobre a velha CLT; sobre o Prouni; o Fies; o Minha Casa, Minha Vida; o investimento na agricultura familiar e do imposto justo.

Também temos que avisar nossos irmãos que Bolsonaro elogia a tortura, a ditadura, propaga a violência e defende o armamento civil. Ora, o protestantismo sempre foi defensor da democracia. A Reforma foi anti-absolutista e mesmo no Brasil, muitos irmãos lutaram contra o regime militar: Jaime Wright, que publicou com Dom Paulo Evaristo Arns, o relatório “Brasil nunca mais”; seu irmão que fora assassinado pelos repressores, Paulo Wright; o irmão metodista, torturado e resistente, Anivaldo Padilha entre muitos outros que inclusive constam nos anais do relatório da Comissão da Verdade.

Estivemos nas Ligas Camponesas; estivemos com João Goulart como se viu na conferência “Cristo e o Processo Revolucionário” em 1962; militamos sob viadutos, por entre vielas, dentro dos presídios, sempre defendendo a dignidade humana. O fascismo não combina conosco. Sempre estivemos do lado certo da história. Enquanto a maioria do pastorado e das igrejas se calou diante dos horrores da ditadura sanguinária, muitos irmãos fiéis à democracia e à liberdade, por amor do Evangelho, foram ao martírio nos paus-de-arara e outras máquinas de morte.

Jesus foi um torturado; açoitado, teve ainda uma coroa de espinhos sobre sua cabeça e morreu crucificado de maneira brutal. Como pode um eleitor de Bolsonaro, defensor da tortura, participar na eucaristia do corpo e do sangue de um torturado? “Quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, o faz para sua própria condenação” (1 Cor.11:29). E como subscrever a ideia de que “bandido bom é bandido morto”, quando Jesus não hesitou em impedir o apedrejamento da mulher adúltera (Jo.8:7) e ainda salvou o malfeitor pregado na cruz ao lado da sua (Lc.23:39)? Bandido bom é aquele que é ressocializado e transformado.

Bolsonaro ainda defende, talvez por lobby da indústria armamentista, a ampla liberação do porte de armas. Cristãos que o apoiam deveriam ler o texto em que Jesus censura Pedro que, mesmo agindo em legítima defesa, lançaria mão de uma arma, o que apenas reproduz a violência (Mt.26:52). Lembremo-nos de que “bem aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus” (Mt. 5:9).

Vamos ver os frutos. Um é temperado, tolerante e democrata. O outro comete atos de homofobia, de racismo e de machismo. Alguém consegue imaginar Jesus chamando a mulher samaritana de “vagabunda”? (Jo.4:4-26). Precisamos declarar claramente que a violência, o desrespeito e a discriminação não são opções ao cristão. E nós, cristãos democráticos, sobretudo os pastores, temos que dizer como claramente que “Deus não faz acepção de pessoas” (At.10:34; Tg.2:9).

Bolsonaro é um lobo travestido de ovelha; é uma ameaça à democracia. Quanto a pseudo-salvadores, o Novo Testamento está repleto da exortação à vigilância, “Acautelai-vos!”. Temos que exortar nossos irmãos para que não se enganem e temos que cobrar posicionamento claro dos nossos pastores contra o candidato. Não podemos admitir a indiferença, a omissão covarde e conivente de nossos líderes. Cobremo-los. Há muitos pastores que são contrários ao fascista Bolsonaro, mas hesitam em se posicionar, talvez temendo perder dizimistas ou algo do tipo. A estes digo claramente: sejam quentes ou frios, não mornos, nem hipócritas!

Na Alemanha nazista, a Igreja Confessante, erigida por Bonhoeffer e Karl Barth, foi um luzeiro nas trevas ao mobilizar a cristandade contra o nazismo enquanto a famosa maioria embarcava no projeto do Maligno. Em meio à noite escura que se abate sobre nós, sejamos corajosos e coerentes com o Evangelho, com o espírito radicalmente democrático da Reforma Protestante e com o testemunho histórico dos irmãos brasileiros que tombaram durante a ditadura. Não compactuemos com o ódio. O inimigo é quem vem para matar, roubar e destruir; mas o projeto de Jesus é dar vida com abundância a todos e todas (Jo.10:10).

