LGBTQIA+Tech: big data, mapa e diversidade 

LGBTQIA+Tech: big data, mapa e diversidade 

Combater preconceitos e construir ambientes seguros para con(viver). Mesmo que o mundo pareça ter avançado em alguns debates identitários, estamos longe de vivermos em mundo que respeite a diversidade. A cada 19 horas, uma pessoa LGBT é morta no Brasil. A cada hora, uma é agredida. Foram 445 assassinatos por LGBTfobia no ano de 2019 no Brasil. No caso de pessoas trans, que têm expectativa de vida de 35 anos, uma pessoa é assassinada a cada 26 horas. Os dados são do Grupo Gay da Bahia, Rede Trans e Mães pela Diversidade.

Como podemos combater e reverter esta realidade? A tecnologia tem sido responsável por proporcionar soluções frente a determinados desafios civilizatórios. Os recursos tecnológicos também podem ajudar os publicos que precisem de algum tipo de ajuda ou intervenção. Como é o caso de plataformas, aplicativos entre outras ferramentas voltadas à comunidade LGBTQIAP+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgênero, Queer, Intersexo, Assexuais, Pan e Polissexuais e mais). A boa notícia é que o número de recursos aumenta gradativamente. No entanto, a má notícia é que o público LGBTQIAP+ continua precisando desses serviços, já que o preconceito e a violência não estão nem perto de deixar de existir. 

Para abordar este tema, entrevistei Hóttmar Loch, CEO e Cofundador da Nohs Somos, uma startup de impacto social que se dedica a trazer bem-estar para a comunidade LGBTI+ e auxilia as empresas a melhorarem sua gestão inclusiva com soluções em diversidade & inclusão.

Imagem: Divulgação Nohs Somos

Recentemente a startup lançou o Mapa Lgbti+, um mapa de ranqueamento de lugares amigáveis que mobiliza os usuários LGBTI+ para avaliações. Dessa forma, através da ferramenta, é possível fornecer informações e avaliações confiáveis de lugares como restaurantes, bares, academias, empresas e entre outros que sejam amigáveis à comunidade de pessoas LGBTI+. A métrica de avaliação foi criada em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina. A Nohs Somos também é signatária das ODS 5,10 e 11. 

Além disso, também trazem o tema diversidade e inclusão para as empresas. Por isso, a startup criou uma solução para auxiliar o meio corporativo a melhorar sua gestão inclusiva com soluções em diversidade & inclusão. Hoje, a Nohs Somos atua com consultorias para clientes como Liberty Seguros, Whirlpool, Pulses e Ambev.

Qual o problema que vocês identificaram e que levou vocês a desenvolverem esta plataforma e solução do Mapa LGBTI?

A Nohs Somos foi criada em 2018, do desejo de um grupo de amigos de fazer alguma coisa para combater a forte onda de violência à comunidade LGBTI+ durante o processo eleitoral. Foi organizado um movimento com mais de 150 pessoas LGBTIs, para criar uma solução que prezasse a segurança e o bem-estar da comunidade, usando a tecnologia como aliada.

Quais as funcionalidades que os usuários terão acesso e o que eles podem fazer na plataforma?

A partir de um cadastro, a plataforma disponibiliza a funcionalidade do mapa, ranqueando os lugares amigáveis próximos e mobilizando o usuário LGBTI+ a avaliar. Quando a pessoa avalia, os lugares são inseridos no mapa. Nos locais que tiverem pelo menos 10 avaliações, é publicada uma média da nota. Além disso, é possível fazer comentários sobre os estabelecimentos, no primeiro momento, por questões de segurança, essas informações passarão por uma moderação antes de serem publicadas no site.

Para um lugar ser considerado amigável, ele terá que ser classificado com notas acima de 4 estrelas. Também os usuários podem filtrar locais de acordo com as letras da comunidade. Dessa forma, é possível filtrar lugares que são amigáveis às pessoas lésbicas, gays, bis, ou trans. Isso porque existem lugares que são gay friendly, entretanto são transfóbicos. As tags podem ser avaliadas pelos usuários incluindo os espaços que são LGBTIs+, Antirracistas e Trans Amigues que tenham um atendimento acolhedor, público respeitoso e um bom custo benefício. 

Nesse momento de pandemia, o objetivo da funcionalidade é mapear os lugares já conhecidos pelos usuários. A comunidade LGBTI+ pode participar dessa transformação sem sair de casa. O Mapa Lgbti+ está em construção e além de avaliar e ajudar nessa transformação social, as pessoas usuárias podem ganhar recompensas, com cupons exclusivos. E assim que o isolamento acabar, a funcionalidade poderá impactar na decisão da escolha na busca por lugares amigáveis. 

Ilustração: Divulgação / Nohs Somos

Qualquer lugar do país pode participar?

O mapa pode ser utilizado em todos os lugares do Brasil, já que usa sua tecnologia utiliza API do google maps. Assim que uma pessoa usuária procura um local, esse lugar passa a ser inserido no mapa amigável. Contudo, só será possível gerar uma nota, com o mínimo de 10 avaliações.

Como estão sendo estas primeiras semanas de divulgação e trabalho? Quais são os desafios que estão enfrentando?

Estamos muito contentes com o desempenho do projeto, desde o lançamento, no último dia 14, já estamos em mais de 233 cidades ao redor do país, com mais de 700 avaliações de lugares amigáveis. Contudo, ainda temos muito trabalho pela frente. A Nohs Somos é uma startup lgbti de impacto social, não temos divisão de lucro e nosso objetivo é ser um marketplace que aproxima o mercado amigável da comunidade LGBTI+, alinhado a valores. Com isso, o principal desafio é continuar o trabalho de marketing, para popularizar a plataforma, angariar recursos e dar sequência no desenvolvimento das outras funcionalidades, como o aplicativo com rotas seguras, funcionalidade de denúncia entre outras. 

Como vocês veem o papel da tecnologia neste contexto atual? Qual desafio enquanto organização vocês enfrentaram neste setor? 

A tecnologia é neutra: ou seja, há pessoas por trás que tomam a decisão de como essa ferramenta impactará na vida das pessoas que a utilizarão. A Nohs Somos é um bigdata lgbti, que  organiza os dados da comunidade LGBTI+ com objetivo de informar de maneira segura e confiável, promovendo o bem estar da comunidade lgbti+. Em relação aos desafios, o principal vai de encontro ao mercado: segundo o relatório da Brasscom, seriam necessárias 70mil pessoas com perfil tecnológico por ano, contudo, o Brasil só forma 46mil. E hoje a Nohs Somos conta com parte do seu trabalho de apoios voluntários, o que torna a competitividade de mercado ainda mais difícil. 

O projeto foi desenvolvido em Software Livre e esta aberto para a colaboração de pessoas da área de desenvolvimento?

Infelizmente o projeto ainda não está com o código aberto, contudo é um dos objetivos da Nohs Somos e esperamos em breve poder abrir. 

Vocês realizaram várias parcerias para a criação da Plataforma. Quantas pessoas estão envolvidas no projeto e como foi feita a mobilização, tanto para o desenvolvimento quanto para a divulgação?

Atualmente contamos com uma rede de mais de 50 parceiros, entre organizações e pessoas, sendo 90% pessoas LGBTIs+, 30% pessoas negras, 15% pessoas com deficiência e 40% mulheres cis e trans, espalhades pelo país, que apoiam produzindo para o projeto principalmente nas áreas de Marketing e Mídias, Produto e desenvolvimento, Administrativo e Jurídico. 

Clique aqui para acessar o mapa!

 

 

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O papel das LGBTI+ na reconstrução do Brasil

O papel das LGBTI+ na reconstrução do Brasil

Por Carla Ayres

“Menino veste azul e menina veste rosa”. Foi assim que, no dia 3 de janeiro de 2019, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, deu uma pequena amostra do retrocesso que o Brasil iria enfrentar nos anos seguintes. A escolha das LGBTI+ como o primeiro alvo do governo genocida de Jair Messias Bolsonaro não foi aleatória. A extrema direita precisava dar um recado direto à sociedade: eles não iriam tolerar a diversidade que recém descobrira a importância de ocupar os espaços públicos para garantir os seus direitos e a sua dignidade.

Depois de 21 dias da declaração LGBTIfóbica da ministra, a população LGBTI+ e a esquerda brasileira sofriam mais um duro golpe: Jean Wyllys, deputado federal do PSol reeleito com 24.295 votos para o terceiro mandato pelo Rio de Janeiro, renunciava ao cargo após ele e sua família sofrerem ameaças de morte. O parlamentar deixava o Brasil em condição de exilado político na Europa. Jean não queria ter o mesmo destino de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada junto com seu motorista, Anderson Gomes, pouco mais de um ano antes, pela milícia carioca. Os mandantes do assassinato de Marielle ainda não foram publicamente divulgados, porém, sabe-se que entre os suspeitos estavam vizinhos de condomínio de Jair Messias Bolsonaro.

A renúncia de Jean Wyllys era o prenúncio da tragédia que cairia sobre o Brasil após a ascensão da extrema direita. Os direitos sociais e o estado democrático de direito vêm sendo incessantemente atacados. O povo brasileiro sofre com a fome, com a insegurança alimentar, com a devastação de sua biodiversidade, com os ataques à ciência e às universidades, com a perda de direitos trabalhistas, com o aumento da violência policial, com a carestia dos alimentos e dos combustíveis, com o desmonte das instituições de Estado, com a venda do patrimônio nacional e com o genocídio de sua população tendo a pandemia como instrumento. Enquanto o Brasil caminha para o meio milhão de mortos pela Covid-19, a CPI instaurada no Senado para investigar as ações do governo descobre que a compra de vacinas foi boicotada, enquanto faltavam insumos, anestésicos e bloqueadores musculares, seringas e agulhas e até mesmo oxigênio.

Frente a este cenário sombrio vivido pelo país, uma sucessão de decisões do STF trazia esperança e alento ao Brasil: a Vara Federal de Curitiba era declarada incompetente, primeiro por decisão monocrática do ministro Edson Fachin e depois, por 8 votos a 3, pelo plenário da Suprema Corte. Na sequência, mais uma estrondosa derrota para o lavajatismo, com o reconhecimento, também pelo plenário do STF, da suspeição do ex-juiz Sérgio Moro no processo contra Lula. O ex-presidente estava novamente elegível, o que imediatamente resultou num reordenamento político do país, com Lula assumindo a liderança e disparando em todas as pesquisas de intenção de voto, inclusive com possibilidade de vitória em primeiro turno.

Inocente e disposto a reconstruir o Brasil, Lula arregaçou as mangas e iniciou uma série de diálogos com as principais forças políticas do país. Sua liderança aglutinou forças, jogou por terra a hipótese da terceira via e fez disparar os pedidos de filiação ao PT. Lula personificou a esperança do povo no resgate de um passado em que o Estado combatia a fome e a pobreza extrema, a esperança num Brasil onde o filho da empregada podia entrar na Universidade, onde o sonho da casa própria era uma realidade e não era preciso escolher entre comprar comida ou o botijão de gás. Os brasileiros se voltam cada vez mais à possibilidade de um país que respeite as diferenças, que desenvolva políticas públicas em defesa das minorias e que fomente a participação da população LGBTI+ nos espaços de poder e decisão.

