Cena 1: um saco de 5kg de arroz custa 40 reais nas prateleiras de um supermercado em São Paulo. Cena 2: Uma onça pintada olha para o nada. Suas patas estão em carne viva. Cena 3: Bolsonaro diz, na abertura da assembleia geral da ONU, que a culpa pelos incêndios em biomas brasileiros é dos indígenas.

As imagens nas últimas semanas da destruição de cerca de um milhão de hectares no Pantanal certamente chocaram todas as pessoas dotadas de alguma humanidade. Não é para menos: segundo especialistas, as áreas destruídas demoram aproximadamente 50 anos para se regenerarem. De acordo com o Instituto Centro de Vida (ICV), o Pantanal já perdeu 19% de sua área para as queimadas e há um risco preocupante de muitas espécies entrarem em extinção. Cerca de metade das terras indígenas na região foram atingidas.

Apesar de aparentemente diferentes, as três cenas se entrelaçam num projeto único, que, por um lado, é tão velho quanto as injustiças do Brasil, e, por outro, ganhou muito mais força e poder com a ascensão de Jair Bolsonaro: estamos falando do agronegócio.

Segundo a ONG Repórter Brasil, há fortes indícios de que o fogo no Pantanal tenha começado criminosamente em propriedades de pecuaristas que vendem sua produção à empresa da família Maggi, fornecedora de gigantes como JBS, Marfrig e Minerva.

Desde o início do governo Bolsonaro, foi registrado um aumento recorde em focos de incêndio e desmatamento em biomas brasileiros, segundo dados do INPE – instituto que, junto com a Funai, ICMBio, Incra e Conab, também foi alvo dos desmontes do governo. A famosa boiada de Ricardo Salles e o compromisso de classe de Tereza Cristina simbolizam a política de anistia escandalosa, criminosa e irrestrita aos desmatadores ligados ao agronegócio.

O modo de produção do agronegócio, além de ser destrutivo, é completamente incompatível com a existência equilibrada entre sociedade e natureza, é patrimonialista e concentrador de terras e capitais, e também está afetando diretamente a realidade da mesa dos brasileiros com seu poder político e econômico.

Cada vez menos áreas de terra agricultáveis são destinadas à produção de gêneros alimentícios, como arroz, no Brasil. O agronegócio aposta nas commodities vendidas em dólar enquanto capital fictício no mercado financeiro internacional, como a soja, envenenado a terra e as comunidades tradicionais, desertificando o Cerrado e a Amazônia, criminalizando e assassinando trabalhadores e lideranças do campo, em números tragicamente recordes no mundo.

Por conta do pacto estrutural entre o governo brasileiro e os grandes empresários do campo, o preço dos alimentos disparou durante a pandemia, fazendo dos brasileiros o povo mais afetado pela inflação e pelo custo de itens básicos durante a pandemia entre todos os países. O corte na renda emergencial pela metade terá enormes impactos nesse contexto.

Enquanto a natureza arde e o povo deixa de levar itens básicos para casa, Bolsonaro desfilou sua performance macabra entre as homenagens de fazendeiros no Mato Grosso na semana passada e debocha do Brasil e do mundo com suas mentiras deslavadas na assembleia da ONU na última terça-feira.

O sentimento de desespero diante de tanta destruição é compreensível. Mas não podemos nos paralisar: encontramos esperança nos povos indígenas que lutam há séculos pelo seu direito sagrado à terra e combatem os incêndios com o que tem às mãos. Encontramos esperança nas mulheres que lideram experiências de solidariedade nas periferias urbanas no Brasil contra a corrente do desalento, do desemprego e do alto custo de vida. Encontramos esperança na produção autônoma e soberana dos orgânicos do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e da agricultura familiar que alimenta 70% dos brasileiros.

Quando tudo parece estar perdido, encontramos forças naqueles que resistem aqui e agora. Somos nós que vamos parir um outro mundo, novo e urgente, onde a natureza e o ser humano se reencontrarão, onde a harmonia entre os povos tradicionais e as matas e florestas será aprendida e respeitada por todos; onde a fome não vai existir e a abundância será filha da justiça de uma maioria, e não do lucro de poucos.

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