Foto: Beto Barata/PR

Joseph Robinette Biden Jr. provavelmente será eleito o 46º presidente dos Estados Unidos. O que isso significa para o Brasil e para a América Latina?

Para mim, existem diferenças reais entre Trump e Biden. Minha vida mudaria. A história da minha família é uma história de imigração. A política da fronteira teve um impacto profundo em mim quando era adolescente e agora como adulto. Conheço intimamente o árduo processo de naturalização. Devido às recentes mudanças feitas na política de imigração pelo poder executivo, pessoas muito próximas a mim não podem solicitar a cidadania. Um retorno à política de imigração da época de Obama seria uma mudança. Entretanto, estamos falando de algo velho e datado que colaborou para o mundo que temos hoje. Não podemos nos esquecer que na era Obama cerca de 3 milhões de pessoas foram deportadas, mais do que qualquer outro presidente na história dos EUA.

Trump e Biden não são a mesma pessoa, mas, isso não quer dizer que também sejam pólos opostos, principalmente, no que diz respeito à política externa e à América Latina. Enquanto os políticos de direita continuam ganhando destaque, nós da esquerda deveríamos fazer tudo que está ao nosso alcance para impedir a disseminação do hiper-nacionalismo que em lugares como os Estados Unidos e o Brasil costuma se manifestar por meio da xenofobia, discriminação e exclusão. Tratando-se de Trump e Bolsonaro, a resposta é clara, ambos precisam ser retirados o mais rápido possível do poder. Temos uma boa ideia de como serão mais quatro anos de Donald Trump: péssimos! Então, o que proponho é tentar entender melhor o que podemos esperar da presidência de Biden.

Antes de explorar os cenários de uma possível presidência do ex-senador e como repercutirá no Brasil, acho importante afirmar que, neste momento, não há dúvidas de que entre Biden e Trump, o democrata é a melhor opção para o Brasil. Em nenhum momento da história mundial o governo brasileiro esteve tão próximo e subserviente aos Estados Unidos como agora e isso é um problema real. A relação entre Trump e Bolsonaro não é equilibrada. Trump não está tão investido em Bolsonaro quanto o inverso e isso só perpetua o poder dos EUA na região e ao redor do mundo. Se a relação entre os países mudar sob a presidência de Biden, isso prejudicará o apoio já limitado que Bolsonaro tem no exterior.

Eu concordo com o argumento que está circulando na esquerda e em grupos progressistas brasileiros de que a não reeleição de Trump ocasionaria uma queda na popularidade do Bolsonaro dentro do seu próprio país. Entretanto, não acho que a eleição de Biden seja uma solução para a estrutura criada dentro do bolsonarismo que adentrou o governo, principalmente no que tange às milícias. Para encontrarmos pistas de como a presidência de Biden vai afetar o Brasil, vamos começar pela relação do ex-vice presidente com a América Latina.

Biden e América Latina

Para entender a política externa estadunidenses em relação aos países da América Latina há um ponto fundamental a ser observado, as milícias. O termo milícia no Brasil é comumente associado a atuação informal da polícia, se valendo do poder revestido pelo Estado para garantir lucros individuais. Entretanto esse conceito deveria ser visto de forma mais ampla. Em vários momentos da história da América Latina  grupos milicianos atuam como forças paramilitares junto ao Estado, como no caso da Colômbia hoje em dia, ou contra, como foi o caso dos Contras na Nicarágua. Por mais de 100 anos, organizações paramilitares  foram e são essenciais para o imperialismo estadunidense que, em muitos casos, desestabilizou governos e aumentou a violência. Para especular o que podemos esperar da política externa de Joe Biden em relação ao Brasil é preciso entender como o democrata, ao longo dos seus 47 anos de vida política, se posicionou em relação a poderes paramilitares dos países. Vamos destacar alguns momentos. 

A Doutrina Reagan intensificou o papel das organizações paramilitares e milícias da América Latina, tendo-as como um dos alicerces centrais da política externa dos EUA, sob o pretexto de combater o comunismo. A mancha da presidência de Ronald Reagan (1981-1989) em relação à América Latina está presente até hoje. Durante a década de 80, o governo dos Estados Unidos pagou o treinamento de milícias em quase toda a América Central, o que por sua vez iniciou um ciclo de violência contra as populações de El Salvador, Nicarágua, Honduras e Guatemala. Centenas de milhares de pessoas foram mortas e como resultado, na década seguinte, houve uma onda de imigração para os EUA e México. Como senador nos anos 80, Biden se posicionou publicamente contra o governo de Reagan e o financiamento dos Contras, uma organização paramilitar financiada e treinada pelas forças armadas estadunidense na Nicarágua com o objetivo de derrubar o governo sandinista.

Em 1990, para administrar essa onda de imigração, o congresso dos Estados Unidos autorizou um novo status para pessoas oriundas de El Salvador, Haiti, Honduras e Nicarágua denominado Temporary Protected Status (Status de Proteção Temporário). Foi basicamente um recurso para que estas pessoas pudessem viver um período nos EUA, renovando o visto todos os anos, e depois retornarem aos seus países de origem. A lei não permite que elas se tornem cidadãs. Hoje, quase 20% do PIB de El Salvador vem da comunidade de el salvadorenhos que moram aqui. Recentemente, Trump cancelou o programa, o que prejudica os imigrantes da América Central e do Caribe tornando-os o que chamamos de undocumented (sem documentos), não podendo trabalhar de forma regular e legal. Biden e os democratas permaneceram calados sobre o assunto. O silêncio neste momento é escolher um lado. 