Por fim, aos cristãos que militam pela paz e pela democracia: não nos deixemos tomar pelo medo. O medo é um sentimento reacionário, conservador, nos paralisa. Antes, porém, o perfeito amor lança fora todo medo (1Jo.4:18). A Esperança é um bem por demais valioso para que ser trocado por apenas uma parte da realidade. Bolsonaro não, em nome de Jesus.

Vítor Queiroz de Medeiros, 22, é coordenador estadual da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito/SP.

Milícias Digitais de Bolsonaro colapsam a democracia

Milícias Digitais de Bolsonaro colapsam a democracia

O candidato promete governar pelo WhatsApp, mas as mesmas redes usadas para uma ditadura digital servem para combater o estado de hipnose coletiva.

Imagem: Mídia NINJA

Não está tudo bem! Diante das forças políticas que emergiram no contexto das eleições de 2018 no Brasil, atropelados por fake news e uma memética corrosiva, a subcultura da internet está produzindo um estado de exceção digital, que afronta a justiça e as instituições analógicas. Mas o que seria um colapso de proporções e efeitos catastróficos, radicaliza também a potência das redes e de uma democracia digital capaz de calibrar as ditaduras por domínio informacional. Estamos no meio de uma encruzilhada.

As campanhas eleitorais e a democracia representativa como conhecíamos chegaram no seu limite e impasse. Em uma das maiores crises de desinformação em escala global, o Brasil (depois da eleição de Donald Trump nos EUA) protagoniza o que talvez seja o início do fim das democracias tais como conhecemos, com a desconfiguração radical, pós mídias digitais, do sistema de comunicação, de autoridade, institucionalidade e sociabilidade.

A regressão vingativa dos discursos políticos, encarnado no Brasil em um antipetismo alucinatório, as fake news produzidas de forma industrial, põem em xeque uma justiça analógica, corroem mas também reinventam o que conhecíamos como democracia.

Uma mutação dos sistemas de governança que poderia ser desejável, com uma desordem criadora, mas que, no contexto brasileiro, emerge na sua face mais arcaica e sombria: movimentos políticos de novo tipo que configuram novos fascismos e regimes digitais de exceção que tornam o sistema analógico de justiça obsoleto e ineficiente.

Tudo o que fabulamos sobre a potência da cultura digital, a apropriação tecnológica pelos muitos, o poder dos desorganizados, se efetuou pelo seu avesso. 2018 é um anti Junho de 2013, ou sua face mais sombria.

Uma desordem informacional e uma desorientação política que longe de nos levar para um novo tipo de governança, mergulhou o Brasil em uma onda de violência nas ruas e nas redes, com ataques, linchamentos reais e simbólicos, pautas regressivas, propagação epidêmica de discursos de ódio e mentiras contras as mulheres, os negros, os grupos LGBTQI, indígenas, quilombolas, os ativistas, as ONGs, os artistas e fazedores de cultura, os professores e estudantes universitários, ambientalistas e cientistas, defensores dos direitos, um campo diverso e plural chamado de “esquerdas”.

Em oposição a um campo político e cultural, Jair Bolsonaro, candidato a presidência da República, é o primeiro resultado de um experimento político baseado em um novo modelo de negócio e governança: as fake news e a memética impulsionadas artificialmente em escala industrial.

Diante de um campo e de valores humanistas, formou-se uma onda de extrema-direita, uma sensação, uma crença, que produz dogmas e certezas em meio a desorientação informacional, repertórios reduzidos e que forma novos grupos de pertencimento. Estar na onda é uma alegria e uma potência!

“Eu perdi a fé, mas que enfermidade mais terrível”

A profunda desilusão dos “revoltados on line” com o sistema político e a corrupção endêmica, a polarização como estratégia midiática que nutriu a desinformação e o ódio, produziu efeitos de discurso, “efeitos de verdade” que têm consequências reais e imprevisíveis.

Um processo que se acirrou com o impeachment de Dilma Roussef , um linchamento em praça pública protagonizado por atores, mídias corporativas, o judiciário, os partidos políticos rivais e movimentos de novo tipo, como o MBL, que souberam catalisar toda insatisfação para um alvo político: o PT, suas lideranças e programas. Com base em seus erros passam a reverter seus acertos e minar parte das conquistas sociais e políticas públicas das últimas décadas que produziram commons: bem comum.

Antipetismo alucinatório

O processo – as denúncias e delações diárias da Lava Jato, de forma serial, naturalizando delações, naturalizando a devassa da privacidade, naturalizando um justiçamento midiático travestido de liberdade de expressão e de investigação de fatos – produziu discursos extremistas e autoritários, de baixa institucionalidade e baixo republicanismo.