Me filiei ao PT em 2004, com 16 anos na época, e desde então tenho trabalhado para fortalecer a militância e ampliar as vozes LGBTI+ dentro do partido. Foi no PT que minha luta se somou à luta de outros LGBTI+ na busca pela garantia de direitos e por justiça social. Ao longo desse tempo, pudemos ver de perto a forma como nossas pautas têm sido percebidas e incorporadas na agenda do PT em todo o país. Encontramos a possibilidade de nos candidatar, ainda em 2016, ao cargo de vereadora em Florianópolis. Com o slogan “Para tirar temas do armário”, fizemos uma votação expressiva na cidade, que surpreendeu o diretório municipal e nos permitiu assumir a suplência do mandato eleito na cidade. O recado estava dado e quatro anos depois, em 2020, o Mandato Carla Ayres era eleito na capital catarinense.

O anúncio da chegada de Jean Wyllys ao PT, feito na última semana, foi recebido com festa pela imensa militância LGBTI+ que integra o nosso partido. Wyllys representa a luta e a resistência da nossa comunidade, é uma liderança nata, que sabe a importância de ocupar os espaços de poder para garantir direitos e fortalecer a democracia. Jean Wyllys é mais uma estrela que vai ampliar as vozes da diversidade no nosso partido. É chegada a hora de devolver o Brasil para o seu povo, de fomentar o respeito às diferenças e enxergar nelas o nosso maior potencial de crescimento. Ao lado de Jean Wyllys e de Lula, vamos retomar o caminho da democracia, do fortalecimento institucional, dos investimentos públicos, das políticas voltadas à justiça social, da ciência como norteadora das decisões, da diversidade como eixo de governo. Nós, LGBTI+, precisamos nos mobilizar desde já, buscar nas instâncias partidárias o nosso espaço de luta e contribuir de forma efetiva para a reconstrução do Brasil.

Fomos duramente atacadas por Bolsonaro e sua turba nos últimos anos, contudo, se por um lado o fundamentalismo e os ataques às pautas progressistas e dos direitos humanos protagonizaram a derrocada democrática no país; por outro, somente a centralidade (e não a omissão) deste debate da diversidade sexual e de gênero, do combate ao racismo, anti-proibiciobista, feminista (etc), associado à defesa da soberania nacional e ao enfrentamento ao neoliberalismo, poderá resgatar a democracia.

O desafio está dado. Os caminhos abertos.

Estamos dispostos a isso e Jean está conosco!

Mandato Carla Ayres – Liderado pela Vereadora do PT em Florianópolis-SC,  Carla Ayres, lésbica, feminista, anti-proibicionista. Carla tem 33 anos, é filiada ao PT há 17 anos, e é Dra em Sociologia Política pela UFSC, primeira mulher eleita pela PT em Florianópolis, e primeira lésbica a se eleger na cidade.

 

“A linguagem inclusiva irá prevalecer”

“A linguagem inclusiva irá prevalecer”

Entrevista com Gustavo Conde, mestre em linguística pela Unicamp

Arte: Jojo Hissa & Fernando Carvall

Em um dos filmes mais importantes produzidos por Hollywood, na década de 1990, Malcolm X (Spike Lee, 1992), os atores Denzel Washington e Albert Hall interpretam a que talvez seja a cena mais significativa do filme: a que condensa a biografia do ativista, que marcaria a história política contemporânea. Nessa cena, o personagem Baines, interpretado por Hall, coloca em jogo a importância da ordem simbólica na sustentação de um sistema racista que distorce a percepção que o negro tem de si mesmo. Para trazer à tona a ideia, ele faz Malcolm ler a definição de negro que aparece no dicionário da prisão. No dicionário, “negro” aparece associado a conceitos como trevas, malvado, perverso e sujo, entre outras associações pejorativas. Malcolm percebe que existe um plano invisível, ou imaterial, no qual o racismo se manifesta de forma plenamente impune: no plano da construção de sentido. Um território pouco explorado, e por consequência, atravessado pela subjetividade. O militante intelectual, que logo se tornaria a conhecida figura política, inicia sua viagem de desconstrução do mundo branco, decodificando seu próprio ato de fala. Na época do lançamento do longa-metragem, a epifania chegou para todo ocidente: o racismo está no ato de fala. O cinema ajudou a popularizar a luta histórica do movimento negro, que teve Malcolm X como um dos seus expoentes mais proeminentes nas décadas de 1950 e 1960.

É logo por esses anos que surgem as primeiras críticas feministas para denunciar as marcas masculinas da língua espanhola. A linguagem é apresentada como “neutra” ao mesmo tempo que reúne referências sucessivas ao homem e nega às mulheres. Quando as feministas apontaram para “todos”, a fim de questionar onde as mulheres estavam, elas avançaram em direção a uma compreensão da linguagem como tecnologia de governança de gênero. Até a atualidade, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) orienta a utilização de expressões inclusivas e a incorporar o feminino aos genéricos masculinos (falar “todos e todas”).

Nos dias de hoje, essa discussão vê-se revitalizada pela crítica queer e trans dos essencialismos. Aqui, nem uma marcação de gênero, nem duas – nem todas são suficientes para uma “linguagem inclusiva”. Tais usos alertam que a linguagem é finita e reducionista em suas marcações masculinas ou em sua dose de visibilidade feminina. O questionamento tenta trazer para a cena variações irredutíveis ao entendimento cisheterocentrado. Quando utilizamos o “todes” nos distanciamos de uma presunção do mundo dividido em “homens” e “mulheres”. Essa aposta política não foi compreendida por aqueles que a criticam como uma nova forma de invisibilidade das mulheres. Pelo contrário, não se trata de colocar a transvisibilidade antes das de mulheres cisgênero, e sim de assumir a impossibilidade de conter, pela linguagem, as múltiplas experiências de gênero.

Para entender um pouco melhor estas e outras questões, confira entrevista com Gustavo Conde, mestre em Linguística pela Unicamp.

Um dos intelectuais mais importantes do século XX, Antonio Gramsci, desenvolveu como ninguém antes o conceito de “hegemonia cultural”, que revela a importância do plano simbólico para a consolidação de um poder dominante dentro de um sistema social. Até que ponto você vê a língua fortalecendo uma hegemonia de poder em um setor social?

A língua é a tecnologia mais avançada já produzida pelas sociedades humanas. Quando se fala em tecnologia no sentido corrente – redes sociais, algoritmo, nanotecnologia, engenharia, astrofísica, botânica – é preciso ter em mente que uma tecnologia muito mais complexa precede todas estas: a língua humana. Ela possibilita a existência de todos esses campos do conhecimento e, a rigor, é ela quem apresenta o potencial mais devastador – ou restaurador – para mexer no “sistema”, seja ele social, tecnológico ou político. Se o algoritmo colapsar, a vida continua. Se a língua colapsar – a Babel bíblica – a história cessa e os sujeitos se estilhaçam. Em suma, falar da língua com a própria língua é o grande desafio.

Respondendo objetivamente a sua pergunta, a língua não apenas fortalece hegemonias de poder, ela cria essas hegemonias. Um exemplo comum: achar que o estudo formal é a referência máxima no campo do conhecimento e na dimensão intelectual não corresponde à “verdade” mas a um discurso. Este discurso, no entanto, é tratado como verdade e, na dança dos sentidos e das argumentações ad hoc, tem-se a consolidação de uma hegemonia, a “hegemonia do estudo formal”. Não é possível afirmar que o estudo formal seja o grau máximo da performance cognitiva, ou que ele seja superior a outros tipos de manifestação do intelecto humano. As tradições de oralidade presentes na cultura dos povos indígenas são mananciais extraordinários de conhecimento e percepção de mundo. A rigor, poder-se-ia questionar, expandindo a semântica da palavra “formal”: afinal, o que é ser “formal”?

Essa é a engrenagem linguística básica de toda e qualquer disputa por hegemonia social: mobiliza-se uma série de pressupostos, verdadeiros ou não, e defende-se um tipo de prática simbólica-técnica e seus adeptos, numa quase-repetição do que ocorre na difusão das religiões, com diferenças de procedimento quase invisíveis de tão sutis, se contempladas à lupa teórica dos estudos contemporâneos da linguagem. Alguns podem questionar: mas não se trata de “argumentação”? A resposta não é tão simples. Há um conjunto de fatores que “pressionam” e “controlam” o sentido, como a imprensa, os governos, as instituições e, hoje, o algoritmo e as big techs – que instauraram um novo problema para os estudos linguísticos que é a massificação da produção de sentido via interação digital. 

Em Racismo e Linguagem, Virginia Zavala e Michele Back expõem as relações existentes entre linguagem e racismo, algo que já era questionado pelos movimentos antirracistas liderados por Malcolm X, os Black Panters e outros mais. Existem pontos de encontro entre aqueles que buscam uma “neutralização” e a sua “desracialização”?

Neutralização é o que busca a hegemonia branca heteronormativa. O sentido não pode ser neutro porque a sociedade não é neutra. O sistema empurra essa ilusão da neutralidade para sua própria perpetuação. “Desracializar”, a meu ver, é um outro processo, mas pode ser lido de maneira ambígua. De um lado, trata-se, justamente, de tirar as marcas de racismo presentes na língua. De outro, de “apagar” as marcas semântico-gramaticais de racismo. A literatura antirracista parece tratar este verbo majoritariamente na primeira acepção. Eis aí mais uma disputa de sentido que não pode ser ignorada.

Eu diria – para escapar dessa questão específica e ao mesmo tempo tentar respondê-la – que a língua social ainda guarda marcas profundas de racismo, e que talvez esse seja o maior desafio técnico e ético do nosso tempo: É preciso re-formatar a linguagem para que ela não pressione a perpetuação do racismo, do machismo e da transfobia.

Isso implica em mexer, de fato, na questão do gênero gramatical e nas expressões arraigadas, presentes em redações de jornal que destacam um entrevistado, por exemplo, com o sintagma “pesquisador negro”. Por que destacar “pesquisador negro” se não destaco “pesquisador branco”? Nesse sentido, as pautas identitárias são uma resposta espontânea da saturação racializada da atividade linguageira. Muitos intelectuais torcem o nariz para elas sem sequer tentar entender as razões de seu surgimento. Sentem-se desautorizados. E a questão é exatamente esta: eles perderam a autoridade para tratar deste tema, justamente porque estão radicalmente imersos no estudo formal – o que lhes tirou a percepção concreta da realidade social que, ademais, acelerou-se de maneira vertiginosa nos últimos dez anos.

Dentro da linguística se estipula que a linguagem é algo como um “produto de um inconsciente coletivo”, que tem um corpo mutante, difícil de regrar. Nesse sentido, todo movimento que pretenda intervir no ato da fala pode chegar a parecer uma frustrada tentativa de “exorcizar” a língua. Porém, cada vez mais vemos que os Estados modernos garantem instituições para resguardar as pessoas de serem discriminadas e injuriadas, que combatem o sexismo ou a discriminação por cor de pele ou gênero. Você acha que a língua pode ter tido mudanças, que algumas sentenças perderam força, algumas palavras viram seu sentido transmutado a partir dessas ações institucionais?

A língua tem seu aspecto selvagem, “indomesticável” como diria Lacan. É exatamente por isso que fomos obrigados ao longo da história a tentar domesticá-la com relativo fracasso – uma vez que a padronização de certas práticas é condição sine qua non para a atividade social. Você não controla a língua, você controla o sentido, e controlar o sentido significa mexer no regime de ocorrência das palavras. Palavras marcadas podem ser banidas, assim como neologismos e novas expressões podem ser adotadas. Esse é o curso natural do avanço civilizatório, que deu um salto violento no século XX, não por acaso, o século de surgimento da linguística moderna – e da consequente organização mais acelerada das ciências humanas e dos campos epistemológicos.

