Por Lígia Ziggiotti e Rafael Kirchhoff

“Pergunte numa sala no Brasil quantas coleguinhas conhecem outras que são bissexuais? Elas vão dizer: quase todas”. Descontextualizada, é possível que a fala de Damares Alves não chamasse a atenção de Sigmund Freud. Para o pai da psicanálise, o estado original de desejo de todo o mundo seria bissexual, e, com o amadurecimento, as pessoas se orientariam para a heterossexualidade ou para a homossexualidade.

Não foi a única vez em que os saberes médicos se dedicaram a compreender esta atração afetiva direcionada a uma multiplicidade de corpos. Alfred Kinsey, curiosamente, construiu durante a década de 40 uma escala para apreender em que medida um indivíduo desta categoria considerada tão peculiar era, em verdade, heterossexual ou homossexual. O ponto ótimo de seu questionário deveria indicar meio-a-meio para um diagnóstico de bissexualidade. Caso houvesse desproporção, mais para uma orientação sexual ou para outra, dentre aquelas duas escrutinadas em sua análise, estaríamos diante, em verdade, de um indivíduo heterossexual ou homossexual.

Se é verdade que a conclusão freudiana naturaliza a bissexualidade, fraturando a concepção ainda hegemônica de que se trata de um desvio anormal, é também plausível que dela se extraia um caráter transitório deste desejo que não se limita a um sexo ou a um gênero. Daí uma das manifestações mais recorrentes e preconceituosas sobre tal vivência: a de que a bissexualidade não passa de uma fase. Em sentido complementar, a escala de Alfred Kinsey dialoga com a premissa de que a bissexualidade é uma falsificação identitária e que por trás desta anunciação há, invariavelmente, heterossexualidade ou homossexualidade mal resolvidas.

Alguns aspectos da fala de Damares Alves podem acrescentar certas dimensões, exemplificativamente, a estes discursos, porque destaca as meninas como principais alvos do que ela considera uma tendência perigosa.

Em verdade, as mulheres, quando vivenciam experiências com outras mulheres e com homens, são constantemente lidas como heterossexuais confusas ou que desejam chamar a atenção do olhar masculino, que hiperssexualiza os vínculos entre elas formados. Já os homens que vivenciam experiências com outros homens e com mulheres são tidos como homossexuais que não deixam o armário. As hipóteses feministas para a interpretação de ambas as experiências distintamente variam. Uma aciona a centralização fálica como razão de leitura distinta para homens e mulheres bissexuais, porque, ao que parece, o senso comum parte de que as relações com homens sempre prevalecem e aquelas estabelecidas com mulheres são apagáveis.

Inspiradas, durante todo este texto, em Shiri Eisner, israelense que caracteriza um notável marco teórico para a militância social bi, e por chaves queer de análise, sempre estratégicas para subverter ofensas e transformá-las em potência, poderíamos sugerir que a redução da bissexualidade a uma fase ou a uma ambiguidade intolerável constitui um ponto de implosão radical, por quem sob este guarda-chuva se abriga, da heteronormatividade binária.

Mais delirante do que a fascinante experimentação da sexualidade como processo e como abertura constante ao desejo, fluido em nossos corpos, parece a noção de que qualquer identidade sexual – heterossexual ou homossexual – seja definitiva, permanente e fixa. E à ideia de que se trata de uma ambiguidade intolerável, incluiríamos, de fato, como alvo privilegiado da revolução bissexual de que trata Shiri Eisner o binarismo. Afinal, a quem interessa reivindicar uma suposta certeza sobre quem somos a partir da orientação sexual se não a um mundo obcecado por categorias limitadas?

Mesmo com tais considerações, para mantermos a didática neste 23 de setembro, dia da visibilidade bissexual, acionaremos os seguintes sentidos para o seu significado, oferecidos pelo brilhantismo de Robyn Ochs: trata-se de atração sexual e/ou romântica por pessoas de mais de um sexo e/ou gênero, não necessariamente ao mesmo tempo, não necessariamente da mesma forma, e não necessariamente no mesmo grau.

Nestes tempos de investidas políticas em que se tenta resgatar um passado idealizado, de relações catalogáveis e de fácil controle – como a tentativa de inserir entre os mais jovens valores tradicionais e conservadores por meio da militarização das escolas públicas – pensar a bissexualidade como possibilidade incongruente e subversiva abre espaço para novas estratégias de resistência à contemporânea onda normalizadora.

Sobre o tema, concluiu, ainda, a Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que bissexualidade é moda. Tomara. A revolução bissexual projeta uma utopia potente para a implosão de binarismos que ainda aprisionam identidades, desejos e afetos. E a única moda que não se tolera mais é a liderança brasileira em rankings de machismo, homofobia, lesbofobia, transfobia e bifobia – uma expressão ainda pouco conhecida, mas bem-vinda ao nosso crescente bê-a-bá bi.

Lígia Ziggiotti é doutora em Direitos Humanos e mestra em Direito das Relações Sociais pela Universidade Federal do Paraná, professora de Direito Civil da Universidade Positivo e vice-presidente da Associação Nacional de Juristas pelos Direitos Humanos LGBTI – ANAJUDH (@anajudh_lgbti).

Rafael Kirchhoff é advogado, militante de direitos humanos e presidente da ANAJUDH (@anajudh_lgbti).

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