Jair Bolsonaro é o resultado desse antipetismo alucinatório, que em cima da exposição dos mecanismos de funcionamento do sistema político (caixa dois, capitalismo mafioso das empresas, corrupção endêmica) produziu uma aberração política e um experimento comunicacional.

Um Meme Presidente

Bolsonaro é o representante de um estado de exceção político e informacional permanente na passagem fulminante de democracias representativas para uma governança em tempo real. As mídias digitais como o whatsapp e suas milícias digitais, a produção de efeitos de verdade de forma simultaneamente artificial e orgânica, podem ser a nova base de sustentação de uma governança digital de tipo autoritária? A base de Bolsonaro são esse exército de eleitores, trolls, bots e pessoas comuns que acharam na velocidade e viralidade da memética um vetor de propagação de crenças e consensos provisórios.

As milícias digitais produzidas nesse contexto da hiperpolarização e da pós-verdade são o avesso da cultura digital celebratória e utópica das primeiras décadas da internet, da inteligência coletiva e de uma democracia em rede gestada por uma multidão direcionada para o bem comum.

A revolução digital desceu aos infernos e o que emergiu é um cenário de pesadelo com toques de Black Mirror, Mad Max, Terra em Transe e Zorra Total. Uma memética que remixa a cultura de massas e seus personagens (os memes já clássicos com Inês Brasil, Carreta Furacão, Xuxa Meneghel, Gretchen, Renata Sorrah/Nazaré), as bonecas Barbie e Susi, tornadas avatares e personagens de uma cena em que Jair Bolsonaro também significa o triunfo dos memes na política.

Bolsonaro, se eleito, seria o Presidente Meme, o Bozo, o Palhaço, o troll, em que a fala tosca e o ideário retrógrado e totalitário é relativizado por parte dos seus seguidores como piada, escracho, deboche, o “Mito’, mas também levada ao pé da letra, na sua literalidade, por um outro contingente de eleitores que se apega às verdades e truísmos maniqueístas e simplórios e se identificam com um ideário ultraconservador.

Domínio informacional e fake news. Um novo modelo de negócio e de política

Autoprofecia anunciada, o cenário das eleições de 2018 foi antecipado pelos players importantes de dentro e de fora do jogo eleitoral. Plataformas como o Facebook e WhatsApp, com base nos escândalos da Cambridge Analytica na eleição de Trump, têm total consciência de como seus negócios de comunicação incidem sobre crenças, comportamentos, humores e sociabilidade.

O que estamos vendo no Brasil são os efeitos dessas “psyops”, operações psicológicas de produção da opinião pública pelo direcionamento de informações: “mudando a cabeça das pessoas não através da persuasão, mas por meio de ‘domínio informacional’, uma série de técnicas que incluem rumores, desinformação e fake news” (…) “brincando com a psicologia de um país inteiro no contexto de um processo democrático”, como explicou de forma didática Christopher Wylie, ex-empresário da Cambridge Analytica sobre os processos que culminaram com a eleição de Trump.

No contexto brasileiro, para além das operações de coleta de dados e perfis psicológicos no Facebook, o uso da rede WhatsApp pelos marqueteiros de Bolsonaro, com apoio de Steve Bannon e financiado por empresários brasileiros produziu uma avalanche, uma onda em seu favor alavancando um inimigo público: o petismo. Disparos de mensagens a níveis industriais turbinaram a combinatória de ceticismo político, fake news e a formação da opinião pública com um efeito assustadoramente degradante para a democracia no Brasil.

O contigente que foi bombardeado e se apropriou da memética como linguagem política, com memes panfletos, memes de zombaria, memes de celebração, memes propagadores de dogmas, estímulo a linchamentos virtuais e mentiras poderia formar um senso crítico capaz de destituir e reverter esse mesmo estado de coisas? Como escapar das bolhas de influência e domínio informacionais?

Milícias Digitais

A questão é que as fake news e a comunicação massiva automatizada são um novo modelo de negócio e um novo modelo de gerência política. A #LavaZap não é uma piada da internet, a operação de financiamento ilegal de disparos massivos no WhasApp, denunciada em matéria da Folha de São Paulo do dia 8 de outubro de 2018 que repercutiu em todas as mídias dentro e fora do Brasil, é apenas a ponta de um iceberg de uma governança que flerta com regimes ditatoriais digitais.

