Foto: Divulgação

Em 2011, na Argentina, Ana Maria Careaga junto a militantes LGBTQ+ apresentou o “Documento pela memória da diversidade sexual” que relata as perseguições, estupros e até assassinatos dos quais eram vítimas sobretudo as mulheres trans da ditadura argentina. Em 2001, no Chile, o autor Pedro Lemebel lança seu livro “Tengo miedo torero” em que narra a violência sofrida pelas travestis de Santiago de Chile durante a ditadura de Pinochet.

Vários relatos testemunham que tanto lésbicas como gays e travestis durante o período nazista eram enviades para os campos de concentração na Alemanha. Russia, ainda hoje penaliza as manifestações afetivas entre pessoas LGBTQ+ e recentemente na Cuba tivemos um triste episódio quando a polícia da Habana interrompeu violentamente uma marcha do orgulho gay que acontecia de forma pacífica pela avenida Paseo del Prado. Ano passado, no Uruguai, foi aprovada a “Lei integral para pessoas trans”, que prevê, entre outras medidas, uma reparação financeira para as transexuais e travestis que sofreram violência institucional durante o período da ditadura no pais irmão.

Essa violência institucionalizada, se soma às violências cotidianas: as piadas injuriosas ou bullings, que foram até pouco tempo uma normativa de conduta para o cidadão comum no mundo inteiro. Nesses últimos anos, graças às lutas infatigáveis das militantes e a alguns avanços em matéria de direitos individuais levados em frente pelos governos progressistas, o panorama teve uma mudança, ainda que insuficiente.

Luh Maza foi a primeira diretora trans convidada pelo Theatro Municipal de São Paulo a criar uma obra: “Transtopia” que foi apresentada no dia 9 desse mês de junho. A peça trata sobre mulheres trans e travestis num campo de concentração onde a violência está institucionalizada, o que poderia funcionar como uma alegoria do relato oficial do nosso passado e também desse triste presente.

Luh é uma das roteiristas da quarta temporada da série “Sessão de Terapia” (2019) com estreia no segundo semestre na Globoplay. É autora de mais de dez peças encenadas no Rio, São Paulo e Portugal, como “Três T3mpos”, “Restos”, “A Memória dos Meninos” e “Carne Viva”, todas sob sua direção. Cinco de seus textos foram publicados na coleção Primeiras Obras (Imprensa Oficial, 2009) – indicada ao Prêmio Jabuti de Literatura – e também foram lançados sob o título Teatro (Chiado Editora – Lisboa, 2015) em diversos países da Europa e da África.

Luh e seu elenco. Foto: Divulgação.

Ela iniciou o processo de transição de gênero em 2017 e tem se dedicado a pesquisar temas ligados a gênero e raça. Desde então contribuiu com a dramaturgia de espetáculos como “Cabaret TransPeripatético” (São Paulo, 2018), da companhia Os Satyros, e “F.A.L.A.” (São Paulo, 2018), do Coletivo Negro. Dirigiu o show “Sonhar é a Solução” da banda Anhangabahy (São Paulo, 2018). Dirigiu o espetáculo de circo “Queerbaret” (São Paulo, 2019) e escreveu o roteiro do filme publicitário “Trinta e Cinco” (2019) com trilha-sonora de Liniker e ganhador do selo Staff Pick do Vimeo. Integra a antologia Dramaturgia Negra (Editora FUNARTE, 2019).

Ante a pergunta sobre “qual é a potencialidade que ela enxerga na arte para a autoafirmação das identidades transgênero”, Luh responde:

Estamos vivendo um momento histórico muito particular. A passos lentos avançamos em alguns direitos civis para as minorias sociais e fortalecemos uma consciência coletiva que traz autoconhecimento e autoestima, o chamado empoderamento. São pessoas que historicamente foram oprimidas como mulheres, negros e transgêneros que finalmente têm conquistado alguns espaços cujo acesso lhes era negado. O lugar de quem fala é um desses lugares.

Estamos produzindo finalmente conteúdos com as nossas perspectivas sobre questões que nos atravessam e antes eram retratadas exclusivamente por artistas sem essas vivências o que acaba gerando reproduções equivocadas na representação que propõem.

