Estamos testemunhando, pela primeira vez na história da humanidade, uma corrida espacial privada entre bilionários, que são: Richard Branson, Jeff Bezos e Elon Musk. Nesta disputa, de quem vai ser o embaixador da nova era espacial, talvez quem melhor expresse os valores deste lamentável espetáculo é Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo que recentemente realizou uma viagem ao espaço com um foguete criado pela sua própria companhia, Blue Origin. 

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A curta viagem de 11 minutos de Bezos, acompanhado de mais 3 pessoas, é uma prévia do que podemos esperar do capitalismo dos anos que virão, à medida que os super-ricos continuarão a gastar milhões, senão bilhões de dólares em sua vaidade. 

Primeiro vamos entender qual é o plano de Bezos para o espaço. A primeira fase é uma agência espacial para os ricos em que por 300 mil dólares pode se fazer uma viagem de menos 15 minutos para o espaço. Mas, esse luxo dos ricos é por uma boa causa, segundo próprio Bezos, porque na segunda fase, o plano é para preservar o planeta e construir o futuro das novas gerações. O bilionário pretende criar estradas para o espaço, iniciando as bases para que em décadas toda a indústria pesada e poluente seja transferida para o espaço.

Tão altruísta, nem parece um vampirão do capitalismo que suga a vida dos seres humanos e da natureza…

Bom, essa ideia é a típica coisa de um capitalista – ou em termos mais atuais, eco-capitalistas. O sistema que vivemos não está funcionando, o custo da produção industrial é destruir o planeta, nós estamos chegando num limite. Aí o que o capitalista faz? Repensar o sistema? Propor uma nova forma de trabalho? Rever se aquele produto é necessário ou quais são os problemas estruturais? Como repensar a indústria? Nenhuma das opções. 

Capitalista que é capitalista, pensa: Expansão! Vamos para outro lugar! Aí, saí do local, vai para o regional, nacional,  global e agora espacial. Expande o que está errado para outros lugares, em vez de fazer diferente com outra ética.

Outro ponto revelador da viagem espacial de Bezos, são os 3 passageiros que o acompanharam – o que a escolha deles pode nos dizer sobre a direção que o capitalismo está tomando no século 21?

Como um bom capitalista, Bezos vendeu um dos três assentos do foguete on-line para quem deu o maior lance. Inicialmente, uma pessoa venceu a licitação para embarcar no foguete New Shepard pagando 28 milhões de dólares, mas essa pessoa muito rica teve um conflito de horários e abriu mão de seu assento. Então, o pai de Oliver Daemen (o tripulante  de 18 anos) que tinha feito o segundo lance mais alto, tornou-se o vencedor. Não tenho nada de ruim a dizer sobre a pessoa Daemen, eu não o conheço, ele é jovem… E até membros da super-elite podem mudar, é raro, mas possível. Dito isso, ele não vive na mesma realidade material que a grande maioria de nós. Daemen é provavelmente o melhor representante do futuro imediato do turismo espacial, filho da classe dominante financeira global. Um símbolo de como a geração de seus pais vê a salvação de sua prole, um futuro baseado em um ethos de exclusividade e uma política de diferença.

A segunda pessoa que Bezos escolheu para acompanhá-lo foi Wally Funk, uma piloto de 82 anos. Funk não pagou para se juntar ao homem mais rico do mundo em seu projeto de vaidade. Ela foi selecionada pelo que simboliza, por sua identidade, como uma mulher que era piloto e queria muito ir para o espaço como astronauta da NASA na década de 1960, em seus 20 anos. Infelizmente, apesar de passar por um exame físico rigoroso, Funk não foi selecionada para participar, pelo fato de ser mulher. Ao longo de sua carreira, ela se candidatou à NASA em 4 ocasiões diferentes, e em cada uma foi rejeitada.

Acho legal que ela tenha tido a chance de realizar um sonho de algo que ela se dedicou e estava preparada, mas isso não pode ser visto como uma redenção, reparação de injustiça ou uma tentativa de correção ou retratação histórica. A verdade é que é muito mais um novo capítulo do estado que o capitalismo está e um sinal para onde está indo: além do nosso planeta, no espaço para poucos.

A escolha de Funk por Bezos foi muito consciente, ele quer que o mundo todo veja que o capital privado é capaz de corrigir os erros da corrida espacial feita pelo Estado. Além disso, é um exemplo perfeito do liberalismo do século XXI, um meio de enviar uma mensagem ao mundo de que o príncipe no cavalo branco está aqui para consertar os erros, de que o capitalismo interplanetário será progressista, que abrirá mão dos lucros a curto prazo para projetar seu próprio “esclarecimento” com a esperança de que o produto resultante possa ser vendido não apenas ao capitalista, mas ao filantropo. 

