O mês da visibilidade trans e travesti é um marco importante na luta para que possamos existir sem violência, discriminação, e a correção ininterrupta daquilo que a cisgeneridade constituiu como fora da normalidade. E se existe alguma dúvida de que a luta ainda é mais que necessária basta pensarmos sobre o fato da transexualidade há pouco mais de dois anos atrás ser considerada um transtorno mental para a Organização Mundial da Saúde. Não é mais um transtorno mental, mas passou a ser considerada uma “incongruência de gênero”. Entendo a necessidade de ter um CID já que estamos falando, para quem assim decide, de uso de hormônios sintéticos e cirurgias, mas jura que incongruência é a palavra certa para classificar a transexualidade? Incongruente vem do latim congruere e significa concordar, corresponder a. Já dá pra sacar o problema, né? A gente segue não correspondendo a algo estabelecido e é justamente o estabelecido que precisa de mudanças, de novas perspectivas daquilo que o tempo histórico da humanidade tem exigido. A gente sabe que gênero e a compreensão de genitália são construções da cultura e, portanto, são mutáveis. Isso significa o apagamento da cisgeneridade? Obviamente não, significa somente que precisamos rever o predomínio de uma cisgeneridade que violenta toda e qualquer identidade que não corresponde a ela, percebe?

Violência fez parte da minha infância e a verdade é que faria parte de qualquer jeito, não tem a ver com a tutoria de familiares nem nada, tem a ver com status quo produzido para nos corrigir custe o que custar. Falar sobre violências e seus ressignificados é minha forma de militar fora do espectro somente da dor.

Imagem: arquivo pessoal

Na primeira foto eu tinha 15 anos. Implorei para minha mãe me deixar cortar aquele cabelo que me incomodava tanto e depois de muita insistência ela topou. Me impôs, no entanto, uma condição: eu escovaria o cabelo e faria fotos 3X4 de cabelo solto, porque era desejo dela ter registros meus de cabelo solto com o rosto da princesa que ela enxergava. Aos 15 é também quando a mãe e muitas meninas idealizam a festa de debutantes, o rostinho da filha feliz com seu par perfeito na sua festa perfeita.

A memória do trauma ainda viva não me deixa esquecer que antes de entrar na cabine pra fazer a foto, chorei copiosamente. Meu rostinho na foto é choro engolido. Não era e nem nunca seria eu, meu coração estilhaçado lamentava só de imaginar a foto pronta. Por mais que nos anos 2000 eu não compreendesse exatamente o que aquilo significava, de alguma forma mística e orgânica, eu sabia que era só́ o desejo da minha mãe de me transformar numa princesa. Mal sabia ela que eu enfrentaria a cabine e a foto pronta porque aquela seria a última vez que minha consciência e meu corpo se sujeitariam a sensação humilhante de não pertencimento. Fui Bianca durante mais uma década, mas quem decidiu sobre as roupas, o cabelo e quem amar, foi eu, a lésbica feminista que me tornaria aos 18 e que construiu uma base inabalável, tamanha as dores e a certeza que tanta dor não era e nunca seria justa. Nem se eu decidisse seguir como Bianca e lésbica, nem se eu decidisse ser qualquer outra pessoa. Minha irmã dia desses me lembrou que eu tinha um diário secreto e assinava como Bruno. Foi gostoso lembrar das fantasias infantis do pequeno Bruno – deixo aqui a curiosidade porque escolhi ser Bernardo e não Bruno para um outro texto.

A foto 3×4 me perseguiu um tempão na minha carteira de trabalho, o trauma me perseguirá sempre, a diferença agora é que eu tenho consciência do significado dele e a quem ele serve e não me permito mais sofrer com ele. Quando pude mudar meus documentos no cartório, aliás conquista do movimento trans, fiz questão de escolher vermelho pra foto da carteira de trabalho do Bernardo: representa dor, mas também minha capacidade de reivindicar minha existência dessa forma vermelha pulsante que move tudo, dentro e fora de mim. Matéria-prima essa, de força e fé, que foi essa mesma mãe que ensinou, que por sua vez, aprendeu com minha avó. Foram e sempre serão mulheres cis fortes, com suas incoerências todas e com a cultura cisheteronormativa que as constituiu, que constituem a todes nós! Tenho mais que certeza de que os mesmos erros do passado da Bianca não seriam cometidos hoje, porque todo mundo aprendeu um pouco sobre a não cisheteronormatividade lá em casa, ao ponto da transexualidade para minha sobrinha ser mesmo só uma questão de atualização de dados. De tia Bia, passei a chamar tio Be e vida que segue! Simples assim. Nada de confusão, nada de perguntas constrangedoras, só um respeito e amor profundo pela tia que agora seria do tio.

É muito comum que desde cedo arrumem muitos namorados para nós, como se a felicidade de todas as meninas dependesse de meninos. Dai começa a guerra misógina pelo falo de ouro. “Se porte assim, se vista assim, seja assim” Quanto mais você cresce, mais você ouve de todas as pessoas – próximas ou não – que se você continuar a não corresponder a uma “menina de verdade” você não vai conhecer seu namorado, e verdade seja dita, a sensação que eu tinha é que não namorar um menino era sinônimo de não conhecer o amor. Curioso, né? O mundo me disse muitas e muitas vezes que eu não arrumaria namorado, que eu não conheceria o amor. Hoje, além de me considerar, modéstia à parte, o namorado de ouro, também aprendo muito sobre o amor. O próprio e o que dedico de muitas formas as outras pessoas.

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