Justiça climática: Cúpula dos Povos foca em construção coletiva de estratégias de resistência

Justiça climática: Cúpula dos Povos foca em construção coletiva de estratégias de resistência

Cúpula dos Povos é organizada pela Coalition26 e reúne movimentos mundiais de justiça climática (Foto Thomas Hermanns) 

 

Marcos Felipe Sousa, para a Cobertura Colaborativa NINJA na COP26

O último evento do primeiro dia da Cúpula dos Povos (COP 26 Coalition People’s Summit) em Glasgow foi marcado pela idealização de estratégias do Sul Global para a defesa de suas comunidades diante das crises sistêmicas globais. Até o dia 10 de novembro, a cúpula traz debates alternativos às negociações empresarias na agenda oficial da COP26. O evento é organizado por movimentos e campanhas de justiça climática de todo o planeta, como povos indígenas, sindicatos, grupos pela justiça racial e jovens ativistas.

A partir da análise e ações de comunidades locais da América Latina e do Caribe, o evento “Justiça para o povo! Estratégias do sul global para a defesa das comunidades diante da crise sistêmica” expôs métodos de resistências frente aos planos e projetos das corporações empresariais e suas políticas de extrativismo em grande escala.

A Cúpula dos Povos denuncia os impactos e violações de direitos aos povos diretamente afetados pelo modelo desenvolvimentista, assim como as degradações em ecossistemas e territórios. Estes povos exigem reparações e justiça diante dos maiores culpados pelas crises climáticas — grandes empresas, os países do Norte Global, os estados nacionais e as elites em alianças pelo mundo.

Representando a organização Amazon Watch, Sofía Jarrín falou da experiência de organizações equatorianas e criticou a atuação do governo do Equador e a incoerência do seu discurso em torno da sustentabilidade na COP26. Sofía afirmou que o governo se elegeu prometendo uma transição ecológica, mas nos primeiros 100 dias de governo fomentou opressões e incentivos a mineração e a exploração do petróleo. Ela também denunciou a facilitação do governo Lasso para a atuação de empresas estrangeiras com falsas normas ambientais e privatizações.

A Cúpula dos Povos é um espaço para apontar as falsas soluções climáticas e os principais responsáveis pelas crises ecológicas e sociais no globo, mas também um espaço para fortalecimento de estratégias e atuações políticas. Principalmente dos povos do Sul Global. No evento foi defendido mecanismos jurídicos, políticos e organizações em redes com coalizações em várias escalas geográficas, como pontuou Sofía Jarrín. Outro ponto na sua fala foi a defesa de mecanismos jurídicos vinculantes e com compromissos reais, não apenas declarativos e estéreis.

Na Cúpula também foram acusados os discursos e os programas que se vendem como sustentáveis internacionalmente com financiamento de bancos e governos. Segundo Vandria Borari, do povo indígena Borari do Baixo Tapajós, programas de crescimento verde são voltados para companhias internacionais que fomentam a destruição dos territórios indígenas na Amazônia. Vandria condenou os governos globais que prometem um desmatamento zero sem discutir de fato o garimpo ilegal, os ataques aos povos indígenas e o avanço do desmatamento.

Carmen Aligada (Colectivo Casa – Bolívia), também demonstrou a partir da realidade boliviana as contradições e falsas promessas do governo da Bolívia para justiça climática e ambiental. Segundo ela, o governo se posiciona como progressista, mas amplia a fronteira da destruição socioambiental nos territórios indígenas. Carmen critica as promessas de transição energética pelo governo, mas com o fomento às grandes hidroelétricas nos territórios indígenas, assim como o avanço da mineração.

Como estratégia de resistência a injustiças climáticas, econômicas e socioambientais, Ana María Franco (FIAN), defendeu o uso do Direito enquanto instrumento de resistência, mas que sozinho ele não é suficiente. De acordo com Ana, é preciso que este esteja alinhado com os direitos humanos, não com o direito internacional que protege juridicamente aqueles responsáveis pelas crises sociais, ambientais e suas relações comerciais.

Ana Franco defendeu que a governança enquanto estratégia não pode ser dominada em uma hierarquia desigual entre a sociedade civil, empresas transnacionais e Estados Nacionais. Em sua fala também foi pontuado como estratégia o uso da comunicação e denúncia internacional. Todavia, não apenas expondo apenas os problemas socioambientais, mas as alternativas efetivas para a justiça climática, como a agroecologia, as estratégias para a soberania alimentar e as alternativas a cadeias globais de valor.

@MidiaNinja e a @CasaNinjaAmazonia realizam cobertura especial da COP26. Acompanhe a tag #ninjanacop nas redes!

 

Mídia Ninja e People’s Summit convocam para cobertura colaborativa da Cúpula dos Povos pela Democracia

Mídia Ninja e People’s Summit convocam para cobertura colaborativa da Cúpula dos Povos pela Democracia

Cúpula dos Povos tem como foco a união de forças populares (Cobertura Colaborativa Fuera OMC)

 

A Mídia Ninja abriu inscrições para a Cobertura Colaborativa de mais um evento internacional, com a oferta de oficinas de midiativismo. Assim como na COP 26, um encontro internacional paralelo focará na construção coletiva de estratégias de resistência com foco na justiça social. É a Cúpula dos Povos pela Democracia, que ocorre entre os dias 8 e 10 de junho, em Los Angeles (EUA). Esta, ocorre no contexto da 9ª Cúpula das Américas com agenda entre os dias 6 e 10 de junho, na mesma cidade.

Jornalistas, midiativistas e comunicadores podem se inscrever para produzir e difundir outras narrativas sobre o encontro (clique aqui), de forma híbrida, participando remotamente e presencialmente.

Em teoria, durante a Cúpula das Américas, chefes de estado se reúnem para discutir problemas comuns e buscar soluções para o desenvolvimento da América do viés social, econômico e político, entre outros temas. Quem organiza este evento é a Organização dos Estados Americanos – e já soma baixas em relação à representatividade: há países que não vão participar ou outros foram excluídos do evento. Na contramão, a Cúpula dos Povos se configura como um espaço democrático que tem como foco a colaboração mútua.

