“Eu fiquei conhecido por ser aquele morador de rua que devolveu quase 3 mil cheques. Meu nome é Gilberto, só que eu sou conhecido aqui como ‘Maivei’, é o diminutivo de ‘mais velho’.

Em 2007, eu tava catando latinha e de repente achei várias folhas de cheque numa caçamba, tudo assinado de pessoa física e jurídica. Tinha de 100 reais até quantia que dava pra comprar um carro, tudo preenchido.

Na hora eu tremi muito e saí andando com aquele bolo de dinheiro até um lugar mais calmo. Eu não sabia o que fazer. Como sou evangélico, fui ver a resposta na Palavra e abri e fechei a Bíblia 7 vezes no mesmo versículo, ‘de que vale o homem ganhar o mundo e perder a alma’. Vi que não era coincidência e fui na delegacia devolver. Hoje to com a consciência limpa e devolveria de novo, mesmo sabendo que eu seria bilionário. Pelo menos, a imprensa e o governo abriram o olho pro morador de rua. Ainda não tá bom, mas tá melhor. Eles gastam mais purificando o Rio Tietê do que purificando o ser humano. O rio é importante, mas e o morador de rua? Esse outro programa também: eu queria entrar nesse negócio, mas só empregam como varredores. Queria ensinar minhas habilidades.” #SPinvisivel #SP

Gilberto Maivei

 

Eu ando bastante a noite sozinho pela rua. A cidade de São Paulo é uma de noite e outra de dia. O silêncio noturno consegue proporcionar o ambiente perfeito para pensar na vida durante uma caminhada para casa. Quem me conhece e sabe desse hábito sempre me pergunta, “mas você não tem medo?”. Agora, quem me conhece mesmo sabe que morro de medo, mas não de gente, medo de cachorro. Sempre imagino que um cachorro vai correr atrás de mim nessas horas da madrugada.

Sei lá se é um trauma de infância, mas de gente eu não tenho medo, isso foi uma coisa que aprendi no SP Invisível, não ter medo de gente. Gente é gente. O que existe são estereótipos. De cachorro é outra história… Como um homem branco, tenho alguns privilégios como esse de poder andar sozinho a noite na rua sem temer ou temendo menos.

A rua a noite já não é tão acolhedora assim para as mulheres. Os homens acham que “fulana está usando uma roupa x e por isso tem o direito de abusá-la”.

Posso também andar na rua a noite sem passar medo para as pessoas. Já para um homem negro não é assim. As pessoas os temem, acham que a pessoa “tem cara de bandido”. O que é, afinal, uma “cara de bandido”? É alguém que tem o rosto parecido com o de um político? De um empresário?

Por que será que a gente tem tanto medo de outros seres humanos? Medo é um sentimento muito forte. Para mim, o contrário do amor não é ódio, é medo. Quando você odeia alguém, é porque você teve uma experiência com essa pessoa, se aproximou dela, mas essa experiência foi negativa e te gerou ódio. Agora, quando você tem medo de uma pessoa, você nem quer se aproximar, quer evitar essa experiência antes mesmo dela acontecer. O medo afasta, o amor aproxima. Na Bíblia diz, “no amor não existia medo, pois o amor lança fora todo medo”. No SPi, aprendi a andar sem medo, andar com amor nos olhos.

            Além da parte espiritual do medo, há também no medo algo que é construído socialmente através de vários discursos que nos condicionam a sentir “medo” de pessoas com determinadas características. São elas, cor de pele, idade, sexo.

Por exemplo, se você vê é uma menina de 16 anos, branca, loira, dos olhos azuis andando em sua direção, você atravessaria a rua? Agora, muitas pessoas fazem isso quando veem alguma criança negra bem mais nova se aproximando. Esse medo construído é sustentado pelo nosso preconceito, nossas crenças equivocadas sobre o ser humano. Chegamos onde eu queria. Esse texto não é muito bem sobre o medo, mas sobre o preconceito, o medo construído através de um estereótipo.

Eu conheci um senhor que se chama Maivéi. Sim, desse jeito mesmo que você entendeu, “Mais Velho”. Ou, se preferir, Gilberto. Tanto faz. O Maivéi é um senhor negro que mora na rua há bastante tempo e em 2007 teve a oportunidade de mudar de vida e recomeçá-la fora das ruas. Só que o meio que ele faria isso não seria muito honesto, como vocês leram no seu relato. Ele teria que pegar muito dinheiro que achou numa caçamba. Cheques e mais cheques, todos preenchidos e assinados. Somados, ali tinha dinheiro para comprar um imóvel e ainda sobraria. Eu não garanto que não pegaria. Pelo menos um pouquinho. Só vivendo para saber. E você?

