O mês do meio ambiente finalmente chegou. Não para ser celebrado, mas como um grito de socorro das entranhas do que chamamos natureza. Até quando o meio ambiente será tratado como uma pauta e não como totalidade? Como se nosso presente e futuro não dependessem primordialmente da natureza, não é mesmo?

O mundo enfrenta hoje o que chamamos de mudanças climáticas, ou, indo direto ao ponto, emergência climática, ocasionada pela intervenção humana (leia-se, principalmente, sociedade ocidentalizada e produtivista) através da emissão de gases de efeito estufa na atmosfera. Os meios são variados: emissão direta de poluentes pela indústria, extração de combustíveis fósseis, desmatamento e expansão da agropecuária, desvalorização da agricultura familiar e agroecológica, matriz de transporte focado no transporte individual, entre outros.

Apesar de as causas parecerem distantes, as consequências do aquecimento global são sentidas todos os dias na pele de todas as pessoas da cidade, especialmente as periféricas. Secas prolongadas e falta de água na torneira, aumento no preço dos alimentos, chuvas torrenciais que alagam cidades em minutos, desabamentos das moradias mais precárias nos morros, doenças respiratórias que afetam diretamente crianças e idosos, temperaturas máximas e mínimas extremas e batendo recordes a todo momento… A lista é grande e só tende a crescer se não começarmos imediatamente a implementar políticas públicas que consigam barrar o aumento da temperatura da terra além de 1,5º C.

Infelizmente, essa não é a realidade de nossos governos. Vivemos sob uma gestão ecocida que foi inaugurada com uma das piores tragédias ecológicas do país – Brumadinho –, que vem sistematicamente desmontando a legislação ambiental, atacando os povos indígenas e tradicionais, além de ter ameaçado deixar o Acordo de Paris. Esse desmonte é liderado pelo antiministro Ricardo Salles, que está sendo acusado após a descoberta de fortes indícios que o ligam a esquemas de favorecimento de madeireiros e por dificultar a fiscalização ambiental. Recentemente a Polícia Federal, após busca e apreensão em dois endereços de escritórios de advocacia de Salles, também alegou que há fortes indicativos de que a empresa seja de fachada, usada para receber pagamentos indevidos.

Quando falamos do município, apesar de o discurso do Executivo não ser negacionista, fica cada vez mais difícil enxergar avanços. Após postergar por seis meses a publicação do Plano de Ação Climática de São Paulo, ele foi lançado no último dia 03 de junho, e o desafio é enorme: neutralizar as emissões de gases de efeito estufa até 2050. Agora a grande dúvida é: como enfrentaremos o maior desafio de nosso século se a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente segue sendo sucateada ano após ano? De 1% em 2010, o orçamento foi reduzido para 0,3% em 2021. Como poderemos dar conta da gestão de nossos parques, praças e áreas verdes, de nossas nascentes e rios, da proteção de nossos animais selvagens e da saúde de nossa população e dos locais onde vivem?

A situação se agravou agora que Ricardo Nunes, prefeito da cidade, nomeou Antonio Fernando Pinheiro Pedro como secretário executivo de mudanças climáticas. Pinheiro Pedro integrou a equipe que ajudou a pensar a política ambiental do governo ecocida de Bolsonaro, apoia Ricardo Salles, e chegou a afirmar ao jornal O GLOBO que havia a necessidade de desmontar medidas relacionadas ao Conama, à política de mudanças climáticas e de fiscalização ambiental. Ele também foi um grande apoiador de legislações que trarão consequências críticas ao meio ambiente, como o Novo Marco de Saneamento e a nova Lei de Licenciamento Ambiental.

A reflexão se aprofunda ao lembrar que na Câmara de Vereadores da maior cidade da América Latina não existe um espaço institucional de diálogo e articulação sobre meio ambiente entre quem faz leis e quem sente na pele o impacto delas. São Paulo carece de uma Frente Parlamentar Ambientalista, e por isso a Bancada Feminista do PSOL protocolou no primeiro dia desse mês um projeto de resolução para criação dessa frente a fim de viabilizar esse espaço e ter mais um instrumento na luta pelo meio ambiente em nossa cidade.

Nesse mês do meio ambiente, que passemos a encarar esse tema com a seriedade de quem precisa lutar pela própria sobrevivência do Planeta Terra. Na entrevista de Ailton Krenak ao Fórum Popular da Natureza, “O fim do capitalismo por Pachamama”, divulgada no último 31 de maio, o líder indígena nos lembra que as pessoas acham mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, e afirma que precisamos responder à altura do massacre que vivemos. Por isso apostamos no ecossocialismo e na construção da cosmovisão indígena “Bem Viver” como alternativas ao fim do mundo. Vamos construir essa transformação?

Silvia Ferraro, Paula Nunes, Carolina Iara, Dafne Sena e Natália Chaves, covereadoras da Bancada Feminista do PSOL – mandata coletiva na Câmara Municipal de São Paulo

 

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