Tal qual em Glasgow, a Mídia NINJA realizará ampla cobertura da Cúpula dos Povos, em estado de alerta quanto às decisões dos dirigentes, apresentando análises sobre como as decisões tomadas de maneira vertical poderão impactar as bases.

Para tanto, além de contar com equipe in loco, a Mídia NINJA soma forças ao People´s Summmit, incorporando à cobertura sua tecnologia de comunicação e mobilização. O trabalho será realizado em três idiomas (português, espanhol e inglês), a partir da colaboração de uma rede de ativistas, jornalistas, comunicadores, mídias independentes, movimentos sociais e organizações, entre outros, que registrarão momentos do importante evento que prega a colaboração e solidariedade entre os povos, colocando as populações acima dos desejos do mercado.

Através de diversas manifestações como arte, conhecimento e política, histórias serão contadas com publicações no site midianinja.org/peoplescollab2022, redes sociais da Mídia NINJA e suas frentes temáticas, também em portais parceiros, além de disponibilizar o material em formato Creative Commons.

INSCREVA-SE: https://midianinja.org/peoplescollab2022/

A “solidão climática” dos jornalistas ambientais: os bastidores da cobertura diante da crise global

A “solidão climática” dos jornalistas ambientais: os bastidores da cobertura diante da crise global

(Mídia Ninja)

 

Lívia de Mello Trindade @liviamtrindade para a Cobertura Colaborativa NINJA na COP26

A Cúpula do Clima da ONU está reunindo diversos públicos para pensarem soluções para combater as mudanças climáticas, e para além, debater as causas e consequências dos eventos que estão prejudicando o Planeta. Na tarde do dia 08, em um dos eventos da Cúpula das Pessoas pela Justiça Climática – People’s Summit for Climate Justice, jornalistas ambientais, representando seus países, expuseram como funciona a cobertura de pautas sobre a crise climática.

Kátia Brasil, jornalista fundadora do Amazônia Real, falou sobre a importância da criação da agência de jornalismo independente e investigativo, para dar voz aos povos e comunidades tradicionais que sofrem com as consequências das mudanças climáticas.

“Existe um preconceito sobre os povos indígenas, principalmente porque as empresas de comunicação estão envolvidas com recursos públicos além de recursos de empresas. Essas pessoas que possuem poder, impedem que os povos tradicionais sejam livres, essa é a realidade, por isso criamos a Amazônia Real, porque não podíamos de qualquer maneira permitir que os nossos jornalistas que cobriam acontecimentos na região da Amazônia sofressem violações na liberdade de expressão”, relatou Kátia.

Jhesset Thrina, jornalista das Filipinas, falou sobre a importância da cobertura ambiental e apontou a importância dos meios de comunicação se dedicarem mais ao tema. 

“O último trabalho grande trabalho foi sobre as mudanças climáticas, e eu consegui entender como as grandes empresas estão prevenindo os jornalistas de reportarem as questões que estão acontecendo e foi isso que percebi aqui no meu país, aqui não estamos dando a notícia e mostrando como mudar a situação. Só a parte feia e confusa desse evento. […] Precisamos de uma onda de mudanças, percebemos isso em algumas empresas de mídia. Quando percebemos que possuímos mais recursos, também notamos que tem mais editores e repórteres interessados em fazer reportagens sobre mudanças climáticas”. Ela defende mais apoio para que esses diretores de grandes empresas de mídia coloquem a pauta como prioritária. “E não apenas como uma história que será contada depois que um desastre atingir uma determinada comunidade”, diz Jhesset.

A pauta indígena esteve em destaque, durante a conversa. Jornalistas apontaram que são os que mais sofrem com as mudanças climáticas. No entanto, não são reportadas com visibilidade. É preciso que o assunto seja mais explorada. Kátia ressaltou a precariedade do ser indígena em tempos pandêmicos no Brasil.

“O indígenas no Brasil são os que mais sofrem com as mudanças climáticas e os principais causadores são garimpeiros e  madeireiros, eles entram no território sem pedir permissão, o que se torna uma invasão concreta, e eles destroem o meio ambiente derrubando a floresta, grandes árvores são destruídas, além de fauna, plantas medicinais, conhecimento tradicional e cultura indígena é destruído e o que não caiu ainda, está em perigo muito grande”.

Ela realça que é certo que a pandemia foi muito dolorida para todo o povo brasileiro, mas principalmente para os povos indígenas. “Não receberam suporte e informações devidas, nem sabão eles tinham para lavar a mão. Muitos anciãos morreram entre 2020 e 2021, mais de 1.000 indígenas foram mortos durante a pandemia por consequência do vírus da COVID-19”.

Para Kátia, é preciso que os governos, especialmente do Brasil – que possui um governo anti-indígena e antiambiental – ajam urgentemente para que esse desmatamento desacelere. “Para que os povos possam viver tranquilos. A situação é muito grave hoje em dia. A imprensa nesse momento, principalmente, os que sabem o que passamos, precisam vir cobrir a situação da Amazônia, mas não venham somente uma vez, venham e cubram o que realmente está acontecendo”.

Pautas ambientais são urgentes

A jornalista ambiental canadense Sarah Lawrynuik, expõe sobre a necessidade de irmos rápido e além em pautas que envolvem o futuro do planeta.

“Eventos críticos são cobertos de uma maneira pobre, estamos sempre começando tudo de um começo lento, não realizamos jornalismo ambiental de uma forma apropriada e não conseguimos atravessar essas barreiras, são questões elementares que precisamos atravessar, eu imagino que exista interesse nisso e que todos estamos reconhecendo a justiça social, ainda não chegamos lá, é uma prioridade principal por décadas, mas ainda parece que estamos começando”. 

Em complemento, a jornalista filipina Jhesset pontuou sobre a importância de viver a pauta na qual se está trabalhando.

“Há um interesse renovado nessa área, existe algo novo para nós jornalistas, é uma história que precisava ser contada.  Até mesmo antes disso, eu acredito que é a consistência nas reportagens sobre crise climática que fará a diferença, percebi durante meus anos como repórter que não existe neutralidade nessa cobertura, por todos esses anos também estava cobrindo as vivências, é sobre as pessoas também, o que se torna muito triste por ver onde as comunidades chegaram pela ação do homem. Todas as redações teriam que abordar a crise climática”.

