Foto: Amir Cohen / Reuters

Num momento que Israel retoma a mais alta crise com a palestina desde 2014, é preciso olhar a imagem da entrada da cidade israelense de Sderot para entender a visão do conflito. Bloqueadas por pneus queimando centenas de pessoas gritam para exigir “a destruição do Hamas e o ataque a Gaza de uma vez por todas”.

No dia seguinte, 14 de novembro, logo pela manhã, seguiu-se o bloqueio na parte comercial de Kerem Shalon,entre Israel e a Palestina bloqueada. Segundo a mesma linha da noite anterior exigiam o “fogo baixo” criticando o governo por escolher a artilharia de maior altura de caráter mais defensivo.

A maioria dos israelense pressionam o governo de Benjamin Netanyahu, não pela uma solução necessariamente de paz, mas por um resultado prático de segurança, esquecendo que a escalada da violência em muito é reflexo do modelo de ocupação escolhido pelos sionistas. Corrobora para este ambiente os 460 foguetes e morteiros sem direção, lançados desde Gaza. Apenas 20 não foram interceptados e caíram em zona desabitada, atingindo mortalmente um palestino que trabalhava para um israelense. Mesmo abatidos na sua maioria, o Hamas está usando mísseis de 333 mm que chega à 11 km, podendo atingir as baterias e os comandos de Israel, devido o lançamento passar a ser móvel de qualquer veículo médio.

Mesmo lutando contra uma nação nuclear que dificilmente pode vencer, aparece no horizonte a possibilidade de mudar as regras, repetindo Israel que sempre usou de violência para obrigar uma negociação vantajosa.

O país sionista percebeu que sua segurança foi rompida e isto captado na alta cúpula.

As desavenças no gabinete entre o chefe do executivo, Reuven Rivlin, defensor de uma posição mais moderada, e o ultra-direitista e Ministro da Defesa Avigdor Lieberman resultou no pedido de demissão deste último, aclarando o embate interno na administração israelense.

Lieberman aproveitou a visita de Netanyahu à França, devido a comemoração do centenário da primeira guerra, para solapar as negociações do governo com o Hamas com ajuda da ONU e Egito.

O ex-ministro é representante do partido de ultra-direita Ysrael Beitenu (Israel Nossa Casa) e junto com setor mais belicista do exército puseram em prática uma operação militar de invadir a Faixa de Gaza com a intenção de executar El Sheir Nur, destacado membro do Hamas.

A ação foi descoberta, gerando um enfrentamento e resultando na morte do militar palestino bem como um tenente-coronel israelense, além de três militares sionistas feridos levados em estado grave para o Hospital Soroka de Beer Sheva.

O fracasso desencadeou um intenso bombardeio aéreo e de artilharia por parte de Israel, causando a morte de seis palestinos.Ainda foram atacados a canal de TV Al-AQSA e um centro cultural. A resposta palestina mostrou as dificuldades para a população de Israel ter garantida sua segurança, o que levou a renúncia de Lieberman.

Netanyahu, percebendo a situação delicada, suspendeu a visita à França, retirou o “fogo baixo” e tenta convencer o Egito a se manter na negociação diante da fracassada invasão. Comemorada pelo líder do Hamas, Ismail Haniya, a situação gera acirramento do nacionalismo extremo que leva a política de genocídio defendida por parte da população e que fortalece Lieberman em detrimento de Netanyahu, que enfrenta processos por comprovadamente ter recebido suborno.

Afinal, as justificativa do ex-ministro de “razões inconciliáveis” serve como combustível para próxima eleição com data marcada para novembro de 2019, e quem sabe antecipada.

Avigdor Lieberman pode ser caracterizado por suas posições racistas e extremas. Foi porteiro de “night club” em Chisinau, capital da Moldávia, ex-república soviética, o técnico hidráulico migrou em 1978 para terras ocupadas dos palestinos. Hoje reside em outra colônia sionista de Kordim na parte ocidental, também resultado de ocupação.

No que diz respeito ao conjunto de suas ideias políticas pode-se citar a defesa pelo assassinato de Yasser Arafat, bombardear Teerã e Beirut,esmagar a Cisjordânia até não deixar “pedra sobre pedra”, decapitar aqueles árabes-israelenses que sejam “desleais à Israel”. Os devaneios de Liebarman se tornam ameaças reais a medida que ascende politicamente, não apenas como no passado com apoio dos migrantes da antiga União Soviética, mas com abrangência nacional. Em 2016, poucos meses antes de assumir o ministério, declarou em entrevista ao jornal Al-Quds que “em Gaza como no Irã , querem eliminar o Estado israelense… se começarem uma guerra ,será a última guerra, pois eliminaremos a todos”. São falas de Liebarman o ” desejo da morte de todas as mães dos palestinos” ou de ” jogar todos palestinos no Mar Morto se possível, já que é o ponto mais baixo do mundo”.Uma clara alusão que seu pan-nacionalismo dialoga com premissa racista e genocida.

Olhar para Netanyahu perto do ex-ministro pode trazer a ilusão de um político moderado.

Em verdade o mandatário atua estrategicamente apenas pela situação, acionando o “fogo alto” por 48 horas diante das desventuras militares israelense.

Neste dia 18 Netanyahu assumiu o Ministério da Defesa, preocupado com a maioria frágil que lhe restou depois da separação. Ele só possui agora apoio de 61 dos 120 parlamentares, uma vantagem que indica queda de governo, logo num momento que Lieberman lhe supera nas pesquisa. O mandatário sentenciou que as eleições antecipadas “seriam uma grande erro… especialmente neste período sensível em matéria de seguridade”.

Estas horas de aparente paz não impediu a marinha de Israel, que faz o bloqueio de 3 KM no mar frente a Gaza, matar Nawwaf al-Attar de 20 anos que pescava no limite autorizado. Nem mesmo evitar o desespero de Ahlam Al-Yazji ,a proprietária de um jardim de infância atingido pelo bombardeio. A sexta passou sem mortes de palestinos, mas pelo menos 40 foram feridos por Israel nas “marchas de retorno” perto do limite de Gaza.

Em virtude destas informações mostra-se difícil lançar olhos com alguma esperança de paz. Fica claro que a Palestina precisa negociar, mas em que pese sua responsabilidade no processo, não há muito mais para pedir a esta nação. Pelo lado de Israel, é preocupante a sensação que os dois principais políticos só olhem para um pan-nacionalismo que na prática ambiciona implantar um Estado onde já existia outro. Corrobora com esta conclusão outra declaração de Netanyahu neste domingo , indicando qual é a tratativa sobre territórios ocupados ilegais pelo acordo de 1967:”Israel sempre permanecerá nas colinas Golã, elas sempre estarão em nossas mãos!”

O receio é latente quando se vislumbra que Netanyahu e Liebarman são legítimos representantes da maioria da população, aquela que queima pneus exigindo a aniquilação, esquecendo o caminho da paz. Existe pouca dúvida que o objetivo é de avançar, e em pequenos intervalos, usar a trégua. Uma equação de perdas e mais perdas para Palestina e a humanidade.

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