Por Babi Barbosa

Ser mulher nesse mundo é um troço estranho. 

Parece que a gente nem devia estar aqui. 

Duas máximas de internet que definem bem isso são: “No dia em que o  homem parir, a mulher deixa de ter utilidade.” e “Se homem parisse,  haveria caixa eletrônico de aborto 24h na porta de cada shopping.” Parecem duas piadas de muito mal gosto, mas perceba que têm lá seu  fundo de verdade. 

Lá vem a chata feminazi com negócio de feminismo pra cima da gente.  E vocês achando que o assunto aqui é Acessibilidade. 

Vocês são muito emocionado, gente… 

E não são as pessoas com deficiência também mulheres? Alguém aqui está pronto pra essa conversa? 

Never ever, my ol’friends. 

Seguinte: já vaza logo enquanto é tempo. Porque o caminhão da treta está passando na sua rua com tretas fresquinhas, tretas formosas, madurinhas,  a 3 por 10 sem osso. 

Mentira. Tá osso sim. 

Tá aí ainda? Depois não reclama que eu não avisei. 

Senta que lá vem história. 

É que tem hora em que eu queria saber aramaico, línguas antigas, mortas,  ter acesso ao texto original das coisas e entender se, na real, mulher é  aquela desgraça toda que tem em cada livro sagrado antigo que é liberado pra geral seguir. 

Oliaaammm… Você começa a ler e vai dando uma vontade de se chicotear  sem dó. A autoestima vai dando adeus e a gente só faz a Roberta  Miranda:”Vá com Deus”, mas o amor não está mais aqui. O autoamor, pelo  menos, sai pela mesma porta que a autoestima e deixa um recado triste e  cruel: “Você sabe porquê está apanhando.” 

Mas, sabe mesmo?  

Faz ideia do motivo, razão ou circunstância que provoca essa falta de  autoamor a ponto de descrer totalmente da justiça e dos seus direitos?

Está mesmo tudo dentro da gente?  

Foi mesmo tudo calado a tal ponto que só sobrou a culpa adâmica, o medo, a certeza de que não há saída? 

Quantas vezes somos levadas a crer que estaremos “acabando com a vida de um trabalhador honesto” e seremos tão pecadoras quanto Eva foi ao  denunciar que foi enganada?  

Quantas vezes morderemos o lado bichado da maçã e deixaremos o lado  docinho e saudável para quem é X9, cagueta, safado que nos denuncia na  primeira oportunidade que tem?  

Até quando seremos punidas sozinhas e pelo resto da eternidade por  amar?  

Até quando o mel da nossa maçã será sugado com vontade, mas as  sementes do nosso fruto serão consideradas malditas? 

E faz algum sentido todas essas questões? 

E que diabos isso tem a ver com Acessibilidade Atitudinal, mulheres com  deficiência, mulheres (sem deficiência) e essa salada de coias que parecem  tão separadas umas das outras… 

Bora parando com a viagem na maionese para definir o que significa essa  tal Acessibilidade Atitudinal? 

Pois bem. 

Pensa comigo, a mulher tem que lutar muito, dar o sangue muito mais do  que alguns dias por mês, pedir licença, ir comendo pelas beiradas toda vez  que quer usufruir do mundo. 

Isso, se ela for uma mulher branca, ocidental, sem deficiência, com algum  status social, um discurso condescendente, além de muita compreensão e  boa vontade dos machos dominantes à sua volta. 

Desde o início dos tempos é assim. 

As anteriores ao século XVII, tinham que ser santas, mártires para serem  consideradas relevantes. Ainda assim, são retratadas como brancas, puras  e virgens. 

É, ou não é? 

As cargas vão se acumulando sobre essa mulher e ela só vai se curvando  a elas pra caber mais uma nas suas costas, na sua mente.

Tem que ser linda desde quando acorda (como se dormisse), boa esposa,  boa mãe e boa dona de casa. Daí sim, pode ser boa trabalhadora, boa  profissional, boa companheira, boa qualquer coisa. Detalhe: se não for  maravilhosa, extraordinária, incrível e adaptável, nunca será considerada  boa.  

Ainda que devesse usar todas essas habilidades pra já ter dominado o  mundo. 

Ah, é. A tal da culpa original feminina não permite. Faz parte da  penitência. 