O papel do jornalista ambiental é ultrapassar muitas barreiras e requer consistência e determinação. Sarah relata sua jornada na qual buscou especialização para entregar seu melhor diante das coberturas jornalísticas.

“Em uma época em que vivia em uma área do Canadá que tinha exploração de gás, e sempre me diziam que minhas reportagens estavam incorretas e eu sofria preconceito em relação a isso, então decidi receber isso e me especializar na área. Fiz um mestrado na área climática, porque eu estava justamente ouvindo de alguns gerentes e chefes que eu não tinha capacidade necessária para efetuar meu trabalho de cobertura ambiental”, relata a jornalista canadense.

Os interesses que silenciam pautas

A jornalista Kátia,que realiza cobertura no norte brasileiro, também falou sobre chefes e gerentes que muitas vezes controlam a veiculação de notícias.

“Essas pessoas estão muito envolvidas com os donos dos poderes, principalmente aqui no norte, onde por exemplo uma empresa mineradora financia o veículo de imprensa, caso essa empresa cause um grande impacto ambiental em uma área indígena por exemplo, essa notícia só vai sair de um lado oficial. Existe muito o jornalismo de interesse, e algumas notícias podem atingir o judiciário, ou da área empresarial e principalmente político”

Sarah também falou sobre essa questão, além da dificuldade de empresas cooperarem com os jornalistas.

”Existem pontos cegos nessa questão, principalmente pela indústria da mineração e do petróleo, eles sabem que os jornalistas não compreendem algumas coisas, então eles justamente miram nesses pontos cegos. Ao redor do mundo empresas aumentam emissões e os jornalistas até tentam espalhar e contar isso para o mundo , mas o que deveria ser algo para checagem acaba não acontecendo” 

Seres humanos antes de tudo

Jhesset abordou que é necessária e urgente a humanização do jornalista, pois são cidadãos como qualquer outro.

“Jornalistas são seres humanos, são afetados também pela crise climática, creio que o jornalismo em si é um exercício doloroso, porque mesmo que não seja um tópico difícil ele pode afetar nossa saúde mental, sendo ainda um tópico tão sensível uma crise existencial planetária. Então existem outros tipos de impacto no jornalismo que dizem a respeito à ansiedade, porque a forma a qual sentimos tudo é difícil, e particularmente cobrindo a ecologia é um luto”.

Recentemente aprendeu que existe um termo de uma sensação de não ter companhia.

“Se você está nessa solidão mesmo, então se o seu chefe ou seu editor não vê aquilo com a mesma visão, você chega em uma solidão climática. As vezes é frustrante, você quer que essa história seja contada, entendida e ouvida o máximo possível, você quer humanizar aquele impacto. Pode ser que o público também não esteja interessado, esteja mais a fim de saber de política ou entretenimento, isso pode gerar uma frustração e ansiedade no jornalista”.

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Impulso feminino no neofascismo cristão de Bolsonaro: quatro cenas recentes de início do ano eleitoral

Impulso feminino no neofascismo cristão de Bolsonaro: quatro cenas recentes de início do ano eleitoral

Desde o fim de 2021 se nota uma nova retomada na linguagem político-religiosa de Bolsonaro apresentando novos elementos como as vozes femininas, que buscam reconectar com o universo religioso impulsionando sua campanha eleitoral para o pleito de 2022. Já nesse período se vê uma nova fase da investida religiosa de Bolsonaro com a participação nos cultos na Assembleia de Deus (ministério Belém), Igreja Batista, Igreja Presbiteriana do Brasil, etc), na promoção de orações, unções, bênçãos tal como solapou sua campanha em 2018. Esse trabalho, junto ao Programa Auxilio Brasil (substituto do Bolsa Família), vem tendo tamanha inserção que permite a ela 40% de votos nas pesquisas eleitorais com o público evangélico. A surpresa com esse dado decorre porque o público evangélico agremia parte da população pobre do país, aquela que mais sofre com a falta de políticas do estado nos tempos pandêmicos.

Portanto, o artigo destaca a forma prioritária da comunicação a partir das mulheres promovida pela cúpula neofascista de Bolsonaro a partir do uso da linguagem cristã nos materiais midiáticos mais difundidos entre o fim de 2021 e o início de 2022. Pelo impacto das cenas digitais separaram-se duas cenas do perfil oficial de Bolsonaro e duas de apoiadoras do presidente (uma da deputada e apoiadora Carla Zambelli e a sua ex-ministra Regina Duarte). Contudo, antes de tratar delas, retoma-se a discussão do cristofascismo brasileiro a partir do neofascismo.

Cristofascismo, um dos filhos do neofascismo

O cristofascismo brasileiro é uma modulação do que Frederico Finchelstein (2019) e Michael Lowy (2020) vão chamar de uma nova versão do fascismo, ou melhor, um neofascismo. É um neofascismo que usa prioritariamente a linguagem cristã do deus bélico e despótico tão importante para as grandes agências fundamentalistas americanas. Para os autores, o neofascismo, ao contrário do fascismo clássico, não dissolve o parlamento, seus mandatários chegam ao poder pela via eleitoral e administram uma pluralidade partidária. Logo, não tem a mesma tônica dos fascismos da primeira metade do século XX, porque não existe “clima mundial” para governos explicitamente totalitários.

Se o fascismo se relacionava com a fortificação do Estado, o neofascismo, para Finchelstein, inverte essa lógica traçando um desprezo pelas instâncias coletivas como a saúde pública, educação, porque está conectado a lógica do mercado e o aprofundamento neoliberal. Contudo, segue sendo uma fábrica de ódio às minorias, aos diferentes.

Bolsonaro e sua hegemonia tem uma especificidade no espectro do neofascismo: ele usa termos, cenas, versículos, orações, textos, exegeses e normatizam uma ética cristã fundamentalista, de base mas das agências neoimperialistas americanas. Dessa forma, aprofunda a reprodução neoliberal, promovendo guerra cultural contra seus adversários. Outro detalhe: o caminho dos discursos dos agentes do Estado bolsonarista a tônica liberdade versus Estado é algo que encontra presente historicamente nas tendências fascistas do século passado como escreve Finchelstein. Por exemplo, para o argentino o próprio estado de Mussolini utilizou as inteligências pedagógicas autonomistas para educação de suas elites, bem como o nazismo explorou as primeiras escolas eco-educacionais (anarquistas – pouco preocupadas com a política oficial) para educação de suas elites.