No final das contas, é tão patriarcal! Ele reproduz o príncipe que chega com o cavalo branco, só que com um novo instrumento branco gigante galopando pelo espaço. E não vamos nos esquecer, no século 21 é bom para os negócios parecer woke, progressista. Funk, ela não pagou, e isso foi um investimento de Bezos pois faz com que o produto fique mais atrativo para investidores.

Finalmente, o último tripulante é um anônimo de meia-idade, mas é ridiculamente previsível e muito zoado também. Antes de dizer quem é, vou dar uma dica: o mundo em que vivemos é realmente absurdo e, apesar do domínio do capitalismo, ainda estamos lidando com uma série de lógicas pré-capitalistas, neste caso, talvez uma das lógicas mais antigas e consistentes da humanidade, a do nepotismo. E aí já consegue adivinhar quem é? O terceiro tripulante é Mark Bezos, o irmão mais novo de Jeff. Como Wally Funk, ele também conseguiu uma viagem gratuita para o espaço, mas tendo uma vida medíocre. 

O irmão do homem mais rico do mundo trabalha meio expediente como bombeiro e é co-fundador de uma corporação especializada em compras de propriedade – um típico emprego de um irmão de bilionário. Os três passageiros que Bezos escolheu para acompanhá-lo representam três elementos: lucro e exclusividade, identitarismo liberal e nepotismo antiquado que, muito provavelmente, podem moldar o capitalismo nos próximos anos e não apenas na Terra, ao que parece.  

Os planos de Bezos, principalmente a parte ambiental, é sobre um futuro que só ricos, no melhor dos casos, podem sonhar – porque com o aquecimento global, não sei se vai ter gente aqui para se ter um futuro. Um dos pontos mais importantes, é que Bezos está recriando o imaginário com uma ideia mirabolante e 100% baseada no abuso e injustiça com várias formas de vida – afinal, para ele conseguir todo o dinheiro para fazer isso, teve que construir um império de exploração, a Amazon.

E a partir desse imaginário ele está propondo uma relação com o governo dos EUA que é muito perigosa. Recentemente, o governo decidiu oferecer um contrato de exclusividade a uma das empresas privadas para financiar viagens à lua, novamente. No final de abril, Elon Musk venceu a licitação e ganhou um contrato de exclusividade de 2.9 bilhões de dólares. Bezos, muito rápido, veio a público contestar o contrato de Musk e pressionar o governo a suspendê-lo. Só que pouco tempo atrás, Bezo lançou uma carta aberta ao governo, propondo uma troca – daria 2 bilhões de dólares em trabalho para o governo para ter um contrato como o do Elon Musk e em contrapartida ganharia influência na direção da NASA, nos planos para o espaço, principalmente, no retorno do homem à lua e o que será feito, construído  no espaço. 

Se o governo aceitar, vai casar Amazon e NASA, o setor privado e o Estado, de um jeito que nunca foi visto – isso é realmente perigoso. Mas, importante lembrar que o futuro não está escrito e nós na Terra temos muito mais poder do que imaginamos. Assim que Bezos retornou da viagem espacial, uma das primeiras coisas que ele falou foi uma agradecimento aos trabalhadores e clientes da Amazon porque foram eles quem pagaram a viagem. 

Essa fala tem tantos erros e é tão hipócrita. Porém, ela me lembra algo que me traz esperança e mostra a potência da classe trabalhadora. 

Recentemente, houve uma grande campanha no sudeste dos EUA, em que um dos depósitos da Amazon no Alabama quase foi sindicalizado – só que não conseguiu por causa de táticas opressoras, em vários casos ilegais, feitas pela própria empresa. Embora, infelizmente, não tenham conseguido, uma conversa sobre sindicalização foi iniciada. O que aconteceu lá é só o início, eventualmente as lutas vão voltar e não num futuro longe, de décadas, mas muito em breve haverá um, dois,  três, muitos depósitos da empresa em que os trabalhadores serão sindicalizados. Mesmo que os EUA não sejam o protagonista, pode acontecer em outros países, afinal, para a Amazon a única fronteira é o poder popular – tanto na empresa como no espaço. 

Bilionários não deveriam existir.

Para saber mais sobre o futuro do capitalismo que Bezos anseia construir, recomendo o vídeo Espaço e Futuro para Poucos no youtube. 

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