Foto: Divulgação

Por Aquiles Marchel Argolo

Durante a pré-estréia de “Marighella” na Nave Coletiva, iniciativa da Mídia NINJA, o diretor Wagner Moura respondeu uma questão sobre a suposta dicotomia entre ter interpretado o Capitão Nascimento em ‘Tropa de Elite’ e dirigir um filme sobre o poeta, ativista e guerrilheiro morto pelas mãos da ditadura militar Carlos Marighella. O ator explicou que toda obra é polissêmica e que as cenas de tortura no filme de Padilha e as exibidas em seu longa são igualmente hediondas. A interpretação da obra diz mais sobre o olhar de quem vê.

“Marighella” chega justamente num momento em que parte da população parece enxergar valores “patriotas” de forma distorcida e violenta e traz luz a uma figura muitas vezes negligenciada pela história brasileira. Acompanhando os últimos anos de luta política de Marighella, o filme dirigido por Wagner Moura e estrelado por Seu Jorge é também sobre o hoje e as angústias de quem teme pela ascensão fascista num país de democracia tão jovem.

A parte técnica do filme é impecável. A cena inicial do roubo de armas de um trem é filmada com câmera nervosa na mão, dando um ar de realidade e tensão bem-vindo à sequência. Moura usa o mesmo recurso durante todo o filme, tornando as cenas de perseguição e tiroteio com uma tensão de apertar os dentes.

Focado nos planos da Ação Nacional Libertadora, “Marighella” dá uma pincelada em algumas divergências entre os militantes da época, e usa dois diálogos inteligentes para exemplificar um pouco desse aspecto. Um é entre o protagonista e Jorge Salles (Herson Capri), mas não aprofunda a relação do guerrilheiro com o Partido Comunista e outro é com a esposa interpretada pela sempre competente Adriana Esteves.

Wagner Moura sabe o poder da história que tem em mãos e explora bem a figura mítica com a imponência e charme de Seu Jorge (ótimo em todas as cenas), que parece cansado, mas sempre impávido. Para que a figura do homem fosse ainda mais exaltada um caminho fácil seria pintar seus companheiros como meros capangas, mas o diretor enriquece a trama colocando-o ao lado de personagens convictos e carismáticos como o pragmático Almir de Luiz Carlos Vasconcelos, a Bella de Bella Camero e o explosivo Humberto de Humberto Carrão. Tratados com importância, o temor pelo final trágico desses personagens faz termos torcida por uma história a qual já sabemos o final.

A violência é explícita, mas não gratuita. Sempre servindo a um contexto e nunca sendo usada como choque pelo choque, normalmente acompanhada pela aparição do delegado Lúcio Fleury (Bruno Gagliasso), que oferece um antagonista enojante, do tipo que quando aparece sabemos que algo muito ruim vai acontecer.

“Marighella” é um filme amoroso, leal e honesto, como se autodescreve o guerrilheiro em off na cena final.  Para chorar em vários momentos e querer ir para as ruas recuperar símbolos cooptados por um Brasil inventado pela cabeça delirante de saudosos da ditadura.

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