Não é à toa a catástrofe social e linguística que se abateu no Brasil nesses últimos anos. Há um descompasso nítido entre aquilo que foi banido de nossas práticas linguageiras e sociais e sua não aceitação por determinados setores da sociedade. Bolsonaro e sua trupe ainda vivem na ditadura militar racista dos anos 1970. Eles não aceitam que o mundo mudou, não aceitam a democracia (deturpam o sentido de democracia de maneira crassa). Mudanças sempre são traumáticas para a espécie humana, mas é justamente a assombrosa capacidade de adaptação e aperfeiçoamento da espécie que caracteriza sua incidência hegemônica no planeta (falemos também de hegemonia entre as espécies?).

Em tempo e mais uma vez – para responder diretamente à excelente questão: as práticas linguísticas seguirão sendo moldadas de acordo com as necessidades sociais de turno. Aliás, é bom que se diga: sempre foi assim. Desde sempre, setores sociais hegemônicos disseram o que poderia e o que não poderia ser dito – e todo mundo aceitou. A única diferença, agora, é que setores não hegemônicos (negros, mulheres, comunidades LGBTQI+) estão replicando essas formas de controle.

Do ponto de vista acadêmico, que inconvenientes pode provocar o avanço da linguagem inclusiva em uma sociedade como o Brasil?

Inconveniente nenhum. A linguagem inclusiva é uma realidade irreversível. A academia terá de entendê-la, absorvê-la e aperfeiçoá-la (quando não, “deturpá-la”, mas isso seria outro debate). A língua e sua prática linguageira correlata moldam, em conjunto, a realidade social que a fundamenta e cerca. Em outras palavras, a língua cria a realidade. Não é, de forma alguma, extravagante dizer isso. Trata-se de uma máxima teórica amplamente aceita por pesquisadores do campo.

A hipótese Sapir-Whorf, que inspirou o filme A chegada, lida diretamente com esse processo de criação de realidade pelas línguas humanas. Nesse sentido, a linguagem, inclusive, tende a produzir uma sociedade e um conjunto de práticas inclusivas – e democráticas. O dilema é similar àquele falso dilema do neoliberalismo, com relação à distribuição de renda: esperar o bolo crescer para, depois, dividir. O mundo já entendeu que não é assim que funciona. É preciso fazer crescer o bolo e ir dividindo ao mesmo tempo, por razões técnicas e éticas. Traduzindo, essas são práticas sociais que devem ser trabalhadas em primeiro lugar para que a linguagem se torne depois, espontaneamente, mais inclusiva. São práticas sociais somadas a práticas de modelação da linguagem, juntas, que irão produzir algum tipo de avanço no que diz respeito à inclusão social e combate à desigualdade. Há uma formulação muito auspiciosa dentro desta espiral de composição mais democrática da sociedade, via intervenções no plano simbólico: a língua passou a fazer parte do processo. Agora, ela é protagonista, geradora de políticas públicas – e não apenas o suporte fragilizado e vulnerável ao domínio do poder retórico hegemônico instalado em parte considerável de setores acadêmicos. A formulação de um novo paradigma foi para as ruas, e isso é muito bom.

Alguns linguistas acreditam que já não tem ponto de retorno e que a linguagem inclusiva irá se impor. Qual sua visão sobre o assunto?

Esta questão está, em parte, contemplada na resposta anterior. Eu diria ainda: eu sou um destes linguistas. Há um prazer, um gozo, em repovoar as próprias práticas linguageiras. É maravilhoso deixar de ser machista. É um processo poderoso combater o racismo estrutural que lhe habita o pensamento. Quem combate e vence o próprio racismo passa a ser capaz de realizar qualquer desafio cognitivo e intelectual. Não é, portanto, uma certeza no limiar da lamentação oriunda de nossos fantasmas estruturais do passado, entender que a linguagem inclusiva irá prevalecer. Trata-se de um processo que nos torna mais fortes enquanto sociedade e enquanto sujeitos. Se a tarefa for a perpetuação da espécie – e uma perpetuação que nos signifique como seres gregários e simbióticos e não parasitas virais – estamos no caminho certo.

Parlamentares na luta contra a LGBTIfobia

Parlamentares na luta contra a LGBTIfobia

A saída emergencial da vereadora Benny Briolly (Psol-Niterói/RJ) do Brasil, após sofrer graves ameaças no exercício de sua atuação parlamentar, é um dos fatos mais graves que vivenciamos, no Rio de Janeiro, após as ameaças de morte sofridas por Taliria Petrone, a saída de Jean Wyllys do Brasil e o feminicídio político de Marielle Franco. Benny foi a mulher eleita em Niterói com o maior número de votos e a primeira mulher trans da câmara de vereadores da cidade. Há cinco meses, desde o início de seu mandato, Benny vinha recebendo ofensas e ameaças: em uma delas, por e-mail, o autor cita seu endereço e exige sua renúncia do cargo. Caso contrário, iria até a sua casa para matá-la.

No início do ano de 2019, o deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ) – que já era protegido por escolta polícial desde o assassinato da vereadora Marielle Franco – teve que sair do Brasil para preservar a sua própria vida. Alvo de várias ameaças, principalmente depois da eleição do atual presidente da república, Jean precisou abrir mão do mandato para o qual acabara de ser reeleito, mesmo depois de um exitoso e combativo trabalho como primeiro deputado assumidamente gay do legislativo federal brasileiro. Mais recentemente, já no início deste ano, ameaças e intimidações foram feitas à vereadora Erika Hilton e às covereadoras Samara Sosthenes e Carolina Iara (todas do Psol-SP). Esta última teve a sua casa alvejada por dois tiros na madrugada do dia 26/01/2021.

O que todas essas pessoas têm em comum é o fato de serem parlamentares LGBTI e, na sua maioria, mulheres, transexuais, negras e representantes das classes populares. Todas vítimas da LGBTIfobia. Pessoas que, via de regra, não são bem vindas nos espaços de poder e no asséptico ambiente parlamentar. Como ressalto no meu livro Cria da Favela (2020, p. 202): “… o cotidiano desses espaços dominados pela elite branca política e econômica revela quanto os herdeiros da casa-grande não suportam nossa cara preta, a cara de povo. Afinal, só toleravam a presença de mulheres negras de cabeça baixa, viradas para as panelas ou lavando o banheiro”.

Elaborei o conceito de “feminicídio político” e acredito que ele se encaixa perfeitamente em tudo que nós temos passado em nossa atuação nos espaços de poder. O patriarcado, que nos condenou à invisibilidade em vida e em morte, também não nos quer na linha de frente da política (institucional ou não) e por isso tenta, a todo instante, nos anular e até nos matar, como fizeram com a vereadora Marielle Franco, em 2018. E como fazem hoje com as ameaças e intimidações a Benny Briolly, Erika Hilton, Samara Sosthenes, Carolina Iara, Érica Malunguinho, Talíria Petrone, a mim e a tantas outras.

Muitos me acusam no parlamento de ter o “nariz em pé”, mas o que os homens brancos, cisheteronormativos temem de verdade é a nossa cabeça erguida. É por isso que uma das minhas primeiras atitudes quando me pronuncio no Parlamento é erguer a cabeça e a voz. E esse “erguer a voz”, passar de objeto a sujeito, como diz bell hooks, é o que tem acontecido depois da execução sumária de Marielle Franco: mulheres, negras, periféricas, LGBTI denunciando com seus próprios corpos e sua fala assertiva o velho racismo, machismo, misoginia e LGBTIfobia.

Neste dia 17 de maio, dia de combate à LGBTfobia, é preciso reafirmar que a nossa ocupação nos espaços de poder só poderá ser mais robusta se for coletiva, se for baseada na filosofia Ubuntu “eu sou porque somos”. Somos resistência de saberes coletivos, ancestrais e, para darmos conta da luta contra as desigualdades sociais sem nos desumanizarmos “(…) é necessária uma interseção entre teoria e prática, entre o Parlamento e a rua, alicerçada na luta para e pelos nossos: mulheres, povo preto, pobre, trabalhador, LGBTQI.” (idem, p. 203)

Nosso papel enquanto parlamentares na luta contra a LGBTfobia é potencializar, reverberar e lutar contra todo tipo de preconceito, LGBTfobia e opressão. Mas, em especial, é lutar para que o patriarcado seja substituído por relações humanas não-hierárquicas, com direito à diversidade, à livre orientação sexual e identidade de gênero. Seguimos nessa luta hoje e sempre!

#Bennynãoestásó!

Lésbicas também são mães

Lésbicas também são mães

“E nesse mundo criaremos nossas crianças livres para escolher a melhor maneira de se sentir realizadas. Pois somos coletivamente responsáveis pelo cuidado e pela criação dos jovens, uma vez que criá-los é, enfim, uma função da espécie.” O filho homem: reflexões de uma lésbica negra e feminista, Audre Lorde.

Fui criada por três mulheres héteros, tenho o privilégio de ter três mães: a minha avó Dona Vera, minha mãe Ana Cristina e a minha tia Ana Lúcia. Na minha família, nunca teve essa questão de apenas uma mulher ser responsável pelas crianças, todas tinham um pouco de responsabilidade com a nossa criação e cuidados. 

No dia das mães da escola, sempre era uma questão para mim o fato de só poder homenagear uma mãe por vez, realmente nunca entendi aquilo. A minha família está longe de ser essa do comercial de margarina: branca, classe média alta e residente de alguma área nobre da cidade. 

A minha família não é a tradicional brasileira (ainda bem), como aquela nuclear dos comerciais de margarina. Fui criada pelos meus avós maternos com a presença da minha mãe, da minha tia e de várias outras primas/tias por perto, somos uma família do subúrbio do Rio de Janeiro. 

Por causa de tudo isso, nunca tive problemas para entender que família é algo plural e existem diversas formas de se constituir uma família. O afeto e o respeito são elementos fundamentais para existência de uma família, por isso também podemos escolher a nossa própria família, podemos ter mais de uma inclusive. Família é onde existe o amor!

Por causa da heteronormatividade estrutural, aquela ideologia onde apenas o homem heterossexual e a mulher heterossexual podem constituir uma família, vale uma observação aqui para dizer que essa “autorização de construção de família’’ é permitida basicamente para pessoas brancas, a gente acaba acreditando que não existem outros tipos de família. Existe um apagamento ideológico com direcionamento político-social legitimado não apenas pela heteronormatividade mas também pelo Estado. 

Existe toda uma estrutura social para dizer que lésbicas não podem ser mães e constituir família. Trazendo novamente a heteronormatividade para o debate, por causa dela existe esse pensamento mentiroso de que: lésbicas não são mulheres e lésbicas querem tentar ser homem, logo não podem ser mães. Esse argumento é completamente lesbofóbico e mentiroso. 

Como já afirmei em outros textos aqui da minha coluna, lésbicas são plurais e possuem diversas vivências diferentes. Nós podemos ser o que quisermos ser, inclusive ser mães e construir uma família com nossas companheiras.

A maternidade lésbica existe! Lésbicas também são mães, nossas famílias existem e precisam ser respeitadas. Por isso hoje desejo um feliz dia das mães para todas as lésbicas que são mães e para todas as famílias em suas mais diversas formas.
Inclusive, fiquei muito feliz esse ano quando soube do nascimento do filho da jogadora da seleção de futebol Cris Rozeira e sua esposa, a advogada Ana Paula Garcia. Bento nasceu no dia internacional da visibilidade lésbica. Coincidência mais linda, não?

 

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Carta ao Gil do Vigor: Deus é como nós, Gil, não como eles!

Carta ao Gil do Vigor: Deus é como nós, Gil, não como eles!

Ontem na festa do BBB Gil chorou com Camila. Foi no BBB que Gil se assumiu homossexual e, desde algum tempo no jogo, tem refletido sobre as violências e inseguranças a respeito da sua comunidade de fé. Não é a primeira vez que Gil fala coisas importantes e fortes para a reflexão sobre a religião cristã e sobre as violências com a comunidade LGBTQiA+. Ontem, vendo o vídeo, só penso como gostaria que ele lesse isso aqui.

