A maneira como a reabertura das escolas ocorreu nesta semana no estado de São Paulo diz muito sobre por que e quem tem interesse neste retorno. Na capital, apenas uma de 4 mil escolas municipais definiu, por decisão da comunidade escolar, voltar às atividades. Cem das 1.086 escolas estaduais na cidade expressaram a mesma intenção. Uma pesquisa realizada na região leste de São Paulo aponta que 80% das famílias não pretendem enviar seus filhos. Se é tão expressiva a resistência da comunidade escolar à reabertura, por que razão retornar? João Dória, Bruno Covas e todo o empresariado paulista sabem que, sem escolas funcionando, a roda da economia que beneficia os mais ricos e poderosos seguirá rodando mais devagar.

Justamente pelo fato de o ambiente escolar ser condição-chave para manter os níveis da produção de riqueza, os governos omitem as possíveis consequências desse retorno, que já foram extensamente sentidas onde esta experiência já aconteceu. Na França, por exemplo, onde as escolas públicas reabriram agora, depois das férias de setembro, o governo foi forçado a fechá-las novamente: cerca de 1.200 novos casos de Covid-19 apenas em espaços escolares foram registrados no intervalo de uma semana.

Em São Paulo, a realidade contrasta com o pseudo-otimismo do governo. Cerca de 20% dos idosos na cidade moram com crianças, ou seja, são aproximadamente 340 mil pessoas que sofrerão os riscos de contágio pelos mais jovens, mais frequentemente assintomáticos e, por isso, mais propensos a transmitir a doença a quem mais sofre perigo de morte. A ampla maioria dos casos em que várias gerações da família mora no mesmo imóvel está nos bairros periféricos, que já são os mais afetados pelas mortes em função do vírus.

A grande imprensa e os discursos oficiais dos governos saúdam os profissionais da saúde como “heróis e heroínas” da pandemia. Celebram o “ato de amor” dos trabalhadores e trabalhadoras da linha de frente dos serviços essenciais em defesa da vida da população. Ao mesmo tempo, querem emplacar, custe o que custar, uma reforma administrativa que vai deteriorar drasticamente a vida desses profissionais e tantas outras categorias dos serviços públicos.

No caso da educação, outro serviço essencial, eles nem disfarçam qualquer “admiração”. Competem para ver quem mais ataca e humilha as educadoras e educadores, chamando-os de vagabundos, de gente que deu errado na vida. Sabem que a luta das e dos professores e estudantes no Brasil é uma perigosa inimiga do seu projeto. Agora, querem que os profissionais da educação se responsabilizem juridicamente pelos riscos à sua própria vida e a de suas famílias ao serem obrigados a voltar, e autorizam, bondosamente, que haja cerimônias de luto nas escolas, na certeza sádica de que haverá vidas perdidas para sempre nesse retorno geral.

Por isso, reafirmamos nossa posição: volta às aulas presenciais somente depois da vacina e do controle da epidemia. As escolas públicas do estado e da cidade de São Paulo não têm a estrutura necessária para garantir condições sanitárias mínimas para o retorno pleno das atividades. As aprendizagens e o ano letivo podem ser recuperadas, as vidas não. As autoridades precisam recuar e suspender o retorno das aulas, antes que seja tarde e a roleta da morte comece a girar.

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