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Samir foi agredido por policiais e teve seus pertences apreendidos.

Na ultima quarta-feira (3), Samir Ahmad, um homem em situação de rua de 40 anos que vive com a sua esposa há 8 anos na calçada, teve seu punho quebrado após ser agredido numa ação da Guarda Civil Metropolitana. A abordagem violenta ocorreu próximo ao metrô Conceição porque, segundo a GCM, ele não tinha a nota fiscal do carrinho que usava para levar seus pertences. Samir começaria num novo emprego de servente de pedreiro na quinta-feira (4).

Toda a ação foi gravada por Marcos Hermanson, estudante de jornalismo que passava pelo local. Por causa do vídeo que viralizou na internet, o prefeito João Dória Jr. teve de se pronunciar em público. Num pedido de desculpas vergonhoso, Dória ofereceu um emprego novo à Samir, o que não precisaria caso a GCM não tivesse abusado de seu poder, nem teria acontecido caso o jornalista não tivesse filmado.

Do ano passado para esse, houve uma alteração no decreto que trata da relação entre a GCM e a população em situação de rua. Em 2016, o decreto dizia que a GCM devia assegurar a vida e a segurança das pessoas que estão na rua e apenas retirar seus pertences quando eles obstruem a via, mesmo assim, avisando o dono e lacrando o objeto. Esse ano, após a mudança na lei, a Guarda Civil pode retirar qualquer pertence da população em situação de rua se o dono ou a dona não tiver a nota fiscal do objeto.

É como se você tivesse um celular e tivesse que andar com a nota dele, se não a polícia poderia tirá-lo do seu ouvido no meio de uma ligação, foi o que aconteceu com Samir.

Todos os dias, as pessoas em situação de rua têm que lidar com a violência policial. Infelizmente, nem sempre tem um Marcos pronto para filmar e denunciar esses abusos e esses casos ficam na invisibilidade. Porém, gostaria de lembrar de cinco histórias que contamos no SP Invisível para mostrar como, muitas vezes, a GCM atua com os irmãos e irmãs de rua:

Carlos de Almeida – Preso uma vez, injustamente, numa ação da PM e da GCM acusado de tráfico de drogas. Ficou na prisão por quatro meses.

Leandro – Não pode mais dormir no coreto da República, pois foi expulso daquele local numa ação da GCM de retirada dos cobertores da operação Cidade Linda na gestão Dória esse ano.

Maria* – Apanhou de guardas civis metropolitanos junto com as pessoas que ali estavam dormindo na rua, inclusive uma mulher gestante.

Joyce – Teve seus pertences retirados pela GCM: cobertores, roupas, materiais de higiene, documentos. Inclusive, uma foto que ela tinha ganhado da nossa equipe do SP Invisível.

Selma Cardoso – Já foi impedida de receber ajuda de outras pessoas pela GCM. A Guarda Civil, além de não deixar Selma ganhar as doações, tirou todos os seus pertences diversas vezes durante a gestão Haddad.

Todos os dias a população em situação de rua sofre na mão do Estado, seja pela PM ou pela GCM.

Essas pessoas sofrem uma violência dupla: uma por estarem na rua, outra porque nela não tem o devido tratamento. Ano passado, a lei era direcionada a elas, ao ser humano, assegurando a sua dignidade (na teoria). Esse ano, nem no papel eles tem esse direito, pois a lei é totalmente voltada ao poder da polícia, dando a eles essa legitimidade nas ações. Nem sempre, um Marcos estará lá para gravar e isso passará batido por todos nós.

No fundo, não são as pessoas em situação de rua que são invisíveis, é o Estado que é cego.

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