Sabe Gil, eu também já chorei pensando que eu nunca mais poderia ir em um acampamento da igreja e já abracei muitos que, como eu e você, passaram exatamente por isso. A coisa que eu mais gostava era estar com meus amigos, com os jovens. Aquelas coisas de igreja que só quem viveu a comunidade intensamente sabe, aquelas memórias que só quem já viveu essa experiência intensa, metafísica e social de estar nas comunidades de fé cristã, sabe. Do nada, tiram isso de nós.

É violento mesmo se reconhecer LGBTQIA+ nesses espaços porque te violentam duas vezes: querem que você negue quem você é e ainda querem te arrancar a única coisa que é individual na fé cristã – a experiência pessoal da espiritualidade, a sua certeza de que há um Deus.

Como você teve Camilla De Lucas pra te dizer que sua vida é revolução, eu também tive pessoas que me disseram isso, mas eu te entendo Gil. É difícil mesmo fazer revolução num espaço que nos diz que só há um caminho. Romper, no nosso caso, não é uma escolha nossa, né? É escolha deles, e isso dói.

Eu tomei decisões de vida que não se encaixavam na institucionalização fundamentalista da religião e de forma silenciosa, violenta e silenciosa, fui sendo jogada para fora de espaços que antes me acolheram, me formaram, me deram senso de comunidade e amor de família. Quando isso aconteceu comigo, eu comecei a perceber como muitas pessoas que eu amo passavam pelas mesmas coisas e inclusive escolhiam se calar, porque tinham MEDO, sentiam CULPA. Pessoas que se viam presas em relacionamentos abusivos, que tinham posicionamentos políticos e sociais fortes, pessoas que lidavam com a sexualidade de outras formas, pessoas que escolheram sobre seus corpos, pessoas que por pouco desviaram do falso “único caminho, única verdade”. É louco porque nessa horas percebemos que fazemos parte dessa família até mostrar quem realmente somos, e quando mostramos temos que escolher apenas dois caminhos: mudar e se adaptar a vontade da ”família” ou ir embora. E isso dói mesmo. Por isso que quando te vejo chorar dói em mim também. A igreja nos machuca de tantas formas!

Lembro que decidi romper de vez com essa loucura quando percebi que o discurso: “to falando isso porque eu te amo” violava tudo o que eu aprendi sobre amor, era antibíblico. Era abuso, não era amor.

Existe uma forma de ser na igreja, imposta no nosso meio, que é passiva, agressiva demais, não nos cabe, não nos gosta e não serve e é justo que tenhamos medo porque essa foi a única forma de conhecer a Deus – pelo temor. Mas sabe, Gil, nosso Deus é um Deus que lança fora o medo, acaba com a culpa, liberta e ama incondicionalmente. O medo é uma manobra para nos manter controlados numa estrutura de poder.

A violência de excluir nossos corpos da “graça de Deus” é também estratégia política dessas instituições – a certeza de que é possível ser amado, amada e amade por Deus, independente da moral, é uma das únicas coisas que não podem nos arrancar e isso os apavora pois enfraquece o discurso de poder de outrora.

Você, em rede nacional, sendo, nas suas palavras, uma “bicha, bandida, perigosa, cachorra e evangélica” é um serviço essencial num país que enfrenta a maior tragédia religiosa do últimos tempos – um governo cristofascita, que mata em nome de Deus pessoas como nós. Já diria nossa irmã Ventura Profana: “As que confiam na trava são como os montes sião que não se abalam”.

Nós anunciamos um Deus plural, insubmisso, livre. Que coisa linda!

Deus é como nós, Gil! Não como eles.

No fim dessa jornada, eu quero acampar com você!

Caminhadas marginais: 20 de fevereiro e a luta de corpos transmasculinos

Caminhadas marginais: 20 de fevereiro e a luta de corpos transmasculinos

Texto dos TransPoetas Bruno Pfeil (@brunopfeil) e Cello Latini (@latinicello) para a coluna do Movimento Artístico Poético Nacional TransPoetas (@transpoetas)

Bruno Latini Pfeil
Graduando em Psicologia (USU-RJ). Integrante do Núcleo de Diversidade Sexual e de Gênero João W. Nery (USU-RJ). Coordenador da Revista Estudos Transviades (@revistaestudostransviades).

Cello Latini Pfeil
Graduando em Ciências Sociais (UFRJ). Pesquisador do CPDEL (IFCS/UFRJ). Coordenador da Revista Estudos Transviades (@revistaestudostransviades).

Quando se pensa na palavra “trans”, qual é a imagem que se apresenta? E a história que se imagina? Quando nossos colegas e conhecidos se deparam com os debates de gênero, quais os comentários que recebemos, e a quem se direcionam? É pela inexistência de transmasculinidades no imaginário social que pensamos em escrever esse texto, pois, se existir já é tarefa cabulosa, inexistir socialmente, não ser reconhecido por uma identidade que socialmente inexiste, pode ser ainda mais conflitante.

A afirmação das identidades transmasculinas se apresenta enquanto algo de esforço contínuo. Como reivindicar uma identidade que simplesmente não é cogitada? Uma identidade que não conseguiu ser cogitada nem pela equipe jornalística de uma das maiores emissoras de televisão do mundo, em pleno 2019, com transmissão em rede nacional[1]. Às pessoas transmasculinas são oferecidos alguns caminhos, em nenhum dos quais há reconhecimento. Nunca se cogita a existência, por exemplo, de um homem de buceta, de viados trans, de bixas de peito e cinta-pau.

Somos lidos como muitas coisas, mas nunca como pessoas transmasculinas: podemos ser lidos como mulheres cis ou homens cis, de acordo com os marcadores corporais que mais se destaquem, e, a partir dessas leituras, nos são direcionadas violências específicas; mas em ocasião alguma seremos reconhecidos como pessoas no universo das transmasculinidades. Essa identificação está aquém dos símbolos e significados que compõem o imaginário cisgênero.

Por mais que sejamos colocados em caixas que não nos apetecem, que não contemplam nossas experiências, narrativas e vivências, dispomos de estratégias para nos fazermos existir. Independentemente de como sejamos lidos, interpretados e socialmente localizados, nunca deixaremos de ser pessoas transmasculinas – o que, para alguns, pode se aproximar de um perigo epidemiológico[2], ou de uma traição à feminilidade cisgênera. Ou de uma traição à masculinidade viada, uma infiltração em algo que já estava posto, mas cuja fragilidade somente se desdobra na medida em que nos aproximamos. Daí, a importância de haver um dia que celebre nossa luta e resistência, mas principalmente nossa existência: o 20 de fevereiro, Dia de Luta e Resistência de Homens Trans e Pessoas Transmasculinas. Que sejamos reconhecidos por quem somos, por nós mesmos e por quem nos rodeia, e que sejamos referência uns dos outros, nossa própria ancestralidade, pois, se a liberdade de um povo é sua capacidade de se autogovernar, a liberdade de um corpo é sua capacidade de se autodeterminar. Reivindicando nossas transmasculinidades, a despeito de tudo que nos é pré-determinado ao nascimento e de toda a invisibilização que enfrentaremos até sermos levados a sério, continuamos traçando nossos próprios percursos – e, se não encontramos um caminho compatível com nossas existências, inventamos a estrada.

[1] https://midianinja.org/news/reportagem-transfobica-do-fantastico-recebe-enxurrada-de-criticas/

[2] No livro “Irreversible Damage”, Abigail Shrier interpreta as transmasculinidades como uma epidemia.

Parlamentares trans não serão interrompidas

Parlamentares trans não serão interrompidas

Foi na mesma semana. Na terça de madrugada, dois disparos foram ouvidos por vizinhos, quando um carro estacionava, no mesmo horário, em frente à casa da covereadora da Bancada Feminista, Carolina Iara, pelas imagens das câmeras da rua.

Na quarta-feira, um homem invade o gabinete da vereadora, Érika Hilton, dizendo que estava procurando-a; semanas antes, já tinha ameaçado arrancar a cabeça de um de seus assessores.

Dois dias depois, uma moto dá tiros para o alto em frente à casa da covereadora do Quilombo Periférico, Samara Sosthenes, com testemunhas relatando o episódio. Tudo isso na semana do dia 29 de janeiro, dia de luta pela visibilidade trans.

Já antes disso, ainda em dezembro – e prestes a serem eleitas ou já confirmadas como fenômenos de recordes históricos de votos -, foram ameaçadas de morte, por diversos meios, Benny Briolli eleita em Niterói, Duda Salabert eleita em Belo Horizonte e Linda Brasil, eleita em Aracaju. Todas mulheres trans.

O Brasil segue, ano após ano, sendo o lugar onde mais pessoas LGBTQI são assassinadas no mundo. Não pensem que são mortes rápidas, “eficazes”. São normalmente homicídios qualificados com muito ódio e sadismo. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil – Antra, 80% dos crimes contra pessoas trans são executados com extrema crueldade. Como explicar, por exemplo, que tantos homens arranquem o coração de travestis ao assassiná-las?

Esta violência brutal não permite que as pessoas trans possam estudar ou trabalhar, ou, ainda, acessar condições elementares, como dormir sob um teto, obter documentos de identidade ou viver mais do que a expectativa assombrosa de até 35 anos de vida, como informa o IBGE.

A transfobia é constitutiva da formação histórica de poder político e econômico no Brasil. Por isso, quando três mulheres trans negras são eleitas com milhares e milhares de votos, há um subterrâneo do ódio que é produto de uma história fundada no poder de homens brancos, sejam eles grandes proprietários, sejam eles o braço armado do Estado e suas conexões semi clandestinas.

A eleição de Jair Bolsonaro, não por qualquer acaso, ocorreu no mesmo ano em que sofremos o luto de Marielle, quando ecoamos, sem nunca mais retornar, aos quatro cantos do mundo, nas ruas do Brasil por muitos dias, que lutaríamos até o fim pela sua memória e por justiça. Neste 14 de março de 2021, são três anos completos sem a presença física da nossa companheira. Não admitimos mais sermos interrompidas.

A luta pela visibilidade trans cresceu e, sem dúvida, fomos as grandes representantes das eleições municipais em várias capitais que assumiram a dianteira da luta contra o projeto de ódio, de fome e de morte do governo de Bolsonaro e de Damares Alves.

Foi pensando na necessidade urgente de criar mecanismos de proteção às vidas ameaçadas de Carolina Iara, Erika HIlton e Samara Sosthenes, que as Bancadas do PSOL e do PT apresentaram um pedido à presidência da Câmara Municipal de São Paulo para viabilizar reforços de segurança para exercerem sua função parlamentar.

Carolina Iara e Samara Sosthenes, por serem covereadoras em mandatos coletivos, tiveram seus pedidos de segurança negados pela Câmara e seu presidente, Milton Leite. A desculpa formal de que os mandatos coletivos não têm situação jurídica regulamentada e que as covereadoras são oficialmente contratadas como assessoras da Câmara não pode apagar os dezenas de milhares de votos que Carol Iara e Samara tiveram como autênticas representantes dos movimentos sociais e da população que as apoiaram democraticamente.

Nenhum regimento pode estar acima da proteção das pessoas que doam seus corpos e suas vidas para a luta. É notório que os ataques têm a ver com o fato de que Carol e Samara serem lutadoras sociais e parlamentares reconhecidas popularmente. Além disso, elas seguem sendo oficialmente funcionárias da Câmara, ameaçadas por sua função pública.