Portanto, as elites do estado cristofascista primam pela educação, pela liberdade individual, contudo, as garantias não são as mesmas nos setores populares. Eles sofrem com a precarização da educação, com a caça policial, ou com o “deixar morrer” – entrega biológica à morte com a Covid e outras doenças. Como se disse, fazem isso a partir dos símbolos/afetos da plataforma do cristianismo hegemônico e a partir dele, se arquiteta uma nova modulação das lutas de classes do estado capitalista. No qual, se firma nas perseguições aos setores LGBTQI+, no sufocamento dos funcionários públicos, a batalha contra a liberdade de imprensa, as ameaças a órgãos de justiça, o desprezo das contagens dos infectados, a luta pela desinformação, os óbitos do Covid-19, a desestima pela ciência brasileira e a implosão da classe professoral.

Como se está tratando do tronco dos fascismos, é importante resgatar um intelectual que lutou contra ele, Antônio Gramsci. Ele que travou uma luta política na Itália contra Mussolini. Gramsci pontua que fascismos são modulações “extremas das lutas de classes, em nome das direções capitalistas (…) que tracionam um leque de inteligências em prol hegemonia capitalista” (2001, p.212). Sobre as correntes dos fascismos, escreve que “caracteristicamente operam a violência junto aos estados (…) nas quais defendem a liberdade da classe dirigente” (p.325). Isto é, que desde a Itália fascista as classes dirigentes estavam envolvidas na narrativa da liberdade.

Portanto, afirma-se a partir de Gramsci e de Finchelstein, que a cúpula de Bolsonaro se sustenta traçando a questão da liberdade individual contra a intervenção do estado, logo, se observa posturas como a campanha contra a vacinação em massa, contra e educação pública, ou a questão da adesão ao lockdown. O projeto político da gestão de Bolsonaro irradia uma teologia do poder autoritário no qual simplifica a vida em prol de argumentos teológicos-moralistas para justificar o desprezo aos pobres e a opção das suas mortes com carimbo do estado. Assim, após essa pontuação sobre o cristofascismo (a partir do neofascismo) passa-se a análise das quatro postagens-chaves da cúpula do governo Bolsonaro que mais tiveram impacto nas redes.

Bem x mal: Lula – comunista e adorador do Diabo

Após 2021 com muitas mortes de Covid-19, no fim do ano começou a diminuir os óbitos pela vacinação. Nesse momento, reverberou pesquisas eleitorais de intenção de votos para 2022. Diante do discurso triunfal de Lula, logo após sua soltura, ele despontou como candidato na liderança das pesquisas. Lula que já foi presidente, é um político historicamente ligado às lutas populares, com partido de cor vermelha – o PT. Nas narrativas religiosas, ele é lembrado como adepto das religiões de terreiro, logo, diante do raciocínio fundamentalista, ele é “do diabo”. Pela divulgação da pesquisa de intenção de votos, a deputada bolsonarista Carla Zambeli tuitou “a luta do bem contra o mal nunca ficou tão evidente”, assim:

A Guerra dos Deuses da postagem (de uma representante do estado brasileiro) coloca Lula à esquerda, junto ao diabo e o símbolo do comunismo. O que remete à ideia conspiratória de uma “teologia acusatória do marxismo cultural”, no qual une o diabo ao marxismo. No lado direito, Bolsonaro aparece andando do lado de Jesus, com a bandeira do Brasil, seguido por brasileiros, pais de famílias, patriotas. A cena digital divide bem x mal, vermelhos x patriotas, e deixa o apelo: “escolha o seu lado”. A deputada sintoniza o tom das mensagens evangelísticas das igrejas. O meme mais parece ser um apelo religioso numa pregação de domingo à noite “escolha seguir a Jesus”. Assim, após as pesquisas eleitorais apontarem Lula em primeiro lugar, se pulveriza uma cena digital da qual posiciona Lula como alguém diabólico/comunismo e Bolsonaro patriota/com Jesus do lado e com “pessoas de bem”. Acusa-se Lula e “vermelhos” de serem do diabo e se assume a ideia de que a salvação vem com Bolsonaro – político que caminha ao lado de Jesus.

Pronunciamento à nação de 2021: economia, paz e mortes nos campos

Na virada do ano, no dia 31 de dezembro, Bolsonaro discursou as mídias. Com tom eleitoral, afirmou que 2022 será o ano do bicentenário da independência do Brasil. O que é uma data importante para os governos autoritários brasileiros (Vargas e a Ditadura), nos quais exploraram essas datas na tecedura de um ideal de nação a reboque das comemorações militares. Agora, nem mesmo os generais da Ditadura iniciaram um discurso oficial dessa forma “Quis Deus que eu ocupasse a presidência em 2019”.

Bolsonaro milimetricamente coloca sob a assinatura do divino ter assumido a presidência na data do bicentenário, bem como, de ser salvação diante dos governos anteriores: “símbolo da devassidão moral e da irresponsabilidade econômica”. Tal como se escreveu, o cristofascista une a moral cristã racista e a discussão econômica ultraliberal de dissolução do estado. Além disso, transforma seu discurso oficial numa teologia política evocando “Deus quis que ocupasse”. Na sequência segue dizendo os feitos dos anos de governo: “lei da liberdade econômica”, da “pacificação no campo e flexibilizaram a arma de fogo”. Tal como se indicou sobre o neofascismo, a lógica economicista justifica o ímpeto da guerra cultural, dos deuses. Logo, o que nomeia de “paz do campo” é sim parte dos mecanismos de permissão aos latifundiários do agronegócio que com o governo acumulam mais armas para caçar trabalhadores rurais.

No fim do discurso, Bolsonaro volta à ladainha do divino: “Hoje temos um governo que acredita em deus, que respeita seus militares, defende a família e deve lealdade ao seu povo”. Nele sinaliza sua concepção do divino: um deus bélico, ligado à defesa dos militares e as famílias (aristocráticas) brasileiras. Ao mesmo tempo, silencia ante aos demais setores da sociedade. O que mostra seu desprezo pelas diferentes formações familiares e seu horror generalizado às esquerdas. Bolsonaro, como neofascista, usa o discurso divino em prol da guerra aos pobres mediante a fala da liberdade econômica ultraliberal para permitir a eugenia para o benefício dos empresários e latifundiários.