As milícias digitais alimentadas por fazendas de fake news em escala industrial surfando na onda antiestablishment só cresceram desde 2013, um contigente de eleitores distópicos que se valem de uma comunicação descentralizada como o WhatsApp para escrachar, zombar, desconstruir reputações ou celebrá-las.

Uma extrema direita que mistura uma militância orgânica, mas também cidadãos zumbis, bots e uma opinião pública forjada pela era da comunicação automatizada. A questão é o desequilibro estrutural de um ecossistema político já em decomposição em que as regras de transição para nossos sistemas de governos digitais não foram criadas e nem consensuadas:

“Para alcançar mais eleitores, as campanhas políticas obtiveram neste ano programas capazes de coletar os números de telefones de milhares de brasileiros no Facebook e usá-los para criar grupos e enviar mensagens em massa automaticamente no WhatsApp. A prática viola as regras de uso dos dados do Facebook e, para alguns especialistas, pode ser considerada crime eleitoral. À BBC News Brasil, o Facebook disse estar investigando o caso, e o WhatsApp disse estar levando a denúncia a sério e tomando medidas legais. O WhatsApp declarou ainda ter banido centenas de milhares de contas suspeitas neste período eleitoral.”

Um novo regime de verdade?

Trata-se de uma nova forma de produção de consenso, por clicks, likes, compartilhamentos, distribuição massiva de memes, mensagens que criam uma comunidade imaginada de iguais, no momento em que as instituições produtoras de consenso entraram em crise de credibilidade: a justiça, a mídia, a escola, os políticos, a própria ciência.

“Como o mundo verdadeiro acabou por se tornar fábula”, reencontramos Nietzsche de Crepúsculo dos Ídolos (1889) quando mostra como verdade como “A História de um Erro”: “o mundo verdadeiro é uma ideia que já não serve mais para nada, que não obriga mesmo mais nada – uma ideia que se tornou inútil, supérflua; consequentemente uma ideia refutada; suprimamo-la!”

O que Nietzsche, Foucault, Derrida, Deleuze e tantos pensadores contemporâneos estão dizendo é que cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ‘política geral’ de verdade. É que devemos nos perguntar e questionar:
– Quais os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos?
– Quais as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade;
– Qual o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro, com suas leis, enunciados científicos, o que é ou não crime, pois todas são  “verdades construídas”.

Os discursos que colocam a verdade em crise não significam que todos os discursos se equivalem. Quais as consequências éticas, subjetivas, em termos de relações de poder, de comportamento e visão de mundo resultado das crenças? Quantas verdades (e mentiras) somos capazes de suportar?

E a questão que importa: Quais os efeitos daquilo que cremos ser verdadeiro? Pois acreditar que se é racialmente superior, moralmente superior, se acreditarmos em uma distinção e assujeitamento do outro pelas nossas diferenças, nossas verdades se tornarão armas de destruição e morte do outro.

É o que estamos vendo nas redes sociais e digitais. Verdades fabricadas e crenças produzidas por domínio informacional, por click, likes e deslikes, enxameamento, que produzem consensos e verdades provisórias ou duradouras com efeitos reais.

A guerrilha memética

No seu livro Kill All Normies, Angela Nagle faz uma análise brilhante das guerras culturais on-line, analisando a estética e os discursos de plataformas com o 4Chan e o Tumblr para entender a “direita alternativa” (alt-right) que elegeu Trump nos EUA.

No Brasil, o fenômeno Bolsonaro passa por outras subculturas, a zoeira das redes sociais, as batalhas de memes no twitter, como a primeira e a segunda guerra memética entre Brasil e Portugal, os grupos de WhatsApp produzindo novas formas de pertencimento, desconfigurando as hierarquias familiares, os influenciadores, youtubers, a epidemia comunicacional que mexe com a sociabilidade brasileira na veia.

Um exemplo dessa paixão bélico-criativa foi a #primeiraguerramemeal no Twiter em 2016, com trocas ferozes e intensas de um humor altamente inventivo e veloz por tweets e memes que mostrava o jorro criativo dos brasileiros para os combates cognitivos e afetivos.

O problema foi sua transposição catastrófica para um mundo político em dissolução. Paixão bélica, rivalista, que no Brasil se expressa nas torcidas de futebol, nas mortes no trânsito e nas brigas de bares por motivo fútil. Passamos do humor à tragédia em um meme. Da festa à cultura de morte, da cordialidade aos discursos de ódio com a mesma rapidez e euforia.

