Foto: Apu Gomes

Coluna publicada originalmente aqui

Dificilmente alguém consegue se orientar por uma placa escrita em língua que desconhece. Ao abdicar da ideia de que faz parte da natureza, o homem urbano perdeu a capacidade de ler os seus sinais. Por isso quase toas as suas tentativas de domesticá-la terminam em destruição. Ele é um iletrado na floresta. No recente episódio do assassinato do cacique Emyra e da tentativa de invasão às terras Wajãpi isso ficou ainda mais claro.

Segundo o relatado na investigação, a polícia não encontrou indícios dos crimes. Certamente os Wajãpi não mentiram e acredito que o poder público também não. O mais provável é que os policiais foram incapazes de enxergar as evidências apontadas pelos Wajãpi. O que para os meus parentes era claro, para eles era grego.

A terra é o espírito e o corpo do indígena; sentimos o que ela sente. O médico ouve os sintomas, mede a temperatura, mas só o paciente sente. E o planeta está febril, começando a entrar em convulsão.

Cidades e até países já decretam emergência climática, e, segundo a recém-divulgada pesquisa de opinião do Datafolha, a grande maioria da população (72%) não só acredita na existência das mudanças climáticas como credita a atividade humana como sua maior causadora. Os diagnósticos da Ciência são sombrios, mas não definitivos. Ainda há tempo, mas sabemos que o homem urbano, um dos principais agentes da enfermidade, não vai conseguir curá-lo sozinho.

Nós, indígenas brasileiras, queremos ajudar. Não lutamos somente para que se cumpra o que determina a Constituição de 1988, mas também por um planeta saudável. Temos a consciência de que pouco adiantaria garantir nosso direito à terra se o resto do mundo fosse devastado.

Queremos cuidar da floresta para todos, porque sabemos de sua importância para a saúde do planeta – e temos o conhecimento necessário para fazer isso. Além das questões humanitária e de Justiça em si, o que acontece com os Wajãpi ou a qualquer outro povo indígena diz respeito a todos.

O movimento de mulheres indígenas cresceu muito nesta década. Pela primeira vez tivemos uma mulher indígena compondo uma chapa presidencial, temos uma indígena no Congresso Nacional, a deputada Joênia Wapichana, e uma mulher, Nara Baré, está à frente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia (Coiab).

Percebemos que nossa luta não pode ficar restrita ao Brasil. No último Acampamento Terra Livre, realizado em abril, decidimos que em agosto faríamos um encontro de lideranças e ativistas femininas, a Marcha das Mulheres Indígenas. O tema escolhido para o evento foi “Território: nosso corpo, nosso espírito”, pois um dos assuntos centrais será o cuidado com a mãe terra.

O planeta está passando por uma crise sem precedentes e não à toa as mulheres começam a se levantar no mundo inteiro: somos nós quem mais sofremos não só com os efeitos das guerras, da fome, das doenças e a intolerância, mas também das mudanças climáticas. A mitologia Munduruku fala de um tempo em que as mulheres mandavam. Não queremos mandar, queremos ser ouvidas.

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