Beleza.  

Daí, essa mulher tem defeitos. Ela não se adapta ao mundo. Ela tem  deficiência. 

Mas casou. Ufa! 

Um bom homem fez a caridade de casar com ela. 

Ué, mas mulher deficiente casa? E os filhos? Como vai ser?  Os pais dela vão ajudar a criar. Vão levar pra casa deles e cuidar. O pai  não pode ser sobrecarregado. Ele já fez tanto casando com ela… Um anjo  de pessoa. 

Mas, a deficiência dela é intelectual…  

“Ai que horror! Ela é tão inocente… Como os pais deixaram ele fazer isso  com ela?” 

“Aliás, você já mandou castrar?”  

“Ela está tomando medicação pra retirar a libido?” 

“Educação sexual para criança com deficiência não existe! Tudo bem que  ela já tem 35 anos e engravidou do cuidador, mas a mentalidade dela é de  5 anos. Ela nem sabe que fizemos um aborto nela.” 

“Não senhora, o 180 não tem como atender mulheres surdas em vídeo com língua de sinais e também não atendemos por mensagens escritas.” “Claro que ela não vai denunciar! Quem vai acreditar numa cega que não  tem como identificar o agressor?” 

“Quero ver você chegar na delegacia! O carro está na garagem e a sua  cadeira não passa.” 

Não tem como chegar à Casa da Mulher Brasileira na cadeira de rodas.

“As verbas para a pasta de combate à violência doméstica foram cortadas, senhora. Não podemos fazer nada.” 

Ela morreu de câncer porque não há macas ginecológicas adaptadas para  atender mulheres cadeirantes. 

Tem uma planta pesadíssima na frente da rampa. 

“O Profissional Intérprete de libras aprendeu tudo o que sabe em seis  meses de aula na faculdade, mas cobrou baratinho e é isso o que conta  aqui na delegacia.” 

“O que aconteceu com ela? O que ela está sentindo? Como foi que isso  aconteceu com ela?” – “Pergunte a ela, por favor. Eu só trouxe.” “Que aleijada gostosa, cara!”. Ali, na frente dela. No meio do povo. Na  maior altura. Como se ela não ouvisse. 

Eu queria muito que todas essa frases e tantas outras que nem tenho  coragem de escreve aqui não fizessem parte do meu trabalho pela  acessibilidade. 

Gostaria, de verdade, que ser mulher não invalidasse a empatia, a escuta  ativa, a vontade política, a boa vontade de atender ao que realmente a  pessoa precisa, a aceitação e validação da pessoa como ela é e que são  alguns dos nomes e definições dados à Acessibilidade Atitudinal quando é  direcionada a pessoas sem deficiência, mas dificilmente às mulheres. #RealOficial  

Escutar ativamente a pessoa; direcionar-se a ela e não a quem a  acompanha; respeitar seu lugar de fala e sua história; perguntar a ela o de quê ela precisa e pedir que ela indique a correção mais eficaz para o que  estiver errado; Considerar que é ela quem sabe de si e não os outros;  compreender que as experiências dela é que são relevantes, uma vez que  é ela quem tem enfrentado as dificuldades de ser quem é. E fazer alguma  coisa a respeito sem calar a voz de quem está sofrendo com aquela  situação. 

Acessibilidade atitudinal e a luta das mulheres com ou sem deficiência tem muito em comum. Praticamente tudo.

Principalmente por que muitas, senão a maioria, das mulheres terminam  sua jornada pelo relacionamentos abusivos como a sobrevivente MARIA DA PENHA FERNANDES: com uma sequela em formato de deficiência que  poderia ter sido evitada se ela tivesse sido ouvida, socorrida e validada  desde a primeira das muitas vezes em que denunciou e ouviu que “ele não sabia porque batia, mas ela sabia porque apanhava”. Será que ela nunca  ouviu isso da polícia? 

Sequelas físicas, sensoriais, emocionais, intelectuais e mentais.  Como a de Mari Ferrer, que acaba de ter sua luta invalidada porque suas  provas cabais foram simplesmente desvalorizadas. 

Imagina uma mulher com deficiência? 

Imagina uma mulher trans com deficiência? 

Imagina o que nós estamos fazendo ao pensar que esse assunto é chato e  perguntamos: “E eu com isso?”