Compreender as interfaces do funk é ecoar antropologia nesse entendimento. Para além de Antropologia, o movimento preto. Sendo ele não somente fruto de uma marginalização e escravidão, mas também fruto de uma epistemologia onde os códigos e leituras advém de uma ancestralidade que tirada da mão do senhor de engenho, e colocada na mão do Estado, se encontrou aprisionada às periferias como um modo de varredura dos centros das cidades.

Afinal, segundo os livros didáticos de história, a instauração da Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel, em 1888, promoveu uma suposta abolição da escravatura presente no Brasil Colônia. Entretanto, a atitude tomada pelo Estado destinou esse corpo de forma significativa à condição de sobrevivência. Sendo perceptível quando em 1824 a constituição garantia a educação como um direito essencial a todos os cidadãos, contudo segregava e higienizava os corpos escravizados desse processo. Tendo ainda como exemplificação a Lei de Terras, em 1850, anterior a Lei Áurea, que além de permitir ao Estado a venda de espaços agrários a custos altos, também previa subsídios de governo à vinda de colonos europeus com a prerrogativa de embranquecer o país.

Ou seja, como poderia o corpo preto carregado de um histórico marginal, escravizador, violento e subalterno se tornar livre? A utopia de tal liberdade gradual promovida pela Lei Áurea só foi institucionalizada devido ao contexto sociopolítico da conjuntura na época – visto que o Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravatura no mundo. O que por sua vez, nos evidencia um interesse econômico por trás dessa decisão.

Em virtude da abolição institucionalizada, a busca de emprego, comida e moradia por parte de corpos pretos fez com que surgissem uma grande quantidade de cortiços na região central – antes considerada área nobre da cidade. Em consequência, mansões sem condição alguma de se sustentar sem escravos, foram transformadas em cômodos. Segundo o historiador Milton Teixeira, na mesma época, o maior cortiço da cidade surgiu: o “Cabeça de Porco”. Posto isso, de acordo com ele, Cabeça de Porco: “era um cortiço monumental, com quatro mil residências. O local exato onde ele ficava é onde existe hoje o túnel João Ricardo, ao lado da Central do Brasil”.

Porém, nesse mesmo período surgiu a Reforma Urbana Pereiro Passos executada no Rio de Janeiro entre 1902 a 1906. Tendo como finalidade a sustentação e construção de um Rio de Janeiro a partir de um ideal em que a europeização e o aburguesamento da cultura por meio de arquitetura, ideais e costumes se fizessem presentes. Já que a Europa era considerada um modelo ideal de civilização, progresso e modernidade a ser seguido, sendo desta forma: o progresso indicador de desenvolvimento material; a civilização fruto de um comportamento direcionado a uma ideologia burguesa europeia e a modernidade o embelezamento, ou melhor, a maquiagem de um passado colonial.

Com a expressão “o Rio civiliza-se”, a classe dominante buscou realizar duas reformas: urbana e sanitária. Ambas foram determinantes para o processo de favelização. Tendo em mente que o seu processo demoliu tanto os cortiços (local onde os corpos pretos estavam), quanto excluiu a presença de pessoas em situação de rua, tendo como justificativa a contaminação e exposição deste corpo a doenças, como a varíola, febre amarela e peste bubônica. Contudo, se o argumento usado por Oswaldo Cruz – médico higienista e Diretor-Geral do Serviço de Saúde Pública na época – mostra a reforma como um recurso essencial para erradicar essas epidemias, por que apenas a população preta que sofreu com esse processo? Logo, sem ter para onde ir, como saciar a sua fome e extinta da sua própria cultura e identidade, essa população encontrou-se em narrativas desumanizadoras, dando surgimento às favelas, deixando-as ainda mais expostas à epidemia.

