Tempos pretéritos

Tempos pretéritos

Bolsonaro chega a 2022?

A dúvida é se ele vai se arrastando ou sendo arrastado até outubro de 2022, ou se a consigna “FORA, BOLSONARO!” vai se tornar uma realidade antes disso.

Mesmo estando apenas a pouco mais de um ano do atual governo e o país estar sendo atacado por um vírus agressivo e letal, a verdade é que o Brasil, na prática, já está em ritmo de sucessão presidencial. Alguns candidatos já estão com suas campanhas na rua. Tudo que fazem, dizem ou deixam de dizer já é campanha eleitoral.

A mídia também já está promovendo seus candidatos.

Dória chamando a atenção para si e tentando descolar rapidamente sua imagem da de Bolsonaro e Moro tentando se viabilizar pelo silêncio obsequioso, são dois exemplos.

Essa precipitação reflete o vazio político que estamos vivendo com a perda de significado de Bolsonaro e do seu governo. E, na medida que Bolsonaro for ladeira abaixo, o que parece ser a tendência daqui para a frente, o futuro e a sucessão vão se impondo como contraponto a esse vazio do presente.

O PT deve ser um dos protagonistas e organizadores da conjuntura assim que começar a se posicionar como alternativa política. O partido precisa dizer alto e em bom som para que veio.

Quem é governador, prefeito etc, ou seja, quem ocupa cargo executivo deve estar cuidando como prioridade quase que absoluta do enfrentamento da crise sanitária e de executar as ações emergenciais de defesa e proteção da saúde e da vida. E nossos parlamentares também podem fazer muito para viabilizar essas políticas emergenciais.

Não dá para subestimar essa pandemia. Porque ela pode causar um estrago muito grande e porque, por outro lado, podemos reduzir significativamente os danos causados pelo vírus se fizermos tudo que estiver ao nosso alcance.

A gravidade do Covid—19 impõe que, pelo menos até agosto/setembro, talvez um tempo mais, esse seja o tema principal da sociedade.

Independente da pandemia e por enquanto, quase que em paralelo, estamos entrando em uma recessão econômica brutal e, assim, a conjuntura vai ganhando contornos bem dramáticos.

O Brasil, hoje, é só mais um país onde o projeto neoliberal fracassou. O receituário neoliberal de destruição do Estado brasileiro, aviltamento da nossa soberania, retirada dos direitos sociais conquistados ao largo da nossa história, a destruição do nosso sistema de proteção social, a venda dos nossos ativos econômicos etc. se mostrou um caminho errado, sem futuro porque não resulta em nada de bom para o Brasil nem para o povo brasileiro. Só nos fragiliza enquanto sociedade e torna a vida de todos ainda mais difícil.

Quando eu falo que o PT deve fazer um movimento mais incisivo para se afirmar como alternativa, é porque o partido precisa ocupar o espaço político que lhe cabe como principal partido de oposição e a maior referência para boa parte da sociedade brasileira do projeto de uma sociedade solidária, com justiça social e democracia.

Se ficarmos na moita, sem nos colocar, vamos assistir à construção do cenário pós-Bolsonaro com outros protagonistas. Existe o perigo de sermos aprisionados por uma narrativa que nos deixe em um passado remoto.

É tudo que a direita quer. É esse o projeto da Globo e demais meios de comunicação e de toda a direita e da extrema direita. As nossas elites não suportam o mínimo de redução da desigualdade social, nem de democracia.

Entendo a delicadeza de Lula, pela situação política e jurídica injusta em que foi colocado pela perseguição da lava jato e por toda a mídia. Mas, me preocupa menos esse resguardo político do ex-presidente. Ninguém conseguirá apagá-lo da memória e da consideração popular. Ele é a personalização e a principal referência do nosso projeto de sociedade. Podem desgastá-lo, podem criar um ódio direcionado em uma parte da sociedade, mas nada que não se possa enfrentar.

Estou manifestando preocupação é com o projeto político como um todo, projeto esse no qual Lula ocupa um papel central, mas que precisa de um PT forte, fazendo parte de uma frente política com outros partidos democráticos, de deputados e senadores atuantes, de uma presença vigorosa do partido na sociedade e nos movimentos sociais, principalmente no movimento pela retomada da democracia.

A ficha caiu! As panelas estão falando cada noite mais alto. A sociedade está inquieta, insegura e se convencendo de que Bolsonaro não é uma alternativa.

A mediocridade do capitão está completamente exposta.

Boa parte da sociedade está entendendo que Bolsonaro é uma persona nefasta e que é preciso construir uma alternativa rapidamente, porque esse governo ainda pode fazer muito mal ao país e ao povo brasileiro.

O governo já está se desmanchando, o que faz desse momento um tempo pretérito. Os sintomas do vazio político estão presentes e a cada dia mais dramáticos em todas as instâncias da sociedade.

A quarentena e o isolamento social estão exigindo do povo brasileiro muita criatividade para desde casa, isolados fisicamente, estarmos unidos e nos manifestando uníssonos. Criatividade é o que não nos falta.

Polêmicas pandêmicas, parte 5: é o vírus que vai acabar com a Economia ou ela já estava acabada?

Polêmicas pandêmicas, parte 5: é o vírus que vai acabar com a Economia ou ela já estava acabada?

Os eventos ocorridos com a bolsa de valores no dia 09/03, antes da chegada do novo coronavírus (SARS-CoV-2), causador da doença Covid-19 ao Brasil representaram duro golpe no mercado financeiro nacional. Dali em diante o governo viu derreter, durante o restante mês de março, os únicos indicadores em virtude dos quais se gabava de ter conseguido algum êxito na Economia.

O risco país, cantado em verso e prosa como um dos mais baixos dos últimos anos, aumentou em 40%, a maior alta da história. O Ibovespa, índice preferido do presidente Bolsonaro, mergulhou, caindo 44%: dos 118 mil pontos de janeiro para a casa dos 63 mil pontos, vendo o pregão ser interrompido (circuit breaker) por 6 vezes em 10 dias. O Dólar escalou, o Real desvalorizou mais que o dobro das moedas dos países emergentes, chegando a cotação comercial recorde de R$ 5,24 (no dia 18/03). Restaram os juros baixos e a inflação baixa. Ocorre que tanto juros quanto inflação abaixo da média histórica, sozinhos, não são bons indicadores. Traduzem uma ausência de demanda, falta de consumo o que, em síntese, significa recessão.

Para tentar reverter o quadro, além de promover leilão de, aproximadamente, US$ 12 bilhões oriundos das reservas internacionais, o ministro Paulo Guedes (Economia) anunciou algumas medidas contracíclicas: 1) antecipar o pagamento de metade do 13° salário de aposentados e pensionistas do INSS, de agosto para abril; 2) suspender, por 120 dias, a prova de vida para segurados do INSS; 3) zerar os tributos de importação de produtos médicos; 4) suspender, temporariamente, o pagamento de parcelas da dívida ativa dos Estados para com a União.

Ainda estaria em estudo um outro conjunto de medidas: 5) complementar o salário para os trabalhadores formais que tiveram jornada e remuneração reduzidas, no período e em virtude da pandemia; 6) financiar, por dois meses, a folha de pagamento das pequenas e médias empresas, com recursos do Tesouro Nacional e dos bancos; 7) retardar o recolhimento dos impostos sobre a folha de pagamento das empresas (chamados de encargos sociais); 8) reduzir o montante do valor dos empréstimos compulsórios, dos bancos ao BC; 9) autorizar mais saques do FGTS.

Veio do Congresso Nacional, contudo, a medida mais impactante até agora: a aprovação de um programa de renda mínima emergencial, voltado a trabalhadores autônomos e informais, que prevê a concessão de R$ 600,00 por um período de três meses, a um custo total de R$ 50 bilhões.

Apesar de importantes – e necessárias – tais medidas guardam a volatilidade de um punhado de álcool derrubado no chão: evaporam em uma velocidade absurda e não detém volume suficiente para estabilizar o mercado e debelar a crise.

Há certo consenso entre especialistas de que a maior parte da responsabilidade por esse cenário de terra arrasada seja da pandemia do novo coronavírus e da baixa repentina do preço do petróleo, oriunda de disputas entre Rússia, Arábia Saudita e OPEP. Não se pode olvidar que governo e especialistas colocam as altas exageradas do dólar e as sucessivas quedas na bolsa na conta de dois outros fatores: a) juros abaixo da média histórica; b) instabilidades entre Executivo e Legislativo.

Mas, não se trata somente disso. Da mesma forma com que as medidas anticíclicas de Guedes não são suficientes para debelar esta crise, também os motivos oficialmente elencados não teriam, sozinhos, a capacidade de deixar o mercado financeiro brasileiro na lona em tão pouco tempo. A bolsa já dava sinais de queda e o dólar já vinha subindo semanas antes da pandemia e da nova “Guerra Fria” do petróleo.

Em verdade, os principais fatores responsáveis por isso são a baixa taxa de crescimento e a alta taxa de desemprego causadas, por sua vez, pela ausência de investimento público. Quando o chamado “gasto do governo” (que compreende tanto as despesas correntes de custeio, quanto as despesas de capital), uma variável econômica importante, permanece muito baixo por muito tempo, isso gera recessão: retira capital circulante da praça, desestimula investimentos privados e reduz as receitas tributárias. Isso é sentido, sobretudo, nos Estados subnacionais.

O investimento público é sempre tão ou mais importante que o privado. Se não há obras públicas e programas sociais, não circula dinheiro na praça. A medida do equilíbrio entre cortar gastos, mas transformar a economia daí advinda em investimento público é a chave desta equação. Lula conseguiu fazer isso. Dilma errou quando concedeu incentivos fiscais em demasia e quando quis mexer na política de preços públicos na marreta (energia e combustíveis, principalmente). Isso ampliou o déficit fiscal em demasia e foi aí quando degringolou tudo.