Jesus, Bolsonaro e a facada de 2018 atualizada para 2022

No início de 2022, Bolsonaro volta a ser internado por complicações por conta da facada sofrida em 2018. Logo, os pastores apoiadores (como Silas Malafaia e Josué Valandro Jr) convocam campanhas de oração nas igrejas “pela saúde do presidente”. A volta da comoção para recuperação com direito a fotos no hospital e discursos de que tinha medo de morrer (tal como falou em 2018). Após três dias ele recebe alta. Com sua saída, sua ex-ministra e apoiadora Regina Duarte, posta nas redes sociais Bolsonaro caminhando com roupas de hospital assim:

Regina Duarte compartilha a cena apelativa, onde Bolsonaro aparece caminhando no hospital, de mãos dadas com Jesus. Cristo também carrega uma criança nas costas, e uma luz vem do alto guiando Bolsonaro. O tom da cena digital postada por Regina Duarte é de um milagre, de Jesus-deus carregando Bolsonaro. A cena reforça Bolsonaro como canal de deus – alguém guiado por ele para o público cristão. Regina realça imageticamente o cristofascista como escolhido por deus para o cargo, que ele é próximo a Jesus, e até como ele que vence a via dolorosa. O apelo da cena postada por uma mulher, apoiadora e ex-ministra, é o indicativo de que ele passa pela tribulação, pois é íntimo de deus e foi dada a missão de governar a nação. Agora, como se vendo dizendo no artigo, as mulheres vêm ganhando destaque no projeto político de Bolsonaro na promoção das cenas religiosas.

Michelle: primeira-dama e mobilizadora da teologia do domínio raiz

Na primeira imagem que colocou Bolsonaro como cristão e patriota, versus Lula, símbolo da luta dos deuses de deus versus o diabo (postada por Carla Zambeli). A segunda cena foi do discurso para nação tratando da liberdade econômica e a paz nas roças mediante as armas. A terceira cena de Bolsonaro caminhando ao lado de Jesus se recuperando (postada por Regina Duarte), agora, passa-se à cena que teve milhares de replicações nas redes religiosas. Ora, se Bolsonaro se veste como cristão símbolo do Brasil, faltava uma ida à igreja. Assim logo após sua saída do hospital, foi agradecer a “cura” na celebração da Igreja Sara Nossa Terra em Vicente Pires, no Distrito Federal, no dia 7 de janeiro. Além de Michelle esteve presente seu ministro Onyx Lorenzoni, realçando os tons políticos da celebração.

Foto: Reprodução / Instagram

O culto foi celebrado pelo bispo Robson Rodovalho, líder da igreja, em prol do tema do ano da igreja: “O profético ano do resgatador”. Nele, o discurso de Bolsonaro foi curto. Afinal, ele tem pouca habilidade na linguagem religiosa de improviso. Bolsonaro disse: “Quero agradecer a deus pela minha vida e pela missão, e a vocês pelas orações, e pela fé. Se deus quiser, os momentos difíceis logo ficarão para trás. Vivemos numa grande nação, com um povo maravilhoso. Acreditamos no nosso Brasil e sempre que deus acima de tudo, e o Brasil acima de todos. Muito obrigado”. Claro, rememorou a internação junto a missão dada por deus de levar a nação. No púlpito, elogia o país e o nosso povo, além de, agradecer que deus separou para ser presidente e termina entoando o jargão “Brasil acima de todos”, da campanha de 2018.

Bolsonaro recitou seu monólogo habitual. No entanto, surpreendente foi a fala de Michelle Bolsonaro, que é evangélica e participa de ministérios nas igrejas. Ela vem ganhando mais destaque nas ações da cúpula bolsonarista. No fim do ano, falou com Bolsonaro no vídeo para a nação dando mostras do capital matrimonial cristão presidencial modelo. Embora tenha hesitado em falar, quando falou ficou à vontade agradecendo os intercessores da igreja e de “mundo” que oram por eles. Diferente das falas presidenciais e até de alguns pastores apoiadores, ela traçou explicitamente a teologia do domínio assim: “declaramos todos os dias, que esse Brasil é do nosso Senhor Jesus. ‘Feliz é a nação cujo deus é o Senhor’. O Senhor é o deus da nossa nação”.

A teologia do domínio da primeira dama se explicita nas frases: “Brasil é do senhor Jesus”. Ela explora uma série de jargões da teologia, típicas de seu construtor Peter Wagner (2009). Ele que pregava a cristianização do mundo pela via dos governantes, chamando de “mandato cultural”. Wagner deu tons territoriais a teologia fundamentalista quando insistia que existe uma luta nacional de “demônios e potestades que possuem o domínio de territórios, sendo necessário que esse poder seja quebrado para que as bênçãos sejam liberadas” (2009, p.89). Michelle utilizou um versículo importante do pensamento de Wagner “Feliz a nação cujo deus é o Senhor” (Salmo 33, 12). Que é um salmo de louvor a deus que destaca que todos devem se render a deus e aos líderes convertidos.

Se não bastasse isso, Michelle seguiu na sequência pedindo a “deus que haja unidade”. Com apoio do esposo, inspirada na leitura do truculento salmo, a primeira-dama enfatiza a “unidade”. Ora, governos que gritam unidade se interessam pelo silêncio dos inimigos. E, pela teologia latino-americana, se sabe que os apelos à unidade são parte das pautas dos impérios. O que Michelle conecta com o versículo do Novo Testamento (de Mateus 18,18 – outro versículo utilizado por Wagner) – que diz “que seja ligado na terra, seja ligado no céu”. Tanto Wagner como Michelle, tratam disso para conectar coisas terrenas aos territórios aos céus.  A teologia de Wagner busca ligar os céus e terra, no sentido da unidade do governo mediante a expulsão dos demônios, ou seja, os inimigos, descontentes. Assim, ela termina dizendo: “deus está no controle de todas as coisas (…) que abençoe a casa de cada um de vocês”.