Quando temos artistas transgêneros escrevendo, dirigindo, interpretado uma obra sobre isso, temos uma profundidade, uma tridimensionalidade que resulta numa obra mais honesta e poderosa, ao mesmo tempo que traz uma identificação com um público que antes se via tão mal representado por esquematizações carregadas de preconceito e desconhecimento.

Transtopia, um dos espetáculos teatrais dirigidos por Luh Maza. Foto: Divulgação.

A nível pessoal, como percebeu a sua experiência como diretora de Transtopia?

Acho que muitas pessoas que, como eu, são diretoras de teatro sonham em dirigir uma obra para o palco do Theatro Municipal de São Paulo, por isso recebi o convite do Hugo Possolo (diretor artístico do teatro e idealizador do projeto Novos Modernistas) com grande alegria e também responsabilidade. Era um momento para fazer história, marcar a presença simbólica dos corpos trans no palco mais nobre da maior capital do país e conciliar meu desejo autoral artístico com as demandas urgentes da nossa comunidade.

Não dava para desperdiçar a oportunidade e com o apoio aliado do Possolo tive condições de ampliar o que me foi inicialmente encomendado e dentro das nossas limitações propor uma obra grandiosa. Foi uma experiência rápida, mas intensa. Para dez minutos de arte foram dez dias sem dormir, acompanhando toda produção com suporte da Cristiani Zonzini, a criação da trilha-sonora da Malka, os vídeos de Nu Abe e os ensaios que tinham que ser precisos e velozes com a equipe super disponível do Theatro Municipal. Fora a seleção e comunicação com algumas das atrizes mais relevantes da cena teatral paulistana que tive o prazer de dirigir: Alice Marcone, Alina Dörzbacher, Aretha Sadick, Ave Terrena, Daniela Funez, Fernanda Custodio, Leona Jhovs, Leonarda Glück, Márcia Dailyn, Onika Soares e a participação da Assucena Assucena (cantora da banda As Bahias e a Cozinha Mineira) que encerrou a obra cantando o hino nacional.

Colocar 11 mulheres trans representando “Transtopia” criado também por uma diretora e uma compositora trans no palco do Theatro Municipal de São Paulo e ter sua plateia ocupada como nunca por um público trans e queer é sem dúvida um dos maiores orgulhos da minha carreira.

Como foi a experiência na participação do livro “Dramaturgia Negra”, que consta de 16 textos teatrais de dramaturgos e dramaturgas negras?

O Eugênio Lima (organizador da antologia com Julio Ludemir) chegou ao meu nome pela indicação de outra dramaturga trans, a Ave Terrena, e me convidou para o livro. Fiquei muito honrada e escolhi “Carne Viva” que é um dos primeiros textos que escrevi – tinha 16 anos, e já trazia no centro da discussão o feminino. É a terceira vez que tenho essa peça publicada, mas a primeira após a transição e assinando com meu nome retificado, então é muito especial e festejo estar ao lado de 15 autores negros do Brasil todo que têm produzido efetivamente, o que mostra nossa força coletiva.

Foto: Divulgação

Para quem tiver interesse em seguir as atividades dessa diretora e escritora segue uma lista com suas próximas intervenções:

Vídeos:

Trinta e Cinco – filme da campanha de conscientização sobre a baixa expectativa de vida de pessoas trans no Brasil. Com roteiro de Luh Maza, pesquisa de Uni Corrêa, estrelado por Onika Soares e Guto Borges e trilha-sonora de Liniker – todas pessoas trans.

Manifesta Futurista – poesia sobre o Brasil contemporâneo escrita para a programação “Novos Modernistas – Uma Futuro Sem País” do Theatro Municipal de São Paulo. Com texto e voz de Luh Maza.

Livro:

Dramaturgia Negra
Organização: Eugenio Lima e Julio Ludemir
Autores: Dione Carlos, Grace Passô, Luh Maza, Maria Shu e outros
Editora FUNARTE
480 páginas
Formato: 16cm x 23cm
ISBN: 978-85-7507-199-1
R$ 30,00
Encomendas para todo o Brasil pelo e-mail: [email protected]

Juan Manuel Palomino Domínguez é jornalista escritor e cineasta baseado no Brasil