*Por Fábio Martins

“A única luta que se perde
É a que se abandona e
Nós nunca abandonamos luta”
– Rael, com Don L, em “Primavera”

Talvez esta seja a coluna mais importante que escrevi até aqui. Reiterei em textos anteriores que o trabalho dos designers ativistas não acabou em 2022 e, talvez, tenha apenas finalizado a sua primeira fase, rumo à colaboração orgânica com movimentos sociais, movimentos políticos e lideranças políticas alinhadas às nossas perspectivas de justiça social, climática, de gênero, racial e ambiental. E parte deste trabalho não se realizará no presente, exigindo que os designers se insiram na cultura e disputem os costumes.

Este texto não é dedicado ao embate cultural, porque a luta da cultura impõe tarefas de longo prazo e de expertise dos movimentos culturais. Trato aqui de estratégia e táticas eleitorais de curto prazo, uma vez que 2024 já chegou à nossa porta e, honestamente, já estamos atrasados.

A mensagem central é: Donald Trump e o bolsonarismo não podem ter segundas-chances.

Tretas de 2024

Existem ao menos dois grandes problemas que passam pelo design ativismo em 2024, centrados no combate à extrema direita e divididos em dois níveis de ação: o local e o internacional.

No local, o embate com a extrema-direita se dará sobretudo nas eleições municipais. Embora seja uma tarefa cotidiana do militante encontrar meios para a sua desconstrução, o período eleitoral demarcará o avanço ou a mitigação deste conjunto de ideais que rejeitamos radicalmente. 

Além disso, as eleições municipais são parte do projeto de retomada nacional da extrema-direita para 2026, ainda que em 2022 tenhamos logrado a derrota de Jair Bolsonaro e sua inelegibilidade em 2023. Jair continua em modo campanha, apesar de estar sem os mesmos recursos e sem a mesma estrutura de antes.

O Partido Liberal já declarou que planeja conquistar ao menos 1.500 prefeituras em 2024, dentre as mais de 5.500 existentes no país. Hoje, o PSD está na dianteira de prefeituras, com 968 municípios, seguido pelo MDB, com 838. Não devemos subestimar a extrema-direita, e o eventual sucesso do PL na conquista de 1.500 prefeituras significaria o fechamento de cerco do bolsonarismo ao governo Lula, uma vez que a vitória sobre Bolsonaro não significou maioria no Congresso e nos governos estaduais. 

O cálculo para 2026, portanto, passa pelo que é chamado no meio político de “voto de colégio”, o voto obtido através do apoio de prefeitos e vereadores. Com isso, o número de 1.500 prefeituras para o PL se torna um pouco mais assustador, não é? Mas vamos para a outra face dos problemas de 2024.

Em nível internacional, a extrema-direita tem dado sinais de retomada. As vitórias de Javier Milei na Argentina e Geert Wilders na Holanda em uma mesma semana – sem contar as viradas pouco democráticas no continente africano – são dois exemplos do que pode ser esse efeito rebote: depois da derrota de Marine Le Pen, Jair Bolsonaro e Donald Trump, vemos o último à frente de todas as pesquisas eleitorais nos EUA.

Diferentemente do Brasil, onde temos a Lei Complementar da Ficha Limpa (135/2010), a legislação eleitoral estadunidense permite que condenados e mesmo presidiários sejam eleitos presidentes e governem em regime domiciliar. Isto é um sinal muito ruim para as forças progressistas globais e indica que o trabalho de desconstrução de Trump não apenas não funcionou, como pode permitir que ele retorne ao poder e a extrema-direita global ganhe um novo fôlego, talvez ainda mais forte. 

Importante pontuar que, ainda que Trump seja tornado inelegível a partir do processo que se iniciou na Suprema Corte do Colorado, o trumpismo ou a ideologia da extrema-direita não somente não deixará de existir como também se reorganizará em outros nomes, como no do governador da Flórida Ron DeSantis.