A Partilha do Monopólio da Violência

Mas para além do humor e das guerras memeais lúdicas, vimos emergir uma onda de violência dos eleitores de Bolsonaro que explicita um desejo primário e assustador: a promessa de Bolsonaro de partilhar o monopólio da violência do Estado com todos os “cidadãos de bem”. Uma espécie de milícia cidadã que fará justiça pelas suas próprias mãos diante do descrédito na política e no Estado.

Daí o imaginário das armas liberadas, do justiçamento sumário, com crianças e adultos empunhando os dedos/armas contra seus inimigos. Metralhar, fuzilar, varrer o inimigo. Um tornar-se fascista, de que falam Gilles Deleuze e Michel Foucault.

“Enfim, o inimigo maior, o adversário estratégico: o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e de Mussolini – que tão bem souberam mobilizar e utilizar o desejo das massas -, mas o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora”, como analisa Foucault em Por uma Vida Não-Fascista, texto belíssimo e inspirador.

Para os “idiotas da objetividade”, como diria Nelson Rodrigues, que querem reduzir o fascismo às suas características históricas leiam um pouco de Foucault, ou melhor ouçam os discursos de Bolsonaro, porque no momento precisamos esclarecer o que é o fascismo no cotidiano, contra os corpos, contra os sujeitos, os microfascismos do vovô, do titio, dos irmãos, primos, dos amigos, da mamãe, os microfascismos que estão em nós e nas nossas casas.

O fascismo como desejo de poder acendendo todos os ressentimentos de grupos, de classe, as frustrações pessoais, o desejo de morte dos que se sentem desorientados e humilhados e aceitam a promessa de assujeitar os outros.

Não se reprima! Não se reprima! Conclama Bolsonaro para seus eleitores. Bolsonaro é o anti-herói que desreprime os nossos mais baixos e piores instintos. Exatamente como o fenômeno das fake news, em que as pessoas querem acreditar por mais absurdas e inverossímeis que elas sejam.

Por isso não importa se Bolsonaro está certo ou errado e nem nada do que diz racionalmente. Ele não tem e nem precisa de coerência, ele não precisa entender de economia, nem de educação, nem de saúde e nem ser razoável e nem ter apreço a nada do que é caro a democracia.

Apela para o gozo mais primário e descomplicado: o gozo e o prazer em aniquilar os oponentes, a “esquerdinha”, os “fracos” (negros, mulheres, quilombolas, gays) que precisam de direitos e proteção, vistos como privilégios para fracassados.

O gozo dos que se identificam com a violência real e simbólica dos que oprimem exercem poder. Mesmo que seja um gozo fantasioso e que esse fascismo e violência se volte contra todos. O fenômeno Bolsonaro é uma questão de crença, de desrepressão boçal e de linguagem.

A pergunta que devemos fazer é quantos eleitores Bolsonaro ganharia sendo “politicamente correto” e quantos eleitores ele ganha quando desreprime um insconsciente fascista e violento, ativado por testosterona, delírio de onipotência e com a possibilidade, mesmo fantasiosa, da aniquilação dos seus inimigos, promessa de vingança regressiva: “vamos destampar os arquivos de Dilma e do PT e esquecer o passado e a ditadura e olhar para frente”, brada. Leia-se vamos destruir nossos inimigos!

Bolsonaro alia crenças primárias com o gozo sádico e celebratório: “o ladrão que me assaltou apareceu morto”, prescreve a castração química para estupradores, e vocaliza o triunfo dos impotentes que se sentem injustiçados e oprimidos por uma elite intelectual e política, por um repertório que não dominam, por leis e um aparato jurídico que não fala a língua de ninguém. Goza com sua imunidade parlamentar que o permite vocalizar o invocalizável.

E como não poderia faltar em uma linguagem fanfarrona e ao mesmo tempo paranóica e de suspeição, todas as teorias conspiratórias cabem no discursos de seus eleitores, sendo a maior de todas a que quer acabar com o voto eletrônico por suspeita de fraude.

As urnas e a própria democracia são o dispositivo de maldade que elegeu as esquerdas nos últimos tempos. Por isso sua ode às ditaduras como o céu político. Pois quem mais elegeu os governos progressistas? Bolsonaro não pode xingar o povo, então inventa uma máquina de manipulação: a urna eletrônica fraudada, única força capaz de deter sua vitória.