Seguiremos lutando pelo reconhecimento do Estado sobre a necessidade de proteção às nossas vidas. O projeto de ódio transfóbico conspira contra nós, mas nossa luta cresce, ganha espaço. Gritos nas ruas de que as vidas trans e negras importam ganham volume. Não retornaremos. Por Marielle e por todas nós, exigimos a proteção devida pelo Estado às nossas vidas. Parlamentar travesti não é bagunça!

 

29 de janeiro: é sobre ser visto ou sobre se ver?

29 de janeiro: é sobre ser visto ou sobre se ver?

Texto do TransPoeta Esteban Rodrigues para a coluna do Movimento Artístico Poético Nacional TransPoetas

Vinte e sete. Esse foi o número de pessoas unidas pela primeira vez no Congresso Nacional, em Brasília, num ato organizado para discutir sobre os direitos e a realidade da comunidade transgênera no Brasil. Vinte e sete travestis e transexuais que se lançaram aos olhos de quem não nos via de propósito. É sobre isso de ver que é preciso falar. Isso de ver o que se quer e como não querem ver a nós. Nós que também raça, também sexo, também política, também profissional, também que sangra, também que chora e também que ri. É sobre isso de não nos ver e ainda resumir só a um recorte: Trans.

No dia 29 de janeiro de 2004 vinte e sete dos nossos esteve naquele lugar mostrando ponto por ponto de como é viver sendo só uma coisa sobre os olhos de vocês e isso configurou uma revolução. Eu não sei se vocês achavam que nos escondíamos, na verdade, mas naquele dia fomos vistos pelos que olham de cima.

A manutenção do poder no Brasil se solidifica em estruturas hegemônicas de sociedade. Dito isto, a ida de vinte e sete travestis e transexuais foi um marco multidimensional para a comunidade e para o movimento transgênero do país. Porque? De novo, aquilo sobre ser visto. Entender a dimensão desse ato é entender como corpos marginalizados e inferiorizados pela sociedade a partir de uma leitura também hegemônica têm em si organizações e motivações que precisam ser mostradas, se não pela sensibilização, pela reivindicação dos direitos enquanto cidadão.

A subjetividade dos corpos transgêneros não se limitam a uma passabilidade (que é constantemente cobrada por essa hegemonia para que sejamos tratados com um mínimo de respeito e dignidade), mas também acesso, oportunidades profissionais, reconhecimento de capacidade intelectual. Hoje a comunidade trans se apega ao direito à utilização do nome social, ao processo menos burocrático (ainda que não simples) para alteração do registro civil, possibilidade de acompanhamento médico pelo SUS e outras conquistas que, em luta, vieram sendo cobradas constantemente por nós mesmos. E não há um dos nossos entre os que detém o poder. Pense.

Nesse processo somos recebidos por olhares e olhares e olhares, e é isso, ser visto tem um quê de exposição também. Como se fôssemos uma grande obra de mau gosto no meio da Lapa, interferindo na proposta de civilização perfeita. Essa é a luta, ser visto. Fazer se ver. Nós nos mostramos diariamente, incessantemente, para vocês. Mas o negócio é que também nos mostramos diariamente e incessantemente para outros de nós e mais de nós. Nos tornamos referência, exemplo, meta, amigo.  Nos tornamos abraço, porque é preciso lembrar que o dia da visibilidade trans não é para nos resumir e rotular, é para que sejamos vistos como também humanos, como também dignos de afeto.

O exercício de se ver em um semelhante é acalentador, a possibilidade de nos vermos em outro mais velho e mais novos se verem em nós é o que simboliza na verdade o dia da visibilidade trans. No início sempre pensamos estar sozinhos, avessos a este mundo, estranhos por natureza. A sensação de insuficiência.

e todos os olhares que recaem sobre mim
me veem assim
assim insuficiente
assim não tão
assim
quando eu saio na rua e meu reflexo
é desconhecido quase invisível
me sou insuficiente
quando eu saio pela mesma rua e aquele mesmo reflexo
ainda é desconhecido, por tanto tempo
me declaro
in su fi ci en te
porque ser insuficiente
não é não ser visto
é não se ver
(sal a gosto, 2018)

O se ver além do espelho é fundamental na construção dessa rede de apoio. O incentivo a quem somos, o conforto do desabafo, a segurança de dormir sabendo que não está sozinho, é também sobre isso que se trata o dia 29 de Janeiro, é sobre quantos de nós se mostram para que outros de nós nos vejam. Essa é uma estratégia de sobrevivência. Por isso, em primeira pessoa, sou grato à quem se mostrou antes de mim para que eu também pudesse me ver. Me mostro, para que mais dos nossos não se sintam sozinhos.

De sapatão a transmasculino: um texto sobre orgulhar-se

De sapatão a transmasculino: um texto sobre orgulhar-se

Foto: Arquivo pessoal

Quando o assunto é transexualidade e família me sinto num lugar de muito privilégio e não é que eu sou exemplo de uma família burguesa tradicional que aceitou e me respeitou integralmente. Falo em privilégio não por ser burguês e ter tido uma família super entendida do assunto, mas porque a realidade de pessoas transexuais e travestis é a expulsão de casa ou o convívio insistente com a violência, as vezes física, as vezes psicológica, as vezes financeira e muitas vezes todas elas juntas. O Brasil pela 13ª vez é o país que mais mata pessoas transexuais e travestis no mundo todinho, esse ranking é a consequência revoltante e assustadora de uma série de fatores e, sem dúvida, a família é um desses fatores, senão em todos os casos, em grande parte deles e daí meu privilégio.

Eu tive durante 18 anos muito medo de me assumir, não enquanto transmasculino porque na minha cabeça isso nem existia, mas enquanto sapatão, que era o mais próximo do que eu poderia ser com o corpo que tinha. Não tinha exatamente uma compreensão do que era ser sapatão, mas eu queria poder vestir bermudas e camisetas ao invés de vestidos e calçar tênis ao invés de sandálias com saltinhos. Tendo isso pra mim já estava ótimo, sabe? E a verdade é que, ao menos na periferia de São Paulo nos anos 90, o que se aprendia mesmo era a odiar sapatão. Sapatão, inclusive foi um termo que quando me assumi aprendi a ressignificar, mas ainda ouço nitidamente gente descuidada dizendo para minha mãe “Você precisa dar um jeito nessa menina, se não ela vai virar sapatão!” “Essa menina vai ser sapatão, hein.” Mamãe era razoavelmente nova, nascida na década de 60, vovó era analfabeta e a pressão desses comentários insistentes acabou transformando mamãe numa versão de pessoa que jamais me abandonaria por qualquer razão, mas que insistiu para me corrigir pelo medo do que pensariam dela enquanto mãe que não estava tomando “nenhuma providência” sobre a questão. Fui obrigado a ser daminha de honra, vestir vestidos e sandálias, a soltar o cabelo nas fotos, fazer cara de menina – como se existisse uma – e quando resistia acabava apanhando. Vovó ficava bem chateada porque eu era a neta preferida dela e por ela, tudo bem eu ficar do jeito que quisesse, mas escrevendo esse texto agora, começo ter a impressão que mamãe queria ter como se justificar para as pessoas ou me fazer conseguir enxergar a mesma beleza que ela via quando eu performava feminilidade nas fotos, viagens e eventos.

Foto: Arquivo pessoal

Nada disso é sobre julgar as atitudes da minha mãe, mesmo porque, ao mesmo tempo que ela agia de forma violenta comigo, me ensinava muito sobre caráter, sobre não nos abandonar, sobre sempre se importar com nossos estudos e de, à vezes, dar nó em pingo d’água por acreditar que a única coisa que nos salvaria, a mim e minha irmã, seria nos fornecendo a melhor educação possível, algo que ela mesma, minha tia e vovó nunca puderam ter. Lembro dela dizendo que morava num cortiço, um único banheiro para várias famílias e o cardápio alimentar muitas e muitas vezes era arroz branco misturado com molho de tomate. Sou profundamente grato pelo que ela deu conta de fazer por mim e fez de mim, entre erros e acertos, a pessoa que sou hoje, repleta de erros igual a ela, evidentemente, é sólida. Não sou do tipo que me julgo melhor que minha mãe, porque afinal de contas a prima-matéria de quem sou eu, gostando ou não, é dela.

Aos 18 anos eu já não dava mais conta de não me relacionar ou de não expressar minha sexualidade, e as idas ao centro da cidade para conhecer as bandas de meninas que eu supunha serem iguais a mim na MTV ficavam cada vez mais perigosas, porque agi muito na base do impulso: aprendi a beber, fumar e usar drogas sem pensar direito se eu queria mesmo arcar com as consequências. Minha lógica era bem simplista: se essas pessoas que são parecidas comigo fazem isso eu também, para ser aceita, preciso fazer. Mamãe nunca soube bem como reagir a isso, falava pouco de tanta preocupação. Nessa época não existia GPS e eu passava boas horas interpretando o guia de ruas para conseguir chegar no centro da cidade. Lembro até hoje a primeira vez que vi um trecho da Avenida Paulista, ali na região da rua Augusta. Deslumbrante e tão diferente da periferia. Nunca soube nomear essa sensação. Até o chão do metrô era mais deslumbrante. Peças lisas de mármore na linha verde contra o tapetão emborrachado preto da linha vermelha. Meu rolê era na Alameda Santos. Coloquei uma calça jeans apertada, um all star branco, uma camisa branca e lá fui eu, sozinho e em sigilo, conhecer aquelas que na tv não pareciam ser meninas como as outras meninas. Tinha um tabu com a ideia de “sapatão”, o impronunciável, o imundo e assim eu aprendi.  Fato é que “encontrar meninas como eu” ou ser sapatão era uma notícia que mamãe merecia saber.

Foto: Arquivo pessoal

Vendíamos DVD e CD pirata na feira, eu tinha medo da reação dela, de apanhar, de sofrer. Daí escolhi uma feira tranquila, num dia de céu aberto e contei. Ela não disse muito. No fim da feira já dentro do carro chorou muito, leu meus diários de amores platônicos pelas outras meninas e finalmente nesse mesmo dia disse que tudo bem, que seguiria me amando igualmente, mas que era pra eu ter mais cuidado e cautela na rua, com as pessoas, nos lugares que eu passaria a frequentar e que qualquer sinal de perigo era pra avisá-la. Fomos juntas nos acostumando. Eu a ser sapatão e ela a ser mãe de sapatão. Nada fácil: muitas brigas, discussões, entendimentos, desentendimentos, malas arrumadas para ir embora de casa, e muitos momentos de convicção plena que não seríamos capazes de nos aceitar e amar. Foram 25 anos de muita batalha. Daí o Bernardo chegou na minha vida. Considerei nem contar sobre a transexualidade, porque na verdade nem eu entendia direito.  No começo o desejo é muito forte, uma vontade assustadora só de pensar na possibilidade de “TER UMA BARBA PRA CHAMAR DE SUA”, mas daí você pensa nas pessoas e fica menos corajoso, pensa na mãe e a vontade fica quase imperceptível, pensa na sobrinha e avalia se pra ela não será confuso. Um drama sem fim repleto de paranoias, medos e sensações do tipo “esquece tudo isso, vai ser muito difícil” E de fato, é! Precisei de muita coragem e da Bianca me dizendo “você merece ser feliz. Você merece ser feliz.”