O Brasil sob Bolsonaro/Guedes passa pela maior crise de confiança de sua história econômica recente. Parece que o seu rascunho de modelo econômico não convenceu ninguém: nem os investidores, nem os especuladores. Isso porque, fora as reformas (das quais discordo em conteúdo, mas não em finalidade), o governo não detém uma agenda econômica a ser implementada. Por essa razão é que a Economia brasileira tem sofrido mais que a dos outros países do mundo. As altas no Ibovespa de 2019 – bem abaixo de outros índices de outros países – se converteram em queda mais acentuada e em maior velocidade do que as bolsas de valores dos demais nações. Sob a dupla, tudo se desmancha no ar.

O problema de Guedes é que ele acha que basta promover o ajuste fiscal com as malditas reformas e já resolveu o problema da Economia Nacional. Ajuste fiscal, sozinho, não resolve nada. Não é nem o começo do problema. Mas, quando ele descobrir isso e cair em aí, poderá ser tarde.

Com esse artigo, encerramos a série intitulada POLÊMICAS PANDÊMICAS. Esperamos que tenham gostado. Sigam nos acompanhando em nossas REFLEXÕES DE DOMINGO, aqui mesmo na Mídia Ninja; e em nossos programas “Um Dedo de Prosa”, “Papo Zen” e “Imersões ao Acre Profundo” em nosso canal no Youtube.

Até Mais!

Direto do confinamento: garimpo, índios e coronavírus

Direto do confinamento: garimpo, índios e coronavírus

A presença de invasores ameaça centenas de comunidades indígenas de contágio pelo coronavírus.

Por enquanto ainda está difícil avaliar ao certo qual será o tamanho do impacto da epidemia sobre os povos indígenas no Brasil. Há fatores que nos dão alguma esperança, como o relativo isolamento da maior parte das aldeias e o clima quente, principalmente na Região Norte, que pode ser um pouco menos favorável à sobrevivência do vírus e à sua disseminação.

Mas a experiência histórica dos povos indígenas com epidemias em geral é arrasadora. Em virtude de condições sociais, econômicas, de saneamento e de saúde piores que as dos não indígenas, essas populações são mais vulneráveis à Covid-19. Preocupa particularmente a situação dos índios isolados ou de contato recente, a menos que tenham, mesmo, a possibilidade de permanecerem isolados até que a epidemia arrefeça.

O isolamento, aliás, é a melhor receita para todos e, também, para as comunidades que mantém relações regulares com a sociedade nacional. Mas há muitas dúvidas sobre como ficará a atenção à saúde dos índios durante a crise sanitária, assim como as condições que terão para acessar produtos básicos de consumo de que dependem, como remédios, produtos de higiene, combustível e outros.

Porém a situação mais grave e preocupante é a dos povos que vivem em territórios invadidos por grileiros, fazendeiros, madeireiros e, principalmente, por garimpeiros. Imagine hordas de garimpeiros contaminados invadindo aldeias, corrompendo caciques desinformados, além da destruição e contaminação dos rios e de todas as formas de vida.

Na semana passada, os Yanomami, em Roraima, incendiaram um helicóptero e prenderam os seus ocupantes, ligados ao garimpo clandestino. Nesta semana, os Kaiapó, no Pará, rebelaram-se contra chefes ligados aos garimpeiros e exigiram a imediata retirada deles. Está fazendo diferença o fato de que as informações sobre a epidemia estão chegando aos índios, dando-lhes a oportunidade de reagir antes que seja tarde demais.

E os chefes ou grupos indígenas que, durante a epidemia, mantiverem relações promíscuas com invasores estarão ameaçando suas próprias vidas e as dos seus familiares.

Se a omissão do governo federal em relação a invasões crônicas de terras indígenas sempre foi criminosa, agora, num contexto de pandemia, ela passa a ser genocida. O governo precisa organizar operações imediatas para extirpar os focos mais numerosos de invasores, sob pena de crime de responsabilidade.

Errar é humano, insistir no erro é Bolsonaro

Errar é humano, insistir no erro é Bolsonaro

Imagem: @desenhosdonando

A experiência mundial com a atual pandemia revela que os países e cidades que estão com números alarmantes de infectados e de mortos pelo coronavírus são exatamente os lugares onde os governantes subestimaram os impactos da pandemia e não quiseram tomar as medidas indicadas pela Organização Mundial de Saúde, pelos médicos, infectologistas e cientistas, sob a alegação de que iriam prejudicar a economia dos seus países e cidades.

O número de contaminados e mortos nesses lugares cresceu numa proporção bem superior do que nos países e cidades que seguiram as orientações das organizações médicas. Essa irresponsabilidade trouxe impactos desnecessários sobre a vida e a saúde das pessoas e paradoxalmente, teve consequências negativas que poderiam ter sido evitadas sobre todas as dimensões da sociedade, inclusive sobre a economia.

Essa ideia de que não pode parar e por isso deixaram de tomar as medidas necessárias para conter a pandemia, como a quarentena geral, o isolamento e confinamento em casa se mostrou um erro e tem representado um verdadeiro desastre para esses países e essas cidades.

Estamos vivendo neste momento no Brasil uma disputa em torno de como enfrentar essa pandemia e o coronavírus. De um lado, Bolsonaro tentando passar a idéia de que se trata do surto de uma gripezinha e de outro as ciências médicas e a essa altura, a experiência mundial de enfrentamento dessa pandemia.

Mesmo tendo do lado dos que rejeitam sistematicamente a ciência – ao ponto de acreditarem que a terra é plana- argumentos rasos e sem nenhuma inteligência, esse debate vem envolvendo e mobilizando valores que fundamentam o humanismo, e que representam o respeito à vida e aos direitos humanos de todos.

Projetos distintos de nação estão se enfrentando nesse momento, apesar de que aparentemente estamos só discutindo se devemos ficar em casa ou tocar a vida como se não houvesse amanhã nem uma pandemia hoje.

Aparentemente é um enfrentamento sobre prioridades distintas e lógicas antagônicas no enfrentamento da pandemia, mas ninguém se engane, esse debate é revelador de questões que envolvem visões de mundo antagônicas e compreensões políticas distintas.

Mesmo que não esteja muito claro para muitos, na verdade se trata mesmo é do nosso futuro como sociedade.

E, por isso, afirmamos que essa questão nos remete a um antagonismo e a um confronto da vida com a morte. Enfrentamento entre a necropolítica e o humanismo comprometido com a vida. A usura e a ganância acima de tudo de um lado, o amor à vida, do outro.

Financiando campanhas de publicidade, mobilizando os zumbis políticos que rondam o Brasil e que estão sempre dispostos a fazer o trabalho sujo, como apoiar essa proposta criminosa. Grandes empresários e o mercado financeiro estão por trás dessa posição, pressionando seus operadores políticos para suspenderem a quarentena e o isolamento. Estão pressionando governadores e prefeitos, o Congresso etc…

Essa posição de retomar imediatamente a “normalidade” das atividades econômicas, ignorando a Covid-19 e pondo fim a quarentena é bem vista também por muitos micros, pequenos e médios empresários cujos negócios estão sendo afetados pela crise sanitária e pela pandemia.

Sem muito discernimento acerca do momento econômico e politico, acabam culpando o confinamento geral pelos prejuízos e pela crise econômica.

Bolsonaro é soldado desses irresponsáveis e usa a presidência para tentar dividir o país e mobilizar um exército de idiotas para irem para as ruas para dar a impressão de que é o povo brasileiro que está a favor dessa política suicida.

Já os governadores e prefeitos estão no caminho certo, ao daram prioridade às medidas para garantir a saúde e a vida das pessoas e estarem seguindo as orientações da Organização Mundial da Saúde, dos médicos e infectologistas.

O que está por trás desse conflito e o que está em jogo é simples.

Por um lado, a lógica da necropolítica, tipo “que morram dezenas de milhares”, mas a economia não pode ser afetada. Leia-se, nossos lucros são mais importante do que a vida.

E do outro lado, os que defendem que a vida humana é o bem e a riqueza mais importante, mais valiosa do que tudo mais e propõem combinar salvar vidas com a redução dos impactos sobre a economia. Ninguém desconhece os impactos sobre a economia.

Muitos, dos que hoje estão favoráveis ao confinamento geral, vacilarão diante dessas pressões, e pode vir a parecer “razoável” para alguns deixar morrer dezenas de milhares de pessoas, principalmente se forem os mais velhos.

Essa é a questão política central no momento. Vida e morte, duas lógicas se confrontando.

Claro que o Estado (nos seus três níveis) terá que injetar recursos para evitar uma crise econômica de grande proporções. Não interessa a ninguém agravar ainda mais a crise econômica que assola o país.

Mas, interessa ao governo e aos que vêm apoiando as políticas neoliberais e o receituário de Guedes transferir para a quarentena a responsabilidade pelo fracasso dessa política econômica neoliberal do governo. Bolsonaro está tentando emplacar essa idéia de que a crise econômica que se avizinha será responsabilidade da quarentena e do coronavírus.

Claro que a pandemia e o enfrentamento ao vírus terá um custo e produzirá impactos e com certeza aprofundará nossas dificuldades econômicas.

A pandemia chega ao país em um momento que estamos entrando em uma recessão econômica e não temos uma estratégia para enfrentá-la. Os que deram o golpe na presidenta Dilma fracassaram. O Brasil hoje é só mais um lugar onde o neoliberalismo não deu certo.

