CC BY-NC-ND / ICRC / Mahmoud Issa

No escopo de auferir recursos para Alemanha nazista, a prática da pilhagem de riquezas dos territórios ocupados ou povos sobre seu domínio, foi determinante. Nesta investida, na primeira metade do século XX nenhuma série de roubos, fraudes ou saques superaram em valor o confisco cometido pelo governo de Hitler.

Do montante, mais de um terço era proveniente dos perseguidos judeus. Os bens compreendiam obras de arte, ouro, jóias, e valores em qualquer moeda. Em muito, estes atos foram possibilitados por um decreto de 1938 chamado de “Diretivas para Inclusão de Propriedades Judias”.

No que concerne este processo, inicialmente foram permitidas até a migração de judeus para fora do eixo nazista, desde que pagassem suntuosas “multas”  e entregassem a totalidade do patrimônio.  Na França se saqueou o Louvre e até os valiosos armazenamentos de vinhos. A apropriação alcançou a União Soviética invadida em 1940, violou-se museus , prédios do Estado, residências e igrejas.O grande confisco encheu centenas de vagões e serviu como paradigma na justificativa de criar a grande nação ariana que necessitava de recursos, indiferente do modo, para se estabelecer.

É evidente que não existe grande contradição na seara econômica entre o que Alemanha fez no passado, do que Israel pratica no presente, em particular na venda de gás em relação aos palestinos. Financiados por capitais dos Emirados Árabes Unidos e europeu, o gasoduto “EastMed” vai percorrer 2000 km para fornecer gás para o velho continente, principalmente para Itália, Grécia e Chipre.
O prazo de conclusão é de 5 anos, e o duto  atravessará o mediterrâneo numa profundidade de 3500 Km com um valor estimado do projeto em 7,36 bilhões de dólares. O Ministro israelense Yuval Steinitz, mesmo reforçando a relevância econômica mira o desdobramento geopolítico que é a razão do apoio estadunidense:
“Durante décadas, nos queixamos da influência árabe na Europa devido o petróleo e gás. A exportação de gás para Europa moderará essa influência até certo ponto e será um contrapeso à energia árabe.”
A questão relevante que se apresenta é dentre as reservas de Leviathan, Dalit, Tamar, Mari B e Marine, as duas últimas por completo e a antepenúltima em parte, são da Palestina, caso Israel respeitasse o plano da ONU. A Faixa de Gaza detém ainda reservas que o Egito tem interesse em adquirir o fornecimento. Israel proibiu o desenvolvimento desta exploração, obrigando os palestinos a depender da Companhia Elétrica de Israel, resultando numa política deliberada de disponibilizar a estes últimos apenas 3 ou 4 horas de energia por dia.

Cidade de Gaza, em 2015 durante cortes na energia. Foto: Ashraf Amra

 

 

 

 

Uma parte considerável dos 2 bilhões de metros cúbicos ano de gás que abastecerão os europeus provem de territórios ocupados, portanto, Israel vende o que não tem direito de posse. Assistir crianças palestinas estudarem na escuridão, hospitais sem energia e transtorno generalizado para estes cidadãos que são proprietários de tantas reservas de “hidrocarburos”, aclara mais que uma ocasionalidade, se encontram no campo de uma política destinada de suprir menos que um ser humano necessita. Representa desviar recursos que significam hipotecar o futuro para uma população inteira.
É cabível dizer que vem do outro lado do planeta um passo pequeno, mas de importância tamanha no caminho de mostrar ao mundo a forma pacífica de enfrentar as práticas de Israel. O Chile avança num projeto que buscar proibir o ingresso no país de produtos israelenses fabricados em territórios ilegais ou bens usurpados dos palestinos.
Causa grande merecimento os 99 votos a favor , para apenas 7 contrários  sendo 31 abstenções, depositados neste 26 de novembro na Câmara de Deputados . Em respeito ao projeto , os produtos procedentes de Israel devem especificar se possuem origem nas colônias ilegais e sugere ao governo estudar novos mecanismos de bloqueio. Como relata o presidente do grupo parlamentar , deputado Sergio Bahona:
“Todos sabemos das dificuldades que vive o povo palestino que tem raiz na ocupação do seu território, por isto a Câmara acordou solicitar ao governo do chileno uma série de medidas como a proibição de comercializar em nosso país produtos provenientes de territórios palestinos ocupados.”
Em julho passado, os chilenos já haviam aprovado uma outra determinação de que o país, em sintonia com o reconhecimento de 2011, condenasse o ” sistema de apartheid instalado por Israel em transgressão ao direito internacional de um Estado palestino livre, Independente e soberano”.
A aliança EUA-Israel em nossos dias, produziu um poder que ameaça com a aniquilação os palestinos. Mesmo que os israelenses estejam numa condição de uso desproporcional da força como os alemães até meados de 1943, a história de superação do povo judeu reporta que os palestinos podem lograr o mesmo êxito. A coexistência de dois Estados se faz urgente, o respeito aos acordos de 1948 e se não de 1967, mas principalmente a devolução do sentido de humanidade a um governo que não honra a história de seu povo.
Uma explicação mais generalizada analisando os temas econômicos, é que se Israel inicia usufruir da exploração de reservas palestinas que levam décadas de maturação de investimentos, ao mesmo tempo que cria uma cadeia produtiva  nos assentamentos ilegais, é premente que não pretende devolver o que apropriou. Em que pese fazer a propaganda da paz, Israel lança uma olhar que supera o confisco, ambicionando em verdade a incorporação.
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