Após o insucesso da direita moderada e as penas da esquerda moderada, a extrema-direita emergiu com o seu olhar aguçado para os problemas candentes de seus países – isto quando não inventa novos –, respostas fáceis para questões complexas, lemas sintéticos e mensagens altamente diversificadas – no melhor modelo “um público, uma mensagem”. Nós ainda temos dificuldades no diagnóstico, na implementação de táticas eficazes de contra-propaganda e, na prática, não existe um manual ou uma coalizão internacional de esquerda multidisciplinar e com o objetivo concreto de desconstrução da extrema-direita no mundo. 

Minha hipótese, portanto, é de que, diante da possibilidade de uma retomada da extrema-direita, da qual Jair Bolsonaro e seus filhos são agentes notórios, o processo eleitoral de outubro de 2024 no Brasil está conectado ao processo eleitoral estadunidense de novembro do mesmo ano.

Grande problema? Gigantescos. Mas vamos pensar em possíveis soluções para isso, desarmando a tsar-bomb da extrema-direita, fio a fio.  

Desarmando a Extrema-Direita

Não tem escapatória: precisaremos ter um olho no peixe e outro no gato, tocando em simultâneo os esforços locais e internacionais. Por maior que seja esse desafio, a organização dos designers permitirá uma colaboração efetiva para estas duas frentes nada triviais. 

Mas antes de irmos para as pautas específicas de cada campo, passemos pelo que há de comum ao local, ao internacional e ao movimento organizado de designers ativistas. 

Reagrupar

Em 2023, apesar das muitas ações promovidas pela Floresta Ativista – da qual faz parte o Design Ativista –, tivemos uma baixa energética na militância e uma catação dos cacos que ficaram de 2022. Depois do que pode ter sido a eleição de nossas vidas, não foram raros os relatos que recebi de pessoas em dificuldade financeira e adoecimento mental, depois de terem entregado tudo o que tinham a sua disposição para a vitória de Lula. Este, portanto, foi um ano de recuperação.

O primeiro semestre de 2024, por sua vez, pode ser o momento propício para reagrupar as forças, trazer de volta para o cotidiano do design ativismo as pessoas que foram tão caras durante os últimos 5 anos.

Expandir e organizar

E ainda que 100% das pessoas retome a produção e circulação de imagens de protesto nas redes sociais, aplicativos de mensagem ou no espaço urbano – o que parece improvável –, pode ser o momento para formar novos quadros.

Um novo quadro pode ser uma pessoa amiga, de confiança, com fôlego e disposição para enfrentar a extrema-direita produzindo e fazendo circular imagens de protesto, sejam elas cards, charges ou ilustrações. Pode vir de uma conversa de bar, de encontros em universidades, de um evento online ou por indicação de amigos. 

Mas para onde levar este novo quadro? Respondo a seguir. Mas antes, em síntese, o primeiro semestre de 2024 será propício para a retomada do fôlego e o recrutamento. E estando organizados e dispostos, teremos em mãos as ferramentas e a expertise necessárias para desarmar a bomba da extrema-direita.

Cortando o Primeiro Fio: Eleições Locais

Não é necessário, ao menos para as eleições municipais, construir grandes coalizões interestaduais. Até porque, quanto maior o grupo, mais difícil será a sua adaptação a mudanças bruscas de tática e mais difícil será olhar para a realidade local com precisão.

A formação de um Grupo de Trabalho local, pelo WhatsApp – o mais seguro seria pelo Signal, ou Telegram –, pode ser muito proveitoso para ações de caráter local, contando apenas com pessoas de confiança – é aqui onde entraria o novo quadro –, em diálogo permanente e já no período pré-eleitoral.

Forças de um modelo de GTDificuldades de um modelo de GT
  • Alta adaptabilidade
  • Contato permanente
  • Afinidade e entendimento
  • Controle de acesso ao grupo
  • Baixo volume produtivo
  • Baixo escoamento de peças
  • Pouca interlocução com movimentos e organizações

Um Grupo de Trabalho nada mais é do que um modelo enxuto de ação ativista em redes sociais e no espaço urbano. E para montar esse GT, que no futuro pode se tornar um coletivo, parece ser mais eficaz pensar em quadros do que em nomes. Abaixo, uma estrutura de GT que contemple todos os campos de produção de imagens ativistas para ruas e redes sociais.

Se você chegou até aqui, pode estar se perguntando como este grupo se orientaria politicamente. São muitas as possibilidades e isto já valeria uma coluna à parte, mas a seguir apresento alguns pontos sensíveis – insuficientes para orientar todo o percurso, mas adequados para um pontapé.

