“Opa, tudo bem? É trabalho de igreja? De que igreja vocês são? Então, se eu falar pra você que não bebo, é mentira, mas também o álcool é a única droga que eu uso, não cheiro, não fumo, nem nada. Sou trabalhador, tenho hora pra beber, pra pegar latinha e também tenho hora pra me ajoelhar, todo dia leio a Bíblia.

Igreja pra mim é só a de Deus, e Deus é só um, naquela igreja vai ter maloqueiro, cachaceiro, vai tá todo mundo lá. Eu era da igreja do R. R. Soares, mas eu saí, hoje eu sou desviado.

Esses dias atrás, eu perdi minha mãe e meu irmão numa tacada só. Meu irmão era novo, tinha 23 anos e descia as ladeiras a milhão na motinha dele depois de dar uns tiros, na ultima curva o corpo dele foi e ele deixou a cabeça numa caçamba que não tinha visto. Assim que contaram a notícia pra minha mãe, a velha caiu dura, com 94 anos.

Olha, você fica três dias sem dormir, trabalhando, não desrespeita ninguém, e ainda vem alguém e coloca veneno na sua água, acredita? Essa é a vida na rua, não é mole não cara. Isso que eu só tô há 30 dias na rua. Meu nome é Luis.”

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O Luís é um cara sensacional! Lembro do dia em que o conhecemos estávamos em nossa formação inicial (eu e o André Soler) e foi só gargalhada, rimos muito porque ele era muito engraçado, mesmo sua história sendo bem triste. Esse papo foi na Barra Funda, logo no começo da rua do Bosque. Como, na época eu trabalhava na Rede Record, muitas histórias do SP Invisível eu ouvia por lá.

Nossa conversa foi muito em torno de questões sobre igreja e religião porque logo que ele nos viu, ele perguntou se nós éramos de alguma congregação. Não lembro se estávamos com alguma camiseta que nos denunciava, mas foi logo a primeira coisa que ele falou. Nós respondemos o que sempre falamos – “nós somos da igreja batista, mas o projeto não é de igreja nenhuma. Nele tem gente de várias religiões”.

Nós não gostamos de falar que somos evangélicos ou que o SP Invisível começou de um grupo de evangélicos, apesar de isso ser a verdade, pois na rua, na maioria das vezes, ser evangélico pode te fechar algumas portas, assim como pode também te abrir, pois tem instituições cristãs que tem um trabalho muito significante e efetivo, mas também tem outras que envergonham e mancham o trabalho de todas as outras nas ruas, orando com a mão na cabeça da pessoa, obrigando-a a orar, expulsando demônio de todo mundo, menos os que tem nele, sem falar dos pastores que ficam na praça da Sé fazendo o seu show. Quase nenhum irmão de rua gosta deles. Por isso que temos sempre que nos perguntar – “Quem passou por essa pessoa com o mesmo discurso que o meu para ela ter essa imagem? Qual foi o evangélico que ela conheceu e o que essa pessoa falou para esta que está na rua?”.

Bom, mas no caso do Luís, a nossa fé era algo que não impedia o nosso dialogo no momento. Inclusive, como é mostrado no relato, ele diz que era da igreja do R.R. Soares (pastor neopentecostal com diversos programas na televisão), a Igreja Internacional da Graça de Deus, mas que saiu por “estar desviado”. Na rua, existem muitas pessoas que são evangélicas, frequentaram igrejas, mas que foram expulsos devido a uma conduta que a instituição julgava ser inadequada. Acho que é até por isso que eles ficam bravos, quando vem algum “crente” querendo converter a pessoa sem nem perguntar nada, porque ás vezes eles sabem muito mais de Bíblia e do relacionamento com Deus do que a gente.