O caminho parece ser combinar a proteção à vida e à saúde de todos os brasileiros e brasileiras, corrigir os rumos da nossa economia, complementando com medidas emergenciais imediatas, tipo injetar recursos e proteger e apoiar economicamente os mais vulneráveis.

Durante uns dois ou três meses, o tempo da pandemia, vai ser necessário proteger a vida e a saúde de todos os brasileiros e brasileiras e por outro lado buscar minorar a crise econômica.
A irresponsabilidade expressa na consigna de “não podemos parar,” a essa altura nao é um erro, é um crime deliberado.

Os exemplos da Itália, particularmente de Milão, da Espanha, os EEUU e outros, que de início não quiseram reconhecer a gravidade da pandemia e saíram com essa visão de que “não podemos parar” e se atrasaram nas medidas necessárias para se precaver e enfrentar a pandemia, hoje pagam um preço muito alto em vidas humanas e na própria economia.
O erro de Bolsonaro não é uma loucura. É um crime deliberado.

O Isolamento, o Social e as Comunidades

O Isolamento, o Social e as Comunidades

Há 30 dias, o coronavírus era uma preocupação distante, que tratava de lugares distantes e atingia pessoas distantes. Há 1 mês atrás, o que a população em geral sabia sobre o coronavírus, era uma panacéia de informações imiscuídas, entre coisas de extrema importância e fake news desumanas. Há cerca de 4 semanas, andávamos nas ruas, dávamos beijos e abraços e não queríamos acreditar que essa pandemia chegaria até nós, eu e você. Esta é a vida como ela era.

No dia 26 de fevereiro foi divulgado nosso paciente zero e, neste curto período, são quase 3.000 casos confirmados no Brasil, diante de mais de 530.000 infectados no mundo todo.

Partindo do meu recorte, sou praticamente 60+ e tenho uma asma bem animada desde criança. Descontrolada, foi como chamou o médico na minha primeira consulta no ambulatório do Hospital das Clínicas de São Paulo (a asma, não eu).

Assim, sou grupo de risco dobrado e, por esta razão, e também porque pretendo chegar nos 120+ com qualidade de vida, reivindiquei o home office pouco depois do lockdown declarado na Itália, pedido que, no meu caso, foi logo atendido.

No dia 13 de março, quando os comunicados da saúde no Brasil começaram a reforçar a necessidade de isolar as pessoas para conter a propagação exponencial do vírus, assumi o isolamento social como uma nova forma de vida. Uma decisão que, também no meu caso, ainda que com alguma dificuldade, foi uma escolha possível de ser feita. Sou, sem dúvida, muito privilegiada.

No meu micro universo, estamos convivendo em 5 adultos, entre marido, filhos e enteados, numa casa confortável, com uma certa segurança, ainda que frágil, de 2 integrantes da família com trabalho fixo, o que garante a comida e algumas contas. Quais contas? Ah! Isso ainda temos que definir quais as que conseguiremos pagar. Mas, por enquanto, seguimos trabalhando a mente para não sofrer por antecipação.

Agora, saindo do meu umbigo, logo de cara, me senti em uma realidade distópica. Me senti como num filme pós apocalíptico onde, em alguns lugares, as pessoas podem ser presas se saírem às ruas, enquanto em outros, muitas das pessoas não tem a menor condição para poder permanecer em casa (muitos, nem casa tem); onde algumas pessoas viram-se totalmente sozinhas, enquanto outras estão amontoadas; mas todos, sem exceção, mesmo que em diferentes níveis de percepção, se depararam com uma realidade nunca antes experimentada. Esta é a vida como ela está.

O fato é que, em muito pouco tempo, a vida como a conhecíamos se transformou num completo desconhecido. Como muitos já disseram, vivemos um estado de guerra, contra um inimigo invisível, desconhecido e duro de matar. Fomos pegos de surpresa, mas aos poucos, o susto inicial que levou à escassez planetária de papéis higiênicos, além da falta grave de máscaras e álcool gel, deixa espaço para outros sentimentos com os quais, a maioria de nós, não tem conhecimento ou capacidade para lidar.

Estudos realizados sobre isolamento social mostram que ansiedade, medo e depressão, são alguns desses sentimentos que, inclusive, começam a aparecer com pouco tempo de afastamento.

Outras consequências podem incluir, aumento da pressão sanguínea e maior vulnerabilidade a infecções em função de descargas hormonais. Mas, como mostraram testes realizados em épocas diferentes, pelo geólogo francês Michel Siffre,1961, e o sociólogo italiano Maurizio Montalbini, 1993, os maiores efeitos acontecem no cérebro mesmo, alterando, por exemplo, a relação com o tempo e os ciclos de sono, além de afetar a concentração e o raciocínio lógico. Isso tudo, porque as situações de isolamento levam o nosso cérebro a criar realidades alternativas a partir das nossas subjetividades.

A boa notícia? A retomada do convívio social reverte a maioria dessas alterações. No fim do dia, somos seres sociais que precisam de contato humano para estabelecer trocas e experiências comuns que é o que nos mantém conectados com o que entendemos por realidade.

Nos últimos anos, a hiperatividade digital tem trazido uma experiência de um certo tipo de isolamento social. Mas, a imposição de um isolamento social compulsório, na vida real, tem feito com que, nos últimos dias, voltemos a pensar na nossa condição de seres interdependentes que, na sua origem, buscaram a vida em comunidade para sobreviver e evoluir.

Mesmo sabendo que meu olhar sempre escolhe um filtro otimista, o que tenho aprendido de tudo isso, é que este isolamento está nos despertando para a importância dos nossos relacionamentos, das nossas relações com o outro. Tenho acompanhado que a falta do convívio presencial vem trazendo um aprendizado rápido do uso das ferramentas digitais para reconstruir essas relações. Tenho visto que muita gente tem se “encontrado” virtualmente com mais frequência do que faziam presencialmente. E tenho testemunhado, em meio a tantas incertezas, tantas dúvidas, o desabrochar de atitudes solidárias mais escancaradas, em vários níveis.

Talvez, a falta do toque e da presença física esteja nos fazendo enxergar o que estava nublado com tantas camadas de impureza social impostas por necessidades, na maioria das vezes, tão desnecessárias. Uma falta que nos faz querer estar presentes de outras formas. Quem sabe, esta é a vida como ela pode ser.

Concluindo, acredito que mais do que uma guerra, estamos vivendo uma grande revolução que pode remodelar a sociedade que conhecemos. Onde os sobreviventes dessa hecatombe global podem, ao menos, imaginar um mundo mais comunitário, com menos fronteiras e com mais semelhanças do que diferenças sociais. E, depois de revisitar Nelson Rodrigues e John Lennon, faço minha a crença de Milton Nascimento: sei que nada será como antes, amanhã!

Notícia-Crime contra Bolsonaro II

Notícia-Crime contra Bolsonaro II

Protocolei outra notícia-crime contra o Presidente da República em razão de seu discurso realizado em cadeia nacional no dia 24 de março de 2020:

EXCELENTÍSSIMO SENHOR PRESIDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL – DD. DOUTOR ANTÔNIO JOSÉ DIAS TOFFOLI

ANDRÉ MAGALHÃES BARROS, brasileiro, advogado, inscrito na OAB/RJ – 64495, com escritório na cidade do Rio de Janeiro, à rua Senador Dantas 117, sala 610, Centro, vem apresentar a Vossa Excelência NOTÍCIA-CRIME contra JAIR MESSIAS BOLSONARO, Excelentíssimo Senhor Presidente da República, pelos fatos e fundamentos seguintes:

Em 24 de março de 2020, o Presidente da República, através do seguinte discurso transmitido em cadeia nacional, transcrito abaixo, praticou o crime de apologia duas vezes quando enalteceu os delitos de desobediência e de infração de medida sanitária preventiva, verbis:

“Desde quando resgatamos nossos irmãos em Wuhan, na China, em uma operação coordenada pelos ministérios da Defesa e das Relações Exteriores, surgiu para nós um sinal amarelo. Começamos a nos preparar para enfrentar o coronavírus, pois sabíamos que mais cedo ou mais tarde ele chegaria ao Brasil.

Nosso ministro da Saúde reuniu-se com quase todos os secretários de Saúde dos estados para que o planejamento estratégico de combate ao vírus fosse construído e, desde então, o doutor Henrique Mandetta vem desempenhando um excelente trabalho de esclarecimento e preparação do SUS para atendimento de possíveis vítimas. Mas, o que tínhamos que conter naquele momento era o pânico, a histeria. E, ao mesmo tempo, traçar a estratégia para salvar vidas e evitar o desemprego em massa. Assim fizemos, quase contra tudo e contra todos.

Grande parte dos meios de comunicação foram na contramão. Espalharam exatamente a sensação de pavor, tendo como carro chefe o anúncio de um grande número de vítimas na Itália, um país com grande número de idosos e com um clima totalmente diferente do nosso. Um cenário perfeito, potencializado pela mídia, para que uma verdadeira histeria se espalha-se pelo nosso país.

Contudo, percebe-se que, de ontem para hoje, parte da imprensa mudou seu editorial. Pedem calma e tranquilidade. Isso é muito bom. Parabéns, imprensa brasileira. É essencial que o equilíbrio e a verdade prevaleça, entre nós.

O vírus chegou, está sendo enfrentado por nós e brevemente passará. Nossa vida tem que continuar. Os empregos devem ser mantidos.

O sustento das famílias deve ser preservado. Devemos, sim, voltar à normalidade. Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, como proibição de transporte, fechamento de comércio e confinamento em massa. O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então, por que fechar escolas? Raros são os casos fatais de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade. 90% de nós não teremos qualquer manifestação caso se contamine. Devemos, sim, é ter extrema preocupação em não transmitir o vírus para os outros, em especial aos nossos queridos pais e avós. Respeitando as orientações do Ministério da Saúde.

