“Nasci Negra e mulher. Estou tentando me tornar a pessoa mais forte possível para usufruir a vida que me foi dada e ajudar a desencadear as mudanças em direção a um futuro aceitável para o planeta e para minhas crianças. Como negra, lésbica, socialista, mãe de dois, entre eles um menino, e integrante de um casal inter-racial, com frequência me vejo parte de um grupo que a maioria me define como desviante, difícil, inferior ou simplesmente “errada.”

Audre Lorde, “Não existe hierarquia de opressão’’.

Agosto é o Mês da Visibilidade Lésbica, constantemente desde o dia primeiro, as pessoas estão me perguntando a mesma questão: “O que é visibilidade lésbica para você?’’. Essa pergunta me colocou em um estado de reflexão e incômodo, irei explicar para vocês o motivo.

Já faz um tempo que comecei a trazer para a minha vida o debate da pluralidade lésbica! Nós não somos todas iguais com as mesmas demandas. Existem lésbicas brancas, negras, indígenas, gordas, pcd’s, cis, trans, do Norte ao Sul do país. Aquelas que se chamam de lésbicas, caminhoneiras, sapatonas ou zami, como já mostrei no texto anterior da minha coluna aqui na Mídia NINJA.

O apagamento lésbico é real, violento e aniquilador das nossas subjetividades e existências, em casos extremos, de destruição das nossas vidas, nos levando a morte física. Ainda estamos lutando pelo direito de existir, ficarmos vivas, sendo vistas como seres humanos.

Existe ainda todo um mito em cima da imagem de sapatonas como bruxas, predadoras sexuais que querem dar em cima de todas as mulheres do mundo, ainda somos vistas como agressivas ou aquelas que não tem voz.

Muitas das nossas estão sem moradia porque foram expulsas de casa pela família, algumas abandonaram a escola e estão sendo exploradas no trabalho informal. A luta por Políticas Públicas de saúde para lésbicas (aqui também podemos considerar pessoas com vagina) ainda é atual porque elas não existem. Enfrentamos violências diversas para conseguir fazer um simples exame ginecológico.

Lutamos também contra a militarização da vida que diariamente promove o genocídio da população negra. Muitas lésbicas negras são pobres, moram em favelas e também enfrentam a violência promovida pelo braço armado do Estado. Não podemos esquecer do que aconteceu com Luana Barbosa (sapatão preta e mãe) que teve a vida ceifada pelo racismo estrutural legitimado pelo Estado.

As lésbicas negras ainda fazem o enfrentamento do racismo e da lesbofobia, como já disse uma vez a intelectual negra lésbica Audre Lorde “ no movimento negro sou lésbica e no movimento de lésbicas sou negra”. O não lugar às vezes é constante e nossas pautas são sempre consideradas como inferiores.

Rompemos com as barreiras do silêncio que nos oprime diariamente, mas ainda temos luta pela frente! É necessário fazer a união lésbica mas entender que não somos todas iguais e respeitar a diversidade de nossos corpos.

Respondendo a pergunta sobre o que significa Visibilidade Lésbica para mim:

Sapatonas vivas!
Sapatonas felizes!
Sapatonas fora do armário!
Sapatonas compartilhando afeto!
Sapatonas construindo família!
Sapatonas maternas tendo a gestação saudável e parto seguro!
Sapatonas negras não sofrendo racismo!
Sapatonas gordas não sofrendo gordofobia!
Sapatonas pcd’s não passando por capacitismo!
Sapatonas fora do eixo RJ-SP não sofrendo xenofobia!
Sapatonas indígenas vendo suas terras demarcadas e sem invasões!
Sapatonas tendo moradia, trabalho, acesso a educação e saúde pública gratuita, de qualidade!
Sapatonas sem medo de andarem de mãos dadas na rua e se sentirem seguras!
Sapatonas não sendo ridicularizadas!
Sapatonas Trans sendo respeitadas porque também são nossas irmãs!
Sapatonas produzindo conhecimento acadêmico!
Sapatonas visíveis na história!
Sapatonas sendo vistas como seres humanos!

Por mais lésbicas ocupando todos os espaços, inclusive os espaços de tomada de decisões de poder como os parlamentos políticos. Até a próxima.

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