“E nesse mundo criaremos nossas crianças livres para escolher a melhor maneira de se sentir realizadas. Pois somos coletivamente responsáveis pelo cuidado e pela criação dos jovens, uma vez que criá-los é, enfim, uma função da espécie.” O filho homem: reflexões de uma lésbica negra e feminista, Audre Lorde.

Fui criada por três mulheres héteros, tenho o privilégio de ter três mães: a minha avó Dona Vera, minha mãe Ana Cristina e a minha tia Ana Lúcia. Na minha família, nunca teve essa questão de apenas uma mulher ser responsável pelas crianças, todas tinham um pouco de responsabilidade com a nossa criação e cuidados. 

No dia das mães da escola, sempre era uma questão para mim o fato de só poder homenagear uma mãe por vez, realmente nunca entendi aquilo. A minha família está longe de ser essa do comercial de margarina: branca, classe média alta e residente de alguma área nobre da cidade. 

A minha família não é a tradicional brasileira (ainda bem), como aquela nuclear dos comerciais de margarina. Fui criada pelos meus avós maternos com a presença da minha mãe, da minha tia e de várias outras primas/tias por perto, somos uma família do subúrbio do Rio de Janeiro. 

Por causa de tudo isso, nunca tive problemas para entender que família é algo plural e existem diversas formas de se constituir uma família. O afeto e o respeito são elementos fundamentais para existência de uma família, por isso também podemos escolher a nossa própria família, podemos ter mais de uma inclusive. Família é onde existe o amor!

Por causa da heteronormatividade estrutural, aquela ideologia onde apenas o homem heterossexual e a mulher heterossexual podem constituir uma família, vale uma observação aqui para dizer que essa “autorização de construção de família’’ é permitida basicamente para pessoas brancas, a gente acaba acreditando que não existem outros tipos de família. Existe um apagamento ideológico com direcionamento político-social legitimado não apenas pela heteronormatividade mas também pelo Estado. 

Existe toda uma estrutura social para dizer que lésbicas não podem ser mães e constituir família. Trazendo novamente a heteronormatividade para o debate, por causa dela existe esse pensamento mentiroso de que: lésbicas não são mulheres e lésbicas querem tentar ser homem, logo não podem ser mães. Esse argumento é completamente lesbofóbico e mentiroso. 

Como já afirmei em outros textos aqui da minha coluna, lésbicas são plurais e possuem diversas vivências diferentes. Nós podemos ser o que quisermos ser, inclusive ser mães e construir uma família com nossas companheiras.

A maternidade lésbica existe! Lésbicas também são mães, nossas famílias existem e precisam ser respeitadas. Por isso hoje desejo um feliz dia das mães para todas as lésbicas que são mães e para todas as famílias em suas mais diversas formas.
Inclusive, fiquei muito feliz esse ano quando soube do nascimento do filho da jogadora da seleção de futebol Cris Rozeira e sua esposa, a advogada Ana Paula Garcia. Bento nasceu no dia internacional da visibilidade lésbica. Coincidência mais linda, não?

 

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