Bernardo nunca foi tão corajoso quanto a Bianca de ter escolhido um dia, local e horário e de ensaiar um texto sobre essa segunda saída do armário. Bernardo nem queria contar, mas um belo dia eu simplesmente contei, pra mamãe, minha irmã, minha sobrinha estava ali ouvindo (ouvidos atentos e distraídos ao mesmo tempo), e um grande amigo da nossa família, uma pessoa que me pegava com um braço só quando criança. Mamãe e Kamila ficaram incrédulas, sabiam dizer pouco ou quase nada sobre tudo o que eu estava contado. Minha sensação era de que o cérebro e processador de ambas tinha dado tela azul sem previsão de volta. Falei em mudança de documentos, uso de testosterona, retirada dos seios, uma naturalidade ímpar. Já tinha consumido sei lá deus quantas horas de conteúdo na internet, me sentia um expert sobre o assunto. Quando o cérebro de ambas voltou a funcionar mamãe disse: “ah, você tá brincando, né?”

Foto: Arquivo pessoal

Assim como aprender a conviver com a cultura da sapatão, é uma dedicação contínua aprender a conviver com a transexualidade. Mamãe ainda me chama de Bianca, erra os pronomes e como já faz 4 anos de uso de testosterona, quando ela me aciona pelo pronome feminino na frente de outras pessoas a tela azul cerebral se estampa no rosto das pessoas, o mais engraçado é que o conflito dessa terceira pessoa nunca parece imaginar que eu sou uma pessoa transexual e minha mãe ainda está se adaptando, o conflito se resolve rapidamente assim: “essa senhora tá com um parafuso a menos, vamos em frente, coitada dela.”

Não é um processo fácil para a família, amigos e pessoas que te conhecem antes da mudança, é claro que pra quem é trans também não é, eu por exemplo, fiquei muito receoso com tudo, pisando em ovos. Um dia fui num terreiro de umbanda, ainda não usava hormônios, me fizeram colocar uma saia. Anos que eu não voltava a sentir aquele sentimento constrangedor da meninice e das obrigações da feminilidade. A consulta era com um caboclo e ele me disse assim “você precisa aceitar a sua energia, aceitar o que escolheu pra você e viver com orgulho com aquilo que sabe que é o que você quer, quando conseguir isso, as pessoas vão te aceitar também, confia!” Construí essa energia com a certeza de que habitei duas identidades plenas, sólidas, inquietantes e revolucionárias e que ter sido Bianca e agora ser Bernardo é sobre compreender o significado de orgulho. Mamãe, papai, minha irmã, sobrinha, avôs/avós e tias, estando ou não nesse plano chamado vida, constroem esse legado ao meu lado.

Dia T com Erika Hilton: dissidências sexuais e política institucional

Dia T com Erika Hilton: dissidências sexuais e política institucional

Vereadora Erika Hilton, de São Paulo. Foto: Midia NINJA.

Por Lígia Ziggiotti e Rafael Kirchhoff

Francisco Mallmann, dramaturgo e performer que invoca uma América marica, escreveu assim em um fino tecido de voal: “DEVOLVER A ELES ESSE GRANDE SUSTO”. Em 2018, as eleições significaram, para nós, um marco da queda livre institucional. As retrospectivas de 2020 parecem hipérbole deste biênio sem futuro. Um grande susto que não acaba. E devolvê-lo a eles foi promessa para um ano em que a esperança se tornou artigo ainda mais raro.

Em outubro de 2020, as eleições municipais energizaram certa potência de mobilização mesmo em tempos de pandemia. A Associação Nacional de Juristas pelos Direitos Humanos LGBTI (ANAJUDH-LGBTI) tentou radiografar, com a participação do antropólogo João Frederico Rickli e do designer Tiago Galvão, as tendências de candidaturas às prefeituras das capitais brasileiras em relação às temáticas mais relevantes para a diversidade sexual através do que resolvemos chamar de Termômetro das Eleições 2020. Medir a temperatura dos discursos contrários e favoráveis às nossas pautas parecia uma prevenção importante a mais vitórias de representantes do machismo e da LGBTIfobia.

Atendendo às solicitações por e-mail e redes sociais oficiais, 170 candidatas(os) acessaram o nosso formulário de perguntas para expressar o que pensam sobre temas caros à pauta LGBTI. Deste total 119 iniciaram o procedimento. Significa que abriam o formulário, o que permitia avançar para a próxima pergunta após responder a anterior. Apenas 34 finalizaram a pesquisa e nos permitiram conhecer, de fato, o que pensam sobre direitos e liberdades fundamentais, educação, saúde e acesso ao mercado de trabalho para esta parcela da população.

O resultado, ainda disponível em nossa página oficial, atesta que a maior parte das respostas completadas acena positivamente ao que queríamos como realidade. Houve quem perdesse um ou dois pontos de crédito em pautas mais tensas como criminalização da LGBTIfobia. E recebemos mesmo um acervo de respostas avessas a todos os direitos que elencamos como necessários por um único candidato, contrárias até mesmo àqueles menos polêmicos, como o de constituir família matrimonial.

Conduzido ao segundo turno, e, à ocasião, cobrado por lideranças locais, o candidato que supostamente rejeitou as pautas em nosso formulário contestou, através de assessoria, o resultado do Termômetro das Eleições 2020 solicitando que o seu nome fosse retirado da pesquisa. Atendemos o pedido. Ele, porém, não atendeu o nosso sobre o posicionamento que teria em relação àqueles temas. Filiado ao Republicanos, partido que abriga dois dos três filhos de Jair Messias Bolsonaro, venceu em segundo turno a corrida eleitoral de sua capital.

O Presidente da República, contudo, foi considerado em análises políticas recorrentes como derrotado nas últimas urnas municipais. Nomes importantes do bolsonarismo, como Capitão Wagner (PROS), em Fortaleza, e Delegado Eguchi (Patriota), em Belém do Pará, não avançaram para a posse. Isso não significou um atestado de vitória para o campo progressista, como também observam os noticiários mais críticos, em termos de alcance do Poder Executivo. Mas em algumas Câmaras Municipais, algum susto começa a ser devolvido.

Parlamentar mais votada do país em 2020, Erika Hilton (PSOL), negra, jovem e periférica, é a primeira vereadora trans a ocupar este cargo em São Paulo. Em entrevista ao El País, ela torceu para que “cada vez mais corpos pobres, negros, transviados e favelados cheguem aqui, para que este lugar tenha a cara do povo”, porque “o povo não é essa minoria branca, rica, cisgênero e heterossexual”. A América, afinal de contas, é marica, feminina, indígena e africana.

Com o apoio de Gisele Alessandra Schmidt e Silva, advogada e travesti que protagonizou importante conquista judicial para a população trans em 2017, a ANAJUDH-LGBTI conversou com a parlamentar para celebrar o dia nacional da visibilidade trans – 29 de janeiro.

Erika Hilton relatou que a corrida eleitoral do último ano não foi exatamente uma novidade para ela, porque em 2018 já havia sentido os efeitos deste processo ao participar de mandato coletivo, e mesmo em 2016, ao ter a sua candidatura impugnada para o cargo de vereadora de Itu, município do mesmo estado.

A propósito, em 2018, como participante da bancada ativista do PSOL junto à Assembleia Legislativa de São Paulo, ela sentiu “uma falta de compreensão das pessoas que compõem aquele mandato da seriedade, da urgência e da gravidade do debate racial, do debate de gênero e do debate de classe”.

Para a vereadora, em tal experiência, espremeram-se as suas pautas, e os ataques que frequentemente sofreu por ser “um corpo negro, um corpo de mulher, um corpo jovem, um corpo periférico LGBT” a encorajaram a assumir esta voz para uma disputa ainda mais efetiva de narrativas. Segundo Erika Hilton, “a chegada do meu corpo à esfera institucional é um escrachar das denúncias sobre onde estão as que vieram antes de mim e que tiveram as suas vidas ceifadas”. De fato, a expectativa de vida média para uma pessoa trans no país é de 35 anos, segundo a Associação Nacional de Transexuais e Travestis (ANTRA).

O processo de desumanização que Erika Hilton manifesta ter sofrido ao longo de sua trajetória é sentido por uma massa de pessoas que ela observa como crescentemente odiadas, especialmente, em um contexto bolsonarista e de agravamento de políticas neoliberais. Neste sentido, “chego para demarcar as nossas existências e alçar os nossos direitos, embasada coletivamente, a partir das nossas próprias historias”.

Dentre os projetos com que tem sonhado, a parlamentar pretende ampliar o Transcidadania, iniciativa presente em São Paulo desde 2015. Além disso, “o processo de retificação de nome e gênero em documentações de pessoas transgênero de forma gratuita e acessível em cartório” é citado pela vereadora como uma demanda central para esta população, carente de acesso aos direitos fundamentais básicos como “ao nome, à educação e à empregabilidade”.

Gisele Alessandra Schmidt, secretária adjunta da ANAJUDH-LGBTI, e primeira advogada trans a sustentar oralmente no Supremo Tribunal Federal, em 07 de junho de 2017. Nesta ocasião, a Corte decidiu pelo direito de pessoas trans mudarem nome e gênero em documentação oficial, sem necessidade de cirurgia ou de decisão judicial, e diretamente em cartórios.

Embora o mandato se destine à discussão de pautas que atinjam toda a população paulistana, a ativista percebe a necessidade de focar a sua atuação em favor daquelas pessoas “mais silenciadas, mais apagadas, mais vulneráveis e mais desumanizadas socialmente”.

Com efeito, Erika Hilton alega que espaços institucionais, universitários, de tomadas de decisão, e familiares têm limado as garantias da população trans, cujas vidas são constantemente invalidadas. Ela própria enfrentou realidades de rompimento e de reaproximação de núcleos familiares, interrompeu e retomou processos de formação estudantil, e, em dado momento, deparou-se com a prostituição como única forma de sobrevivência nas ruas. Por isso, considera que “cumpre um importante papel na concretização desses direitos em torno da dignidade humana, consideradas as pessoas negras, as mulheres, as pessoas LGBTQIA+, a juventude”.

De acordo com levantamento feito pela Aliança Nacional LGBTI+ e pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), pelo menos 88 representantes da comunidade LGBTI foram eleitas(os) para a vereança em suas cidades. Portanto, há destaque a outros nomes para além do eixo paulistano, como a travesti e professora Duda Salabert (PDT), liderança vitoriosa em Belo Horizonte.

É inegável a tensão produzida em estruturas gestadas pelo machismo, pela heterossexualidade compulsória e pela cisgeneridade quando vivências que se queriam aniquiladas as ocupam. 29 de janeiro de 2021 atesta a reivindicação de visibilidade à letra que representa subjetividades proibidas no imaginário cis-binário. Que o tom do ano seja dado pela conquista daquelas que lançaram o próprio corpo contra a opressão institucional é bom sinal. Como nos declarou a primeira vereadora trans eleita em São Paulo, experiências como a dela em espaços de poder carregam, ao mesmo tempo, denúncia e proposição. E a despeito de 2020 ter encarecido a esperança, houve, enfim, historias como a de Erika Hilton para renová-la.

Lígia Ziggiotti é doutora em Direitos Humanos e mestra em Direito das Relações Sociais pela Universidade Federal do Paraná, professora de Direito Civil da Universidade Positivo e vice-presidente da Associação Nacional de Juristas pelos Direitos Humanos LGBTI – ANAJUDH (@anajudh_lgbti).

Rafael Kirchhoff é advogado, militante de direitos humanos, mestrando em Direitos Humanos e Democracia pela UFPR e presidente da ANAJUDH (@anajudh_lgbti).