O dinheiro estava ali, vacilando. Ninguém ia saber se o Maivéi pegasse. Porém, segundo ele, ele olhou, pensou, abriu a Bíblia e fechou 7 vezes no mesmo versículo – “de que vale o homem ganhar o mundo e perder sua alma”.

A oportunidade estava ali, como diria o Mano Brown, a “vaga tá lá esperando você”, mas ele não pegou, escolheu, como ele disse, preservar sua alma. Pegou o dinheiro e levou para a delegacia. Sete anos depois, eu o encontro na rua e ele pôde me contar essa história com um sorriso no rosto bem sincero de quem não se arrepende do que fez.

Quando ouvi essa história, lembro que achei isso o máximo. Lembro que fui conferir essa história e é verdade. Tem até em portais da época. Achei o Maivéi uma exceção entre as pessoas que estão na rua. Hoje, vejo que tinha muito moralismo e preconceito na minha compreensão. A verdade é que ele é uma exceção entre todas as pessoas. A gente acha 10 reais no chão e pega para gente, imagine achar milhões de reais, sabendo que se a gente pegasse não ia acontecer nada com a gente.

Eu, particularmente, não acredito que se ele pega esse dinheiro, ele é considerado um ladrão. Juro que não sei. Enquanto escrevo isso penso muito nos contrastes entre essa história que é uma história que fala sobre honestidade e a situação que o Brasil está vivendo hoje. As pessoas gritam contra a corrupção, mas todos os dias temos nossa honestidade colocada a prova e nos entregamos nas mãos da incoerência. Eu sou corrupto, você é corrupto. Só o Maivéi não é corrupto. Do nada, honestidade virou o valor mor no Brasil.

 

As pessoas estão realmente preocupadas com a corrupção? Quem quer combater a corrupção é o Maivéi. Custava um senhor, já com mais de 60 anos, escolher se salvar e recomeçar a sua vida ao invés de continuar na rua? Um senhor com mais de 60 anos que escolhesse isso seria um ladrão? Eu não sei de nada disso, são questionamentos que me faço enquanto fico indignado com esses valores folclóricos que temos de honestidade no Brasil.

Talvez você possa perguntar ao Maivéi quando ele te parar no farol pedindo uma moeda. Mas pera, não fecha o vidro. Ele não vai te roubar, não precisa ter medo. Ele tem mais medo do seu carro com um adesivo fascista do que você dele.

Aqui foi feita uma pausa. Escrevi até o paragrafo acima num dia. Agora, dois meses depois, volto a escrever esse livro. Tudo acima escrevi num momento de histeria cogitando a possibilidade do Bolsonaro ser eleito. Infelizmente, o Bolsonaro já foi eleito. Aguardemos os próximos episódios.

Sabe o que me fez querer continuar esse texto? Ontem encontrei o Maivéi na nossa ação do Natal Invisível, em nossa ceia para 1000 pessoas em situação de rua. O Maivéi continua na rua e com o mesmo sorriso de sempre. Recebeu a nossa refeição e ficou muito grato. Naquele momento comecei a pensar como a sua vida poderia ser totalmente se ele optasse por pegar aquele dinheiro. Ele poderia, talvez, estar participando da nossa ação, ao invés de estar recebendo uma refeição por ela.

O mais louco dessa história toda? Todos os voluntários da ação não conheciam o Maivéi. Alguns até, em outro momento, teriam medo dele. De quem você tem medo? Por quê? Quem que você acha que tem medo de você? Por quê? O medo paralisa, nos impede de viver, nos impede de conviver, nos impede de amar.

O amor manda o medo embora. Viva com amor, lute com amor. Enxergue o mundo e os outros através das lentes do amor. Assim, viverá sem medo.

 

 

 

 

 

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Cleidiana Ramos

Com inserção na literatura, ialorixás ensinam caminhos de resistência

Fátima Lacerda

Os Deuses estão em festa: Gilberto Gil em Berlim!

Daniel Zen

De aerolula a aeroína: as falhas na segurança institucional do presidente da República

Tainá de Paula

Não há mídia isenta, meus caros

Juan Manuel P. Domínguez

Ave Terrena: “a cultura enriquece debates quando as instituições os empobrecem”

Sâmia Bomfim

Reforma da Previdência: a luta não acabou

Jorgetânia Ferreira

Tenho depressão, quem não?

Daniel Zen

As mensagens secretas da Lava-jato: medidas antidemocráticas pairam no ar

Colunista NINJA

'A única coisa que salva um país é a cultura', afirma Moacyr Luz

Mônica Horta

Moda autoral brasileira presente!

Mônica Horta




Criadores autorais do Brasil... cadê vocês?

Fátima Lacerda

Milton e Gil fazem do verão berlinense, uma Delicatessen musical

Dríade Aguiar

Amarelo como o futuro que nós construímos pra nós mesmos

Fátima Lacerda

Por que, Berlim?

André Barros

Aperta a pauta, Toffoli