No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão.

Enquanto estou falando, o mundo busca um tratamento para a doença. O FDA americano e o Hospital Albert Einsten, em São Paulo, buscam a comprovação da eficácia da cloroquina no tratamento do Covid-19. Nosso governo tem recebido notícias positivas sobre este remédio fabricado no Brasil e largamente utilizado no combate à malária, lúpus e artrite.

Acredito em Deus, que capacitará cientistas e pesquisadores do Brasil e do mundo na cura desta doença.

Aproveito para render as minhas homenagens a todos os profissionais de saúde. Médicos, enfermeiros, técnicos e colaboradores que, na linha de frente nos recebem nos hospitais. Nos tratam e nos confortam. Sem pânico ou histeria, como venho falando desde o início, venceremos o vírus e nos orgulharemos de estar vivendo neste novo Brasil, que tem tudo, sim, para ser uma grande Nação. Estamos juntos, cada vez mais unidos, Deus abençoe nossa pátria querida.”

Quanto ao pronunciamento presidencial, cabe destacar que atletas de todo o mundo solicitaram o adiamento das Olimpíadas de Tóquio por medo do coronavírus, pedido acatado pelo Comitê Olímpico Internacional, sem data exata marcada para a sua realização. Concomitantemente, o Presidente do Brasil declarou o seguinte:

“No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão.”

Enquanto o Brasil inteiro está em isolamento social, assim como ocorre em todo o planeta, o Presidente da República defende que as escolas sejam abertas, pois seriam raros os casos fatais em pessoas com menos de 40 anos de idade, elencando como grupo de risco somente as pessoas com mais de 60 anos.

Assim, ignora a orientação da Organização Mundial da Saúde e a Lei 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, que o próprio noticiado sancionou. Lei complementar do tipo penal em branco do artigo 268 do Código Penal, que penaliza com a detenção de 1(um) mês a 1(um) ano, e multa, qualquer pessoa que “infringir determinação do poder público, destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa”. Trata-se de infração de medida sanitária preventiva para tutelar a saúde pública.

Plenamente consciente da apologia do crime do artigo 268 do Código Penal, o Presidente da República concitou a população a desobedecer às medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus, responsável pelo surto de 2019, objetivos destacados na ementa da Lei 13979, que sancionou em 6 de fevereiro deste ano e entrou em vigor na data da sua publicação.

Vivemos sob o Império da Lei e não sob o Império do Rei ou de um Presidente da República que, como primeiro mandatário da nação, não só deve como tem o dever de dar o exemplo de respeitar as leis. No caso em tela, o crime de apologia é cristalino.

Houve apologia de crime daqueles descritos nos artigos 268 e 330 do Código Penal Brasileiro. Com o advento da Portaria Interministerial nº 5, a apologia ficou ainda mais evidente, uma vez que há citação expressa dos artigos e ameaça com a espada da Lei qualquer pessoa que a viole.

Cabe registrar a gravidade do trecho destacado acima, quando o Presidente da República diz que, “se” fosse contaminado pelo vírus, não precisaria se preocupar, pois seria acometido de uma “gripezinha”. Trata-se de um discurso epidêmico, pois milhões de brasileiros que votaram no Presidente podem seguir sua fala e achar que vão pegar um ”resfriadinho” e, daí, o surto pode realmente se alastrar, levando milhares de compatriotas à morte.

O pouco caso que o Presidente da República faz da possibilidade de estar ou vir a ser contaminado pelo vírus é gravíssimo. Ele liderou recentemente uma comitiva aos Estados Unidos, região de contaminação pelo coronavírus, assim classificada no artigo 5º, inciso II, da Lei 13979, da qual 22 autoridades e convidados retornaram contaminados. No entanto, os resultados dos dois exames realizados pelo Presidente da República não foram apresentados ao País. Além de deixar toda uma nação desconfiada, o mesmo não colabora com as autoridades sanitárias, pois os testes do primeiro mandatário da República deveriam ser apresentados, até como maneira de dar exemplo ao Brasil. Teoricamente, cabe consignar que, caso o resultado do exame do Exmo. Sr. Presidente da República fosse positivo para o coronavírus, em caso de morte de alguém da delegação, o mesmo teria praticado um crime hediondo, previsto no artigo 1º, inciso VII, da Lei 8072/2020, cuja pena pode chegar a 30 anos de reclusão:

“Art. 267 – Causar epidemia, mediante a propagação de germes patogênicos:
Pena – reclusão de dez a quinze anos.

§ 1º – Se do fato resulta morte, a pena é aplicada em dobro.”

Situação similar já foi apresentada na notícia-crime, protocolada sob o nº 16165/2020, sobre o comportamento do Presidente da República na manifestação de 15 de março de 2020 à entrada do Palácio do Planalto. Alguém que está infectado pelo coronavírus, ou tem consciência de que pode contaminar outra pessoa, não pode sair por aí apertando a mão, abraçando e fazendo selfies, pois o mundo todo sabe que é exatamente assim que o vírus se propaga. O fato dessas condutas partirem do Presidente da República afeta diretamente a Saúde Pública e a “segurança interna do País”, pois o mesmo deveria ao menos estar de quarentena, como estabelece o artigo 2º, inciso II, combinado com o artigo 5º, inciso II, da Lei 13.979/2020.

Os crimes praticados por Bolsonaro são de ação penal pública incondicionada, a qual deve ser promovida privativamente pelo Procurador-Geral da República, com a competência do Supremo Tribunal Federal para processar e julgar.

Pelo exposto, vem requerer a Vossa Excelência que a presente NOTÍCIA-CRIME seja encaminhada ao Procurador-Geral da República.
N.Termos
P.Deferimento

Rio de Janeiro, 26 de março de 2020

ANDRÉ BARROS
OAB/RJ – 64495

O abismo é logo ali

O abismo é logo ali

O país acordou estarrecido e perplexo, impactado pelo pronunciamento de Jair Bolsonaro, feito em cadeia nacional ontem à noite. Mesmo entre os que até ontem o apoiavam, muitos estão em estado de choque.

O nível de insanidade e da falta de preparo para exercer o cargo de presidente da República ficou manifesto nas propostas e nos comentários. Todo o pronunciamento indica uma atitude criminosa.

O teor da fala chama a atenção pela absoluta irresponsabilidade, mas não me parece que é só isso que merece a nossa atenção.

Existe ali, como fio condutor da fala de Bolsonaro, uma estratégia fria, algo pensado, consciente. E, que não é só dele. E é a própria essência do projeto neoliberal e autoritário.

A fala contém e defende, sem nenhum pudor, uma opção por uma outra prioridade que não a vida e a saúde das pessoas. Mesmo às custas da morte de dezenas de milhares de pessoas, o subtexto informa que a prioridade dele e dos que o apoiam é a economia.

Que morram muitos brasileiros e brasileiras, o importante é que a atividade econômica e o lucro das empresas não sejam afetados.

Alguns empresários ligados ao ainda presidente já tinham se adiantado ao pronunciamento criminoso de Bolsonaro e andaram, desde o final da semana passada, pregando que era “melhor morrer umas sete mil pessoas do que criar com o isolamento e a quarentena as condições para uma crise econômica”.

Este pronunciamento de Bolsonaro mostra para todo o país que o projeto político que ele representa e seu despreparo e má fé vem tornando a vida de todos cada dia mais difícil. E revela o quão perigosa é para toda a sociedade a posição de ignorar a leviandade, a incompetência e os desmandos com que o Brasil está sendo conduzido.

A verdade é que Bolsonaro e os que o apoiam estão levando o país inteiro para a beira do abismo.

O povo brasileiro vai ter que reavaliar, porque as coisas estão se precipitando com uma velocidade impressionante e esse governo praticamente acabou depois do ofensivo pronunciamento de ontem. Foi um ponto final.

O Fora, Bolsonaro! pode deixar de ser uma proposta voluntarista e injustificada em muito pouco tempo. Isso se já não estiver na ordem do dia para a maioria da sociedade brasileira. É preciso avaliar se de fato não é o caminho para que possamos, como nação, enfrentar os dias difíceis que estão se avizinhando.

Motivos legais para o afastamento não faltam.

O que falta é legitimidade para esse governo continuar.

A evolução da atual situação pode ser muito perigosa para todo o país, fragilizado e confuso como estamos.

O custo para todos os brasileiros e brasileiras, da sua permanência à frente do país até 2022, será muito alto.

Não existe vácuo na política. Estamos caminhando para uma situação bastante pantanosa.

Estamos com três crises de naturezas diferentes e que estão se amalgamando. Em breve vão interagir fortemente, gerando assim uma situação insustentável.

A crise sanitária produzida pelo coronavírus é gravíssima, não só aqui, como em todo o mundo e atingirá seu pico no Brasil em pouco tempo.

Bolsonaro em sua fala delirante, irresponsável e criminosa voltou a chamar a Covid-19 de uma “gripezinha”.

A Organização Mundial da Saúde, médicos, infectologistas, uníssonos, estão dizendo que em mais ou menos um mês estaremos enfrentando uma situação muito mais grave em proporções e amplitude. Isso deverá colapsar o sistema de saúde em breve. É preciso adiar, o máximo possível, a contaminação de pessoas para reduzir as internações.

Todos os cientistas e técnicos da área da saúde afirmam que só através do confinamento e do isolamento podemos reduzir as dimensões da crise sanitária e minorar seus impactos.

A crise econômica, revelando a falência das políticas neoliberais, como aconteceu em outros países, já está beirando a recessão e inevitavelmente se agravará nos próximos meses, por falta de políticas eficazes, por modo contínuo e empurrada pela crise sanitária.