O Luís se orgulhava de dizer que não tinha nenhum vício. Segundo ele, ele não fumava nada, não cheirava, não injetava e estava quase parando de beber. Dizia isso até com um ar de superioridade, chegava a ser engraçado. Isso acontece bastante, para “conquistar” alguém que vem falar com ela, a pessoa nega várias coisas, como se estivesse “vendendo seu peixe”, algo como “se você tiver uma moeda, não dê pra ele porque ele vai fumar, eu vou comer”. O que no fundo é uma besteira dos dois lados. Eu acredito que temos que dar o que nós temos, se pudemos e quisermos, independente do que a pessoa for fazer com o que você deu para ela. Do lado de quem está na rua, também, as pessoas podem pedir de uma maneira mais sincera, acho mais legal. É que infelizmente ainda existe um moralismo e um preconceito muito grande. Quem nunca ouviu aquelas clássicas como, “eu só dou comida” ou “para que você vai usar esse dinheiro?”?

Só para finalizar essa observação sobre o moralismo que existe nas relações de doação, entre nós e as pessoas da rua, gostaria de compartilhar uma história que não foi contada no SP Invisível, mas que eu acho que foi o pedido mais sincero de dinheiro que eu já ouvi. Um dia, um rapaz jovem branco, devia ter a minha idade, me parou na praça da República e me disse – “Mano, eu preciso de 5 reais para fumar uma pedra. Ou você me dá ou eu vou assaltar alguém”. É logico que eu dei, não queria ver uma senhora ali na praça gritando para polícia, “pega aquele cara, ele pegou minha bolsa”. Já imaginei isso, quando ele me falou aquilo. Moral da história? Você dar ou não o dinheiro não vai fazer a pessoa largar o vício ou não. É maior que você.

Voltando para a história: nós acreditamos no que o Luís nos disse sobre não ter nenhum tipo de vício. Nessa época, como éramos bem diferentes do que somos hoje, isso era um ponto muito importante para saber se ajudaríamos ou não a pessoa. Hoje, como disse acima, acho isso uma grande besteira. Então, no final ele pediu para nós um dinheiro para comer durante a semana e nós demos 50 reais para ele, 25 meu e 25 do André.

Num outro dia, depois de meses, nós o reencontramos. Ele comentou com a gente que estava com muitas saudades da família dele e que queria voltar para a sua cidade. Nesse dia ele até chorou na nossa frente. Perguntamos onde que tem a passagem para a cidade dele e quanto que era. Ele disse que poderíamos comprar na Barra Funda mesmo e que era 100 reais. Foi o que fizemos naquela manhã: compramos uma passagem e nos despedimos, achando que nunca mais o veríamos. O seu ônibus sairia as 21 horas e ele chegaria lá na manhã seguinte, quase na hora do almoço.

No dia seguinte passei por lá e quem estava na praça? Exatamente, o Luís. Ele estava dormindo e aí eu perguntei para o Alemão, um amigo seu que estava por lá também – “O que aconteceu que ele não foi para casa? Não embarcou?”. O Alemão me disse o seguinte – “Cara, o Luís fuma pedra. Ele é viciado. Ontem a noite, ele trocou a passagem por droga. Chegou agora pouco aqui, ele estava no centro até pouco tempo atrás.”.

Essa resposta foi frustrante. Naquele momento me veio uma raiva muito grande, não do Luís, embora ele tivesse mentido para mim, mas do crack. Sempre ele, sempre essa maldita pedra. O crack é um genocídio lento para população em situação de rua, é literalmente uma pedra no meio do caminho da vida dessas pessoas. Essa frustração, depois de um tempo, foi boa. Antes, eu me achava um super-herói, queria resolver o problema de todas as histórias que eu ouvia. Hoje, entendo mais minha missão e sei os meus limites. Aprendi que não existe uma única pessoa que vai resolver tudo, mas o mais importante de tudo e o mais rico de tudo, nesse dia aprendi sobre relacionamentos e sobre o ser humano. Relacionamentos são frustrantes, às vezes, e seres humanos tem suas falhas e seus vícios. Uma coisa são nossas expectativas, outra é a realidade.

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