Nova investida bolsonarista no discurso para eleições de 2022…

Portanto, Michelle ao fazer uso explícito da teologia do domínio, amplifica o que Bolsonaro faz de forma displicente. Ela destaca um conjunto de versículos bíblicos que dão força simbólica para essa teologia autoritária no desenvolvimento do “governo cristão”. A fala da Michelle dá mais força à Guerra dos Deuses da gestão Bolsonaro, talvez, por isso, vem ganhando espaço com falas, orações, glossolalias e postagens na composição do governo. Logo, esse já é um desenho diferente de 2018 a 2020, quando Bolsonaro era o messias e tinha a palavra. Agora, ele se cerca com um conjunto de vozes femininas que proclamam a unidade, a luta bem x mal e mostram o parâmetro de família cristã presidencial.

Portanto, para as eleições de 2022 se desenha uma nova configuração religião-política para a candidatura cristofascista. Como é notório sua inabilidade com os temas religiosos vem buscando alternativas de ser impulsionado pelos perfis femininos mais ligados ao cristianismo, como sua ministra Damares Alves, com Carla Zambeli, e principalmente por sua esposa. Como na ida na Igreja Sara Nossa Terra, Michelle com sua voz mansa coloriu com mais tons cinzas o discurso do projeto cristofascista de caça a esquerda, aos sistemas de comunicação, aos movimentos indígenas, movimentos negros, femininistas e os cientistas – tudo em nome do apelo á unidade.

As quatro cenas destacadas foram as mais compartilhadas recentemente nas mídias conversadoras, um demonstrativo dos ajustes eleitorais que estão sendo feitos no neofascismo cristão de Bolsonaro. As narrativas femininas cristãs da cúpula governamental vêm fornecendo mais força as narrativas religiosas do governo. Como já se disse nas redes sociais, Michelle vem assumindo uma posição de “primeira-dama de oração”.

Assim, mesmo o projeto político de Bolsonaro sendo ligado as Grandes Corporações Cristãs afinadas com o fundamentalismo e o conservadorismo, inteligentemente se vem reforçando a importância das vozes femininas para aprofundar a razão maniqueísta do governo: bem x mal, deus x diabo, conservadores x esquerda. Mais uma arma, um novo impulso no projeto neofascista de desprezo aos pobres, minorias sociais e LGBTQI+ em prol de uma nação triunfante cristã fundamentalista salva recorrentemente pelo messias cristão Bolsonaro.

Nesse sentido, a cúpula Bolsonaro vem construindo inteligentemente uma nova versão de sua teologia do poder autoritário pela via da nova guerra dos deuses ratificando a economia ultraliberal, o armamentismo contra os povos dos campos e das favelas alinhando uma teologia do domínio explícita para sensibilizar um país que cada vez mais se torna evangélico e maternal. O ano de 2022 só começou e com ele se iniciou vem brotando um novo signo das disputas religiosas-políticas para as eleições.

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WAGNER, C. Peter. Domínio! Como a ação do Reino pode mudar o mundo. Grand Rapids, MI: Chosen Books, 2008.

“Estão privatizando os territórios e financeirizando a natureza”

“Estão privatizando os territórios e financeirizando a natureza”

Foto: Midia NINJA

O debate sobre políticas públicas climáticas vem crescendo cada vez mais na Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Com a realização da COP26, a discussão entrou ainda mais  fundo na agenda política dos movimentos. O debate vai muito além das medidas de compensação ambiental, realizadas por meio de mecanismos financeiros relacionados ao mercado de carbono, que são o foco das deliberações dos países no evento oficial.

Conversamos com Letícia Tura, da diretoria executiva da ONG FASE e do Núcleo Executivo da ANA, para fazer uma leitura sobre a política ambiental no Brasil nos últimos anos e do recente evento global. Ela também integra o grupo Carta de Belém, que acompanha a questão climática na Amazônia, e foi membro da Comissão Nacional para Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (CONAREDD+), que tratava da implantação do mecanismo de REDD+,  conforme previsto na Convenção do Clima.

Na entrevista, Tura faz uma retrospectiva dos grandes eventos climáticos nas últimas décadas e critica as falsas soluções apresentadas pelos governos e mercados. No seu ponto de vista, é fundamental colocar a agroecologia na discussão mundial sobre clima na perspectiva da mitigação, de forma a prevenir muitos problemas ambientais ao invés de remediá-los.

O que pode vir a acontecer a partir das deliberações na COP26?

A COP26 consolidou o processo do Acordo de Paris e o segundo regime climático pós Protocolo de Kyoto, fechando o Livro de Regras. Vimos o avanço  do mercado de carbono, que vem sendo discutido desde o início das conferências da Convenção do Clima. Isso vem se consolidando e tem um impacto negativo muito grande nos territórios, nas políticas domésticas e nos resultados de mitigação das mudanças climáticas. Ao longo das conferências, os instrumentos de mercado e seus mecanismos financeiros orientados pela métrica  do carbono foram além da  compensação (offsetting). Hoje tem várias estratégias financeiras, como os Green Bonds, que são os títulos verdes da dívida, vários fundos de ESG (Environmental, Social and Governance) e por aí vai. Isso vem crescendo e saiu bastante vitorioso nessa última COP, a partir da regulamentação do artigo 6º do Acordo de Paris. Aprovou a transferência de  resultados entre países (ITMOS, na sigla em inglês) e o Mecanismo de Desenvolvimento Sustentável (MDS). Tivemos pelo menos uma vitória, porque as florestas ficaram fora do mercado de carbono.

Mas nesses anos, em paralelo à consolidação dos mercados de carbono, não aparecem respostas positivas em relação às emissões. Mesmo com a ratificação da Convenção do Clima, a Terra já aqueceu um grau em relação ao período pré-industrial, conforme a Organização Meteorológica Mundial, mostrando a ineficiência desses instrumentos de mercado. Não são discutidas transformações estruturais no sistema. Esse acelerado aquecimento, a partir dos anos 1980, tem a ver com as transformações na nossa economia global junto ao processo de mecanização, que vai acabando com os postos de trabalho. Uma sociedade cada vez mais baseada no consumo e nas desigualdades ambientais, sendo o mercado de carbono  uma proposta que não tenta frear esse processo. Não se realiza, por exemplo, a taxação de grandes fortunas, a demarcação de terras indígenas e quilombolas, o banimento do agrotóxico, nada como ação climática. Também não vemos uma política que perceba a agroecologia como uma ação climática, porque só olham para os grandes poluidores, emissores e desmatadores. Os instrumentos de incentivos econômicos são voltados para eles, e não conseguem inverter a lógica. Não ampliam a participação econômica e social dos setores menos poluidores, nem é feita uma leitura estrutural e as políticas não vão nesse sentido. É uma discussão muito difícil de fazer frente ao contexto político no Brasil e no mundo, com o crescimento da extrema direita. No campo da agroecologia, essas coisas são fundamentais, precisamos reconhecer as ações desses sujeitos para a transformação.