E, a crise política, que está entrando numa fase aguda, com a perda de legitimidade do presidente da República e do seu governo. Não será surpresa se Bolsonaro e os que o apoiam tentarem caminhar na direção de uma nova ruptura institucional. Mas tudo indica que não terão apoio popular significativo, nem político e nem internacional.

Com tranquilidade e responsabilidade, considerando a gravidade do momento, é hora das nossas instituições, partidos políticos, lideranças da sociedade e todo o povo brasileiro reconhecer que estamos caminhando para uma situação insustentável e que a conjuntura está se deteriorando rapidamente.

Já estamos vivendo uma situação em que é possível visualizar o que se chama de tempestade perfeita, com essas três crises de naturezas distintas interagindo entre si e atingindo níveis de radicalidade que não foram vistos até agora, com sérios impactos sobre as pessoas e sobre todas as dimensões da sociedade.

Não dá mais para irmos levando o barco como se nada grave estivesse acontecendo. Não dá para continuar fazendo vista grossa. São, literalmente, milhões de vidas e o destino do país que estão em jogo.

Se a fala de Bolsonaro ontem a noite serviu para alguma coisa, foi para nos tirar da inércia diante do abismo que se aproxima e do perigo que ele mesmo representa à frente do país.

Carta a Raull Santiago

Carta a Raull Santiago

Foto: Edu Sampaio/ Believe Earth

Poderia enviar uma mensagem direta por WhatsApp, ou em algum dos grupos que participamos juntos, mas decidi usar minha coluna, aqui, para tornar pública uma carta a Raull Santiago, um dos mais importantes ativistas periféricos da última década.

(Se você não sabe quem é Raull, procure saber. Pesquisa, sim. Siga, leia e ouça uma de nossas vozes mais necessárias em tempos tão violentos como esse).

Irmão, me dirijo a você, para lembrar do meu respeito e admiração por sua existência e atitute de compromisso, no mundo.

Saúdo sua nova idade, desejando que o ano que se inicia seja mais generoso, não só para você, pois uma das suas marcas é sua ação pela nossa comunidade, para uma sociedade mais humanizada, ética e comprometida com o enfrentamento das violências sociais. Logo, desejo um mundo mais acolhedor, onde caiba o projeto de sociedade justa que desejamos.

Não temos dúvidas sobre a importância do seu trabalho para uma garantir uma comunicação que amplie os gritos, as denúncias das desigualdades, e que também notícia as potências, em nossas comunidades. Eu desejo que você tenha força para continuar pelos próximos 30 anos.

Essa também é uma carta de agradecimento, além de compartilhar com o mundo que a sua atuação colabora para a redução das desigualdades. São pessoas como vocês que torna o mundo mais esperançoso, e sua presença incisiva garante o eco de vozes silenciadas, por um processo de marginalização do problema e de constante criminalização de corpos pretos periféricos. Eu escrevo para dizer que você é necessário e peço a quem me guia que a tirania de Estado cruel nunca mais ouse interromper sua voz.

Essa carta é sobre agradecer, e também é para lembrar que não retrocederemos.

Também é para contar a cada pessoa que me lê, o quanto é cruel um Estado que violenta agentes da transformação social, enquanto deixam uma comunidade, pois a única leitura que podem fazer de gente da gente é a criminalizada.

Raull, sinto muito que nós ainda precisemos enfrentar esse tipo de repressão de um Estado genocida, que trabalha para nos silenciar. E, por outro lado, sinto uma grande alegria em saber que você resiste, e coloca seu corpo, intelecto e trajetória a serviço de um projeto de mudança do país.

Mudaremos essa realidade. Eu não tenho dúvidas.

Te amo, meu irmão. Obrigado por se manter, sabendo que não está só.

Você é necessário! Você é um gigante foda!

Feliz Aniversário, irmão! E que o jantar de comemoração, com sua família, tenha sido maravilhoso. Vocês merecem!

Meu sincero abraço e reverências.

A festa é nossa, o corpo é meu!

A festa é nossa, o corpo é meu!

A chegada do Carnaval acende um tema que atinge de maneira cortante a vida das mulheres: o assédio sexual. Um tema que para nós, feministas, é permanente. Carnavalizar é palavra de ordem: destronar o patriarcado, seus reis machistas e racistas é a luta da vez.

A festa traz consigo uma ideia de libertação, expressa desde a ocupação das ruas à exaltação aos corpos. A carnavalização, conceito de Bakhtin, marca a inversão e subversão dos papéis sociais. Mas os dias de folia não criam uma realidade paralela ao cotidiano de opressão, muito ao contrário. Os códigos estabelecidos e impostos pelo machismo se intensificam. Dançar, beber e expor o corpo é, para heteronormatividade, um sinal de disponibilização das mulheres para fantasia dos homens. Para eles, a “festa é deles e os corpos são deles”.

Tal lógica se reproduz nas mais variadas relações que perpassam o período carnavalesco. Basta o exemplo do que passam as camelôs, em sua maioria mulheres negras, que tem outro papel na organização do Carnaval. Muitos homens foliões se sentem no direito de assediá-las sexualmente naquele que é seu espaço de trabalho.

Também nesse contexto, as mulheres lésbicas, cuja orientação sexual representa uma afronta à heteronormatividade, ficam expostas à inoportuna obsessão masculina. O fetiche em ver duas mulheres se beijando, torna-se rapidamente agressão física, verbal e psicológica.

Hoje, mesmo com todo o acúmulo conquistado pelos anos de debate sobre esse tema, a disputa discursiva a respeito do assédio ganha novos contornos. A ascensão do pensamento conservador, com seus líderes extremistas e fundamentalistas religiosos, trouxe à tona doutrinas ultrapassadas. A exaltação do machismo, do racismo, da LGBTfobia, além do ódio aos pobres, tornaram-se método da política institucional.

Lembremo-nos que há poucas semanas a opinião pública precisou rebater a fala de um deputado ultraconservador que, ao criticar a campanha “Não é não” – voltada para conscientização da população e proteção das foliãs -, naturalizou práticas de abuso contra mulheres e, de certa forma, as responsabilizou pela violência sofrida. “Quem, homem ou mulher, não gosta de ser assediado?”, provocou. Uma pergunta-afirmação que fragiliza as vítimas, ao passo que empodera os abusadores, uma vez que a recorrência de ações assediosas partem justamente da perspectiva de que a vítima teria autorizado a ação. A declaração do parlamentar soou como uma naturalização de práticas inaceitáveis.

Um trabalho realizado pela fotógrafa estadunidense Grace Brown (2013) revelou algumas das frases ouvidas por mulheres vítimas de estupro, no momento em que sofriam a violência: “Você está gostando que eu sei”, “Estou fazendo isso por você”. No caso brasileiro, a sentença despejada da boca de um membro do parlamento, que de alguma forma toca o que foi revelado pela experiência trazida por Grace, significa uma espécie de apologia e institucionalização do horror.

Na acepção da palavra, o assédio pressupõe inconveniência, insistência, abuso. Não há como conceber a perseguição ou a invasão do corpo como algo bem-vindo à vida de qualquer pessoa.

Para resistir e superar a imposição extremista, é preciso redobrar o esforço coletivo rumo à reconstrução de pactos sociais. O ideal de igualdade frágil não nos serve, a ideia de equivalência é mais adequada às nossas necessidades. É o respeito à diversidade que guarda a possibilidade de uma existência socialmente plena e igualitária.

Nesse sentido, queremos que mais políticas públicas para o combate à violência sejam implementadas. Que façamos também mais e mais campanhas contra o assédio, dentro e fora do Carnaval. Carnavalizando a nossa existência para subverter o poder e sua estrutura patriarcal. E que as mulheres estejam cada vez mais fortalecidas para transformarem em prática o lema: “A festa é nossa, o corpo é meu“!

O desenvelhecimento do mundo

O desenvelhecimento do mundo

Filme: O Curioso Caso de Benjamin Button, dirigido por David Fincher

Na vida pessoal, o envelhecimento depende menos da idade fisiológica do que da idade social. A idade social é inversamente proporcional à capacidade de pensar, sentir e viver o novo como futuro, como tarefa, como presente por experimentar. É-se tanto mais jovem quanto maior é a capacidade de viver a vida como se ela fosse uma experiência de constantes recomeços que apontassem, não para repetições do passado, mas antes para futuros – mapas por explorar e caminhos por trilhar com disponibilidade para enfrentar riscos, assumir ignorâncias e responder a desafios novos. É o futuro como antecipação, como “ainda não”, como latência, como potência. Como sabemos que nunca vivemos senão no presente, o futuro é sempre o presente incompleto, o presente como tarefa, como acontecimento, pelo qual somos pessoalmente responsáveis. Ter futuro é ser dono do presente. Pelo contrário, é-se tanto mais velho quanto mais se vive convencido de que o mundo já decidiu por nós o que podemos esperar ou não esperar e que, consequentemente, o futuro está fechado para nós. Envelhecer é, pois, viver de repetição ou em repetição como se cada repetição fosse única e irrepetível. É passar os dias como se fossem os dias a passar com a indiferença do passeio diário.

São três os modos de viver de repetição: como se o passado fosse um eterno presente e tanto as rotinas como as instituições e as notícias o confirmassem dia-a-dia (envelhecimento por morte viva); como se o passado tivesse passado e tivesse deixado no seu rasto um vazio inabarcável que só o jogo de cartas, a televisão ou a conversa sobre doenças pode iludir (envelhecimento por vida morta); ou, finalmente, como se tanto o passado como o futuro estivessem igualmente distantes e inacessíveis, criando assim um pânico insuperável que só o gasto excessivo do corpo no álcool, nas drogas, na academia, na igreja ou na terapia pudesse iludir (envelhecimento por vida sem morte).