As políticas de Joe Biden em relação à América Latina não é preto no branco, especialmente em relação às milícias.

No final do segundo mandato de Bill Clinton, em 1999 e 2000, foi lançado o Plano Colômbia, com o objetivo de combater o crescente comércio de cocaína. Washington financiou militares e paramilitares da Colômbia  para acabar com o cultivo, produção e tráfico de cocaína. Uma das consequências foi a esterilização de uma enorme quantidade de terras agrícolas. Hoje, os efeitos trágicos do Plano Colômbia são evidentes no país. Ao militarizar o setor do estado responsável pelo narcotráfico, grupos milicianos se legitimaram, a violência aumentou, milhares de camponeses perderam emprego e o narcotráfico vai de vento em popa.

Atualmente, em sua campanha presidencial, para conseguir o voto dos latinos, Biden não se preocupa em propor algo que dialogue com as necessidades reais da população latina como reforma de leis imigratórias ou acesso a saúde e educação universal. Ao contrário, está sinalizando que em nome de uma conciliação nacional, ficará mais próximo dos republicanos do que da ala da esquerda que há no partido democrata.  

Isso é notável ao escolher Ana Navarro como uma das lideranças dentro do Latino Outreach na Flórida, o time responsável pela campanha de Biden dentro da comunidade latina. Navarro é republicana, comentarista da CNN e publicamente vocalizou em várias ocasiões apoio e simpatia às políticas de Ronald Reagan na América Central. Bom, o apoio dela não é surpreendente porque ela é filha de um miliciano que lutou junto com os Contras.

Navarro faz parte de um grupo muito pequeno e muito elitista de membros da grande mídia ou ex-operativos republicanos que que se identificam como Never Trumpers – numa tradução livre seria “Os Nunca Trumpistas”. São tipicamente republicanos associados com a época de George W. Bush, o mesmo presidente que é responsável pelo estabelecimento de uma rede global de tortura envolvendo centenas de países. Além disso, eles acham que Trump está desrespeitando a instituição da presidência e não seguindo as regras não escritas de decoro. Os Never Trumpers não refletem nenhuma população mais ampla do que este pequeno grupo de elites, mas suas ideias tem muita visibilidade por causa da mídia. 

Biden é esse sujeito que vai de acordo com o vento e na relação com o Brasil, não é tão diferente.

Biden e Brasil

Em 2013, veio à tona um esquema de espionagem feito pelos EUA na presidenta Dilma Rousseff na época de Obama. Dois anos depois, Wikileaks publicou documentos da Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA) que confirmaram que Washington estava ouvindo as chamadas de Dilma e vigiando centenas de milhões de brasileiros. 

Em 2014, Biden viajou ao Brasil como vice-presidente para participar de eventos relacionados à Copa do Mundo. Trouxe consigo um HD externo com cópias de documentos sigilosos detalhando censura e tortura durante a Ditadura Militar que foi apoiada pelos EUA. Os documentos poderiam ter sido enviados pela internet ou entregues pela embaixada. Porém, o gesto público pretendia melhorar o relacionamento entre os países – que na época estava abalado muito mais por causa da espionagem do que pela Ditadura Militar. É uma vergonha ter demorado tanto para os EUA liberarem esses documentos, que tenham sido usados de forma oportunista e que nós não saibamos quantos mais há.

Em 2016, Temer e Biden se encontraram em Washington D.C. O democrata fez uma declaração oficial parabenizando Temer, que na época estava ocupando o cargo de presidente, pelo seu compromisso em manter o Brasil na liderança regional durante o período de mudança política no país – também conhecido como golpe.  O encontro de Biden com Michel Temer é talvez a melhor síntese do que podemos esperar das políticas externas do democrata em relação ao Brasil. A partir disso podemos pensar num cenário de como a presidência de Biden irá se relacionar com a estrutura miliciana que adentrou no Estado brasileiro. Lembrando que, o enfraquecimento e a queda da popularidade de Bolsonaro, não é o bastante para que bolsonarismo caia. 

Biden, como o Temer, vai conforme o vento. Aliás, como o MDB com todas as suas complexidades e contradições… Por exemplo: Eduardo Cunha, Katia Abreu, Rodrigo Maia, Marta Suplicy e Roberto Requião.

O que a gente precisa é criar o vento e ditar a direção.

Nós estamos num momento histórico em que isso está acontecendo. A vitória esmagadora de Luiz Arce, do partido Movimiento al Socialismo (MAS) é o sinal de que apesar da capacidade de interferência e das táticas imperialistas dos Estados Unidos, o poder popular é possível e, através da luta popular, tem chance de vencer. O quadro de candidatos da eleição da Bolívia é um bom retrato do cenário político das Américas. Dos três candidatos principais, Luis Fernando Camacho de Santa Cruz, liderança no golpe contra Evo Morales, é um milionário, miliciano, fascista que se inspira no bolsonarismo, perdeu. Carlos Mesa, o ex-presidente pode ser compreendido dentro da linha de Joe Biden, neoliberal, também perdeu. Por fim, com mais da metade dos votos, Luis Arce que mostra não só para a Bolívia, mas para todo o planeta, que outro mundo é possível, venceu. 

Caso Biden seja eleito, a presidência dele deve ser vista muito mais como um começo do que como uma vitória. Sem Trump a gente tem mais tempo pra se organizar, o que é essencial. 

Para saber mais sobre as eleições, história e política dos EUA e das Américas siga o podcast Camarda Gringo do selo NINJACast e o canal homônimo no Youtube.

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