Macas transformadas em câmaras de asfixia; braços de profissionais da saúde ventilando mecanicamente, à exaustão, o pulmão de pacientes à beira da morte; parentes desesperados esperando, em vão, a chegada de cilindros de oxigênio. A barbárie inominável em Manaus, veiculada pela imprensa na última semana, parece ter recobrado o horror da pandemia no Brasil. Parece, sobretudo, nos dizer o perigo que aguarda as demais regiões do país nos próximos dias.

Os ingênuos ou cínicos dirão que Bolsonaro e Pazuello são dois incompetentes, não servem para gerir o país. Nós temos outra opinião: a sabotagem sistêmica de Bolsonaro à vida e sua atuação na pandemia desde o início é patente do seu projeto genocida, de inspiração fascista. Bolsonaro atua pela e para a morte.

No início, deboche e uma campanha de relativização dos graves efeitos do vírus. Depois, a permanente disfuncionalidade do Ministério da Saúde, o esvaziamento de qualquer política planejada de compra e distribuição de insumos e testes. Junto a isso, a relutância na aplicação de um programa contínuo de distribuição de renda básica emergencial para combater o desemprego e a fome, boicote ao isolamento social e à vacinação, assentado na ampla circulação de informações falsas. Todos esses são estágios acumulados desse processo, que conformará o ápice da calamidade nacional nas próximos semanas – à imagem e semelhança de Manaus e outros municípios da região norte.

Estudos demonstram que o salto de casos e mortes pelo vírus em Manaus nas últimas semanas se deve à combinação entre as aglomerações das festas de fim de ano e uma nova cepa do vírus, mutação que o tornou mais transmissível.

É possível que essa nova variante se espalhe nas outras regiões do país e potencialize ainda mais a alta nacional de casos e mortes, já em curso em função da reabertura econômica pressionada pelo empresariado e seus governos neoliberais pretensamente “civilizados” e opositores de Bolsonaro.

Vimos cenas lamentáveis na nossa cidade, como a fila de milhares de mães e pais de família aglomerados no Ceagesp desde a madrugada para entrega de alimentos no último dia 14 de janeiro. A pobreza, o desemprego e a inflação no preço dos alimentos, com o fim do auxílio emergencial, se fundem num decreto de morte – por fome ou pela doença.

A Bancada Feminista do PSOL defende a vida como a grande e primeira bandeira do povo pobre e trabalhador em meio à pandemia. Isso significa que a alta de contágio, a saturação de leitos em UTIs e o fim do auxílio emergencial federal são elementos de uma combinação explosiva, que só pode ser respondida com uma nova orientação de isolamento social, sustentada na prestação de uma renda básica emergencial, crédito aos pequenos negócios e proibição de demissões até a imunização integral da população.

Nos somamos à campanha pela suspensão do retorno presencial das escolas pretendido pelos irresponsáveis governos tucanos de Covas e Dória, e estamos mobilizadas pela aprovação do nosso primeiro Projeto de Lei, que propõe a implementação da renda básica emergencial na cidade de São Paulo até a última etapa do plano estadual de imunização.

O caminho para sobrevivermos à pandemia é derrubar Bolsonaro e sua loteria da morte e emplacar medidas que fortaleçam o SUS e protejam a integridade das pessoas com comida na mesa e em isolamento nessa fase aguda de contaminação. Só assim o espelho refletirá a luta pela vida cobrindo de vez esse tempo de terror genocida que trinca o Brasil.

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