Foto: Mídia NINJA

Hoje é dia 19 de abril. Dizem que é “o dia do índio”. Não fosse feriado, veríamos pelas ruas crianças não indígenas saindo das escolas com o rosto pintado com tinta guache e com peninhas de cartolina presas à cabeça em forma de cocar. Esse indígena exótico, a sociedade brasileira gosta de reverenciar, reforçando o mito do “bom selvagem”, de um indígena sempre pronto a servir.As pinturas e as penas realmente representam nossa cultura, mas também é nossa cultura defender e lutar por nossas terras.

Ensinar as crianças sobre a importância da demarcação já não pega tão bem com as associações de pais e mestres, não é?

Ainda mais em tempos de “escola sem partido”. A propriedade privada costuma ser mais valiosa que a vida no Brasil.Nossos companheiros do MST e do MTST estão aí para engrossar esse coro. Questionar a propriedade não é uma possibilidade diante do patrulhamento ideológico que o governo e seus aliados tem feito, ameaçando professores, intimidando estudantes.

Nossos modos de vida e organização seguem sendo desrespeitados. Há três dias, o ministro Sérgio Moro publicou a Portaria n. 441 que autoriza o uso da Força Nacional de Segurança na esplanada dos ministérios e na praça dos três poderes durante os 33 dias. Tal medida foi incentivada pelo Ofício nº 174/2019/SE/GSI-PR, de 10 de abril de 2019, do General Augusto Heleno, Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e tem como um dos motivadores a realização do Acampamento Terra Livre (ATL), que acontecerá em Brasília nos dias 24 a 26 de abril. Ofício este que permanece sigiloso até o momento.

Não poderíamos esperar menos que o uso da força vindo de um governo que há muito se posiciona no extremo oposto dos grupos e órgãos da sociedade que promovem e protegem os direitos humanos e as liberdades fundamentais. O presidente da república transforma agora em ações o que está presente em seu discurso desde que era parlamentar. Não esquecemos quando, em 15 de abril de 1998, Bolsonaro disse que a cavalaria brasileira foi muito incompetente e que competente, mesmo, é a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema em seu país.

Esse governo tem se mostrado incapaz de avaliar com clareza o que é um problema, o que se confirma pela escolha de seus ministros. Não somos um problema, somos sim parte da solução!

Quem tiver alguma dúvida disso, acompanhe o Acampamento Terra Livre (ATL), que será realizado entre os próximos dias 24 e 26. Existente há 15 anos o ATL é um encontro de lideranças indígenas nacionais e internacionais que visa a troca de experiências culturais e a luta pela garantia dos nossos direitos constitucionais, como a demarcação dos nossos territórios, acesso à saúde, a educação e a participação social indígena. Nosso acampamento sempre ocorreu em grande número de pessoas, buscando dar visibilidade para nossas lutas cotidianas e sempre autofinanciado.

Novamente somos atacados por esse governo quando o próprio chefe do executivo dissemina mentiras em suas redes sociais. Nosso acampamento não é financiado com dinheiro público como disse o presidente Jair Bolsonaro, ele é autofinanciado com a ajuda de diversos colaboradores e só acontece por conta do suor de tantas e tantos que o fazem acontecer. Infelizmente o governo não se dispõe a nos ouvir e não ajuda com nada, o que ao nosso entendimento deveria ser o seu papel. Nada mais típico de um governo antidemocrático do que se assustar com uma reunião popular. Autoritarismo e violência têm marcado a gestão Bolsonaro.

Se é do interesse do Gabinete de Segurança Institucional desencorajar o uso da violência, que ocupe os latifúndios que avançam sobre nossos territórios, que lavam nossas aldeias com aviões de agrotóxicos e matam os nossos parentes em emboscadas.

Mais necessário do que disseminar fake news dizendo que somos falsos indígenas e que nosso objetivo com o ATL é quebrar a Esplanada, é necessário acabar com a farra com o dinheiro público. Isso não se fará com o congelamento do salário mínimo, cortes em saúde e educação, mas sim com o fim da corrupção, dos cheques, dos motoristas laranjas e de tantos outros escândalos que vemos por aí.

Parem de inventar que nossos parentes estão vindo para Brasília para desestabilizar o governo.

Esse governo se desestabiliza e se deslegitima sozinho. Ainda há constituição nesse país e a livre manifestação ainda está garantida, bem como o direito de ir e vir de tantas brasileiras e brasileiros que andaram e andam por essas terras desde muito antes de 1500.

Um não indígena, Oswald de Andrade, disse uma vez que quando o português chegou debaixo duma bruta chuva ele vestiu o índio, mas se tivesse chegado num dia de sol o índio tinha despido o português. Pois é isso que vamos fazer, despir esse governo, mostrar tudo que tentam esconder!

Que saibam: A história da nossa existência, é a história da tragédia desse modelo de civilização referendado pelo atual governo que coloca o lucro acima da vida, somos a resistência viva, e nos últimos 519 anos nunca nos acovardamos diante dos homens armados que queriam nos dizer qual era o nosso lugar, agora não será diferente. Seguiremos em marcha, com a força de nossa cultura ancestral, sendo a resistência a todos esses ataques que estamos sofrendo.

Diga aos povos que avancem!

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