O dia da Visibilidade Trans e a busca por uma resiliência coletiva

O dia da Visibilidade Trans e a busca por uma resiliência coletiva

Foto: Midia NINJA

Por Maiara Fafini e Renata Souza[1]

“A felicidade é subversiva
quando se configura como práxis coletiva.
E, mesmo que haja diferentes entendimentos
do que seja a real felicidade,
a busca por esse bem intangível
alimenta a existência humana”
(Renata Souza, Cria da Favela)

Resiliência é uma palavra utilizada para denotar a capacidade de superação, seja na física, na ecologia ou na psicologia. Na psicologia, a resiliência é a capacidade de superar obstáculos, resistir a eventos traumáticos sem ter sua estrutura emocional seriamente prejudicada. Muitas vezes esse conceito é utilizado de forma isolada, mas a resiliência não está apenas no indivíduo, no sujeito separado do todo. Ela está também na rede, na malha humana que, junto com cada nó, resiste às investidas para destruí-la. É, portanto, a partir desse conceito – o da resiliência coletiva – que gostaríamos de lembrar e celebrar o Dia da Visibilidade Trans de 2021. Conceito que bebe também na fonte da sabedoria Ubuntu (“eu sou porque somos”): eu resisto, porque resistimos, ou eu re-existo porque re-existimos, e essa resistência da coletividade fortalece e aprimora minha resiliência, que por sua vez retorna para o todo num fluxo simbiótico de retroalimentação. Nesse sentido, não há resiliência fora da tessitura humana que nos acolhe, nos envolve e nos protege.

Só assim conseguimos resistir às investidas da transfobia, da misoginia, do racismo, da LGBTfobia. E mesmo assim, segundo dados da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) fomos 151 corpos assassinades entre janeiro e outubro de 2020[2]. Um aumento de 47% em relação ao mesmo período do ano anterior (2019) com 124 mortes, perdendo apenas para o ano de 2017, com 157 casos. O Brasil ainda carrega a triste estatística de ser o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Ainda segundo a ANTRA (boletim 05/2020) o grupo de “travestis e mulheres transexuais negras e trabalhadoras sexuais (…)  representa a maioria dos casos de assassinatos”. Demonstra-se, assim, que essas mulheres estão expostas a diversas formas de violência e de negação do acesso aos seus direitos básicos.

Mas nossa história é feita também de conquistas, porque fomos forjadas na resiliência. Em 2020 conseguimos eleger 30 pessoas trans (travestis, mulheres transexuais e homens trans), contra apenas 8 do mesmo pleito anterior (2016). Um aumento de 275% !! Duda Salabert, mulher trans mineira, foi eleita pelo PDT-MG com mais de 37 mil votos. Em São Paulo, Erika Hilton  do PSOL-SP foi a mais votada da Câmara, com mais de 50 mil votos. No nosso Estado do Rio de Janeiro, damos destaque para as duas mulheres trans eleitas:  Benny Briolly pelo PSOL em Niterói, região metropolitana do Rio, e Kará pelo PDT em Natividade (noroeste fluminense). Outra ação que merece destaque é a criação em 2020 da Rede Brasileira de Casas de Acolhimento LGBTIQA+ (REBRACA LGBTIQA+), que junto a tantas outras ONGs espalhadas por todo o Brasil foram de fundamental importância para a manutenção da segurança alimentar de diversas pessoas LGBTI, que, durante a pandemia, tiveram que ficar em suas casas.

No caso da nossa população travesti e transexual, quando privadas das nossas principais fontes de renda foram, mais uma vez, as casas de acolhimento – como a CasaNem (Instagram: @casanem_) e o CPA4, ambos na cidade do Rio de Janeiro –, que além do alimento e de um local para morar, estenderam o benefício das cestas básicas para várias outras pessoas LGBTI em situação de vulnerabilidade. Este tipo de ação tomou corpo em diversas cidades  e destacou-se como uma forma importantes de acolhimento e proteção de uma população em extrema fragilidade neste contexto de pandemia.

Durante nossos dois anos de Mandata na Alerj, criamos vários projetos de lei direcionados às pessoas LGBTI+. Abaixo destacamos aqueles que foram elaborados especialmente para as pessoas trans:

  1. PL 568/2019 – Reserva de vagas para travestis, mulheres transexuais e homens trans nas empresas privadas que recebem incentivos fiscais.
  2. PL 1287/2019 – Dispõe sobre o respeito ao uso do Nome Social nas lápides e atestados de óbito de travestis, mulheres transexuais e homens trans e demais pessoas trans.
  3. PL 1872/2020 – Assegura a travestis e transexuais enfermaria correspondente à identidade de gênero autodeclarada.
  4. PL 2600/2020 – Dispõe sobre as custas judiciais dos serviços de alteração do registro civil de travestis e transexuais.
  5. PL 2601/2020 – Garante o uso de banheiros de acesso público a travestis e transexuais de acordo com sua identidade de gênero.

A luta continua! A resistência e a resiliência são sempre necessárias e bem vindas, mas principalmente para os momentos em que os fascismos ameaçam colocar suas garras de fora. Que saibam que nunca mais voltaremos para dentro do armário, pois para nós, resiliência coletiva é a forma de re-existir. FELIZ DIA DA VISIBILIDADE TRANS 2021!

REFERÊNCIAS

ANTRA, Associação Brasileira de Travestis e Transexuais. Matérias disponíveis em:

https://antrabrasil.org/assassinatos/ e https://antrabrasil.files.wordpress.com/2020/11/boletim-5-2020-assassinatos-antra.pdf

https://antrabrasil.org/2020/11/16/candidaturas-trans-eleitas-em-2020/

RENATA SOUZA, Atuação Legislativa

https://www.renatasouzapsol.com.br/atuacao-legislativa

RENATA SOUZA, “Cria da Favela: resistência à militarização da vida”. 2ª ed. São Paulo: Boitempo, 2020, p. 166.

 

[1] Maiara Faffini é transexual, psicóloga, militante LGBTI+ e assessora parlamentar da Mandata da Deputada Estadual Renata Souza (PSOL-RJ). Este artigo é fruto de uma ocupação da coluna de Renata Souza no Midia Ninja para visibilizar as trans e travestis, neste importante dia da visibilidade.

[2] Os dados completos de 2020 serão divulgados hoje, 29 de janeiro de 2021 pela ANTRA.

“Animalidades Híbridas”, com Lino Arruda

“Animalidades Híbridas”, com Lino Arruda

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Por Amanda Olbel para a Mídia NINJA / FOdA

O entrevistado da semana para o #ArtistaFOdA, seção da Mídia NINJA dedica a dar visibilidade a artistas LGBT+ no Brasil, é o artista plástico, quadrinista e transmasculino Lino Arruda. Nascido em Campinas, atualmente vive em São Paulo, onde espera ansioso o lançamento de seu novo livro “Monstrans: experimentando horrormônios”, com patrocínio do Itaú Rumos, que acontecerá em julho desse ano.

“Acredito que o desenho tenha sido uma das ferramentas mais importantes que me ajudaram a elaborar sentimentos e ideias, ou seja, foi um elemento chave para articular processos subjetivos: fui uma criança introspectiva, que sentia a necessidade de criar mundos internos alternativos, em parte devido às dificuldades de me inserir socialmente.”

Lino é Bacharel em Artes Visuais pela Unicamp e Universidade Politécnica de Valencia, mestre em História da arte pela ECA-USP, e doutor em literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina- University of Arizona, e nos conta que sua trajetória na arte iniciou-se cedo, muito por influências de sua mãe, que também é artista. Logo, obteve na expressão artística um apoio e refúgio para os ataques alheios que sofria na adolescência, e encontrou assim uma vivência paralela, na qual se identificava com personagens, cenários, e relações, onde se sentia acolhido pela atmosfera de segurança e conforto dos desenhos.

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Participou também de diversos eventos acadêmicos nacionais e internacionais no México, Colômbia, Paraguai, Equador e Estados Unidos, palestrando sobre arte feminista e representação  sudaca e deu diversos workshops sobre edição de memória, contação de histórias e produção de zines para comunidades dissidentes. As mais significativas foram durante o doutorado sanduíche, no qual foi a primeira pessoa trans brasileira a ganhar uma bolsa Fulbright para estudar nos EUA.

O primeiro quadrinho que fez foi inspirado em uma amiga, com a qual se identificou na época, e que falava sobre lesbianidade no cotidiano, fora da articulação da relação sexual/romântica. E por sentir que era um relato pertinente a realidade de corpos LGBTQIA+, decidiu compartilhá-la com  outras pessoas.

“Até então nunca tinha me interessado pelos quadrinhos, mas comecei a fazê-los porque era uma técnica barata, fácil e viável (conseguia fazer sozinha, sem precisar de nada mais do que caneta e papel). O resultado era bem precário, mas foi um zine muito querido e importante, que circulou bastante naquele momento e com o qual pude criar vínculos que mantenho até hoje.”

Em 2010 entrou no mestrado na linha de arte política da ECA- USP, onde estudou arte feminista. E vale ressaltar que boa parte de sua caminhada artística, se identificou como uma mulher lésbica, passando pela transição quase aos 30 anos e hoje até brinca com os termos, se autodenominando “transmasculésbico”. Portanto, nesse período, sua produção artística foi totalmente canalizada para o ativismo em coletivos feministas autônomos: fazia estampas para camisas (como as dos festivais Vulva la Vida), ilustrações para cartazes de diversos eventos e shows, capas de zines e de CDs de bandas punk feministas, etc. E conta que nenhum desses trabalhos era remunerado, sendo seu trabalho oficial ter sido sempre a pesquisa acadêmica com foco nos estudos de gênero, mas o ativismo era o ambiente que mais o estimulava afetiva, artística e intelectualmente.

Foto: Arquivo / Divulgação

Arruda compartilha também que foi nesse período de dedicação ao ativismo autônomo que surgiram os zines de quadrinhos colaborativos dissidentes, com foco em autorias lésbicas. O primeiro deles foi o zine Sapatoons, que diz ser um dos seus projetos preferidos. É um zine colaborativo que surgiu em 2011, feito por amigues lésbicas, bissexuais e transmasculinos. Com proposta despretensiosa, sua função principal foi disseminar cultura dissidente imaterial (histórias, piadas, receitas de comidas, trocadilhos, etc), criando redes e fortalecendo laços de amizade, principalmente pelo fato de que a representação de lésbicas na cultura hegemônica sempre foi muito precária, e ausente nos filmes, novelas, etc.

Quando questionado a respeito de suas referências revela ter sido inspirado pelo trabalho de Alison Bechdel, Jennifer Camper, Edie Fake e Diane Dimassa ( da qual cita a publicação “Hothead Paisan” como grande inspiração para as colaborações nos zines Sapatoons – infelizmente a autora se identifica hoje com um movimento transfóbico contra mulheres trans. E em âmbito nacional, cita os trabalhos de Diana Salú e Monique Moon.

Todavia, suas principais influências de início de estrada, eram Paula Rego, Oskar Kokoschka, Egon Schiele e as gravuras do Goya, além dos artistas que construíram o imaginário da ilustração de fábulas, com animais antropomorfos feitos em traços finos e aquarela, que entram em total acordo com a figuração incrivelmente visceral e um tanto grotesca de seu trabalho, com corpos fantásticos e retorcidos.

Representações que nos remetem a história clássica kafkaniana de Metamorfose, em que subitamente, de um dia pro outro, o personagem acorda como uma barata, fazendo alusão à visão deturpada que a sociedade tem da classe trabalhadora. De certa forma, Lino utiliza desse artifício dos seres que supostamente nos causariam repulsa, (como ratos, lobos e lagartas), ao falar de sua experiência dentro desse “não-lugar” estigmatizado, que é a ausência de identificação com o gênero imposto a nós.  Artaud diria que os corpos estão em incessantes processos de Devir: num eterno vir a ser, entre mitos, danças e delírios, e para ele interessam as microssensações e a consciência que deve mergulhar nos campos da angústia, abdicando da certeza. Diria ainda que o corpo é “uma multidão excitada”, e portanto, o denomina como Corpo sem Orgãos, por ser coletivo, político e biológico, e permitir a desterritorialização, juntamente dos pontos de fuga.