  • Se o grupo não for formado por pessoas filiadas a partidos políticos, o primeiro passo após a constituição do grupo pode ser o estabelecimento de uma pauta comum: valores e causas antes de um nome. Não fugir de pautas polêmicas será crucial, haja visto que corrupção e combate à criminalidade são os temas mais candentes para a maioria dos brasileiros, segundo pesquisa Atlas Intel.
  • Acompanhar o noticiário, com certa diversidade de veículos, incluindo blogs e canais locais os ajudará a perceber quais pautas serão as mais relevantes no período eleitoral.
  • Nós não possuímos 700 pontos de informação sobre cada brasileiro,então o que nos resta em termos de tática é recorrer a dados públicos, como o Censo do IBGE, pesquisas comportamentais e conversas com pessoas da região. Assim, tem-se em mãos uma combinação pequena, mas significante, de dados quantitativos e qualitativos. Repito: não se convencerá o Sr. Joaquim, de 50 anos, marceneiro e católico a votar em alguém progressista porque a candidatura de esquerda é moralmente superior, porque defende a democracia ou algo do tipo.
  • A consistência é fundamental: manter a regularidade das ofensivas pode ser até mais importante do que manter a sua qualidade. Isto porque a continuidade de uma mensagem não somente garante a sua pregnância, mas também a sua incorporação no cotidiano dos cidadãos.
  • Mas consistência não significa rigidez das mensagens. Algo que aprendemos com o tempo é que a decisão de voto não acontece pelos nossos motivos, mas pelos motivos dos que votam – um mantra que eu repito sempre que posso. Por isso, não tenha receio de adaptar uma mensagem sobre uma pauta para que ela soe mais palatável para um grupo em específico.
  • A antecedência é crucial: um GT formado ainda no primeiro semestre terá muito mais afinidades e capacidades operacionais do que um formado em setembro, às vésperas da eleição.
  • Não espere um viral do Twitter para a produção. Diferentemente das pautas nacionais, o local não possui tanta repercussão e nem sempre a rede social oferecerá um caminho. É preciso desbravar a mata escura do comportamento eleitoral local.
  • Opte pelo anonimato, sobretudo se a sua segurança puder ser colocada em risco. Dada a reestruturação dos algoritmos das redes sociais – que valoriza mais vídeos em vez de imagens únicas, mais tempo de retenção do que hashtags – e o pouco impacto de pautas locais, dificilmente um designer sairá com fama de uma eleição municipal. E como vivemos em um país violento, com índices alarmantes de assassinatos políticos, adira ao anonimato se sentir que a sua segurança pode ser ameaçada. 
  • Não caia em pautas morais. Em um país conservador, contra-argumentar pautas morais é já entrar no jogo perdendo. O prefeito religioso não será combatido através de sua religiosidade, nem pela defesa da família. Mas pelo que fez ou deixou de fazer.
  • Entenda as atribuições de prefeitos e vereadores, para combater eventuais promessas infundadas ou defesas de pautas que não tenham nada a ver com o cargo. Aborto não é pauta de prefeitura, independente do posicionamento pessoal da pessoa candidata.
  • Caso suas pautas pertençam ao campo de oposição, aproveite o período de pré-campanha para criar um sentimento de insatisfação com a gestão municipal e as reitere durante o período eleitoral.
  • Na possibilidade de o escoamento de peças ser difícil, considere junto de seu GT a criação de uma página na rede social mais acessada em sua região. Utilize nomes chamativos, com apelo emocional e uma estética que dialogue com o eleitorado. Em 45 dias não é possível fazer com que os moradores de Passa Quatro/MG, Alegrete/RS ou Santarém/PA passem a optar pela estética de alguém como Militão Queiroz, em vez da estética do design de folhetos de oficina.
  • Em caso de derrota iminente, dê trabalho. Dificulte a vitória eleitoral dos adversários e faça da sua pauta uma pauta vencedora, mesmo que sem a maioria dos votos. 

Tendo passado por alguns pontos sensíveis da formação de um GT para atuação nas eleições locais, passamos agora à pauta internacional, outro lado deste grande desafio de 2024.