Quando se fala em meio ambiente no Brasil, sempre se remete à Amazônia. No entanto, o Cerrado tem muita importância e segue sendo desmatado para plantar soja e  pasto. Esse debate é muito mais diversificado em termos nacionais, não?

Sim, o desmatamento na Amazônia Legal é bastante intenso, sobretudo na área de  transição entre a Amazônia e o Cerrado. Cerca de 74% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa (GEE)  são resultado de alterações do uso da terra e das práticas do agronegócio, o que é muito diferente da média internacional que está relacionada a combustíveis fósseis. Ou seja, nossas emissões estão relacionadas à expansão da fronteira agrícola e às commodities minerais e agrícolas. Não há suficientes condicionantes e  limites ambientais para acesso ao crédito agrícola, uso indiscriminado de agrotóxicos etc, e não se fortalecem as alternativas reais propostas por  povos indígenas, povos e comunidades tradicionais, agricultoras/es familiares e camponesas/es. Pelo contrário, perdemos o apoio em várias políticas: Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO), Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural para a Agricultura Familiar e Reforma Agrária (PNATER) etc. Esses sujeitos da resistência, com suas práticas de vida e sobrevivência, são os que estão sendo atacados e expulsos de suas áreas.

Qual a avaliação da política ambiental brasileira de forma geral?

O Brasil chega na COP com uma agenda grande de retrocessos em todas as políticas ambientais, nos marcos legais, nos espaços de governança etc. Além dos processos de desmonte das políticas públicas, há também o seu remonte, a partir da privatização dos territórios e ações de financeirização da natureza. As resoluções que saem da COP, como Net  Zero e Mercado de Carbono, acabam favorecendo esse tipo de política. Você tem programas emblemáticos nesse sentido, como o Floresta+ Carbono, um programa nacional de pagamentos por serviços ambientais para fomentar múltiplas possibilidades financeiras, inclusive a compensação (offsetting) e o mercado privado de carbono. Dentro deste  programa, encontra-se o programa piloto Floresta+ Amazônia,  financiado pelo Fundo Verde do Clima, para pagamentos de resultados do País no combate ao desmatamento e preservação da floresta na Amazônia Legal, entre 2014/15, no âmbito do  Marco de Varsóvia para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD) da Convenção do Clima, que não permite compensação (offsetting) de GEE.

Tem também o programa Adote um Parque, com um processo de adoção por indivíduos e empresas privadas nacionais ou internacionais, que poderão fazer sua divulgação/marketing em unidades de conservação  a partir de uma doação para financiar ações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Tudo isso à revelia das comunidades tradicionais, que deveriam ter sido consultadas desde o início: é uma forma de apropriação do território tradicional. Não há participação nem controle social. Além disso,  há o Programa de Concessão de Parques Nacionais, inserido no Programa de Desestatização do governo. São programas de privatização dessas unidades de conservação.

São vários  novos programas com muitos problemas de violação de tratados internacionais, como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre direito de povos indígenas e povos e comunidades tradicionais a consulta livre, prévia e informada  . Fora o que está sendo votado no Congresso para regulamentar mercados de emissões no Brasil. O Brasil se preparou para esse resultado da COP,  construindo políticas nos poderes Executivo federal e estaduais e legislações para viabilizar esses mecanismos de mercado de carbono, que vão além do que foi pactuado na Convenção do Clima, e, às vezes, permitem relações diretas de uma empresa com a comunidade sem muito controle. É uma discussão bastante complicada.

Quais são as discussões dentro do movimento agroecológico e as perspectivas para os próximos anos?

Precisamos avançar bastante no empoderamento do campo agroecológico dentro do debate do clima. É uma discussão que dificulta a participação por ser muito técnica e com muitas siglas e termos em inglês. Essa roupagem técnica acaba reduzindo a participação, então é importante se apropriar mais do tema para além do debate da adaptação (ação mais relacionada aos efeitos). Precisamos dialogar também sobre agroecologia no campo da mitigação (ações para emitir menos CO2 e reduzir o efeito estufa), além de pensar como ela é uma pauta sistêmica e de transformação do modelo de produção e consumo. A agroecologia fala, sim, de tecnologias, mas também de diversificação da produção, distribuição de renda, de outros sujeitos da transformação, encurtamento dos circuitos de comercialização, formas solidárias de financiamento etc. É uma proposta bastante ampla para a organização da sociedade, então a agroecologia deve estar mais presente no debate climático como algo sistêmico.

A agroecologia foi discutida na COP?

Esse é um dos problemas, porque olham muito mais para os grandes desmatadores e emissores, ao invés do contrário. Focam muito também no carbono e a agroecologia não tem uma visão focada em um elemento da natureza, é algo mais voltado para o sistema de produção, para as comunidades, um olhar mais amplo. Acabam dando mais valor à agricultura 4.0, agricultura de baixo carbono, coisas que estão mais no âmbito empresarial. Quando entra a discussão da agroecologia, vem na tentativa de uma cooptação corporativa que não seria aquilo que a ANA está falando. A questão tecnológica é importante, mas é um projeto político de sociedade. Isso não aparece no espaço oficial da COP, mas está presente nos espaços paralelos da sociedade civil que tem se manifestado, como na Cúpula dos Povos.

COP 26: “Não há respostas suficientes para o enfrentamento da crise climática que vivemos”

COP 26: “Não há respostas suficientes para o enfrentamento da crise climática que vivemos”

Maureen Santos, ativista socioambiental, coordenadora da FASE, e também da Plataforma Socioambiental do BRICS Policy Center, think tank do Instituto de Relações Internacionais da PUC-RioApesar da restrição à participação da sociedade civil na COP26 (Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), realizada em Glasgow no início de novembro, na Escócia, houve uma intensa mobilização social nas atividades paralelas. Milhares de pessoas marcharam na cidade nórdica para manifestar sua insatisfação com o modelo de desenvolvimento global e as decisões tomadas pelos países na conferência. Com expressiva participação da juventude, foi possível deixar o recado por fora da versão oficial.

