Um grupo de deputados ruralistas resolveu realizar um tal “Encontro nacional da agricultura indígena”, o que inicialmente era chamado de audiência pública na Câmara dos Deputados. Realmente, não pode ser chamada de pública aquilo que é privado ou restrito a quem está de acordo. Lá fora, líderes indígenas contrários ao te

atro prestes a ser encenado são agredidos pela polícia, que usa spray de pimenta para barrar-lhes a passagem. Não respeitam nem a presença de crianças. Alguns índios foram presos.

Não, não é um roteiro de filme de terror. O que aconteceu na Câmara dos Deputados no último dia 18 está mais para tragédia anunciada. Conhecemos o ato seguinte desde o tempo em que nossos ancestrais, seduzidos pelos invasores europeus, trocavam suas terras, seu trabalho e sua vida por espelhos e badulaques.

Fico me perguntando: qual o interesse em realizar uma audiência pública sobre agricultura indígena, se a agricultura dos povos indígenas, as culturas dos povos indígenas, sempre foram descriminadas?

Tudo que vem dos ruralistas tem que ser visto com desconfiança. Só posso crer que pretendem enganar a sociedade, fazendo parecer que estão abertos ao diálogo.

Senão, vejamos. A proposta desse encontro foi articulada pelo deputado federal Nilson Leitão (PSDB/MT). O “ilustre” deputado foi presidente da comissão especial da PEC 215, criada para dificultar o reconhecimento dos territórios tradicionais dos povos indígenas. Foi também relator da CPI da FUNAI-INCRA, que criminalizou 67 pessoas, entre lideranças indígenas, antropólogos e servidores. O deputado chegou a propor a extinção da FUNAI. Seu projeto do momento, o PL 1610/96, quer liberar as terras indígenas para a exploração mineral.

Diante desse histórico de desrespeitos e retrocessos, alguém poderia ainda duvidar de que tudo não passou de mais um circo dos ruralistas, armado para favorecer as intenções do agronegócio e da indústria de mineração? Os ruralistas representam forças contrárias às lutas dos povos indígenas e à agricultura que nós, povos indígenas, praticamos.

Essa audiência pública nunca foi sobre valorizar a agricultura indígena. Tratou sobre como eliminar nossa agricultura e nossa cultura. E se antes nos davam espelhos, agora prometem benefícios, mimos e agrados em troca de nossas terras, em favor de um “progresso” de grande impacto socioambiental que não nos interessa.

Estamos aqui na Europa sim trazendo a voz dos povos indígenas de diversas partes do mundo para denunciar as tantas violações de direitos indígenas, humanos e ambientais. Também pedimos à comunidade europeia que nos ajude a pressionar suas empresas para parar de contribuir com o genocídio no Brasil e exigir a responsabilidade de consumo. O mundo precisa reconhecer e valorizar os territórios indígenas como a última barreira contra o aumento do desmatamento, a expansão da pecuária e do agronegócio predatório. Não somos só nós brasileiros que vamos dar conta de manter viva aquilo que nos dá a vida, as florestas, o cerrado, a mata atlântica, o pantanal, a caatinga, os rios e lagos, mas o mundo inteiro precisa ter essa consciência e juntar-se a nós, todos precisam vir para linha de frente e formar essa grande barreira protetora contra todo esse poder político que só prioriza as alianças econômicas.

Nosso povo permanece firme e unido. Se querem nos ajudar, aceitamos de bom grado apoio às atividades produtivas que já realizamos. Mas que não venham, vestidos de cordeiros, acenar para nós os seus badulaques.

Jamais aceitaremos que nossas terras sejam exploradas por estes que não têm nenhum compromisso com os povos indígenas e com o meio ambiente.

Não deixemos nos enganar parentes, já vimos e vivemos esta história antes que ainda hoje custa a vida de muitos dos nossos!

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