Diante de toda a suspeição diante do Estado, dos políticos, da democracia, uma parte dos brasileiros se identifica com o sincericídio tosco e fascista de Bolsonaro: que vocaliza os medos mais primários e traz soluções igualmente simplórias. Estamos diante da “Verdade Sufocada” que explode, título do seu livro de cabeceira escrito por um torturador. É a barbárie como libertação!

Governar utilizando o WhatsApp

E se o próximo Presidente do Brasil utilizar redes e grupos de transmissão massivos para governar com base nas suas milícias digitais? Essa é a proposta de Jair Bolsonaro que anunciou que, caso seja eleito, vai transformar o aplicativo em uma de suas principais ferramentas de governo e de comunicação. “Seus assessores e conselheiros gostaram bastante da ideia de criar um programa de governo para distribuir celulares com acesso à internet para a população de baixa renda” .

Falam em “Cidadania Digital” um conceito que inspirou as gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira no Ministério da Cultura nas eras Lula e Dilma e onde participamos ativamente pensando, elaborando, fabulando, como a cultura digital, os Pontos de Mídia Livre, poderiam alavancar formas participativas e diretas de gestão, transformado o comentariado das redes sociais e digitais em uma nova força das democracias comunicacionais.

A extrema-direita digital está a ponto de fazer o download deste programa e disputar o mesmo imaginário, mas de forma pragmática para a produção de uma hegemonia cultural e informacional que inauguraria as ditaduras digitais. A cultura de redes com o sinal inverso: produzir e inundar o cidadão de informações desencontradas, quase nunca verdadeiras, difíceis de checar, transmitidas de forma massiva em multiplataformas de tal forma que “inundem” com fake news, “fatos alternativos”, com um jato de informações incessantes (firehose of falsehood) e repetitivas e sem qualquer compromisso com a consistência ou a veracidade.

A Carta de Bolsonaro ao Povo Brasileiro

Cena final para configurar a governança pelo domínio informacional e as milícias nas redes e nas ruas:

Em vídeo gravado da lavanderia da sua casa, aos gritos para um celular, e endereçado os manifestantes na Av. Paulista no domingo, 21 de outubro de 2018, a uma semana das eleições presidenciais, Bolsonaro ameaça parlamentares, ativistas, partidos, ongs, movimentos sociais e a mídia.

Nomeia grupos, pessoas, instituições e redes como seus inimigos e diz como irá persegui-los com prisão, exílio e os rigores da lei e do Estado aparelhados. O Estado será usado como extensão de um delírio de onipotência sem limites e sem qualquer sentido republicano. As redes digitais serão suas milícias. Um Estado paramilitar comunicacional.

Ameaças aos seus rivais políticos, regressão vingativa e nenhum sentido de institucionalidade. Essa é a marca de Jair Bolsonaro, o antiestadista, que ameaça, às vésperas da eleição, em seu discurso nauseante, destruir todo o sistema e a ecologia política utilizando um discurso fascista, atravessado de metáforas de extermínio e das guerras: como a “limpeza”, varrer do mapa, expulsar do Brasil os “vagabundos”. As “raças” a serem extintas são os “vermelhos”, os movimentos sociais, os defensores dos direitos em todos os campos.

Para a imprensa “vendida”, dá os seus pêsames! A parlamentares rivais e ao candidato a presidência Fernando Haddad ameaça com prisão e um “vão apodrecer na cadeia” em um discurso fora de qualquer institucionalidade em que linchamentos políticos sumários antecipam qualquer justiça.

“Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil. Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos”, diz Bolsonaro sem qualquer constrangimento.

O discurso de Bolsonaro gravado em vídeo para a multidão como o discurso de um vencedor das eleições de 2018 não tem mais qualquer mediação ou moderação. É feito para alimentar uma plateia de cidadãos zumbis que urram com as fantasias mais brutais da política tornada regressão vingativa contra os “inimigos” e um petismo alucinatório que alimenta a violência real e simbólica nas redes e nas ruas.

Bolsonaro poderia tomar para si a fala catártica de Paulo Autran, em Terra em Transe de Glauber Rocha, no filme de 1997, que encarna toda a potência dos fascismos e seu efeito catártico e salvacionaista: “Aprenderão, aprenderão. Dominarei essa terra. Botarei essas histéricas tradições em ordem, pela força, pelo amor da força, pela harmonia universal dos infernos e chegaremos a uma civilização”.