Nas sociedades de corpos industrializados e informatizados em que vivemos foram criados serviços públicos e privados para dar assistência às pessoas que têm mais dificuldades com a repetição da repetição. No fundo, trata-se de normalizar a decadência. Nestas sociedades o envelhecimento é sempre o resultado de um esgotamento crônico de energias gastas ou por gastar. Consiste em pôr convictamente o letreiro de lotação esgotada à porta do teatro da vida, mesmo que há muito se não represente nele uma peça, ou mesmo que nunca se tenha feito nele um primeiro ensaio. No caso das duas primeiras formas de envelhecimento, o objetivo é investir no passado como se não tivesse passado. Consiste cada vez mais na comercialização de serviços de coenvelhecimento. São, em geral, eficazes porque a invenção da repetição oculta astuciosamente a repetição da invenção. A ideia básica é que as experiências de envelhecimento, por mais insuportáveis, são sempre mais suportáveis quando partilhadas. No caso da terceira forma de envelhecimento, em vez da onipresença do passado, procura-se a oniausência do passado, um eterno presente que dispensa o futuro de ter de assombrar os vivos com as más notícias que ainda não são. São as técnicas de envelhecimento por rejuvenescimento. É uma versão modificada da metáfora do filme “The Curious Case of Benjamin Button”, baseado no conto de F. Scott Fitzgerald, no qual o protagonista nasce velho e vai rejuvenescendo à medida que o tempo passa até morrer bebê. Nas técnicas de envelhecimento por rejuvenescimento o relógio da estação de caminho de ferro da pequena cidade do sul dos EUA, em vez de andar para trás, pára, e com ele pára o tempo também.

A ideia básica é que as experiências de envelhecimento, por mais insuportáveis, são sempre mais suportáveis quando partilhadas.

Como referi, a idade social não coincide com a idade fisiológica, mas a descoincidência é maior ou menor consoante os períodos históricos, os contextos sociais e os fatores coletivos que os caracterizam. O mesmo acontece com as sociedades. O mundo industrializado em que vivemos começou a envelhecer aceleradamente na década de 1980. De repente, o futuro fechou-se, o novo senso comum de que não havia alternativa à sociedade capitalista injusta, racista e sexista em que vivíamos entrou nas nossas casas mais rapidamente do que qualquer pizza delivery ou uber eats, propagou-se pelos noticiários, pelas redes sociais emergentes, pela sabedoria pronto-a-vestir da comentocracia. Novas experiências e expectativas de vida coletiva estavam para sempre desacreditadas, o mundo era naturalmente injusto, os ricos eram ricos porque mereciam e os pobres eram pobres de tudo, mas sobretudo de juízo, tínhamos de viver com a imperfeição, ainda que a pudéssemos minorar substituindo a racionalidade dos mercados pela irracionalidade do estado à custa do qual viviam os menos capazes de sobreviver numa sociedade competitiva. A Primeira Ministra da Inglaterra, Margaret Thatcher, decretou melhor que ninguém a morte do futuro: “There is no Alternative”, a célebre TINA. E Francis Fukuyama transformou essa morte no triunfo final da sociedade ocidental – “o fim da história” – prevalecendo-se do fato de que Friedrich Hegel, estando morto desde 1831, não poderia insurgir-se contra tão idiota interpretação da sua filosofia da história. O cimento desarmado com a queda do Muro de Berlim foi-se rearmando em mil cemitérios do futuro que se foram construindo em todo o mundo. E muitos foram necessários para enterrar tanto futuro.

Este grande procedimento para envelhecer o mundo traduz-se hoje predominantemente na primeira forma de envelhecimento que referi acima, o envelhecimento por morte viva. Mas as duas outras formas de envelhecimento estão igualmente presentes. O envelhecimento por vida morta é a forma de envelhecimento preferida pelos fundamentalismos religiosos. Atuam sobre o vazio causado pelo passado e prometem fazê-lo renascer sob a forma de um futuro glorioso num outro mundo. Para os promotores deste envelhecimento, a vida que vivemos está morta e só pode ressuscitar quando os relógios da história começarem a andar para trás ou quando todos, em uníssono, começarem a dar a hora derradeira da eternidade. Não há responsabilidade social pela injustiça. Há, sim, culpa por sofrê-la, e a única solução é expiá-la.

A terceira forma de envelhecimento (vida sem morte) é a que domina na geração dos millenials, a que nasceu no início do período em que o teatro do mundo fechava a cortina de um futuro diferente e melhor. Foi uma geração condenada a nascer velha. Nasceram sem o passado do futuro porque a ideia da alternativa tinha entretanto desaparecido do horizonte. Por isso, nunca lhes ocorreu derrubar o sistema injusto que lhes roubava a esperança de um futuro diferente e melhor. O seu objetivo foi ter êxito pessoal dentro do sistema. Sacrificaram tempo, direitos, lazer e prazer na esperança de uma vitória que, para a grande maioria, nunca chegou. Queriam vencer o sistema, vencendo no sistema. Era isto que o sistema queria para mais eficazmente os vencer. Essa geração é hoje a que domina na terceira forma de envelhecimento (vida sem morte).

A geopolítica das estratégias de envelhecimento merece uma análise mais detalhada que não cabe aqui fazer. Basta por agora ter em mente que nem o mundo envelheceu uniformemente, nem as formas de envelhecimento se distribuíram por igual no planeta. Foi sobretudo no chamado norte global que, paradoxalmente, as pessoas passaram a querer viver mais tempo sem, no entanto, serem consideradas velhas. O que quero salientar neste momento é que estão a surgir sinais concludentes de que o processo de envelhecimento do mundo não é irreversível. Não se trata de rejuvenescer, o que, como referi acima, é uma forma de enganar o envelhecimento. Trata-se antes de desenvelhecer, ou seja, de voltar a acreditar num futuro diferente e na capacidade para lutar por ele. Trata-se de rejeitar a repetição infinita do presente porque tal repetição está a conduzir-nos inexoravelmente para o abismo. Emerge uma vontade do novo que não seja uma barbárie porque a barbárie é onde estamos já. Por todo o mundo estão a surgir levantes de pessoas de todas as idades fisiológicas porque, como disse, a diferença fisiológica não conta na perspectiva do envelhecimento ou desenvelhecimento do mundo. Presenças coletivas de jovens e velhos enchendo as ruas e as praças públicas do mundo contra a política da repetição e os políticos repetidos, do Chile à Itália, do Líbano à Índia. São os novos insurgentes inconformados com a iminente catástrofe ecológica, a concentração escandalosa da riqueza, a captura das instituições democráticas por antidemocratas, a irracionalidade dos mercados ditos racionais, o roubo de proporções gigantescas da nossa privacidade e da nossa intimidade pelos novos robber-barons Google, Facebook, Amazon ou Alibaba, a indiferença grotesca pelo sofrimento de imigrantes e refugiados mortos no mar, na selva, no deserto ou depositados em campos de concentração, como se Auschwitz fosse apenas uma memória cruel, hoje superada pela vitória do bem sobre o mal.

Nem o mundo envelheceu uniformemente, nem as formas de envelhecimento se distribuíram por igual no planeta.

As forças políticas de direita, que sempre se alimentaram do envelhecimento do mundo, clamam assustadas contra o que designam como desaforo, como se não fosse desaforo tudo o que levou os novos jovens e os novos velhos a decidir virem para a rua desenvelhecer. As mesmas forças argumentam que não há propostas, ou seja, repetições, as únicas novidades que reconhecem. Mas a verdade é que há propostas. Da Índia ao Chile, as forças repressivas e os partidos políticos confrontam-se com a indignação dos desenvelhecidos contra a letra morta de tanta constituição. Confrontam-se com propostas de assembleias constituintes populares plurinacionais. Confrontam-se com propostas de transportes públicos eficientes e gratuitos como exercício da economia de cuidado para com a natureza. Mas confrontam-se, sobretudo, com a celebração da diversidade nacional, cultural, religiosa, sexual, com a procura de zonas libertadas de capitalismo, colonialismo e patriarcado, com a busca de formas de economia comunitária camponesa, indígena, familiar, feminista, cooperativa.

Na medida em que o mundo desenvelhecer, os poderes que produziram o envelhecimento do mundo e fizeram dele a indústria da sua eternização vão ser cada vez mais confrontados com o desaforo causado pelo seu desaforo. Irão envelhecer?

Ministro Paulo Guedes, fui empregada doméstica e preciso te dizer uma coisa

Ministro Paulo Guedes, fui empregada doméstica e preciso te dizer uma coisa

Coluna publicada no Uol

O Brasil ainda vive um ranço colonial. Por isso, nem me assusto com comentários como o de Paulo Guedes pontuando como negativa a época em que o dólar estava baixo e que empregadas domésticas iam à Disney. “Uma festa danada”, disse, sem nenhum constrangimento.

Ministro, o nosso lugar vem sendo construído há muitos séculos. Durante o período escravagista, os escravos domésticos eram tratados como se fossem da família. Hoje são as trabalhadoras domésticas que passam por situações que se assemelham no requinte de crueldade. Eu já fui empregada doméstica, e sei o que é ser impedida de usar o mesmo banheiro do patrão ou de se alimentar da comida que ela mesma faz para os seus senhores.

Neste país, é dado o limite até onde os pobres, em sua maioria pretos, podem adentrar.

Me lembro bem dessa época de dólar baixo, ministro. Em que os pobres ascenderam economicamente por meio do acesso à educação. Ganhamos a possibilidade de ingressar nas universidades — para estudar, e não somente pra limpar as salas e os banheiros. As frases que eu mais escutava era: “Agora o filho da empregada está pegando a vaga do filho da patroa.” Como se o segundo tivesse mais direitos que o primeiro.

