Foto: Alan Santos / PR

Bolsonaro gastou vinte minutos de seu discurso na ONU argumentando contra os povos indígenas do Brasil e da América Latina. Atacou a legislação brasileira e nossa Constituição (um presidente não deveria ser o primeiro a defendê-la?) e colocou em questão terras já demarcadas e amplamente consolidadas como a dos Yanomami.

Bolsonaro pregou hoje na ONU a conhecida ideologia do “integracionismo”, ou seja, em nome do “desenvolvimento econômico” retirar o direito à diferença, impor a uniformização econômica e cultural de cima para baixo para  grupos minoritários, o projeto “branqueamento” cultural dos indígenas. O Brasil tem hoje mais de 250 povos indígenas que tem culturas vivas e distintas. Culturas que nos enriquecem, e que dependem das terras demarcadas para seguirem existindo. Mas o presidente considera as terras indígenas são “grandes”. Isso deve acabar em nome, claro, do que Bolsonaro entende por “progresso”.

Ele enxerga os indígenas com ótica próxima aos antigos colonizadores – que só tinham o Brasil como terra de extração de riquezas minerais para a Metrópole: os índios eram “silvícolas” a espera de trabalho e integração com a “civilização”.

O presidente de um país da importância do Brasil falar isso perante líderes de todo o planeta, em pleno século XXI… é algo maior que um vexame. Arranha a imagem do Brasil no mundo e tem óbvias consequências na luta dos povos indígenas pela sobrevivência física a cultural.

Em nossas duas ditaduras nativas, a integração forçada foi sempre uma justificativa para a legalização do modelo extrativista de mineral e de gado. E forma de promover a derrubada da floresta. Os indígenas, muitos antes dos ambientalistas, sempre foram os maiores defensores e conhecedores da floresta.

O curioso é que o presidente usa a tribuna da ONU para exaltar Sergio Moro (que enfraqueceu a Funai ao retira-la do Ministério da Justiça) para depois “denunciar” que indígenas e “socialistas” estão roubando a Amazônia, quando todo mundo sabe que o governo não está nem aí pra soberania, e sim preocupado com o dinheiro fácil do garimpo.

Vale lembrar que os indígenas tem papel fundamental e conhecido na preservação de nossas fronteiras – em muitos casos em diálogo próximo com os militares… essa conversa fiada de soberania é uma bobagem.

Por fim o presidente atacou Raoni, uma das mais reconhecidas lideranças do mundo. E fez vista grossa aos recentes assassinatos de indigenistas e as invasões ilegais que só crescem sob o incentivo simbólico do discurso presidencial – que promove desde 1 de janeiro, o desrespeito à legislação e às terras legalmente demarcadas no Brasil.

Viva Raoni, nosso candidato a prêmio Nobel! Ele representa o Brasil no mundo com muito mais conhecimento e generosidade por nossa cultura e soberania!

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Célio Turino

Precisamos retomar os Pontos de Cultura urgentemente

Design Ativista

Mais que mil caracteres

Márcio Santilli

Golpe em falso

Juan Manuel P. Domínguez

A direita dá um banho de sangue no Peru

Tatiana Barros

Os sintomas da não-binariedade

Monique Prada

Alvo de notícia falsa, trabalhadora do sexo manda recado para a primeira-dama

Design Ativista

Quando a moda é criada com a natureza, por mulheres, em suas comunidades

Uirá Porã

O início de uma era singular

Márcio Santilli

Militares precisam incorporar emergência climática a sua visão estratégica

Uirá Porã

A felicidade é contagiosa

Márcio Santilli

Direita quer mutilar Frente Parlamentar Indígena

Célio Turino

Sobre os Pontos de Cultura e o conceito de Cultura Viva

Ivana Bentes

Olhar é um ato violento

Márcio Santilli

Marina no clima