Não chegaremos a uma democracia no século XXI com Jair Bolsonaro. Mas esse processo que ataca os ossos da democracia representativa como um ácido que destrói e corrói estruturas férreas é uma parte do processo e do expurgo. Que o preço não seja alto demais e que esse horror, esse messianismo e fascismo de novo tipo, essas novas forma dos regimes autoritários, com eleições com tudo, possam ser decisivas para abrir novos caminhos para as democracias no século XXI.

Seja qual for o resultado das eleições de 2018, teremos que combater uma extrema direita digital com as armas da democracia, das ruas, das redes, com as tecnologias e aplicativos, com a inteligência popular brasileira.

Muitos movimentos de novo tipo surgiram, mídias e redes com capilaridade e uma linguagem nova (Mídia Ninja, a plataforma 342 capitaneada por artistas e ativistas do mainstream, a primavera das mulheres utilizando as redes contra os machismos e patriarcalismo, a geração tombamento utilizando o consumo e a festa como forma de política, etc), é essa linguagem pop, esse ativismo mainstream, a mesma força usada pelas milícias digitais, que podem derrotar o obscurantismo.

Só uma reviravolta nessa onda fascista nos tira da hipnose coletiva, um ativismo potente, uma coragem inclusive intelectual para assumir que o fascismo tomou forma em um projeto político. E é contra esse ódio alucinatório que lutamos!

Contágio!

Essa eleição também desconfigura o campo da comunicação corporativa. Bolsonaro usou transmissões ao vivo no Facebook, um canal no Youtube e o impulsionamento de memes e fake news em redes gigantescas e descentralizada criadas no WhatsApp.

Apesar da manipulação inicial dos disparos pagos de notícias falsas contra Haddad e o antipetismo alucinatório, essas redes são incontroláveis e existe um fora que produz fatos e uma contranarrativa que furam bolhas.

Avalanches de fake news, memes, teorias estapafúrdias, crenças, teorias conspiratórias, produção de medo, histeria, mas também contranarrativas, resistências e esperanças serão despejadas em uma corrente sanguínea que já começou a produzir anticorpos.

As eleições de 2018 serão decididas por contágio e onda. Um modo epidêmico de fazer política. Sejamos nós também o viral, as forças capazes de produzir ondas, formação pelas mídias, ampliação dos repertórios usando as próprias redes, feitiços capazes de quebrar encantos e produzir novos consensos, disseminar o vírus da democracia e injetar nessa corrente sanguínea os anticorpos contra os fascismos.

Grindr sinaliza aumento de ataques homofóbicos após resultado do primeiro turno

Grindr sinaliza aumento de ataques homofóbicos após resultado do primeiro turno

Em meio a casos de homofobia na rede social, Grindr, voltada para o encontro de homens gays, divulgou lista e medidas de segurança para usuários.

A rede geosocial Grindr, voltada para o encontro da população LGBT, especificamente homens gays, emitiu um alerta de segurança aos usuários do aplicativo no Brasil, em vista da alarmante quantidade de denúncias sobre ataques homofóbicos registrados depois do resultado do primeiro turno das eleições. Em alguns dos casos assinalados desde o último domingo (08), os agressores atraíram suas vítimas por meio da própria plataforma.

No pop-up direcionado às pessoas cadastradas, o Grindr reconhece o aumento da violência contra LGBTs brasileiros devido às eleições e pede para que os usuários tomem “as medidas necessárias para se manterem seguros essa semana”.

As dicas de segurança são de proteção de identidade, ou seja, cuidados para não dar seus dados para estranhos, senso crítico com fotografias, cautela no compartilhamento do seu endereço, evitar mentiras, procurar contar para amigos quando sair com alguém, e denuncias de casos de violência ou agressões físicas e mentais.

Confira as dicas divulgadas pelo Grindr.

O aplicativo é um um dos mais populares entre os gays de todo o mundo e utiliza a geolocalização para facilitar encontros de pessoas a curta e média distância, à semelhança do Tinder. Além das medidas, o aplicativo também sinalizou sua campanha e acolhimento aos usuários com um banner contra os discursos de ódio.

Berlin, Germany – February 26: In this photo illustration the app of Grindr is displayed on a smartphone on February 26, 2018 in Berlin, Germany. (Photo Illustration by Thomas Trutschel/Photothek via Getty Images)