Foto: Arquivo / Lino Arruda

Dentro dessa mesma conversa poderíamos citar os corpos foucaultianos, capturados dentro da estrutura de biopoder vigente, em que esse lugar de transgressão da norma, foi introjetado e ocupado pela sexualidade. Então fica a pergunta sobre o trabalho de Lino: Será que estes corpos são de fato monstruosos e deveriam obrigatoriamente se sentirem diferentes e dissociados, ou será que vivemos na ilusão de que os corpos deveriam ser equiparados, mapeados por um processo sistemático, mesmo fora da não-binariedade para serem aceitos?

Seu projeto com quadrinhos autônomos e acervo de zines cresceu sempre nos bastidores da sua vida acadêmica, até que no doutorado resolveu estudar autorrepresentação trans em zines latino-americanas. Foi então que descobriu a frequência com a qual a figura do monstro é evocada para falar sobre experiências trans, e começou a desenvolver narrativas também na chave da monstruosidade:

“Foi nesse momento que criei o personagem ‘lobisomem trans’ e comecei a desenhar um caderno de estudos de animalidades híbridas que comunicam sobre dissidência de gênero”

No doutorado diz ter, finalmente, conseguido inserir sua prática artística em diálogo com o conhecimento acadêmico. Desenvolveu o último capítulo de sua tese em quadrinhos, com o pretexto de que, enquanto primeiro doutorando trans do programa, precisava produzir algo que de fato fosse interessante para a comunidade, tendo em vista que poucas pessoas se interessam pela escrita acadêmica e que temos pouquíssimas/os pesquisadoras/es trans nas instituições de educação formal. A ideia é que esse capítulo se desprendesse da tese e virasse um zine, para que circulasse fora da academia e mais próximo de outras pessoas trans, que acabou por ser contemplado pelo Itau Rumos 2017-2018, e hoje integra o livro “Monstrans: experimentando horrormônios”, em que publica as HQs autobiográficas que vem desenvolvendo nos últimos 2 anos, e será publicado em Julho de 2021. Lino enfatiza ainda que toda a equipe trabalhando no livro, com exceção da gráfica, é formada por lésbicas cis e pessoas trans.

Nele desenvolve três histórias sobre deficiência, lesbianidade e transmasculinidade utilizando a figura do monstro. Na primeira história relaciona a masculinidade lésbica aos tratamentos pelos quais passou desde a infância para “corrigir” uma deformação congênita nos ossos – por ter diagnóstico de doença do colágeno, com suspeita de síndrome de Ehler Danlos. Faz também uma observação para a relação muito próxima entre ser “simétrica/bonita” e ser “menina”, e que a deficiência acentuava outros lugares “tortos” e indesejados de seu corpo, como a masculinidade.

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Na segunda HQ do livro, traça pontes que conectam lesbianidade a transmasculinidade, contando sobre o desconforto de acessar privilégios de passabilidade.

Na terceira história tenta criar uma temporalidade dissidente para abordar a incoerência da subjetividade trans, usando as relações de família para explicitar e acolher as fragmentações de ter sido uma menina, uma filha, uma neta, e depois tentar ser inteligível como uma pessoa transmasculina,  num mundo onde “mudar de gênero” é praticamente inconcebível.

“Também há um estereótipo na forma como se anuncia personagens trans, com a aposta na revelação da genital ou da representação da hormonização. A ênfase no sofrimento também é uma constante muito limitadora, tanto no diagnóstico da transexualidade como na representação mainstream das nossas experiências. Essas imagens têm efeitos reais na nossa comunidade.

Por isso acho que a produção autoral trans tem um potencial singular. O que eu descubro observando o que a comunidade trans tem produzido, são formas de tocar temas complexos (como a solidão estrutural, a violência, o suicídio, etc) com humor inteligente e através de uma perspectiva criativa. O que eu tento fazer no meu trabalho é desviar das narrativas clássicas (a exemplo de: “eu nasci um homem preso no corpo de uma mulher”) e procurar o interstício das experiências de gênero, os lugares onde as identidades não estão tão sólidas, onde as narrativas se contradizem e não tentam “se explicar” para um público cisgênero. Para isso percebo que o emprego de figuras monstruosas e animalescas é uma aposta interessante da autorrepresentação, pois é capaz de dar contornos mais borrosos e múltiplos ao corpo trans.”

Demonstra sentir o desafio e o fardo da representação, sem querer delimitar “o que é transmasculinidade”, por estar correndo o risco de virar uma descrição genérica. Contanto, frisa bastante que essa é sua experiência autobiográfica, e que portanto comunica sua trajetória particular, mas são assuntos que o preocupam num momento politicamente polarizado, retrógrado e conturbado pelo qual estamos passando atualmente.

 “O meu objetivo com a publicação é pluralizar as narrativas sobre transmasculinidade em suas intersecções com outros marcadores sociais. Me interessa produzir algo que alimente a minha comunidade, ou seja, algo que possa reverberar na experiência de outras pessoas trans, mas que também as beneficie socialmente de alguma forma. Acredito que tenho um compromisso com a comunidade justamente por ocupar lugares privilegiados, ainda inalcançáveis para a maioria das pessoas trans, especialmente as negras. Por isso, ao ser contemplado com um prêmio importante como o do Itaú Rumos, me sinto compelido a dividir materialmente essa conquista com pessoas trans vulneráveis, como forma de reparação.”

Ocorrerão eventos de lançamento do livro, que devido à pandemia não poderão ser presenciais, entretanto, através de plataformas online acontecerão lives com diferentes ativistas e artistas para falar sobre o HQ, semanalmente no mês de julho. Uma porcentagem das vendas do quadrinho também será redirecionada a uma casa de acolhimento travesti/trans.

Lino Arruda compartilha fotos e informações sobre seus trabalhos através de sua conta no instagram @monstrans_hq e em seu site www.linoarruda.com. Para ficar por dentro dos próximos #ArtistaFOdA , siga nossa página @planetafoda, onde serão publicados novos artistas LGBTQIA+ todas as quintas-feiras.

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Arte: Arquivo / Lino Arruda

Foto: Arquivo / Divulgação

Fotos 3×4, transexualidade e as violências cisheteronormativas

Fotos 3×4, transexualidade e as violências cisheteronormativas

O mês da visibilidade trans e travesti é um marco importante na luta para que possamos existir sem violência, discriminação, e a correção ininterrupta daquilo que a cisgeneridade constituiu como fora da normalidade. E se existe alguma dúvida de que a luta ainda é mais que necessária basta pensarmos sobre o fato da transexualidade há pouco mais de dois anos atrás ser considerada um transtorno mental para a Organização Mundial da Saúde. Não é mais um transtorno mental, mas passou a ser considerada uma “incongruência de gênero”. Entendo a necessidade de ter um CID já que estamos falando, para quem assim decide, de uso de hormônios sintéticos e cirurgias, mas jura que incongruência é a palavra certa para classificar a transexualidade? Incongruente vem do latim congruere e significa concordar, corresponder a. Já dá pra sacar o problema, né? A gente segue não correspondendo a algo estabelecido e é justamente o estabelecido que precisa de mudanças, de novas perspectivas daquilo que o tempo histórico da humanidade tem exigido. A gente sabe que gênero e a compreensão de genitália são construções da cultura e, portanto, são mutáveis. Isso significa o apagamento da cisgeneridade? Obviamente não, significa somente que precisamos rever o predomínio de uma cisgeneridade que violenta toda e qualquer identidade que não corresponde a ela, percebe?

Violência fez parte da minha infância e a verdade é que faria parte de qualquer jeito, não tem a ver com a tutoria de familiares nem nada, tem a ver com status quo produzido para nos corrigir custe o que custar. Falar sobre violências e seus ressignificados é minha forma de militar fora do espectro somente da dor.

Imagem: arquivo pessoal

Na primeira foto eu tinha 15 anos. Implorei para minha mãe me deixar cortar aquele cabelo que me incomodava tanto e depois de muita insistência ela topou. Me impôs, no entanto, uma condição: eu escovaria o cabelo e faria fotos 3X4 de cabelo solto, porque era desejo dela ter registros meus de cabelo solto com o rosto da princesa que ela enxergava. Aos 15 é também quando a mãe e muitas meninas idealizam a festa de debutantes, o rostinho da filha feliz com seu par perfeito na sua festa perfeita.

A memória do trauma ainda viva não me deixa esquecer que antes de entrar na cabine pra fazer a foto, chorei copiosamente. Meu rostinho na foto é choro engolido. Não era e nem nunca seria eu, meu coração estilhaçado lamentava só de imaginar a foto pronta. Por mais que nos anos 2000 eu não compreendesse exatamente o que aquilo significava, de alguma forma mística e orgânica, eu sabia que era só́ o desejo da minha mãe de me transformar numa princesa. Mal sabia ela que eu enfrentaria a cabine e a foto pronta porque aquela seria a última vez que minha consciência e meu corpo se sujeitariam a sensação humilhante de não pertencimento. Fui Bianca durante mais uma década, mas quem decidiu sobre as roupas, o cabelo e quem amar, foi eu, a lésbica feminista que me tornaria aos 18 e que construiu uma base inabalável, tamanha as dores e a certeza que tanta dor não era e nunca seria justa. Nem se eu decidisse seguir como Bianca e lésbica, nem se eu decidisse ser qualquer outra pessoa. Minha irmã dia desses me lembrou que eu tinha um diário secreto e assinava como Bruno. Foi gostoso lembrar das fantasias infantis do pequeno Bruno – deixo aqui a curiosidade porque escolhi ser Bernardo e não Bruno para um outro texto.

A foto 3×4 me perseguiu um tempão na minha carteira de trabalho, o trauma me perseguirá sempre, a diferença agora é que eu tenho consciência do significado dele e a quem ele serve e não me permito mais sofrer com ele. Quando pude mudar meus documentos no cartório, aliás conquista do movimento trans, fiz questão de escolher vermelho pra foto da carteira de trabalho do Bernardo: representa dor, mas também minha capacidade de reivindicar minha existência dessa forma vermelha pulsante que move tudo, dentro e fora de mim. Matéria-prima essa, de força e fé, que foi essa mesma mãe que ensinou, que por sua vez, aprendeu com minha avó. Foram e sempre serão mulheres cis fortes, com suas incoerências todas e com a cultura cisheteronormativa que as constituiu, que constituem a todes nós! Tenho mais que certeza de que os mesmos erros do passado da Bianca não seriam cometidos hoje, porque todo mundo aprendeu um pouco sobre a não cisheteronormatividade lá em casa, ao ponto da transexualidade para minha sobrinha ser mesmo só uma questão de atualização de dados. De tia Bia, passei a chamar tio Be e vida que segue! Simples assim. Nada de confusão, nada de perguntas constrangedoras, só um respeito e amor profundo pela tia que agora seria do tio.

É muito comum que desde cedo arrumem muitos namorados para nós, como se a felicidade de todas as meninas dependesse de meninos. Dai começa a guerra misógina pelo falo de ouro. “Se porte assim, se vista assim, seja assim” Quanto mais você cresce, mais você ouve de todas as pessoas – próximas ou não – que se você continuar a não corresponder a uma “menina de verdade” você não vai conhecer seu namorado, e verdade seja dita, a sensação que eu tinha é que não namorar um menino era sinônimo de não conhecer o amor. Curioso, né? O mundo me disse muitas e muitas vezes que eu não arrumaria namorado, que eu não conheceria o amor. Hoje, além de me considerar, modéstia à parte, o namorado de ouro, também aprendo muito sobre o amor. O próprio e o que dedico de muitas formas as outras pessoas.