Por Rayane Soares

Nesse período de pandemia, muitas são as sugestões para aproveitar o momento e desenvolver reflexões sobre a vida. Aproveitei para ler alguns livros que tinha vontade, mas não tinha feito por falta de tempo. Essa correria do dia-a-dia, muitas vezes, não permite que tenhamos esses momentos. Dentro do processo de autoconhecimento fui ler livros sobre a nossa história negra. O exercício de olhar para si mesmo, muitas vezes, é doloroso, ainda mais quando você entende que muitas das suas dores são devido a algo que vem bem antes do seu nascimento, e que não é pior por conta dos antepassados que lutaram e deram suas vidas para que hoje nós, jovens negras, possamos ter o direito à vida.

As mulheres negras, dentro dessa luta por direitos do povo negro, têm um grande papel. Uma data marcante é o 25 de julho – Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, que tem como seu símbolo de luta Tereza de Benguela, líder quilombola do século VXIII.

As mulheres negras foram e são pilares, energia e peças-chave para muitas vitórias, seja nos EUA, com Angela Davis, que fez parte do movimento Pantera Negras e hoje luta pela reforma do sistema prisional; ou no Brasil, onde podemos começar citando Dandara, mulher que ficou na linha de frente da guerra contra o sistema escravocrata. Dora Tamana, na África do Sul, foi líder do movimento contra a “lei do passe”, lei imposta no período do Apartheid, entre 1948 e 1994.

A “Lei do Passe” foi um dos motivos que me levou a escrever esse texto. Lendo sobre ela, não teve como não fazer relação com os tempos atuais aqui no Brasil, pela  semelhança com o nosso cotidiano, enquanto jovens periféricos/as. Se você é um jovem negro lendo esse texto, gostaria que você refletisse quantas vezes seus pais, ou até mesmo você, estava saindo de casa e lembrou-se de pegar o RG. Quantas vezes você saiu e ficou preocupado por não estar com o RG. Acredito que essa preocupação não acontece com jovens de classe média no Brasil. Parece um ato simples, mas, pensa bem: vou num lugar perto de casa, é tranquilo eu andar sem minha identidade, mas se eu vou pra outra cidade ou mais longe precisamos estar identificados.

A “lei do passe” obrigava os negros a andarem com uma caderneta que limitava o espaço e tempo em determinados locais públicos. Essa segregação e o direito negado de ir e vir faz parte também do nosso cotidiano .Esses limites não estão em nossa caderneta de identificação, mas estão velados nos  olhares, gestos e, muitas vezes, são expressos verbalmente. Segundo Raposo et al. (2019), os jovens negros dos chamados bairros problemáticos, mais do que outros, são submetidos a identificações e revistas, numa lógica de perfilamento racial, que associam os corpos negros à ilegalidade e ao crime. Esses limites estão dentro da universidade, no acesso ao sistema de saúde e de políticas públicas. Vivemos um apartheid velado, onde a todo tempo tiram o pouco direito que temos, tiram nossas vidas.

De acordo com dados divulgados pela ONU Brasil (2017) “Se nada for feito, serão 43 mil brasileiros entre os 12 e os 18 anos mortos de 2015 a 2021, três vezes mais negros do que brancos. Entre os jovens, de 15 a 29, nos próximos 23 minutos, uma vida negra será perdida e um futuro cancelado.”

Nesse processo de autoconhecimento, contato comigo mesma, cheguei a milhares de conclusões, reflexões difíceis que, em vez de sair de uma tranquila meditação, cheguei a uma revoltosa tempestade. Por fim,  deixo para vocês um poema de Dora Tamana:

“Você que não tem palavras, fala.
Você que não tem lar, fala.
Você que não tem escolas, fala.
Você que tem que correr como galinhas do abutre, fala.
Vamos compartilhar nossos problemas para que possamos resolvê-los juntos.
Nós devemos nos libertar”.

 

 

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