Paulo Guedes, se dependesse da nossa sagacidade de vencer, esse país seria outro, com um olhar humanizado para a classe trabalhadora que sustenta esse país nas costas e em pé.

Se as leis trabalhistas fossem de fato cumpridas, haveria mesmo muitas domésticas lotando os aeroportos com orelhinhas de Mickey, voltando de nossas férias na Disney.

Somos desumanizadas, tratadas como propriedade pelos patrões, que exigem excelência do nosso trabalho, mas que se recusam a pagar pelos nossos direitos como trabalhadores, que não reconhecem valor no nosso esforço. (Vale ressaltar que na criação da PEC das Domésticas, o único que votou contra foi o nosso atual presidente, seu chefe.).

Essa sua fala é triste, mas, de novo, não me surpreende. Esse é o pensamento de grande parte da elite brasileira, que quer deixar “cada um no seu devido lugar”, que “não se mistura”, que acha um absurdo um pobre e/ou preto ter o mesmo direito que eles ao lazer, à educação, à habitação – e, como você, fala sobre isso com a maior naturalidade, nem consegue se atentar ao absurdo dessas considerações.

O atual governo é o reflexo de uma sociedade escravagista que sempre teve o olhar nos moldes operantes do patrão e não do trabalhador.

No ano passado, lancei um livro chamado “Eu Empregada Doméstica, a senzala moderna é o quartinho da empregada”, trazendo à tona relatos anônimos de trabalhadoras domésticas de diversas regiões do Brasil. Trago a história de minha avó e mãe, que também foram domésticas, que demonstra como essa profissão é uma herança para as mulheres pretas nesse país. Mas levanto a cada manhã disposta a lutar para que, um dia, esse placar mude e possamos ter uma profissão humanizada e digna como outras.

Ser doméstica no Brasil é ser inferiorizada, invisível. Não é uma profissão almejada, desejada — é uma profissão das que não têm escolha. Faço minhas as palavras da deputada Benedita da Silva e peço que respeite as trabalhadoras domésticas: se elas estão indo para a Disney e os filhos delas para a universidade foi porque os governos anteriores possibilitaram esse acesso que o seu governo racista e preconceituoso vem destruindo.

Eu, Preta Rara, artista, rapper, historiadora, mulher preta e gorda digo aos berros que esse governo não me representa. Resisto e existo todos os dias, na esperança de que todos os trabalhadores, domésticos ou não, possam planejar uma viagem a Disney, a Nova York ou a Paris, se assim quiserem.

Meu grande abraço a todas as trabalhadoras domésticas do Brasil.

A racialização do homem branco que se faz de régua e regra

A racialização do homem branco que se faz de régua e regra

Imagem: Reprodução / Ted.com

Aproveito que o hype está discutindo masculinidade e pensar umas coisas:

Quem definiu o que era raça?
Quem definiu o que era gênero?
Quem definiu as normativas e os normais?

A história do ocidente é marcada pela ação do homem branco em definir tudo a partir de si mesmo. Construindo definições sempre se colocando no centro como a expressão ideal de humanidade.

Nos estudos de masculinidades, por exemplo, veremos que as demais expressões de masculino, fora daquilo performado por brancos, como brancos, para brancos, foram chamadas de “masculinidade subalternas”. Geral sabe o que significa subalterna aqui e geral sabe quem está nesses grupos, ok?

Quais interesses em manter esses lugares?

Todo masculino não cis-hétero-branco está na subalternidade, sendo obrigado à “busca pela brancura”, como disse Fanon.

Ainda nesse debate, sempre que alguém me pede para definir masculinidades tóxicas, eu digo para substituir “tóxicas” por branca. Pois o conjunto de comportamentos e performances criadas nesse modelo são, em natureza, a expressão de uma cultura de domínio e imposições construídas por esses homens, para hierarquizar, subalternizar e exterminar outras vidas. Principalmente as negras.

Por que, sequer, pautamos homens brancos nas discussões de diversidade? Porque não se entendem parte do diverso.

Basta observar o resultado desse projeto de sociedade para entender que deu ruim, e que é insustentável. E por isso é urgente deslocar homens brancos de seus lugares, para debater o enfrentamento às violências raciais, de gênero e classe. É hora de racializá-los para que a sociedade entenda o que é ser um homem branco nesse contexto de opressões construídas na raça que a sociologia deles fundou.

É urgente que se descortinem tais verdades para promover uma série de movimentos e destituições de poderes e normatividades, que só se mantém à medida que destroem outras manifestações de ser.

Compreender como as dinâmicas raciais estão dadas é o primeiro passo da luta antirracista. Entender qual lugar se ocupa é o mínimo.

Homens brancos se alçaram à norma, à regra. Se fazem régua. Por isso não entendem quando questionados. Por isso acham um absurdo quando interrompidos, racializados e apontados. Por isso, pensam e agem como definidores de tudo, e da última palavra, sempre. É um projeto.

São dessas questões que precisamos tratar nos debates de masculinidades e não só se limitar em falar sobre quem chora ou prefere saia. Há de se falar sobre quem determina, e o que define…

Tudo precisa ser pensado e repensado.

Eu preferia não ter que escrever sobre essas coisas porque tenho outras prioridades, mas enquanto esses agentes não se deslocam e não se pensam, a gente tensiona.

As ricas também sofrem!

As ricas também sofrem!

Foto: Divulgação

As ricas também sofrem! Quando a gente fala de Patriarcado, Tradição, Família e Propriedade parece uma abstração e um clichê, mas aí você vê a mídia inteira replicar a frase: “Nunca teve nada com ela”, diz mãe de Gugu sobre relação do filho com Rose Miriam. E se pergunta: mas como a mãe de 3 filhos do cidadão “nunca teve nada com ele”. Além de confundir casamento com relação sexual regular, a família do apresentador desqualifica todos os direitos que uma mãe, pouco importa o tipo de relação que tinha, tem!

Trata-se mais uma vez de desqualificar o trabalho das mulheres que são um misto de empregadas sem salário e/ou relações públicas de casamentos para exposição midiática. Chocante o caso e como o “cidadão de bem” não hesita em condenar as mulheres e seus direitos e defender “a família”, a “tradição” e as propriedades! Defender o homem! Quanto tempo ainda vamos sustentar essas narrativas falidas? E ainda usam o afeto ou a falta dele para deixar de cumprir direitos. Espero que seja bem sucedida na ação judicial!

O “último desejo” do patriarca (que não inclui a mãe de seus filhos na herança a ser partilhada) pode muito bem ser desconsiderado em nome de algo muito mais importante: a luta por direitos das mulheres em todos os grupos sociais. As ricas também sofrem, poderia ser um título de novela mexicana, sofrem o machismo, sofrem com esse patriarcalismo defendido no Fantástico, no show da vida, entre lágrimas e por uma mãe que criou o filho para ocupar esse papel e esse lugar. E aqui não se trata de criticar os personagens em questão, mas simplesmente a função que cumprem em uma sociedade tão escancaradamente desigual em que as mulheres terão sim, cada vez mais, que “estragar” a foto de família.

Felizmente li esse texto da Rita Lisauska no Estadão confirmando a minha primeira impressão e incômodo com a forma de produção de consenso e discursos tão arcaicos:

“Muitos homens só conseguiram ascender na carreira porque havia uma mulher em casa lavando suas cuecas e cuidando das crianças, um trabalho invisível, pouco reconhecido e não remunerado. Se ela fazia sexo ou não com esse parceiro nunca esteve em discussão até este momento (e arrisco dizer que muitas, sobrecarregadas pela jornada, estavam cansadas demais para isso). Mas se a casa estava funcionando e o marido podia exibir esse êxito em público, ‘olha como sou bem-sucedido em todas as esferas da vida’, ninguém questionava a relação desse casal. Isso até novembro do ano passado.”

E o pessoal dos Direitos Humanos? 

E o pessoal dos Direitos Humanos? 

Foto: Caco Argemi

A defesa dos direitos humanos, em um momento de polarização política, transita entre indiferença e o ódio por parte da humanidade. Essa relação fica explícita quando, diante de barbáries, questiona-se: E o pessoal dos direitos humanos? Esses defensores de direitos humanos só defendem bandidos.

Em uma sociedade desigual como a nossa, o “bandido” é aquele que deve ser execrado, e levar até um tiro na “cabecinha” por não se ajustar às normas sociais. Em especial, aquele ser humano que não vende ou não tem quem compre a sua força de trabalho. Seu corpo é a sua moeda de troca. E sua existência é desumanizada.

Eis o nosso problema: uma racionalidade em curso, que generaliza a competição e naturaliza a desigualdade nos valores supremos de uma forma social, a própria expressão da barbárie. Diante disso, como tornar a promoção dos direitos humanos em um objetivo político concreto, quando a lógica do mercado abarca todos os âmbitos da existência? Qual o lugar do humano, numa sociedade onde tudo está passível de se transformar em mercadoria?

A sociedade neoliberal implica uma forma de subjetividade refratária à dignidade humana, e, por isso, extremamente perigosa. A adoção da competitividade como norma de vida solapa a fraternidade e a compaixão, universalizando a “guerra” como referencial. Mesmo porque a “guerra” torna-se um mercado promissor, é o lucro em detrimento da vida. A Necropolítica como essência, como um grande negócio.