Cortando o Segundo Fio: Apoiar a Derrota de Trump

Na primeira semana de novembro acontecerá nos EUA uma eleição tão ou mais marcante que a de 2020. No que promete ser um novo embate entre Donald J. Trump – Partido Republicano – e Joe Biden – Partido Democrata –, os estadunidenses definirão o destino de seu país e o da extrema-direita internacional. 

Sem nenhum exagero conspiracionista, mas sem recair na inocência do particularismo nacional, a internacional conservadora – que pode não existir formalmente, mas existe como projeto – não deixou de atuar depois de 2022. A retomada de Trump, portanto, poderia significar um novo fôlego para a extrema-direita e o seu projeto de desestabilização global.

Tratando-se de um país e de um povo pouco conhecido pela maioria dos designers ativistas brasileiros, ações individualizadas podem oferecer mais riscos do que oportunidades reais de sucesso na entrega de uma mensagem. Ou seja, seria mais vantajoso reunir-se com iniciativas já existentes e atuar junto delas em vez de buscar a autonomia. 

  • É importante sair de 2 ações pontuais em um pleito. Qualquer projeção em uma metrópole é muito bem-vinda, mas este tipo de ação deve receber complementos, não ser a única saída.  
  • A relação de Trump com imigrantes latinoamericanos pode ser um ponto de contato relevante, dentre os inúmeros targets possíveis para a produção de imagens de protesto.
  • Não conhecemos tão bem os estadunidenses quanto conhecemos os brasileiros, porém um campo de aposta podem ser pautas mais genéricas, como trabalho, emprego, moradia e mobilidade. O que, de todo modo, deve passar pelo crivo de pessoas moradores da região.

Vencendo a Contagem-Regressiva: Um Cronograma para 2024

Não bastaria apenas sugerir um caminho sem considerar um passo-a-passo crível para a construção de GTs e realização de ações em nível nacional e internacional. Pensando nisso, abaixo sugiro um cronograma para 2024, indo da fase de diagnóstico à fase de operações, passando pela preparação.

O cronograma a seguir não contempla as atividades do Design Ativista, mas um escopo de possibilidades para a atuação autônoma.

Mês/2024NacionalInternacional
JANDiagnóstico de cargos eletivos na cidade: quantos são os vereadores, quais partidos que ocupam a prefeitura. 
FEVBusca de quadros. 
MARPesquisa coletiva sobre a situação da sua cidade. Dados demográficos, pesquisas já realizadas na região, dados qualitativos. 
ABRDefinição de tática: onde, como e quando atuar. Redução de danos ou busca pela vitória? 
MAIPesquisa estética: como as imagens da cidade existem? O que há de “design popular” em seu território?Pode ser um bom momento para buscar iniciativas estadunidenses, movimentos sociais e organizações democráticas.
JUNCriação de páginas e estabelecimento de canais de escoamento.Caso haja sucesso no contato com alguma organização, traga mais gente para perto.
JULDefinição das candidaturas, momento de iniciar a ofensiva. 
AGOInício das eleições, hora de colocar tudo em prática.As iniciativas internacionais podem começar a se mobilizar a partir daqui. Este será o momento de se somar.
SETO mês do caos, quando todo o trabalho é posto à prova. É importante manter a coesão do grupo aqui, pois será o momento mais desafiador.  
OUTPrimeiro e segundo turno. 
NOV Eleições nos EUA.

Espero que as ideias aqui apresentadas ajudem quem lê na composição de um grupo de trabalho para as eleições e na articulação junto a movimentos internacionais. Este não é, evidentemente, o único caminho, mas é algum caminho, algo mais eficaz do que esperar para agir apenas em agosto.

O grande adversário da incipiência e do desespero é o planejamento. Diferentemente das ficções, em que os heróis se reúnem em uma grande coalizão emergencial e somando poderes e habilidades faltando apenas 5 minutos para os créditos finais, a disputa eleitoral se resolverá com atuação permanente, coesa e planejada.  

 

*Fábio Martins é mineiro de Três Corações/MG. Designer, ilustrador, artista visual e mestre em antropologia social (PPGAS-UNB). Integra desde 2018 o Design Ativista.