Essa foi a impressão de Maureen Santos, ativista socioambiental que participou da COP26. Ela é coordenadora da FASE, e também da Plataforma Socioambiental do BRICS Policy Center, think tank do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio. É membro da articulação da sociedade civil Grupo  Carta de Belém, que aborda questões socioambientais por meio da crítica aos instrumentos de mercado.

Na entrevista à Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), ela fala sobre as falsas soluções apresentadas pelos governos e corporações, e sobre a importância da agroecologia para uma perspectiva de justiça socioambiental. Critica também o foco das soluções nos mercados de compensações financeiras em carbono, e a preocupação com a privatização das florestas e impactos dessas medidas nos territórios dos povos e comunidades tradicionais afetados.

Qual foi a atmosfera que você percebeu na COP e quais as suas impressões a partir do que ficou decidido lá?

A COP26 teve como objetivo central fechar o livro de regras do Acordo de Paris, que é o novo acordo vinculante que substituirá  o Protocolo de Kyoto, que está terminando seus trabalhos. Paris foi assinado em 2015 e já entrou em vigor, só que os artigos precisavam de mais elementos para a implementação. Paralelo a isso, a agenda da COP tinha objetivos trazidos via presidência do Reino Unido, compartilhada com a Itália, para que os países trouxessem mais ambição e avançassem em outras agendas. Como por exemplo, o debate sobre compromisso com o financiamento climático, que existe desde 2009, no sentido de como aportar recursos de países do Norte aos em desenvolvimento para implementarem esforços de redução de emissão de gases de efeito estufa. Essa foi a negociação sobre mitigação, então existe um montante de US$ 100 bilhões anuais desde 2020 que efetivamente não se sabe de onde vai sair.

COP26 – Glasgow / Escócia (UK)

O Acordo de Paris foi criado com dois objetivos globais: um de mitigação, que aprovou o aumento da temperatura média global em 2ºC com esforços para 1,5ºC, e outro de adaptação só que sem objetivos concretos e metas para os países atingirem globalmente. Novamente não conseguiram fechar esse goal de adaptação e criaram um Plano de Trabalho (GT) para avançar nos próximos dois anos. Quanto à meta de longo prazo, que se refere às emissões líquidas zero (Net Zero) e outras metas. O evento oficial visava fechar três artigos do livro de regras, porque todo o resto já havia sido concluído, então eles chegaram num consenso sobre a revisão das metas nacionais. O Acordo de Paris não é igual ao Protocolo de Kyoto, que tem uma meta obrigatória para todos, no caso de Paris existem as NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) que de forma voluntária, cada país  entrega quanto, quando e como vai cortar suas emissões. Isso já foi entregue e revisado pelos países, só que no artigo 4º falava que de cinco em cinco anos os países teriam que  revisar, mas vários entregaram metas só a partir de 2030. Foi acertado que todos irão  manterão a revisão de cinco em cinco anos. 

E os debates sobre mercado de carbono, que se destacaram nas discussões?

O artigo 6ª sobre os mecanismos de mercado e não mercado, por exemplo, tem uma abordagem de transferência de emissão de um país para outro. Se a China, por exemplo, não consegue atingir sua meta prevista em sua NDC, ela pode comprar créditos das metas de países que  tem sobrando. Esse artigo também aborda benefício do setor privado em relação a esse mercado  de carbono via projetos de certificação e outros mecanismos, que já existiam no Protocolo de Kyoto e foram incluídos com algumas mudanças no Acordo de Paris. O Join Implementation e o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo foram apropriados para o Acordo de Paris com nova roupagem, e estava bem difícil ter consenso sobre as novas regras. Parte expressiva da sociedade civil possui historicamente crítica ao mecanismo de crédito de carbono como a solução para a crise do clima, porque adia as ambições e soluções. Você tem uma NDC que já é voluntária e diz o que vai fazer, mas mesmo assim tem flexibilidade para comprar do outro. Além dos impactos nos territórios, que são muito complicados.

O mercado de carbono é propagado como uma grande solução para que os recursos fluam do Norte para o Sul Global, e já vimos nas duas últimas décadas que não é verdade. Para os territórios aceitarem esses projetos, têm uma série de regras, metodologias, cálculos de carbono e quando isso chega na floresta tem um grande impacto. Existiu toda uma pressão da Coalizão de Florestas Tropicais na COP, grupo negociador do qual o Brasil não faz parte, de incluir a compensação florestal dentro da definição dessa transferência de mitigação de um país para o outro. Isso é muito grave, porque alivia a necessidade urgente de os países reduzirem seu corte de emissão e mudarem a sua economia para outra forma de desenvolvimento. Usam as florestas como uma moeda de troca e de privatização, e esses projetos podem chegar a trinta anos e vão comprometer os povos nesses territórios. O assédio a essas populações vai aumentar muito e as regras e processos no direito privado têm um equilíbrio de forças totalmente desigual. Acabou que isso não entrou no texto final da COP 26, felizmente, mas a pressão vai continuar, pois no caso dos projetos privados há bastante pressão, inclusive de ONGs ambientalistas com interesse em vender carbono. 

Como isso chega para a agroecologia?

Os movimentos e práticas agroecológicas obviamente oferecem maior proteção e conservação da biodiversidade, da água, do equilíbrio climático e socioambiental. Isso faz parte da essência e de como a agroecologia entende a agricultura e as relações ecológicas que existem na natureza. Só que existem algumas vertentes que acham que a agroecologia também é boa para captar carbono. Com isso, pode acabar perdendo a lógica do ser e existir da própria agroecologia ao se submeter aos mecanismos desiguais promovidos pelo sistema capitalista e contribuir para mais opressão e poluição onde a emissão vai continuar, já que o comércio de carbono pressupõe a compensação. O poder hegemônico está se esverdeando com esses mecanismos de mercado vendidos como solução para a crise do clima, quando na verdade vem criando uma distração às soluções de fato.

Quais outros temas importantes foram abordados na COP?