A tarefa de construção de uma democracia substancial passa por repensar radicalmente a ideia-força da dignidade humana, incorporando a defesa e a promoção dos direitos humanos como fundamento da comunidade política. Isso passa, necessariamente, pelas políticas de gênero e de raça, que supere as desigualdades de classes. Precisamos de uma nova linguagem para falar de direitos humanos, e métodos menos arcaicos de praticar e exercer a nossa humanidade. Não há “dignidade do eu” desconsiderando o fato de que o eu é relação. ​É na igualdade inegociável que precisamos ancorar a ideia de dignidade humana, como expressão do ser e estar no mundo. A filosofia africana é sábia e aponta caminhos na encruzilhada: Ubuntu – eu sou porque nós somos.

Kobe Bryant, a construção de estereótipos e criação de um senso comum racista através da mídia

Kobe Bryant, a construção de estereótipos e criação de um senso comum racista através da mídia

Foto: reprodução Instagram Kobe Bryant

Um ídolo do basquete faleceu de modo trágico. Kobe Bryant morreu junto de sua filha, Gianna, e mais 7 pessoas em uma queda do helicóptero em que estavam. Diversas personalidades dos esportes, do cinema, da música e dos ativismos políticos e acadêmicos explicitaram tristeza e condolências à família do atleta. Pudera, Kobe Bryant foi um dos maiores atletas da história da NBA e, sem dúvida, um dos gigantes do time Los Angeles Lakers. Dos poucos recrutados pela NBA direto do ensino médio, Bryant é pentacampeão na NBA, participou 18 vezes do All Star Game, foi escolhido 15 vezes como membro da equipe ideal da liga de basquete, eleito, em 2008, o jogador mais valioso da NBA, e medalha de ouro nas Olimpíadas de Pequim. Mas seus feitos superaram o mundo dos esportes e, em 2018, Bryant ganhou um Oscar de “melhor curta-metragem de animação”, com o filme “Dear Basketball”. Em sua homenagem, os Lakers aposentaram os números 8 e 24 usados por ele. Bryant é o único atleta de seu time a receber tal honraria na história. Um dos assuntos mais comentados nas redes sociais, tornando-se uma hashtag-movement, foi do orgulho que o jogador demonstrava sobre ser pai de meninas. Bryant é pai de 4 meninas e falava sobre isso sempre que havia oportunidade, inclusive explicitando como uma de suas filhas, Gianna, que também estava no acidente e faleceu, era melhor do que ele no esporte.

Diante da comoção, uma importante polêmica emergiu da biografia do atleta. Em julho de 2003, Kobe Bryant foi acusado por violência sexual a partir da denúncia de jovem mulher de 19 anos, que trabalhava em um hotel em que o astro havia se hospedado. Bryant negou o estupro, mas admitiu, posteriormente, que pode não ter pedido explicitamente por consentimento. A denunciante se recusou a testemunhar e condicionou a retirada das acusações a um pedido de desculpas formais de Kobe à corte. O advogado do atleta o representou e leu a declaração de desculpas do astro em que o mesmo explicitava que não havia realizado qualquer pagamento à jovem e que, após todo o período, compreendia os sentimentos da mesma. Bryant manteve, em sua declaração, que tinha um entendimento diferente dos fatos, mas que se desculpava. O processo foi para a esfera civil e resolvido entre as partes diretamente, sendo encerrado em 2005 sob sigilo.

Diversos jornais estamparam manchetes que, ao falar da morte do atleta, davam ênfase à denúncia de violência. E isso tudo causou um grande debate nas redes sociais. De um lado, até que ponto personalidades são alçadas ao status de heróis e deuses após seu falecimento, apagando pontos, no mínimo, problemáticos de suas trajetórias. E, de outro, a denúncia de como, em um momento de morte e luto, jornais podem ser irresponsáveis e reafirmar imagens de controle sobre homens negros em busca de cliques e vendas pela polêmica. Havia, ainda, mais outro lado, que era o de impulsionar as vozes silenciadas de vítimas de violência sexual.

Eu não gostaria de responder a isto tudo apenas com “é uma questão complexa” pelo simplismo da resposta. Mas não posso fugir de dizer que, realmente, é complexo e, ainda, contraditório. Mas, geralmente, não gosto de pessoalizar discussões. Não acho que se trata de refletirmos apenas sobre o caso de Kobe Bryant. Ao focar nele, seria importante ressaltar que a morte de Kobe Bryant não significa apenas a morte de Kobe Bryant, assim como a morte de toda pessoa não representa um processo de morte de si mesma apenas. A morte envolve toda uma rede que, no caso de Bryant, envolve a morte e memória de sua filha Gianna, o luto de sua esposa e de suas outras filhas, de seus pais e demais familiares e amigos. Do ponto de vista mais amplo, a morte e comoção, principalmente entre a comunidade negra estadunidense, se estende às várias famílias negras que o viam como modelo de superação, responsabilidade, profissionalismo e exercício de paternidade. Os três últimos, inclusive, bem caros às discussões que se realizam sobre masculinidades negras e as imagens de controle sobre homens negros.

Então, como realizar esta discussão garantindo as contradições e complexidades, estabelecendo diálogos abertos e sinceros? Como discutirmos a difícil necessidade de construções de heróis e o quão isso pode ser nocivo à sociedade?

Essa discussão me lembrou de questões levantadas de modo veemente pela intelectual Michelle Alexander. A advogada provoca os ativismos negros e de Direitos Humanos a irem além da confortável posição de defesa de pessoas que estão convencidas de que são inocentes. Veja, eu não estou aqui dizendo que minha contribuição ao debate se tratará de uma defesa, mas de que levantemos algumas discussões se vislumbramos um outro tipo de sociedade. O que quero chamar atenção é para a formulação da intelectual que questiona o que ela chama de “política da respeitabilidade”. Ou seja, um ardil em que muitos de nós caímos muitas vezes ao focarmos em alguns tipos de pessoas negras, que serão compreendidas e aceitas como “boas e respeitáveis”, ocasionando uma outra imposição de parâmetros de hiper positivação na tentativa de confrontar as imagens de controle e estereótipos negativos, estabelecendo um código de conduta rígido, “acima de qualquer reprovação e livre de qualquer traço negativo que pudesse ser usado como justificativa”. A questão colocada pela intelectual é a de que enquanto fizermos isto, não estaremos de fato combatendo um sistema de desigualdades baseadas em hierarquias raciais, se não, apenas reforçando uma narrativa agradável aos ouvidos brancos.

O que quero dizer aqui é que não devemos, e não podemos, ser reticentes em apresentar as complexidades quando estamos tratando de pessoas.

E este é outro ponto em que quero tratar.

Ao criamos estes padrões de respeitabilidade, estabelecemos uma dinâmica perigosa entre nós de cultuarmos uma “excepcionalidade negra”. Esta é uma questão também discutida por Michelle Alexander. Primeiro, porque, como a própria aponta, estes “exemplos altamente visíveis de sucesso negro são essenciais para a manutenção de um sistema de castas raciais”. Obviamente, a intelectual está focada na discussão sobre encarceramento. Mas eu a estendo para o debate sobre como pode ser pernicioso para nós quando potencializamos determinadas figuras como exemplos inalcançáveis, como se fosse possível atingirmos um padrão de perfeição humana.

Se estamos falando de humanidade, a perfeição é nada mais do que um sonho. Uma das características de um sistema de dominação, principalmente na colonialidade, é a desumanização. Esse processo, negativado, tem como consequência a inanimação e objetificação de pessoas. Mas, ao ser hiper positivado, esse processo se finaliza em atribuições de dotes divinos de pessoas. Ou seja, ambos os processos impossibilitam a humanização de indivíduos. A desumanização planifica, esvazia indivíduos e suas dignidades, suas contradições, seus desvios. O humano é contraditório, imerso em características diversas. Então, como esperarmos uma trajetória que não reflita o que de mais profundo e estrutural existe na sociedade? Como responder aos anseios de amplificar vozes de vítimas elevando um padrão irreal de perfeição? E, ao mesmo tempo, como não desrespeitar uma rede ampla que vivencia o luto?

Por fim, mas não menos importante: como podemos estabelecer processos de responsabilização e de restauração em conflitos em nossas sociedades? Como podemos garantir que as partes lesadas e silenciadas tenham voz e também seja possível que vozes em demasia exerçam escuta e que desse processo tenhamos como produto soluções não punitivas, mas que respeitem vítimas e possibilitem que elas se reposicionem como re-existentes? Voltando ao caso de Kobe Bryant, é evidente que o mesmo, por ser um homem, famoso e rico, se beneficiou de um sistema de justiça criminal estruturado pelo sexismo. Ao mesmo tempo, é inegável as mãos mais pesadas pela criminalização de homens negros, atendendo a estereótipos de agressividade mas, o mais grave para mim, como se fossem características incorrigíveis e inatas, reverberando teorias eugenistas e deterministas. Se, por um lado, essa criminalização não recaiu sobre Bryant pelo sistema de justiça criminal, fica evidente que ela foi reverberada por uma face importante, como alerta Angela Davis, na construção de estereótipos, da criação de um senso comum racista através da mídia.

A meu ver, não se trata de absolver ou criminalizar Kobe Bryant. Mas de questionarmos um padrão de mitificação que criamos, presos a necessidade que ainda temos da representatividade e de narrativas excepcionais de sucesso – e que são lançadas à máxima potência, principalmente em casos nos quais as figuras de representatividade morrem. Nosso desafio, talvez, estaria em conseguirmos equilibrar legados em todo o seu possível em símbolo e desvios, sem apagamentos e sem exaltações. Ainda em acordo com Michelle Alexander, creio ser importante que repactuemos humanidades, inclusive para que reivindiquemos, com qualidade, responsabilizações que não aprofundem punitivismos, mas que construam saídas a partir de dinâmicas do fazer escutar, do reconstruir o falar e do restaurar o existir.