Desta maneira, as letras e os ritmos da cultura do funk perpassam realidades periféricas e constroem possibilidades de existências. Mais do que cantar, o corpo tenciona uma expressão, linguagem e estética que traz à tona a sua realidade. O que por sua vez, provoca e desestabiliza regiões centrais e uma sociedade burguesa, branca e higienizadora. Que busca, desta forma, criminalizar os seus saberes e sua cultura. Não divergindo épocas atrás de uma realidade em que a Lei dos Vadios e Capoeiras (1890) criminalizava e penalizava corporeidades pretas que quisessem expressar a sua cultura. Aplicando uma pena a quem tocasse, cantasse e dançasse samba, por exemplo. Tendo esse negacionismo e racismo como foco principal, a partir de uma ideologia político-hierárquica, o embranquecimento cultural. O que podemos observar com o surgimento de outro gênero musical – bossa nova – que se transmutou e derivou a partir do samba e outras vertentes escurecidas. Isto quer dizer que, todo esse processo retroalimenta uma estrutura a modo de intelectualizar o branco que produzia esse gênero musical, e criminalizar o preto como “vagabundo”. Sendo esse arco narrativo transcrito com a realidade do funk no cenário brasileiro.

Além da criminalização, o que existe é uma apropriação cultural dentro desse movimento pela burguesia. Por mais que os mesmos tentem criminalizar esse gênero, há uma necessidade de consumir esse produto musical. O consumo vem através e por boates dos centros da cidade, sua grande maioria superlotadas por burgueses, como também em dancinhas dentro da plataforma do TikTok. Não é atoa que a maioria das coreografias não só do gênero funk, como de outras vertentes, que tem a sua criação desenvolvida por uma pessoa preta tende a não repercutir. Sendo diferente quando o corpo não só é branco, como também cisgênero, heterossexual, não-gordo e não-deficiente. Em sua grande maioria, reproduzem as ideias e passos gerados pelas pessoas pretas e com isso seus vídeos viralizam.

Para melhor ilustrar, posso trazer para o diálogo um episódio que ocorreu no mês de julho deste ano (2021). A maioria dos tiktokers pretos, de forma orgânica, realizaram uma greve de produção de conteúdo. O objetivo era denunciar a apropriação cultural existente.

“Sou um criador de conteúdo no TikTok há cerca de nove meses e nesse curto período, vi inúmeros vídeos/danças/ideias criadas por negros roubadas e reaproveitadas sem o devido crédito ser dado. O problema está muito além do escopo de desafios de dança e continua desde o início da viralidade desse aplicativo”, afirma criador de conteúdo negro em entrevista à revista Teen Vogue.

Nesse sentido, a classe dominante em contraponto a classe dominada utiliza de seu poder para se favorecer e negar de onde vem tal conteúdo. Sendo nítido como existe um atravessamento do mesmo processo do embranquecimento do samba. E quando falamos da cultura do funk, existe a carência de observar como a estética de um corpo branco reproduzindo a mesma coreografia se faz mais consumível do que um preto, mesmo sendo essa cultura empretecida, ou melhor dizendo: dos bailes de favela.

Sendo assim, reafirmar a origem do movimento funk e a reflexão que o atravessamento ancestral preto proporciona a essa cultura, é compreender que ao mesmo tempo que usam dela como diversão e entretenimento, negam o corpo que proporciona esse momento de prazer. Além de não pensarem no contexto social de onde esse corpo vem. O que esbarra numa realidade extremamente genocida. Até porque a periferia sempre esteve fadada e aprisionada a viver condicionada à sua própria moradia eternamente. Tendo em sua estrutura a falta de saneamento básico, hospitalar, educação e entre outros serviços que compõem a esfera de dignidade de vida e humana.

Para além desse contexto, acometem uma higienização que advém desde os empresários até os consumidores brancos e burgueses. Nesse sentido, todos os questionamentos e apontamentos realizados neste artigo tem como finalidade a subversão dessa relação de poder e repensar a quebra de uma estética branca e colonizadora. Que muito tem a criticar, tendo em seus dizeres e argumentações o apontamento a um gênero que incita violência elegendo-o a uma identidade de “falsa cultura”. Entretanto, não compreendendo, como diz a Anitta, que “para mudar as letras do funk, você tem que mudar antes a realidade de quem está naquela área”. Nessa perspectiva, o valor social a ser questionado não são as mensagens que as músicas tendem a passar, mas sim a estrutura que obriga esse corpo a se expressar ou de forma radical, ou em forma de resistência.

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