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É natural sentirmos raiva das declarações absurdas e o apoio dado a Bolsonaro pela youtuber lésbica Karol Eller. Podemos analisar esse comportamento dela partindo de uma parte do pensamento da filósofa Nancy Fraser, a partir da perspectiva de que você pertencer a uma identidade não necessariamente irá te fazer aderir a todos os símbolos e ideologias pertencentes a ela.

O que seria isso? Basicamente é: ser sapatão não te faz imediatamente a favor da causa LGBTQIAP+, ser negro não te coloca logo na luta contra o racismo e ser mulher não te faz necessariamente feminista. Karol Eller se enquadra no primeiro exemplo, Sergio Nascimento de Camargo no segundo e a Damares Alves no terceiro exemplo. Essas pessoas estão ligadas de alguma forma ao governo e à ideologia do bolsonarismo.

Mas como o ser humano é complexo, o fato de você apoiar uma ideologia não te protege totalmente do que ela prega, principalmente se ela é a favor da sua morte. Nos 3 casos, as 3 pessoas podem ser vítimas do pensamento que elas defendem. Karol Eller por exemplo, foi vítima de lesbofobia quando foi agredida por um homem porque ela estava com sua namorada em um quiosque na Barra da Tijuca. A agressão é consequência estrutural da heternormatividade machista que não tolera o amor entre duas mulheres, essa mesma intolerância propagada pela ideologia fascista defendida pelo clã dos Bolsonaro.

Andei lendo no Twitter, a opinião de algumas figuras públicas bolsonaristas e elas estão cobrando o posicionamento dos movimentos LGBTQIAP+ sobre o caso, afirmando que esses grupos só defendem pessoas da esquerda. Sendo que há 41 anos os movimentos LGBTQIAP+ estão na luta para garantir que todas as pessoas do grupo sejam reconhecidas como cidadãs, tendo seus direitos da constituição garantidos. Como por exemplo até hoje o movimento de mulheres lésbicas e bissexuais estão na luta coletiva pela construção de políticas públicas voltadas para os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.

Karol Eller foi vítima da lesbofobia estrutural que diariamente atinge as lésbicas independente da posição política delas. O debate precisa ser feito em cima disso, como podemos acabar com a lesbofobia estrutural? Como podemos pensar em uma nova socialização? Não sou a favor do posicionamento político da Karol Eller, mas o que aconteceu com ela poderia acontecer comigo e com todas aquelas que me cercam. Você ser contra o que ela fala, você sentir raiva pelas coisas que ela prega, ok. Mas se vamos relativizar lesbofobia, debochar que ela foi agredida e dizer bem feito pra isso, o que nos difere daqueles do governo Bolsonaro que tanto criticamos? Queremos mesmo fazer uma revolução e destruir as opressões, ou apenas queremos alternar o poder e continuarmos movendo as estruturas opressoras que diariamente é usada contra nós?

Daqui, sigo na busca por novas socializações, na luta contra a lesbofobia estrutural e todas as outras opressões para que não existam mais casos como o de Karol Eller ou o da Luana Barbosa que foi vítima de lesbocídio e da política genocida de segurança pública do Estado. Precisamos fazer o uso estratégico da nossa raiva como já disse a ancestral Audre Lorde.

Fiquem atentas, se cuidem e até a próxima!

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